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A Revolução Gloriosa de 1688: O Nascimento da Monarquia Constitucional Inglesa

A Revolução Gloriosa de 1688 O Nascimento da Monarquia Constitucional Inglesa

A Revolução Gloriosa de 1688: O Nascimento da Monarquia Constitucional Inglesa

Introdução

Em novembro de 1688, uma frota de cerca de 500 navios holandeses atravessaram o Canal da Mancha e desembarcou em Torbay, na costa sudoeste da Inglaterra. A bordo vinha Guilherme de Orange, chefe de Estado da República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, acompanhado por um exército de 15 mil soldados profissionais.

O que se seguiu não foi uma batalha sangrenta, mas uma rápida e quase incruenta transferência de poder que ficaria conhecida como Revolução Gloriosa — uma designação que enfatiza o caráter pacífico e providencial do evento, segundo a interpretação whig da história inglesa.

Ao longo de apenas alguns meses, o rei Jaime II, da dinastia Stuart, foi deposto e substituído por sua filha protestante Maria II e seu marido (também sobrinho de Jaime), Guilherme III de Orange. Mais significativo do que a mudança de soberano foi o que a acompanhou: a promulgação da Declaração de Direitos de 1689 (Bill of Rights), um documento que estabeleceu limites claros ao poder da Coroa, reafirmou a autoridade do Parlamento e consagrou princípios fundamentais que até hoje estruturam o sistema constitucional britânico.

A Revolução Gloriosa não foi apenas uma crise dinástica ou religiosa; foi o momento em que a Inglaterra abandonou definitivamente o absolutismo e abraçou a monarquia parlamentar, criando um modelo político que influenciaria profundamente o pensamento liberal moderno. Este artigo examina as causas, o desenvolvimento, os desdobramentos e as consequências duradouras desse evento decisivo.

I. O Contexto: As Revoluções Inglesas do Século XVII

A Revolução Gloriosa de 1688 não emergiu do vácuo. Foi o último ato de um longo conflito que opôs, durante praticamente toda a centúria de seiscentos, a Coroa e o Parlamento inglês. Esse confronto, conhecido na historiografia como Revolução Inglesa (1640-1688), atravessou três fases decisivas: a Revolução Puritana, a Commonwealth sob Cromwell e a Restauração Stuart.

1.1. A Revolução Puritana e o Regicídio de 1649

A Inglaterra do início do século XVII era uma monarquia de vocação absolutista, na qual os reis da dinastia Stuart — Jaime I e seu filho Carlos I — insistiam na teoria do direito divino dos reis. O choque com o Parlamento concentrava-se sobretudo em duas questões: os impostos e a religião. A tradição constitucional inglesa dava ao Parlamento o direito exclusivo de cobrar impostos para financiar o governo. Recusando-se a ceder aumentos tributários, o rei dissolveu o Parlamento em 1629 e governou sozinho até 1640.

Quando precisou de fundos para enfrentar uma revolta escocesa, foi forçado a convocar novamente o Parlamento, que se mostrou ainda mais inflexível. O resultado foi a Guerra Civil Inglesa (1642-1651), que opôs as forças parlamentares — os chamados “cabeças redondas” — contra os partidários do rei — os “cavaleiros”. O conflito culminou com a captura, o julgamento e a execução de Carlos I em 30 de janeiro de 1649. O regicídio chocou a Europa e aboliu temporariamente a monarquia inglesa.

1.2. A Commonwealth e o Protetorado de Cromwell

Com a monarquia abolida, a Inglaterra tornou-se uma república conhecida como Commonwealth (1649-1653). O poder, a princípio, coube a um Parlamento unicameral, mas rapidamente concentrou-se nas mãos de Oliver Cromwell, um puritano fervoroso e líder militar de exceção. Entre 1653 e 1658, Cromwell governou como Lorde Protetor, numa ditadura pessoal que frustrou as esperanças de muitos que haviam lutado pela liberdade. À sua morte, seu filho Richard mostrou-se incapaz de manter o poder e abandonou o cargo em 1660. A instabilidade política que se seguiu levou o Parlamento a optar por restaurar a dinastia Stuart.

