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João Calvino: O Arquiteto da Reforma Protestante e o Teólogo da Soberania Divina

João Calvino

João Calvino: O Arquiteto da Reforma Protestante e o Teólogo da Soberania Divina

(i) Ximenes

Introdução 

Ao longo das minhas pesquisas sobre as grandes figuras que moldaram o pensamento ocidental, poucos nomes me provocaram tanta admiração e, ao mesmo tempo, tantas interrogações quanto o de João Calvino. É quase impossível estudar o desenvolvimento do mundo moderno — a sua ética do trabalho, a sua forma de governo, o seu sistema educacional — sem esbarrar na sombra longa deste teólogo francês do século XVI. Porém, ao mesmo tempo, a sua imagem permanece envolta em controvérsias: para os seus seguidores, o grande sistematizador da reformada; para os seus críticos, o severo inquisidor de Genebra.

Neste artigo, procurei ir além das caricaturas. Busquei reconstituir a trajetória de Jean Cauvin — o homem que trocou o direito pela teologia, o conforto da França pelo exílio suíço, e que, a partir de uma pequena cidade às margens do lago Léman, projetou a sua influência sobre continentes inteiros. Que esta pesquisa ajude o leitor a compreender não apenas as doutrinas que Calvino formulou, mas também o homem atormentado, doente, apaixonado e, acima de tudo, movido por uma convicção inabalável na soberania absoluta de Deus.

I. Biografia

Infância e Formação Humanista

João Calvino nasceu em Noyon, na região da Picardia, no norte da França, a 10 de julho de 1509, com o nome de Jehan Cauvin. O seu pai, Gérard Cauvin, era um jurista qualificado que ocupava o cargo de secretário particular do bispo de Noyon e escrivão do capítulo da catedral local. A sua mãe, Jeanne Lefranc, faleceu quando Calvino tinha apenas seis anos, tendo o menino sido confiado aos cuidados de um aristocrata amigo da família. Graças à influência do pai, Calvino conseguiu receber benefícios eclesiásticos (rendas de capelas) ainda muito jovem.

Ainda adolescente, Calvino foi enviado para a Universidade de Paris, onde estudou no Collège de la Marche e depois no Collège Montaigu. Lá, dedicou-se ao estudo do latim, do grego, da teologia e dos autores clássicos. Desde cedo, foi um estudante precoce que se destacou no latim e na filosofia. Em Paris, tomou contacto com as ideias nascentes de Martinho Lutero e com o humanismo renascentista.

Porém, o pai de Calvino decidiu que ele deveria tornar-se advogado, por considerar que a carreira jurídica oferecia maior segurança financeira. Obedecendo às ordens paternas, Calvino foi para a Universidade de Orleães estudar Direito a partir de 1528, uma matéria que nunca amou verdadeiramente. Prosseguiu os seus estudos na Universidade de Bourges, onde entrou em contacto com o humanismo jurídico de Andrea Alciato. Esta formação em direito — com a sua ênfase na clareza da exposição, na argumentação lógica e na sistematização — seria fundamental para a sua futura obra teológica.

A Conversão Repentina

Por volta de 1533, Calvino passou por uma experiência religiosa decisiva. Ele próprio a descreveu, anos mais tarde, como uma “conversão repentina” mediante a qual Deus subjugou a sua mente, endurecida naquelas questões, e a trouxe a uma disposição ensinável. Nesse período, abandonou a Igreja Romana e converteu-se ao protestantismo, iniciando uma fase de intensa colaboração com o reitor da Universidade de Paris, Nicolas Cop. Em Novembro de 1533, Cop proferiu um discurso inaugural de teor claramente luterano, que se acredita ter sido escrito ou inspirado por Calvino.

A reação das autoridades foi imediata e violenta. O protestantismo foi declarado ilegal em Paris, e Calvino viu-se forçado a fugir da cidade, disfarçado como se fosse um camponês, carregando os seus pertences presos a um bastão. Começava assim uma longa vida de exílio e peregrinação.

