Acerca da origem, personalidade e atributos, para dizê-lo de alguma forma, de Hefesto, há diferentes versões. A mais aceita é aquela que faz o
deus filho de Zeus e da sua legítima
esposa Hera. Por uma vez, o rei do Olimpo prescindiu das suas veleidades amorosas e fecundou a sua própria
esposa.
No entanto, e segundo contam as mais ancestrais lendas, o fruto da união de tão egrégios esposos não contribuiu talvez para o entendimento de ambos, dado que as suas discussões continuaram desembocando em autênticos confrontos. Diz-se que Hefesto ficou manco, precisamente, por tomar partido a favor da sua mãe
Hera numa destas ocasiões violentas.
Zeus, cego de ira pelo que pensava que era uma conjura familiar contra ele, teria arrojado do Olimpo o seu próprio filho, fazendo-o cair na longínqua ilha de Lenos. Como conseqüência de semelhante violência física, Hefesto partirá as pernas; por cujo motivo, desde essa altura, seria conhecido como o “ilustre coxo de ambos pés”.
Em certas ocasiões, os deuses do Olimpo zombavam de Hefesto /Vulcano por causa da sua coxeira e pelo seu desagradável aspecto. Aleijado e
feio, era objeto de contínua brincadeira. Mas o curioso é que se encontrava casado com a bela
Vênus, deusa do amor; o que indica que Hefesto /Vulcano devia ter qualidades das que careciam os outros deuses que o deixavam em ridículo. Pois, caso contrário, a melhor conhecedora dos lances amorosos não teria acedido a ser sua
esposa. Senão, como é que
Vênus, que dava lições de amor, se ia deixar enganar com tanta facilidade?
A FORJA DE VULCANO
Com
respeito ao trabalho de Hefesto /Vulcano e da sua legendária forja, será o grande poeta Virgílio quem mais liricamente o descreva:
“A
um lado de Sicília, entre ela e Lípara, está uma ilha célebre, situada sobre altíssimas cumeeiras que fumegam; debaixo da qual há uma grande cova e muitas outras, como as do Etna, com os ciclópeos fogos carcomidas, soam e retumbam continuamente.
Lá mil bigornas, com valentes golpes feridos, soam com terríveis
trovões que se ouvem claro de muito longe. Ressoam pelas côncavas cavernas barras e massas de aceso ferro; saem de mil fornalhas vivas chamas: esta é a casa e a forja de Vulcano e chamam “Vulcânia” a esta ilha”.
A
tradição popular, não obstante, associa a mítica Forja de Vulcano com o vulcão Stromboli, muito ativo e sempre em contínua erupção. Da sua cratera saíam tais chamas que
um pedaço de ferro que se deixasse à noite nas suas proximidades, apareceria de manhã já forjado. Hefesto /Vulcano, depois de ser expulso do Olimpo, decidiu estabelecer-se na ígnea caverna e instalar nela a sua forja. Contam as mais antigas narrações clássicas que Prometeu roubaria de lá o
fogo dos deuses.
LEGENDÁRIOS RELATOS
Nas entranhas da mítica montanha trabalhava-se duramente; e não só se forjava o ferro, mas também o nutrido grupo de operários comandado por Hefesto /Vulcano mantinha uma febril atividade ao redor da construção de diversos objetos utilizando materiais nobres.
E, assim, em breve atenderão encomendas que passarão à história como verdadeiras obras de arte. Devemos trazer ao caso, pois é de lei, o mais
belo dos escudos que se possa imaginar. Foi fabricado, por encomenda de
Afrodite /
Vênus, para defesa e orgulho do
herói Eneias. Era todo de ouro e os seus relevos faziam alusão a
um idílico tempo futuro que nunca pôde cumprir-se. Contra ele nada podiam as flechas nem os dardos inimigos:
” (. ..), e lança-lhe
um dardo agudo e depois, atrás daquele, outro e outro e outro depressa, e anda em torno dele em largo cerco; mas o escudo de ouro os repara”.
Outra das obras que saíram da mítica Forja de Vulcano foi o radiante e ostentoso carro que conduzia o filho do titã Hiperião, isto é, Hélio – personificação do
Sol, que tinha por irmãs Aurora e Selene /Lua-, o qual levava
quatro belos cavalos que puxavam por ele com inusitado brio e cujos nomes faziam alusão ao
fogo, à radiante luz, ao calor e à claridade: “Ardente”, “Resplandecente”, “Brilhante” e “Amanhecer”. Uma bela carruagem para Hélio, o mais célebre dos áurigas e quem melhor sabia manejar as bridas dos seus bravos corcéis.
FRUTO DA DISCÓRDIA
O grande cantor de mitos que foi Homero nos fala, em “A Ilíada”, da coxeira de Hefesto, em termos que diferem do estabelecido até a essa altura. Lá se descreve a desolação de
Hera perante a imagem de
um filho seu que, apenas recém-nascido, apresenta rasgos físicos tão deformes. Tinha sido engendrado em tempo de ira e discórdia, quando o egrégio casamento do Olimpo protagonizava violentas e contínuas discussões.