1.3. A Restauração (1660-1688)

Carlos II, filho do rei decapitado, foi convidado a regressar do exílio. Aceitou o trono sob a condição de que seus poderes fossem reduzidos — o que demonstrava o quanto o Parlamento havia fortalecido a sua posição. O novo rei, embora católico na intimidade, governou com moderação e evitou confrontos abertos com o Parlamento. Contudo, a paz era frágil. O temor de uma restauração católica plena voltou a emergir quando, após a morte de Carlos II sem herdeiros legítimos, o trono foi ocupado por seu irmão.

II. O Reinado de Jaime II: As Causas Imediatas da Revolução

Jaime II ascendeu ao trono em fevereiro de 1685. Era um católico declarado, e a Inglaterra — um reino onde o anglicanismo e o protestantismo estavam profundamente enraizados — viu nele uma ameaça existencial. A partir de 1685, o reino passou a ser governado por um monarca católico que defendia o absolutismo e a teoria do direito divino dos reis.

As medidas de Jaime II foram progressivamente alarmantes. Ele disponibilizou cargos públicos e lugares na Universidade de Oxford para católicos; em abril de 1687, apresentou a primeira Declaração de Indulgência, que concedia liberdade de culto público tanto a protestantes quanto a católicos romanos; e pressionou o Parlamento a revogar as leis penais e os Atos de Teste que, desde o século XVI, excluíam os católicos dos cargos oficiais. Criou ainda uma comissão eclesiástica que, em 1687, forçou as universidades protestantes a aceitar estudantes católicos, ameaçando transformá-las em seminários em caso de recusa.

Para muitos ingleses, especialmente para a aristocracia anglicana e a burguesia emergente, estas medidas representavam não apenas um retrocesso religioso, mas também um ataque direto à ordem constitucional e à supremacia do Parlamento.

O episódio que funcionou como estopim foi o nascimento de um herdeiro varão do rei, Jaime Francisco Eduardo, em junho de 1688.

Até então, a sucessão estava assegurada pela filha protestante de Jaime, Maria, casada com Guilherme de Orange. Com o nascimento de um príncipe católico, a perspectiva de uma dinastia católica duradoura tornou-se real e iminente. Sete lordes ingleses — incluindo o bispo de Londres — redigiram um convite formal a Guilherme de Orange para que viesse à Inglaterra “com uma força militar” e assumisse o trono.

III. O Desenvolvimento dos Eventos: A Invasão e a Fuga

Guilherme de Orange não era um mero convidado estrangeiro. Além de genro de Jaime II, era também seu sobrinho e, como chefe de Estado da Holanda, um firme defensor da causa protestante na Europa. Havia razões geoestratégicas adicionais: Guilherme desejava envolver a Inglaterra na sua guerra contra a França de Luís XIV, o maior poder católico do continente.

Em 5 de novembro de 1688, Guilherme desembarcou em Torbay, no sudoeste da Inglaterra, à frente de um exército bem treinado.

A resposta de Jaime II foi hesitante e ineficaz. Oficiais e nobres desertaram massivamente para o lado do invasor, e até mesmo a filha do rei, Ana, uniu-se a Guilherme. Percebendo que não poderia resistir, Jaime II tentou fugir para França em 23 de dezembro de 1688, mas foi capturado em Kent. Guilherme permitiu-lhe uma segunda tentativa, e desta vez o ex-rei conseguiu alcançar a corte francesa, onde foi acolhido por Luís XIV.

Com a fuga de Jaime, o trono foi declarado vago. O Parlamento — que na ausência de um monarca se autoconvocou como Convention Parliament — decidiu oferecer a coroa a Guilherme e Maria em conjunto, sob a condição de que aceitassem uma Declaração de Direitos que limitaria fundamentalmente os seus poderes. A Revolução Gloriosa foi, até este ponto, notavelmente incruenta. Apenas na Irlanda e na Escócia, onde os partidários de Jaime II (os jacobitas) resistiram, o conflito prolongou-se até 1690, com a vitória decisiva de Guilherme na Batalha de Boyne.

