e de Outras Confissões Religiosas em 1717, na Região de Londres e na França
Tomo por base o ano de 1717, que situa‑se no epicentro de profundas transformações religiosas, filosóficas e sociais que marcaram o Ocidente.
É o ano que antecede o pleno desabrochar do Iluminismo, mas ainda carrega as tensões da Reforma, das guerras de religião e do absolutismo monárquico. Em Londres, a diversidade confessional atingia um patamar inédito: ao lado da Igreja da Inglaterra, consolidavam‑se comunidades dissidentes, refugiados huguenotes, católicos e uma emergente esfera pública secularizada.
O presente artigo, analisa como a teologia anglicana, as principais tradições dissidentes inglesas e as correntes religiosas francesas do início do século XVIII responderam a essas perguntas, enfatizando o diálogo, as tensões e os contextos históricos que as envolveram. Chegando as inquietudes da então maçonaria, que dava os primeirospassos de forma organizada.
Os dissidentes – presbiterianos, congregacionais, batistas e quacres – podiam agora construir suas capelas e pregar livremente, embora permanecessem excluídos dos cargos públicos. Em Londres, a paisagem religiosa tornara‑se extraordinariamente multifacetada.
Segundo relatos de pregadores não‑conformistas da época, “há uma tão grande variedade de dons”, e “é bem para nós que é assim, para que nem todos se prendam a um só homem ou a um só tipo de pregação”. A cidade abrigava igrejas anglicanas, casas de reunião dissidentes, igrejas protestantes estrangeiras e até capelas católicas, oferecendo “uma grande diversidade de culto que atenderia virtualmente a qualquer preferência religiosa”.
Na França, a situação era diametralmente oposta. Luís XIV, que falecera em 1715, deixara um país exaurido pelas guerras, mas religiosamente unificado pela força. O Édito de Fontainebleau (1685) revogara o Édito de Nantes (1598), que garantia liberdade de culto aos huguenotes (calvinistas franceses). Cerca de 200 mil protestantes fugiram do país, enquanto os que permaneceram foram forçados à conversão ou à clandestinidade.
Paralelamente, o pensamento iluminista começava a ganhar corpo. O deísmo inglês, que postulava a existência de umDeuscriador acessível pela razãonatural, rejeitava a revelação sobrenatural e os dogmas institucionais.
Como escreveu um dos seus expoentes, o conde de Shaftesbury, a ética podia ser secularizada a ponto de sugerir que homens e mulheres “não precisavam de Deus para lhes ensinar a perfeição”. Tais ideias, sob a designação genérica de “livre‑pensamento”, atravessariam o Canal da Mancha e alimentariam o racionalismo francês de meados do século.
Foi nesse caldeirão que a antropologia teológica – a doutrinasobre a natureza humana – se tornou um campo de batalha decisivo.
II. A Visão da Natureza Humana na Teologia Anglicana
No início do século XVIII, a Igreja da Inglaterra passava pelo que se convencionou chamar de “latitudinarismo”. Os clérigos moderados, herdeiros do arcebispo John Tillotson (1630–1694), enfatizavam as boas obras e a benevolência social como o caminho para a salvação, relegando a ênfase paulina na graça a umsegundoplano.
Conforme resume umestudo da época, “o ensino anglicano do século XVIII dava mais ênfase às boas obras do que à fé. A benevolência social é a estrada para a salvação em inúmeros sermões do período”. Ao negligenciar o conceito de pecado original e ao sublinhar a “capacidade da humanidade de cumprir os preceitos divinos nesta vida”, o anglicanismo relaxou “a sua doutrina da redenção pela graça mais do que em qualquer período anterior da história inglesa”.
Esta viragem moralizante não significava, contudo, um abandono do cristianismo.
Ao contrário, era uma resposta apologética aos desafios do deísmo e do ceticismo. O bispo Joseph Butler (1692–1752) tornou‑se o grande defensor da ortodoxia anglicana com a sua obraHuman Nature, and Other Sermons (publicada postumamente), na qual articulava uma análise filosófica rigorosa da consciênciamoral e da natureza humana.
Paralelamente, a ala evangélica da Igreja, representada pelos irmãosJohne Charles Wesley (embora o metodismo só viesse a se tornar ummovimento distinto após 1738), começava a recuperar a centralidade da conversão pessoal e da obra do Espírito Santo. Contudo, em 1717, o anglicanismo dominante era o da “razão esclarecida”, da moderação e da confiança numa natureza humana intrinsecamente capaz de corresponder à vontade divina.
