O cajado, uma investigação pessoal
Nesta pesquisa, propus-me a investigar um dos instrumentos menos comentados, mas não menos importantes, da constelação simbólica maçônica.
Quando me debrucei sobre os símbolos da Maçonaria, sempre fui atraído pelos grandes ícones – o esquadro, o compasso, o malho, o cinzel – cuja ligação ao ofício de pedreiro é tão direta quanto evidente. Foi por isso que, ao iniciar esta investigação, a presença do bastão ou "cajado" nas mãos dos Diáconos despertou em mim uma inquietação que os manuais não conseguiam aplacar: o que faz um bastão, um objeto aparentemente tão alheio à arte da construção, ocupar um lugar de destaque no cerimonial da Loja? A minha curiosidade nasceu precisamente dessa constatação – de que, ao contrário dos demais instrumentos, o cajado não encontra uma raiz operativa óbvia no ofício de pedreiro, mas antes uma longa e subterrânea cadeia de transmissão simbólica que remonta a tempos imemoriais, quando o bastão era o emblema do mensageiro, do portador de autoridade e daquele que anunciava, com sua simples presença, a chegada de uma vontade superior.
Ao mergulhar nas fontes históricas, deparei-me com uma revelação que transformou minha percepção do objeto: o cajado, em suas múltiplas variações – bastão, vara ou haste –, percorreu as civilizações como um fio condutor de poder e comunicação, desde os antigos mensageiros egípcios e os arautos gregos até os magistrados romanos e os abades medievais, cada um empunhando a haste como extensão de sua autoridade delegada. Percebi, então, que a Maçonaria, ao adotá-lo como insígnia dos Diáconos, não estava a inventar um novo símbolo, mas a resgatar uma das mais antigas e universais representações do poder de transmitir, de conectar e de anunciar – função que, no Templo, se revela essencial para a fluidez dos trabalhos e para a harmonia da comunicação iniciática. Foi assim que compreendi que o cajado não é um mero adereço litúrgico, mas a materialização visível de um princípio invisível: o da palavra que viaja, da mensagem que se cumpre e da ordem que se estabelece.
Neste artigo, compartilho os resultados dessa minha investigação pessoal sobre um dos instrumentos mais negligenciados, porém mais eloquentes, da constelação simbólica maçônica – uma pesquisa que me levou a cruzar milênios, desde os mais remotos testemunhos da antiguidade até à sua utilização emblemática na Idade Média, e daí até os rituais do Rito Escocês e do Rito de York.
Convido o leitor a acompanhar-me nessa jornada de desvendamento, não para encontrar respostas definitivas, mas para se deixar conduzir pela longa cadeia de sentidos que faz do cajado um dos mais ricos emblemas do mensageiro, da autoridade delegada e da comunicação dentro do Templo. Afinal, revisitar a história de um objeto tão simples é compreender que os grandes símbolos da Maçonaria não nascem do acaso – eles são herdeiros de uma tradição que atravessa culturas e épocas, e que, através do cajado, nos lembra que a verdadeira construção não se faz apenas com pedras, mas com palavras que circulam e se encontram, guiadas pela mão firme de quem as conduz.
Refiro‑me ao cajado. Também outros designados por bastão, vara ou haste, que os Diáconos empunham em diversos Ritos.

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