O Grande Oriente do Passeio
Uma História da Antiga Potência Maçônica do Rio de Janeiro
A história da maçonaria no Brasil está intrinsecamente ligada à formação política e social do país, especialmente durante o período imperial.
Entre as diversas potências maçônicas que surgiram ao longo do século XIX, uma das mais influentes foi o Grande Oriente do Passeio , uma instituição maçônica fundada no Rio de Janeiro com grande relevância na vida pública brasileira.
Este artigo busca explorar a origem, a história, as lojas, os membros notáveis e o fim dessa importante entidade maçônica brasileira.
Origem e Fundação
O Grande Oriente do Passeio (GOP) teve sua origem em meados do século XIX, numa época em que a maçonaria desempenhava um papel central na construção da identidade nacional brasileira. A fundação oficial ocorreu em 1844 , no contexto da expansão das ideias liberais e reformistas na Europa e nas Américas.
O nome “Passeio” deriva do local onde se reunia uma das primeiras lojas maçônicas do Rio de Janeiro: o Jardim do Passeio Público , uma área nobre da cidade na época e ponto de encontro da elite intelectual e política.
O GOP surgiu como uma tentativa de organizar e centralizar a prática maçônica no Brasil, diferenciando-se do Grande Oriente do Brasil, outra obediência existente na época. Inicialmente, era vinculado ao Grande Oriente da França , o que lhe conferia legitimidade internacional e um sistema de ritos e práticas alinhadas às tradições maçônicas europeias.
História e Desenvolvimento
Durante o Segundo Reinado (1840–1889), o Grande Oriente do Passeio tornou-se uma das mais importantes potências maçônicas do Brasil. Sua sede ficava situada no centro do Rio de Janeiro, e ele congregava lojas espalhadas por diferentes províncias do Império.
O GOP adotou principalmente o Rito Escocês Antigo e Aceito , embora mantivesse influências de outras correntes filosóficas e simbólicas. Seu caráter laico, liberal e progressista atraiu muitos dos principais nomes da política, da imprensa e do exército da época.
A maçonaria no Brasil imperial era vista como uma força de modernização e secularização da sociedade, frequentemente contrária aos interesses do clero católico. O Grande Oriente do Passeio esteve envolvido em movimentos abolicionistas, republicanos e anticlericais, contribuindo para a mudança dos rumos políticos nacionais.
Lojas e Membros Notáveis
Ao longo de sua existência, o Grande Oriente do Passeio chegou a congregar dezenas de lojas maçônicas em todo o país, sendo particularmente forte no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia.
Entre seus membros mais ilustres, destacam-se:
- Joaquim Nabuco – Diplomata e abolicionista.
- Benjamin Constant Botelho de Magalhães – Militar e um dos fundadores da República.
- Silva Jardim – Jornalista e ativista político.
- Quintino Bocaiúva – Político e jornalista, defensor do federalismo.
- Rui Barbosa – Jurista e político, conhecido como “Águia de Haia”.
Esses homens ajudaram a moldar o pensamento republicano no Brasil e tiveram papel fundamental nos eventos que levaram à proclamação da República em 15 de novembro de 1889.
Declínio e Fim
Com a implantação da República, a maçonaria brasileira passou por reorganizações significativas. O Grande Oriente do Passeio perdeu gradualmente sua hegemonia diante da ascensão de outras obediências, como o Grande Oriente do Brasil e o Grande Oriente Nacional do Brasil .
Além disso, conflitos internos, divisões ideológicas e a crescente fragmentação das lojas enfraqueceram a estrutura do GOP. No início do século XX, a instituição entrou em declínio, perdendo espaço político e simbólico.
Oficialmente, o Grande Oriente do Passeio deixou de existir como entidade independente por volta de 1920 , sendo incorporado ou dissolvido em meio às mudanças políticas e sociais do Brasil republicano.
Legado
Apesar de seu fim, o Grande Oriente do Passeio deixou um legado importante na história do Brasil. Como uma das primeiras grandes potências maçônicas do país, foi palco de debates sobre liberdade, secularismo, educação e cidadania. Sua atuação ajudou a consolidar a maçonaria como força política e moral no Brasil do século XIX.
Muitas das ideias defendidas pelas lojas ligadas ao GOP ecoaram na construção da República e influenciaram gerações futuras de pensadores, juristas e estadistas.
Hoje, embora não exista mais como instituição formal, o Grande Oriente do Passeio permanece vivo na memória histórica e simbólica da maçonaria brasileira.
Autor e pesquisa Ivair Ximenes Lopes
Referências Bibliográficas
- CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não Foi . São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
- VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Imperial . Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
- BITTENCOURT, Mário (org.). História da Maçonaria no Brasil . Rio de Janeiro: Editora IBRAHIM, 1968.
- LEMOS, Carlos Augusto. Maçonaria no Brasil: Do Império à Atualidade . São Paulo: Madras, 2003

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