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Cornelius Jansen: O Bispo que Divide a Igreja e Funda o Jansenismo

Cornelius Jansen

Cornelius Jansen: O Bispo que Divide a Igreja e Funda o Jansenismo

(i) Ximenes

Introdução 

Há figuras na história cujo legado é tão vasto e controverso que a sua própria biografia se torna um campo de batalha ideológico. Cornelius Jansen é uma dessas figuras. Nascido na Holanda protestante, educado nas universidades católicas da Flandres, Jansen nunca pretendeu, ao que tudo indica, fundar uma nova escola teológica ou, muito menos, uma heresia. O seu objetivo era mais ambicioso e, ao mesmo tempo, mais recuado: restaurar o pensamento de Santo Agostinho na sua pureza original e, com ele, reformar a Igreja Católica por dentro. No entanto, ao publicar postumamente a sua obra monumental Augustinus, Jansen desencadeou uma tempestade teológica, política e social que assolaria a Europa por mais de um século.

Neste artigo, proponho-me a percorrer a vida deste homem enigmático: desde a sua origem humilde e a sua amizade decisiva com Jean du Vergier de Hauranne, passando pela sua ascensão académica e episcopal, até à publicação póstuma do seu magnum opus e às violentas controvérsias que se seguiram. Procurarei, igualmente, destilar algumas curiosidades que escapam aos manuais e avaliar o seu legado — um legado que, de forma singular e talvez irónica, se tornou infinitamente maior do que o próprio Jansen jamais poderia ter imaginado.

I. Biografia

Origens humildes e educação excecional

Cornelius Jansen (em neerlandês: Corneille Janssens, em latim: Cornelius Jansenius) nasceu a 28 de outubro de 1585, na pequena aldeia de Acquoi (atualmente Acquoy), na província da Holanda, nos Países Baixos. Filho de Jan Ottje, um ferreiro, e de Lijntje Gijsberts, Jansen cresceu numa família católica humilde, mas profundamente religiosa, numa região que, após a Reforma, se tornara maioritariamente calvinista.

Graças ao sacrifício e à visão dos seus pais, que, “embora em circunstâncias moderadas, lhe asseguraram uma excelente educação”, Jansen foi primeiro enviado para Utrecht e, em 1602, para a Universidade de Lovaina (Leuven), na Flandres, onde ingressou no Colégio du Faucon para estudar filosofia.

A amizade que mudou a teologia

Em Lovaina, Jansen foi aluno de Jacques Janson, um teólogo que, seguindo as doutrinas de Michael Baius (Michel de Bay), enfatizava a corrupção radical da natureza humana pelo pecado original e a necessidade absoluta da graça divina para a salvação. Mais importante do que qualquer professor, porém, foi o encontro com um colega francês de espírito afim: Jean du Vergier de Hauranne, o futuro Abade de Saint-Cyran.

A amizade entre Jansen e Du Vergier foi, na sua génese, um verdadeiro pacto intelectual. Ambos estavam insatisfeitos com o que consideravam ser a casuística e o moralismo frouxo da teologia escolástica tardia e, particularmente, da Companhia de Jesus. Decidiram, então, dedicar as suas vidas a um estudo exaustivo dos Padres da Igreja, com especial ênfase em Santo Agostinho, para extrair dele uma teologia mais pura e rigorosa.

Após concluir os seus estudos iniciais, Jansen partiu para Paris, em parte para melhorar a sua saúde e em parte para aprofundar o estudo do grego. Em Paris, reuniu-se com Du Vergier, que o ajudou a obter uma posição como diretor de um colégio episcopal em Bayonne. Durante os onze ou doze anos que se seguiram, os dois amigos viveram e estudaram juntos, mergulhados na leitura dos Padres e, acima de tudo, de Agostinho, num período de intensa gestação intelectual.

Regresso a Lovaina e ascensão académica

Em 1617, Jansen regressou a Lovaina para estudar teologia e, em 1619, obteve o seu doutoramento. Iniciou então uma carreira académica brilhante, lecionando teologia e ganhando reputação como um dos mais brilhantes expositores do pensamento agostiniano. Em 1635, foi eleito reitor da Universidade de Lovaina e, no ano seguinte, em 1636, foi nomeado bispo de Ipres (Ypres), na Flandres.