Exílio e Publicação das Institutas

Calvino refugiou-se em Basileia, na Suíça, um dos principais centros editoriais e intelectuais da Europa reformada. Foi ali que, em 1535, concluiu a primeira edição da sua obra monumental, Institutas da Religião Cristã, publicada em Março de 1536. Calvino tinha apenas vinte e sete anos. O livro, que começara como um pequeno manual de instrução na , pretendia ser “toda a soma da piedade e o que for necessário saber sobre a doutrina salvadora”, mas também funcionava como uma defesa dos cristãos reformados franceses, que estavam a ser caluniados, perseguidos e mortos. Calvino entendeu que o seu silêncio seria um ato de “covardia e traição”.

Nessa mesma época, Calvino fez planos para deixar a França permanentemente e dirigir-se para Estrasburgo, onde pretendia dedicar-se exclusivamente aos estudos. No entanto, a guerra entre Francisco I e Carlos V bloqueou as estradas, forçando Calvino a fazer um desvio de uma noite pela cidade de Genebra.

O Chamado de Genebra e o Primeiro Exílio

Em Genebra, a fama de Calvino precedera-o. O reformador local, William Farel, um homem de temperamento enérgico e intransigente, convidou-o a permanecer na cidade e a tornar-se pastor. Calvino protestou, dizendo que era um erudito, não um pregador. Farel, então, jurou que Deus amaldiçoaria todos os estudos de Calvino se ele não permanecesse em Genebra. Calvino cedeu, sentindo “como se Deus do céu tivesse imposto a sua mão poderosa sobre mim para me impedir no meu curso”.

Assim começou o longo, difícil e conturbado relacionamento de Calvino com Genebra. Ele elaborou um código litúrgico e civil tão severo que, menos de dois anos depois, em 1538, o Conselho Municipal da cidade expulsou Calvino e Farel, dando-lhes um aviso prévio de dois dias para deixarem a cidade. Aos vinte e nove anos, Calvino experimentava o primeiro grande fracasso do seu ministério.

O Período em Estrasburgo: Maturação e Casamento

Entre 1538 e 1541, Calvino refugiou-se em Estrasburgo, onde foi recebido pelo reformador Martin Bucer. Bucer, quase vinte anos mais velho que Calvino, tornou-se o seu mentor e amigo, oferecendo-lhe uma casa e abrindo-lhe oportunidades ministeriais. Em Estrasburgo, Calvino pastoreou uma congregação de refugiados franceses, reformou a liturgia e as instituições paroquiais, e participou em vários colóquios ecuménicos entre católicos e protestantes.

Foi também em Estrasburgo que Calvino conheceu Idelette de Bure, uma viúva que tinha dois filhos e que se convertera ao protestantismo ao ouvir um dos seus sermões. Os amigos de Calvino insistiam para que ele se casasse, mencionando mulheres com beleza ou riqueza, mas Calvino recusou todas até que lhe apresentaram Idelette, uma mulher piedosa. Casaram-se em 1540, e o casamento durou nove anos, até à morte de Idelette em 1549. Calvino amou-a profundamente; quando ela morreu, escreveu a um amigo: “Estive enlutado pelo melhor amigo da minha vida”. O único filho do casal, Jacques, nasceu prematuro e sobreviveu apenas brevemente.

O Retorno Triunfal a Genebra

Em 1541, as autoridades de Genebra, enfrentando a ameaça de restauração do catolicismo, suplicaram a Calvino que regressasse. Ele hesitou, mas acabou por aceitar, impondo condições que lhe garantiam liberdade para reformar a Igreja e a cidade segundo os seus princípios.

