Grande Oriente do Passeio: História, Grão-Mestres e Legado na Maçonaria Brasileira
Quando comecei a estudar a história da Maçonaria brasileira, a narrativa que se apresentava a mim era relativamente linear: o Grande Oriente do Brasil (GOB) (Vale do Lavradio), como a grande potência central, com algumas dissidências pontuais que rapidamente se resolviam em torno da unidade nacional. Foi por isso que, ao deparar-me com o Grande Oriente do Passeio — também conhecido como Grande Oriente Nacional Brasileiro ou Grande Oriente Brasileiro —, percebi que estava diante de um capítulo muito mais complexo e fascinante do que os manuais convencionais sugeriam. Esta obediência, que floresceu em um dos períodos mais efervescentes da política imperial, revelou-se para mim não como uma mera dissidência, mas como um verdadeiro protagonista de uma visão alternativa de Maçonaria, profundamente entrelaçada com os ideais republicanos e liberais que fermentavam nas ruas e nos salões do Rio de Janeiro oitocentista.
Ao mergulhar nos arquivos e nas atas das lojas que compunham essa potência, deparei-me com uma história de ruptura e afirmação: o Grande Oriente do Passeio nasceu do choque entre visões antagônicas sobre o papel da Maçonaria na sociedade brasileira, opondo-se ao que seus membros consideravam o conservadorismo e o centralismo excessivo do GOB. Percebi que não estava diante apenas de uma disputa de poder entre obediências, mas de um verdadeiro embate ideológico — onde de um lado se colocava a tradição monárquica e moderada, e de outro, uma Maçonaria mais combativa, republicana e comprometida com as transformações sociais que levariam, décadas mais tarde, à Proclamação da República. E, para minha surpresa, descobri que essa potência rival, apesar de sua existência relativamente breve, conseguiu atrair algumas das figuras mais influentes do pensamento liberal brasileiro, deixando marcas profundas na organização e na doutrina maçônica do país.
Neste artigo, compartilho os frutos dessa minha investigação sobre o Grande Oriente do Passeio — uma pesquisa que me levou a revisitar a trajetória de seus Grão-Mestres, as curiosidades de sua atuação política e o legado que deixou para a Maçonaria brasileira, muito além da simples memória de uma cisão.
Convido o leitor a acompanhar-me nessa jornada, pois revisitar a história dessa obediência é compreender que a Maçonaria no Brasil não foi um rio de curso único, mas um arquipélago de vozes e projetos que, em sua diversidade e tensão, forjaram a identidade de uma instituição que se recusava a ser refém de um único pensamento. Afinal, a história do Grande Oriente do Passeio nos ensina que as grandes transformações não nascem do consenso, mas do confronto de ideias — e que, por vezes, são os "dissidentes" quem melhor interpretam o espírito de seu tempo.

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