Morte prematura e legado póstumo

A sua morte ocorreu prematuramente, a 6 de maio de 1638, vítima da peste que assolava a região. Jansen tinha apenas 52 anos. Antes de morrer, porém, deixou instruções claras: o manuscrito da sua obra magna, em que trabalhava há duas décadas, deveria ser publicado. Foi assim que, em 1640, na imprensa de Jacobus Zegers, em Lovaina, viu a luz do dia o Augustinus.

II. Obras

A produção literária de Jansen divide-se, naturalmente, em duas fases: os escritos anteriores ao Augustinus, de menor relevo histórico, e a sua obra póstuma monumental.

Escritos exegéticos e polémicos (anteriores a 1638)

Antes de se consagrar inteiramente ao seu grande projeto, Jansen dedicou-se ao comentário bíblico e à polémica anticalvinista. Escreveu vários comentários às Escrituras, incluindo um comentário ao Pentateuco (o Pentateuchus, sive commentarius in quinque libros Mosis) e comentários aos livros sapienciais do Antigo Testamento (Analecta in Proverbia Salomonis, Ecclesiasten, Sapientiam, Habacuc et Sophoniam). Publicou ainda panfletos contra os protestantes, nos quais já se delineava a sua ênfase agostiniana.

Augustinus (1640) — A obra-prima póstuma

Esta é, sem qualquer sombra de dúvida, a obra que define e imortaliza Cornelius Jansen. O Augustinus é um tratado teológico de fôlego, composto por três volumes e mais de 1300 páginas em latim, fruto de mais de vinte anos de estudo meticuloso de Santo Agostinho e de leitura sistemática de todos os seus comentadores.

O livro está estruturado em três partes principais, correspondentes aos três estados do homem:

  1. O estado da natureza humana antes da Queda: Aqui, Jansen analisa a condição original do homem, criado à imagem de Deus, dotado de liberdade e justiça original.

  2. O estado da natureza humana após a Queda (pecado original): Esta é a secção central e mais polémica da obra. Jansen defende que, com o pecado de Adão, a natureza humana foi corrompida de forma radical (a doutrina da “depravação total”), perdendo a sua liberdade original e tornando-se incapaz de qualquer bem que não seja o pecado, sem a intervenção especial da graça divina.

  3. O estado da natureza humana redimida por Cristo (graça): Jansen expõe a sua doutrina da graça, afirmando que esta é absolutamente necessária para a salvação e que é eficaz e irresistível para aqueles a quem Deus a concede.

O objetivo declarado de Jansen era refutar uma doutrina que ele considerava uma forma moderna de Pelagianismo e Semipelagianismo, que atribuía demasiado poder ao livre-arbítrio humano e menosprezava a ação necessária e determinante da graça de Deus. Esta doutrina, segundo ele, estava a ser promovida pelos jesuítas e pelos teólogos da Sorbonne.

III. O Jansenismo: Um Movimento que Jansen nunca viu

O mais notável e, em certa medida, trágico, é que Cornelius Jansen morreu sem jamais ter presenciado o movimento que levaria o seu nome. Os termos “Jansenismo” e “Jansenista” foram cunhados pelos seus críticos jesuítas nos anos 1640, após a publicação do Augustinus, e só mais tarde foram adotados pelos seus seguidores, ainda que com alguma relutância.

As Cinco Proposições e a Condenação de 1653

Os inimigos do jansenismo, liderados pelos jesuítas, rapidamente extraíram do Augustinus cinco proposições que consideravam heréticas, resumindo assim a doutrina condenável:

  1. Alguns mandamentos de Deus são impossíveis de cumprir pelos justos, mesmo que estes o desejem e se esforcem, por falta da graça que os tornaria possíveis.