O Calvino que regressou a Genebra era um homem diferente: mais maduro, mais experiente e com uma autoridade moral inquestionável. Nos anos seguintes, aplicou na íntegra as suas austeras ideias religiosas, organizando a Igreja de Genebra através das Ordenações Eclesiásticas (1541), que estabeleciam quatro ofícios na Igreja: pastores, doutores (professores), anciãos e diáconos. Criou também o Consistório, um tribunal moral composto por pastores e anciãos, encarregado de vigiar a conduta dos cidadãos e de aplicar a disciplina eclesiástica. A cidade transformou-se numa espécie de teocracia, onde a lei moral e a lei civil se confundiam.

Os Últimos Anos e a Morte

Apesar da sua ascensão ao poder, Calvino nunca gozou de saúde robusta. Sofria de asma, enxaquecas frequentes, febres e, nos últimos anos, de gota e de uma doença pulmonar crónica. No entanto, a sua produtividade intelectual permaneceu ininterrupta: pregava todos os dias, por vezes duas vezes por dia, ditava cartas, escrevia comentários bíblicos e preparava sucessivas edições das Institutas.

Em 27 de Maio de 1564, Calvino morreu em Genebra, aos cinquenta e quatro anos, vítima de uma sepse. Por sua vontade expressa, foi sepultado no Cimetière des Rois, num túmulo simples e sem lápide, porque ele não queria qualquer tipo de veneração após a sua morte, muito menos que viajassem para Genebra para visitar o seu túmulo. Até hoje, ninguém sabe exatamente onde Calvino está enterrado.

II. Obras

A produção literária e teológica de Calvino é imensa. Para além das suas cartas e sermões (cerca de 1.200 sermões impressos apenas sobre o livro de Jó e os profetas menores), destacam-se três tipos de obra: o tratado sistemático, os comentários bíblicos e os escritos polémicos.

1. Institutas da Religião Cristã (Institutio Christianae Religionis)

Esta é, sem sombra de dúvida, a obra-prima de Calvino e uma das mais influentes da Reforma Protestante. A primeira edição, publicada em Basileia em Março de 1536, quando Calvino tinha apenas 27 anos, era um pequeno volume de seis capítulos, que pretendia ser “um breve manual” para aqueles que queriam saber algo sobre a evangélica. A obra foi dedicada ao rei Francisco I da França, numa tentativa de defender os cristãos reformados das falsas acusações de sectarismo e anarquia.

A partir desta primeira edição, Calvino não parou de rever e ampliar a sua obra. Em 1539, surgiu uma segunda edição, substancialmente aumentada. A terceira edição (1543) e a quarta (1550) foram sendo progressivamente ampliadas. Finalmente, em 1559, Calvino publicou a edição definitiva, em latim, com oitenta capítulos distribuídos por quatro livros. O livro cresceu de seis capítulos na primeira edição para oitenta na última, transformando-se de um pequeno manual num verdadeiro tratado sistemático de teologia.

Um escritor católico da época referiu-se às Institutas como “o Alcorão, o Talmud da heresia, a causa principal da nossa queda… o arsenal comum do qual os oponentes da velha Igreja obtiveram emprestado as armas mais agudas”. A obra está estruturada em quatro livros, seguindo a estrutura do Credo dos Apóstolos:

2. Comentários Bíblicos

Calvino foi, acima de tudo, um expositor da Bíblia. A sua obra exegética é imensa e abrange comentários a quase todos os livros do Antigo e do Novo Testamento, com exceção do Apocalipse e de alguns livros poéticos. Entre os mais importantes, destacam-se os seus comentários a Romanos, Gálatas, Efésios, ao Evangelho de João e ao Saltério. O seu método exegético, centrado no sentido literal e gramatical do texto, afastava-se da alegoria medieval e influenciou profundamente a hermenêutica protestante.

3. As Ordenações Eclesiásticas (1541)

Mais do que um escrito teológico, este é um documento constitucional que estabeleceu a organização da Igreja de Genebra. Criou os quatro ofícios e instituiu o Consistório, um tribunal moral que se tornaria o modelo para as Igrejas Reformadas em toda a Europa.