IV. A Declaração de Direitos de 1689 (Bill of Rights)

Aprovada pelo Parlamento em dezembro de 1689 e sancionada por Guilherme III e Maria II, a Declaração de Direitos é o documento central da Revolução Gloriosa. Em essência, foi um ato que listou e condenou as más práticas de Jaime II e estabeleceu limites claros e vinculativos à atuação do monarca.

Entre as principais limitações impostas à Coroa, destacam-se:

  1. Impostos: O rei não poderia cobrar tributos sem o consentimento do Parlamento.

  2. Leis: Não poderia suspender leis ou dispensar a sua aplicação sem a anuência parlamentar.

  3. Exército: Não poderia manter um exército permanente em tempo de paz sem a aprovação do Parlamento.

  4. Eleições: Não poderia interferir nas eleições parlamentares, que deveriam ser livres.

  5. Liberdade de expressão: Assegurou-se a liberdade de palavra e de debate no Parlamento, proibindo-se qualquer processo judicial por declarações feitas no exercício do mandato.

  6. Punições cruéis: Proibiu-se a imposição de fianças excessivas, multas desproporcionais e penas cruéis ou incomuns.

  7. Sucessão ao trono: Definiu que nenhum católico, nem pessoa casada com um católico, poderia ascender ao trono inglês.

A Declaração também estabeleceu que o Parlamento deveria reunir-se com regularidade. Guilherme foi, assim, o primeiro rei “eleito” — ou, pelo menos, formalmente contratado — da Inglaterra, pois a sua legitimidade derivava não do direito divino, mas de um acordo explícito com a nação representada no Parlamento. O Bill of Rights permanece até hoje uma das leis fundamentais do sistema constitucional do Reino Unido, ao lado da Magna Carta (1215) e do Ato de União (1707).

V. Consequências Imediatas e de Longo Prazo

5.1. Consolidação da Monarquia Constitucional e do Parlamentarismo

A Revolução Gloriosa não implantou uma democracia no sentido moderno, mas estabeleceu o princípio de que o rei reina, mas não governa sem o Parlamento. O poder soberano deixou de residir exclusivamente na pessoa do monarca e passou a residir na “Coroa no Parlamento” (Crown in Parliament) — uma fórmula que expressa a partilha da autoridade entre os três poderes tradicionais: o rei, a Câmara dos Lordes (aristocracia) e a Câmara dos Comuns (representantes da burguesia e da pequena nobreza). A Inglaterra tornou-se assim uma monarquia parlamentar ou constitucional.

5.2. Supremacia do Protestantismo

A declaração consolidou a Igreja Anglicana como igreja oficial do Estado, excluindo os católicos da vida pública, do trono e de cargos públicos. Esta exclusão dos católicos (e, em menor escala, dos dissidentes protestantes) só começaria a ser desmantelada no século XIX com os Atos de Emancipação Católica (1829) e a remoção de outras barreiras confessionais.

5.3. Impacto Econômico: Ascensão da Burguesia e Revolução Industrial

Com o rei obrigado a respeitar o Parlamento e os impostos sujeitos ao controlo de uma assembleia onde a burguesia tinha assento, o ambiente de negócios tornou-se mais previsível e seguro. A segurança jurídica e a limitação do poder arbitrário do soberano criaram condições favoráveis ao desenvolvimento do capitalismo. Muitos historiadores apontam a Revolução Gloriosa como um dos pré-requisitos institucionais para a Revolução Industrial inglesa, que começaria algumas décadas depois.

5.4. Impacto na Escócia e na Irlanda

Embora a Revolução Gloriosa seja frequentemente tratada como um evento inglês, as suas consequências na Escócia e na Irlanda foram profundas e violentas. Na Escócia, o Parlamento escocês, pressionado pelos ingleses, acabou por depor Jaime VII (como era conhecido na Escócia) e aceitar Guilherme e Maria como soberanos, mas a resistência jacobita prolongou-se por décadas. Na Irlanda, a situação foi ainda mais dramática: a maioria católica apoiou Jaime II, o que levou a uma guerra que durou até 1691 e à subsequente imposição de leis penais severas contra os católicos irlandeses, com efeitos duradouros na paisagem social e religiosa da ilha.