  2. No estado de natureza decaída, ninguém resiste à graça interior, a menos que Deus assim o permita.

  3. Para merecer ou desmerecer no estado de natureza decaída, o homem não precisa de liberdade para evitar a coação, mas sim de liberdade para evitar o constrangimento (distinção subtil que agravava a negação do livre-arbítrio).

  4. Os semipelagianos admitiam a necessidade da graça preventiva para cada ação particular, mas caíam em heresia ao defender que essa graça podia ser resistida.

  5. É semipelagiano dizer que Cristo morreu por todos os homens sem exceção (a doutrina da “expiação limitada”, segundo a qual Cristo morreu apenas pelos eleitos).

Em 1653, o Papa Inocêncio X, através da bula Cum occasione, condenou estas cinco proposições como heréticas.

Port-Royal: O Coração do Jansenismo Francês

O jansenismo encontrou o seu principal baluarte na abadia cisterciense de Port-Royal-des-Champs, perto de Versalhes, e na sua congénere parisiense, Port-Royal de Paris. Sob a liderança da abadessa Angélique Arnauld e a direção espiritual de Jean du Vergier de Hauranne (Saint-Cyran), o amigo de Jansen, Port-Royal tornou-se um centro de piedade rigorosa, vida comunitária intensa e produção intelectual notável.

As “Senhoras de Port-Royal”, como ficaram conhecidas as freiras, viveram uma experiência comunitária de grande profundidade espiritual e resistência à autoridade eclesiástica e real. O mosteiro foi um dos principais focos da oposição ao absolutismo de Luís XIV e ao poder papal. Em 1709, por ordem do rei, a comunidade foi dispersada e o mosteiro, arrasado.

A Bula Unigenitus (1713) e o Fim do Movimento

O conflito entre o jansenismo e a Igreja Romana prolongou-se por décadas. Em 1713, o Papa Clemente XI publicou a bula Unigenitus, que condenava 101 proposições extraídas das Reflexões Morais de Pasquier Quesnel, um dos últimos grandes teólogos jansenistas. A bula foi recebida com feroz oposição por parte de muitos bispos e teólogos franceses, mas acabou por ser imposta pela autoridade real. Com o tempo, o ímpeto do movimento foi-se dissipando, embora as suas influências tenham persistido na vida intelectual e religiosa francesa até ao século XIX.

IV. Curiosidades e Dados Incomuns

  1. A Confusão com o Homónimo: Um dos factos mais frequentemente esquecidos e que mais confusão causa é a existência de outro Cornelius Jansen (ou Cornelius Jansenius Gandavensis), bispo de Gante e exegeta de renome, que viveu entre 1510 e 1576. Este “Jansen, o Velho” foi um comentador bíblico distinto, autor da valiosa Concordia Evangelica. Os dois Jansen não têm qualquer parentesco, sendo frequentemente confundidos, especialmente em fontes mais antigas.

  2. O Plágio e a Acusação de Fraude: A crítica jesuíta não se limitou a atacar as doutrinas do Augustinus. Um dos mais ferozes opositores de Jansen, o padre François Garasse, acusou-o de ter plagiado amplamente uma obra do teólogo espanhol Luis de Molina (que defendia o livre-arbítrio), sem o citar. Investigações posteriores, embora mostrem que Jansen utilizou fontes sem as referenciar adequadamente, tendem a absolvê-lo da acusação mais grave de plágio deliberado, apontando antes para uma prática comum de citação na época.

  3. Jansen e a sua Relação com os Jesuítas: Com uma ironia tipicamente humana, o grande adversário dos jesuítas quase se tornou um deles. Durante os seus anos de estudante em Lovaina, Jansen manteve relações amistosas com a Companhia de Jesus e chegou a solicitar a sua admissão na ordem. O pedido foi, no entanto, recusado, por razões que nunca foram completamente esclarecidas. Este episódio pode ter contribuído, ainda que de forma inconsciente, para a veemência da sua posterior oposição à ordem.

  4. O Augustinus como “Bíblia” do Jansenismo: Após a sua condenação, o Augustinus tornou-se um texto quase proibido, o que só fez aumentar o seu prestígio e disseminação. Nas comunidades jansenistas, como Port-Royal, a leitura do Augustinus era uma prática quotidiana, ao lado da Bíblia. Era verdadeiramente a “Bíblia” do movimento.