4. Catecismos e Confissões de

Calvino redigiu o Catecismo de Genebra (1545), que serviu de modelo para muitas Igrejas Reformadas. Participou também na redação da Confissão de Francesa (1559) e influenciou a Confissão Escocesa (1560) através do seu discípulo John Knox.

III. Curiosidades

1. O verdadeiro nome de Calvino não era João Calvino. Ele nasceu como Jehan Cauvin. A latinização do nome para Calvinus e a sua posterior tradução vernácula deram origem a “Calvino” (em português) ou “Calvin” (em inglês).

2. Calvino foi profundamente influenciado por Agostinho de Hipona. O próprio Calvino declarou: “Agostinho está tão completamente comigo, que se eu quisesse escrever uma confissão da minha , poderia fazê-lo com plenitude e satisfação a partir dos seus escritos”. A doutrina da predestinação de Calvino, em particular, tem fortes raízes agostinianas.

3. Calvino nunca teve filhos sobreviventes. O seu único filho, Jacques, morreu ainda bebé. Calvino foi, contudo, padrasto dos dois filhos de Idelette, fruto do seu primeiro casamento.

4. Ninguém sabe onde Calvino está enterrado. Por sua vontade expressa, recusou qualquer túmulo monumental que pudesse tornar-se objeto de veneração. Foi sepultado numa campa rasa e anónima no Cimetière des Rois em Genebra, cuja localização exata se perdeu.

5. Calvino teve uma relação complexa com o seu corpo doente. Sofreu toda a vida de enxaquecas, asma, febres recorrentes e, nos últimos anos, gota e uma doença pulmonar que o levou a tossir sangue. No entanto, nunca permitiu que a sua debilidade física interrompesse o seu trabalho. Pregava doente, ditava cartas da cama e mantinha uma correspondência impressionante.

6. Calvino esteve entre os últimos grandes latinos. A sua língua de eleição para as obras teológicas foi o latim, e ele escreveu num estilo ciceroniano de grande pureza. As suas Institutas foram lidas e admiradas por humanistas de toda a Europa, incluindo muitos católicos, pela qualidade do seu latim.

7. Calvino e Inácio de Loyola estudaram na mesma universidade em Paris. Embora seja contestado por alguns historiadores, há registos de que o futuro fundador da Companhia de Jesus e o futuro reformador protestante frequentaram o Collège Montaigu em Paris na mesma época, por volta de 1527. Não há prova de que se tenham conhecido pessoalmente.

8. O padrasto de Calvino foi o tradutor da Bíblia para francês. Pierre Robert Olivétan, primo de Calvino e a quem ele próprio converteu ao protestantismo, foi o autor da primeira tradução da Bíblia para francês a partir dos textos originais hebraicos e gregos (1535). Calvino escreveu o prefácio dessa edição.

IV. A Doutrina e o Legado Teológico

4.1 A Soberania Absoluta de Deus

O eixo em torno do qual toda a teologia de Calvino gira é a soberania absoluta de Deus. Para Calvino, Deus é o Criador, o Sustentador e o Governante de todas as coisas. Nada acontece no universo fora do seu decreto eterno e da sua providência activa. Esta convicção fundamenta todos os outros artigos da sua doutrina.

4.2 A Predestinação

A doutrina da predestinação é a aplicação mais contundente da soberania divina à salvação do homem. Calvino ensinava que, antes da criação do mundo, Deus elegeu soberanamente alguns indivíduos para a salvação (os eleitos), e reprovou outros para a condenação eterna (os réprobos), não com base em qualquer mérito ou demérito previsto neles, mas unicamente segundo o seu beneplácito e a sua vontade insondável. O homem não tem livre-arbítrio para escolher a sua salvação; esta é um dom gratuito de Deus, concedido apenas aos eleitos.

Para Calvino, a doutrina da predestinação não era motivo de desespero, mas de grande consolação: se a salvação depende exclusivamente da vontade de Deus, e não dos méritos ou deméritos humanos, então o crente pode ter a certeza de que a sua salvação não pode ser perdida. A salvação é segura porque está enraizada na vontade imutável de Deus.