Para um anglicano típico da época, o homem não eraum miserável pecador totalmente dependente da graça, mas um agente moral responsável, cuja felicidade se alcançava através da prática das virtudes sociais.
III. Outras Confissões em Londres: Dissidentes e Refugiados
A capital inglesa oferecia, em 1717, um laboratório vivo de pluralismo protestante. Cada denominação desenvolvia a sua própria resposta à questão antropológica. Aqui faço uma remissão àquelas principais, pelo menos, as mais citadas pelos artigos, livros e estudiosos na matéria em si.
Esta luz não era uma mera faculdade racional, mas uma presença direta de Cristo na alma. Os quacres do século XVIII entendiam a santificação como “um crescimento gradual em direção à perfeição, que era o fundamento tanto de uma disciplina comunitária rigorosa quanto do compromisso com os testemunhos sociais”.
3.2. Os Huguenotes (Protestantes Franceses Refugiados) Em 1717, cerca de quarenta a cinquenta mil huguenotes haviam encontrado asilo na Grã‑Bretanha, estabelecendo igrejas próprias sob a proteção da Coroa.
Embora calvinistas na teologia, a sua situação de refugiados criava um ethos de discrição e de integração. Muitas das suas comunidades, “em 1720, a grande maioria dos protestantes franceses, tal como na Grã‑Bretanha, aderiu à Igreja Anglicana”, o que diluiu as suas especificidades doutrinárias.
Contudo, o sofrimento e a fuga lhes conferiam uma visão da condição humana marcada pela fragilidade, mas também pela dignidade da escolha religiosa.
Já a comunidadejudaica, composta por sefarditas e asquenazitas, oferecia uma visão veterotestamentária do homem como criatura à imagem de Deus, regida pela Torá, mas ainda sujeita às limitações da carne.
Ambas as comunidades viviam à margem da sociedade anglicana, mas contribuíam para a pluralidade de respostas à pergunta sobre a natureza humana.
A graça é necessária para a salvação, mas o livre‑arbítrio humano coopera com ela. No entanto, a perseguição aos jansenistas e o trauma das guerras religiosas tornavam a prática religiosa um campo minado de suspeitas.
A liberdade humana, embora existente, era reduzida: o homem, “sem livre‑arbítrio para resistir às deleitações da graça ou da concupiscência, faz o bem ou o mal irresistivelmente, embora voluntariamente, conforme seja dominado pela graça ou pela concupiscência”.
Esta visão sombria da condição humana – o homem como radicalmente incapaz de bem sem a intervenção divina irresistível – colocou os jansenistas em confronto direto com os jesuítas, que defendiam uma concepção mais optimista do livre‑arbítrio.
O movimento foi condenado pela bula Unigenitus (1713), mas continuou a influenciar teólogos, magistrados e intelectuais ao longo do século.
4.3. Quietismo O quietismo, que atingiu o seu auge no final do século XVII com Miguel de Molinos e François Fénelon, propunha uma via mística de completa passividade da alma diante de Deus. O quietista buscava a aniquilação da própria vontade, a ponto de sacrificar “tudo, até a salvação da sua própria alma”.
A “ênfase na interioridade aparentemente às custas da moralidade e a linguagem enigmática da mística” suscitaram receios de conluio clerical e de conspiração.
A Maçonaria especulativa, que nas suas constituições de 1723 (apenas seisanos após a fundação) abraçou os ideais iluministas, postulava que todos os homens, independentemente da sua confissão, podiam encontrar‑se num terreno comum de virtude e de amor ao próximo.
A sua antropologia eraoptimista,assente na crença de que o trabalhosobre a “pedra bruta” (o homem não aperfeiçoado) poderia transformar a “pedra polida” (o homemvirtuoso), sem necessidade de intervenção sacramental ou de revelação sobrenatural.
O elemento comum a quase todas as correntes é o reconhecimento da centralidade da conduta moral como expressão da fé – uma característica que os historiadores identificaram como típica do século XVIII: “o relaxamento da doutrina da redenção pela graça” permitiu que “a benevolência social” se tornasse “a estrada para a salvação”.