  5. Jansen e a Questão da Predestinação: Embora frequentemente comparado a Calvino, Jansen nunca deixou de ser um católico romano. A sua ênfase na predestinação, tão cara aos calvinistas, foi sempre temperada pelo seu profundo respeito pela tradição e pela autoridade da Igreja, o que não impediu que muitos vissem nele um “criador de almas” à maneira protestante.

V. Legado e Avaliação Histórica

O legado de Cornelius Jansen é, em muitos aspetos, um legado involuntário e paradoxal. Ele nunca quis fundar uma seita ou um movimento de oposição à Igreja. O seu desejo sincero era, ao contrário, contribuir para a renovação interna do catolicismo, resgatando a herança agostiniana que ele considerava ter sido abandonada. No entanto, a sua obra, ao questionar o equilíbrio entre a graça divina e o livre-arbítrio humano, tocou num nervo sensível da teologia católica e desencadeou uma reação em cadeia que ele não poderia antecipar.

O jansenismo, movimento que surgiu do seu pensamento, foi uma força de grande complexidade. Por um lado, foi um movimento de rigorismo moral e de piedade profunda, que produziu obras notáveis de espiritualidade e de análise da consciência. Por outro lado, foi uma força de oposição política ao absolutismo real e ao poder papal, alimentando o galicanismo e o constitucionalismo na França.

A sua condenação pela Igreja foi inevitável, dada a rigidez da sua antropologia teológica (o homem como radicalmente depravado) e a sua doutrina da graça eficaz e irresistível, que parecia anular o livre-arbítrio e aproximá-lo perigosamente do calvinismo. No entanto, e aqui reside o paradoxo final, a perseguição e a condenação papal apenas serviram para divulgar e fortalecer o movimento, criando em torno do Augustinus uma aura de martírio e de verdade proibida.

Cornelius Jansen morreu na peste, aos 52 anos, sem ter visto o furacão que desencadeara. O seu legado é o de um homem que, ao tentar ser fiel ao que considerava ser o verdadeiro Agostinho, se viu a braços com um poder que o ultrapassava e que moldaria a história religiosa e política da Europa por mais de um século.

Pesquisa e redação: Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • *1911 Encyclopædia Britannica/Jansenism*. Wikisource, 22 de dezembro de 2016.

  • AugustinusEncyclopedia.com.

  • CATHOLIC ENCYCLOPEDIA: Jansenius and Jansenism. New Advent.

  • Cornelius Jansen – Wikipedia. A enciclopédia livre.

  • Cornelius Otto Jansen | Biography, Beliefs, Legacy, & Facts. Britannica, 20 de julho de 1998.

  • Cornelius Otto Jansen | Oxford Reference.

  • Cornelius Jansen | Catholic.com.

  • Cornelius Jansen (Bishop of Ghent). Wikipedia, 20 de maio de 2007.

  • Cornelius Jansen (The Elder). Catholic Encyclopedia.

  • Cornelius Otto Jansen summary. Britannica, 2 de maio de 2020.

  • Jansenism – Wikipedia. A enciclopédia livre.

  • Jansenism | Description, History, & Beliefs. Britannica, 20 de outubro de 2009.

  • Jansenism. Oxford Bibliographies, 22 de abril de 2020.

  • Jansenius and Jansenism | EWTN.

  • Jansenius y el jansenismo | Catholic.com.

  • *Port-Royal and Jansenism (Chapter 50) – The Cambridge History of Literary Criticism*. Cambridge Core, 28 de março de 2008.

  • Port-Royal | Versailles, Monastic Life, History. Britannica, 20 de julho de 1998.

  • The Jansenist Controversy: Introduction to the Augustinus. Oxford Academic, 27 de abril de 2023.

  • Unigenitus | Clement XI Papal Decree. Britannica, 20 de julho de 1998.

  • Unigenitus – Wikipedia. A enciclopédia livre.

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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