4.3 O Trabalho como Vocação e a Relação com o Capitalismo

Uma das contribuições de Calvino que mais impacto teve na formação do mundo moderno foi a sua teologia do trabalho. Ele ensinava que o trabalho não é apenas uma necessidade económica, mas uma vocação divina, um meio de glorificar a Deus e de servir o próximo. O cristão deve trabalhar com diligência, honestidade e zelo, como se estivesse a servir o próprio Deus.

Esta doutrina teve consequências sociais profundas. Ao valorizar o trabalho e ao remover o estigma medieval que recaía sobre o lucro e a acumulação de riqueza (desde que obtidos honestamente), o calvinismo forneceu um ethos religioso que, segundo o sociólogo Max Weber, terá sido um dos factores que favoreceram o nascimento do capitalismo moderno. Nas palavras de um historiador, “quando calvinismo e capitalismo se encontram é o casamento perfeito, pois ambos possuem afinidades eletivas… Ambos valorizam o trabalho e reinvestem o fruto do trabalho em mais trabalho. O que, em última instância, gera acúmulo de capital.

4.4 O Caso Miguel Servet: A Mancha na Biografia

A condenação e execução do médico e teólogo espanhol Miguel Servet (1511-1553) é o episódio mais controverso da vida de Calvino e uma mancha na sua biografia que tem sido discutida ao longo dos séculos. Servet, que negava a doutrina da Trindade e o batismo infantil, foi considerado herege tanto por católicos como por protestantes. Já havia sido condenado pela Inquisição francesa, e a sua efígie fora queimada na sua ausência.

Em 1553, Servet viajou para Genebra, onde foi reconhecido e preso. No seu julgamento, Calvino apresentou as acusações de heresia contra ele. O Conselho de Genebra, após consultar outras cidades suíças, condenou Servet à morte na fogueira, sentença executada a 27 de Outubro de 1553.

Calvino concordou com a sentença de morte (a heresia era punível com a morte em toda a Europa, tanto em territórios católicos como protestantes), mas suplicou que Servet fosse decapitado em vez de queimado, como um ato de misericórdia. O Conselho recusou o pedido. Servet foi o único herege executado em Genebra durante toda a vida de Calvino.

Este episódio continua a ser uma fonte de controvérsia. Alguns historiadores o utilizam para denunciar a intolerância do regime calvinista; outros recordam que, no século XVI, a condenação de hereges ao fogo era prática comum tanto no mundo católico como no protestante, e que Calvino foi, na verdade, mais moderado do que os seus contemporâneos.

4.5 Calvino e a Educação

Calvino foi um grande promotor da educação popular. Em Genebra, fundou a Academia de Genebra (1559), que mais tarde se transformaria na Universidade de Genebra. A Academia tinha duas escolas: uma escola primária (“escola privada”) e uma escola superior (“escola pública”) onde se ensinavam grego, hebraico, latim, teologia e direito. A instituição atraiu estudantes de toda a Europa reformada e formou muitos dos pastores que mais tarde levariam o calvinismo para França, Escócia, Países Baixos e Inglaterra.

V. A Influência e o Legado de Calvino

A influência de Calvino transcendeu em muito a sua cidade de Genebra e o seu próprio século. De diversas maneiras, a sua marca ficou impressa no mundo moderno.

  1. Formação de Igrejas Reformadas. A partir de Genebra, enviaram-se missionários e pastores para toda a Europa. Nasceram assim as Igrejas Reformadas na França (os huguenotes), na Escócia (a Igreja Presbiteriana, liderada por John Knox), nos Países Baixos (a Igreja Reformada Holandesa) e na Inglaterra (os puritanos e, mais tarde, vários grupos dissidentes).

  2. Ética do trabalho e capitalismo. A doutrina calvinista do trabalho como vocação e da acumulação de riqueza como sinal da bênção divina foi, na interpretação de Max Weber, um dos factores que contribuíram para o nascimento do “espírito do capitalismo” na Europa setentrional.