5.5. Influência Global e na América do Norte

A Revolução Gloriosa e o Bill of Rights tiveram uma influência decisiva sobre o pensamento político nas colónias inglesas da América do Norte. As ideias de que o governo deve basear-se no consentimento dos governados, de que o soberano está sujeito à lei e de que os cidadãos têm direitos inalienáveis (como o direito a não ser tributado sem representação) foram apropriadas pelos colonos e mais tarde inscritas na Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776) e na Constituição norte-americana (1787).

VI. Análise: Por que “Gloriosa”? Debates Historiográficos

A designação “Revolução Gloriosa” foi cunhada pelos historiadores whigs do século XVIII, que viam o evento como uma confirmação pacífica dos valores da liberdade inglesa e um triunfo do protestantismo sobre o absolutismo católico. No entanto, a historiografia moderna é mais matizada.

Alguns historiadores sublinham que, embora tenha havido poucos combates em Inglaterra, a guerra na Irlanda e na Escócia foi sangrenta e que a designação “gloriosa” esconde uma realidade de violência colonial. Outros apontam que a revolução foi, em grande medida, um golpe de Estado orquestrado por uma elite parlamentar e aristocrática, e não um movimento popular — uma invasão estrangeira que, por conveniência, foi rebatizada de revolução. Apesar destas críticas, é inegável que o evento transformou de forma irreversível a estrutura política inglesa e estabeleceu um precedente fundamental para o constitucionalismo moderno.

VII. Conclusão

A Revolução Gloriosa de 1688-1689 foi muito mais do que a substituição de um rei católico por dois soberanos protestantes. Foi o momento histórico em que a Inglaterra, através de um movimento relativamente pacífico, fez a transição definitiva da monarquia absoluta para a monarquia constitucional.

Ao fazê-lo, produziu a Bill of Rights, um dos documentos fundadores do liberalismo político, que limitou o poder da Coroa, reafirmou a autoridade do Parlamento e consagrou direitos individuais fundamentais como a liberdade de expressão no parlamento e a proibição de punições cruéis.

O evento abriu caminho para o domínio político da burguesia, criou um ambiente institucional favorável ao desenvolvimento económico e inspirou movimentos constitucionalistas em todo o mundo ocidental. Embora não tenha instaurado uma democracia plena nem resolvido as tensões religiosas que marcaram o arquipélago britânico por séculos, a Revolução Gloriosa permanece como um marco na história das liberdades políticas e da limitação do poder arbitrário — um exemplo de que uma mudança de regime pode, em condições favoráveis, realizar-se sem derramamento de sangue e com efeitos duradouros para a governação das sociedades.

Pesquisa e redação Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • BEZERRA, Juliana. Revolução Gloriosa (1688): o que foi e resumo. Toda Matéria. (Consultado em maio de 2026)

  • Bill of Rights 1689. Wikipedia, The Free Encyclopedia. (Consultado em maio de 2026)

  • Declaração de Direitos de 1689. Wikipédia, a enciclopédia livre. (Consultado em maio de 2026)

  • Glorious Revolution 1688–1689. Wikipedia, The Free Encyclopedia. (Consultado em maio de 2026)

  • HIGA, Carlos César. Revolução Gloriosa. Brasil Escola. (Consultado em maio de 2026)

  • Revolução Gloriosa. História do Mundo. (Consultado em maio de 2026)

  • Revolução Gloriosa. Mundo Educação. (Consultado em maio de 2026)

  • Revolução Gloriosa de 1688 (Resumo). Incrível História. (Consultado em maio de 2026)

  • SILVA, Daniel Neves. Revolução Gloriosa. História do Mundo. (Consultado em maio de 2026)

  • The Glorious Revolution. BBC History. (Consultado em maio de 2026)

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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