Além disso, a Maçonaria ensina que a humanidade do homem se manifesta na busca incessante pela Verdade, pelo aperfeiçoamento individual e coletivo. Cada maçom é incentivado a desbastar a “pedra bruta” de seus defeitos, transformando-se em uma “pedra polida” útil à sociedade. Essa jornada de autoconhecimento e de serviço ao próximo revela a verdadeira natureza humana: umser que, embora imperfeito, possui centelha divina e capacidade ilimitada de evoluir.
Assim, considerar teologias vigentes e reinantes naquele século. Com o devido respeito, aos céticos, á época da fundação ou pelo menos da formatação da maçonaria moderna (ou especulativa) foi inspirada nestes mesmos ideais ou pelo menos bebeu água em fontes que eram do cotidiano daquela época e povo (minha opinião pessoal).
A maçonaria especulativa (ou moderna), tal como organizada a partir de 1717 na Inglaterra, não surgiu como uma revelação isolada ou como umsistema hermético completamente original. Ela foi, sim, um filho legítimo de seu tempo – um período marcado pelo racionalismo emergente, peloempirismo, mas também por fortes tensões religiosas oriundas da Reforma e do estabelecimento da Igreja Anglicana como via média entre o catolicismo e o protestantismo radical.
Negar essa influência seria ignorar que os próprios fundadores da primeira Grande Loja eram, em sua maioria, cavalheiros anglicanos, cientistas, pastores e pensadores que respiravam o ar intelectual de Londres no início do século XVIII. Eles não criaram a maçonaria do nada; eles formataram tradições operacionais anteriores (dos construtoresmedievais) utilizando a linguagem, os símbolos e os valores morais que lhes eram contemporâneos.
VIII. Conclusão
O início do século XVIII, particularmente o ano de 1717, revela‑se como um momento de efervescência e diversificação das respostas religiosas à questão da natureza humana. Em Londres, a coexistência de múltiplas confissões protestantes – anglicanos, quacres, huguenotes, presbiterianos– num ambiente de tolerância relativa, propiciava um debate público que, pela primeira vez, não se resolvia na fogueira ou na guilhotina.
Na França, sob o jugo do absolutismo católico, a resistência jansenista mantinha viva uma visão agostiniana da fraqueza humana, enquanto o quietismo ensaiava uma fuga mística para dentro da alma. Ambas as tradições francesas, porém, seriam varridas ou marginalizadas pela Revolução de 1789, que, inspirada em grandeparte pelos ideais iluministas e maçónicos, proclamou a autonomia e a dignidade do homem como sujeito de direitos.
Isso não é outra coisa senão a aplicação prática do espíritotolerante e racionalista que circulava nas lojas e cafés londrinos. Os céticos que apontam essa dívida histórica estão, na verdade, ajudando a desmistificar a maçonaria, mostrando-a como umfenômeno cultural enraizado, não como umsegredoarcano vindo de tempos imemoriais.
No que tange aos fundamentos, essa origem histórica explica porque a maçonaria valoriza tanto o estudo, o diálogo inter-religioso e a busca da verdade pela razão. A “humanidade do homem“, discutida anteriormente, é vista justamente nessa capacidade de transcender crenças particulares sem abrir mão de um núcleo ético comum – núcleo esse que era, para os primeirosmaçons especulativos, perfeitamente compatível com a piedade anglicana e com os ideais de progresso social.
Assim, considerar as teologias e filosofias vigentes naquele século não diminui a maçonaria; ao contrário, revela sua genialidade prática: ela conseguiu transformar o caldo cultural de uma época – com suas luzes e suas sombras – em um método atemporal de aperfeiçoamento humano. Em suma, a maçonaria é umgrande exemplo de como uma tradição se renova ao beber, com discernimento, das águas de seu próprio tempo.
Em suma, 1717 não é apenas o ano da fundação da primeira Grande Loja maçónica; é o ano em que as respostas à pergunta “O que é o homem?” se pluralizaram de forma irreversível. A humanidade, outrora definida de cima para baixo pelos teólogos, passou a ser objeto de uma busca autónoma e plural – um legado que ainda hoje define a nossa modernidade.
Fontes primárias e secundárias utilizadas na pesquisa:
Minhas anotações pessoais de Teologia e Filosofia.
BUTLER, Joseph. Human Nature, and Other Sermons. Londres, 1726. (Edição consultada: Good Press, 2019).
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COIL, Henry Wilson. Coil’s Masonic Encyclopedia. Richmond: Macoy Publishing, 1996.
Quaker attitudes towards human nature – Studies in Church History, Cambridge University Press, 2019.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade(Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).