  3. Governo representativo. Embora Calvino não tenha defendido a democracia no sentido moderno, o seu modelo de governo eclesiástico — baseado na eleição de anciãos (presbíteros) pelas assembleias locais e na representação — influenciou o desenvolvimento das teorias do governo representativo e do republicanismo.

  4. Educação para todos. O seu investimento na educação universal — incluindo o acesso das crianças à escola primária — foi inovador para a época. A tradição calvinista manteve sempre uma forte ênfase na instrução e na alfabetização.

  5. Pensamento teológico ocidental. A teologia de Calvino, com a sua ênfase na soberania de Deus, na depravação total, na predestinação e na perseverança dos santos, continua a ser estudada, defendida e debatida nas faculdades de teologia de todo o mundo.

VI. Conclusão

João Calvino foi, sem dúvida, um dos homens mais influentes do segundo milénio. Nascido numa pequena cidade francesa, educado nas melhores universidades do seu tempo, um jurista de formação e um humanista de espírito, acabou por dedicar a sua vida, por uma conversão que ele próprio considerou um ato da graça soberana de Deus, à reforma da Igreja e da sociedade. A sua teologia, sistemática e lógica, ofereceu ao protestantismo nascente uma coerência doutrinária que este, sob a liderança de Lutero, não possuía.

A sua cidade de Genebra tornou-se, sob a sua liderança, umcastelo do Senhor“, uma cidade refúgio para os perseguidos e uma escola de pastores para toda a Europa. As suas Institutas da Religião Cristã permanecem uma das obras teológicas mais influentes alguma vez escritas. E a sua ética do trabalho, com a sua ênfase na vocação, na diligência e na glorificação de Deus através do trabalho quotidiano, moldou profundamente o carácter do mundo moderno, particularmente no domínio da economia.

No entanto, Calvino foi também um homem do seu tempo, com as suas contradições e os seus limites. A sua Genebra foi uma teocracia severa, onde a liberdade de consciência, tal como hoje a entendemos, era restrita. A execução de Miguel Servet permanece uma ferida aberta na sua biografia, um lembrete de que até os maiores reformadores são, em última análise, prisioneiros da sua época.

Na sua morte, Calvino foi sepultado numa campa anónima, como ele próprio o desejara. “Ao contrário de outros reformadores“, escreve um biógrafo, “em Genebra, Calvino é representado por vestígios e sombras, e pela voz difusa dos seus escritos. E é justamente nesses escritos, e não num túmulo de mármore, que a sua voz continua a ressoar, viva e provocadora, cinco séculos depois.

Pesquisa e redação Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • BBC News Brasil. Quem foi João Calvino, que ajudou a fundar o protestantismo e a justificar o capitalismo. 30 de novembro de 2021.

  • Brasil Escola. João Calvino: quem foi e o que defendia.

  • Brasil Escola. Calvinismo: contexto histórico, origem, princípios.

  • Centro Cultural João Calvino. Calvino, Genebra e Sociedade: Uma Explicação.

  • Centro Cultural João Calvino. Calvino e o Polêmico Caso Serveto (1553).

  • Centro Cultural João Calvino. Nove Fatos para Saber sobre João Calvino.

  • eBiografia. Biografia de João Calvino.

  • Escola Convergência. Calvinismo: o que é, como surgiu, o que defende.

  • Got Questions. Por que João Calvino mandou queimar Miguel Servet na fogueira por heresia?

  • Ligonier Ministries. 5 coisas que você deve saber sobre João Calvino.

  • Ministérios Pão Diário. 5 fatos sobre João Calvino que talvez você não saiba.

  • Monergismo. Calvino e a Sociedade de Genebra.

  • Monergismo. Calvinismo, As Institutas e a Reforma Protestante.

  • Seminário JMC. As Institutas de João Calvino: A obra de uma vida e uma vida para o Reino.

  • Toda Matéria. João Calvino.

  • Wikipedia. João Calvino.

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

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 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

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