Atacada por
um arrebato, do qual se arrependerá mais tarde, a
esposa do poderoso Zeus arroja o indefeso Hefesto para o abismo do
cosmos. Depois de cair durante
um dia e uma noite, chegou ao grande oceano. Lá recolheram-no as criaturas que nele habitam e cuidaram dele com mimo. Construíram uma cova nas profundidades abissais do mar e, dentro desta, instalaram uma forja com vários utensílios para que Hefesto /Vulcano trabalhasse com mão de experiente artesão os metais brutos.
Contam as crônicas que, durante mais de nove anos, “o ilustre coxo de ambos pés”, permaneceu em tão afamado lugar dedicado à tarefa exclusiva satisfazer todos os desejos das suas salvadoras. Ofereceu-lhes grande variedade de presentes saídos da sua própria mão e realizou para elas
jóias de exclusivo desenho e incalculável valor.
No entanto, não teve os mesmos
sentimentos para com
Hera e, embora se tratasse da sua própria mãe, nunca lhe perdoou a sua cruel
ação. Durante muito tempo procurou a forma de vingar-se dela e, por fim,
um bom dia deu com a fórmula adequada: tratava-se da famosa cilada do trono faustoso.
UM LUGAR OCULTO SOB O IMENSO OCEANO
O agradecimento de Hefesto /Vulcano para com as nereidas que lhe tinham salvo a vida não teve limites e, sempre que se lhe apresentou a ocasião, acedeu com gosto às suas petições. Quer estas se tratassem de fabricar as armas para
um dos heróis protegidos pelas povoadoras de mares e oceanos; ou bem se fosse necessário, em certas ocasiões, fabricar belos cetros, e colares, e tronos, e coroas de incalculável valor. ..
O próprio Hefesto descreve-nos assim os fatos: “Vi-me arrojado do céu e caí longe pela
vontade da minha insolente mãe, que me queria ocultar por causa da coxeira. Então o meu coração teria tido que suportar terríveis penas, se não me tivessem acolhido no seio do mar Tétis e Eurínome, filhas do efluente Oceano. Nove anos vivi com elas fabricando muitas peças de bronze -broches, redondos braceletes, anéis e colares- numa cova profunda, rodeada pela imensa, murmurante e espumosa corrente do Oceano. De todos os deuses e os mortais homens, só o sabiam Tétis e Eurínome, as mesmas que antes me salvaram. Hoje que Tétis, a de belas tranças, vem a minha casa, tenho que pagar-lhe o benéfico de me ter conservado a vida”.
Hefesto estava muito agradecido às suas protectoras, as ninfas do mar, e soube cumprir fielmente a encomenda que Tétis -com grandes amostras de preocupação- lhe tinha feito. Esta tinha acudido ao palácio do “ilustre coxo de ambos pés” para fazê-lo participar na sua pena e para rogar-lhe que fabricasse uma armadura para o seu filho, o valente Aquiles.
AQUILES CESSA NA SUA CÓLERA
O grande cantor Homero relata-nos, de forma lírica, o encontro de Tétis e Hefesto /Vulcano, e as súplicas que esta lhe dirige para que o seu amado filho Aquiles cesse na sua cólera: “Tétis chegou ao palácio imperecedouro de Vulcano, o qual brilhava como uma estrela, resplandecia entre as duas deidades, era de bronze, e tinha-o edificado o “Coxo” em pessoa”.
Depois desta descrição, o insigne poeta relata-nos o resto dos azares que terão lugar a propósito da petição e da visita de Tétis a Hefesto /Vulcano. A primeira suplica ao segundo nos seguintes termos: “Eu venho abraçar os teus joelhos para dares ao meu filho, cuja vida há de ser breve, escudo, capacete, glebas ajustadas com broches e couraça; pois as armas que tinha perdeu-as o seu fiel amigo ao morrer nas mãos dos teucros, e Aquiles jaz em terra com o coração aflito”.
Tétis acompanhava as suas palavras com uma aflição e
um pranto incontroláveis. Hefesto respondeu-lhe com a intenção de tranqüilizá-la:
Nesse momento dispôs-se a trabalhar e, “deixando a deusa, encaminhou-se para os foles, virou-os para a chama e mandou-os trabalhar. Estes sopravam em vinte fornos, despedindo
um ar que avivava o
fogo e era de várias classes: umas vezes forte, como o que se necessita para trabalhar depressa, e outras, ao contrário, segundo Hefesto o desejava e a obra o requeria”.
RELEVOS NO ESCUDO RELUZENTE
Depois, e segundo contínua explicando Homero, “O
deus pôs ao
fogo duro bronze, estanho, ouro precioso e prata; colocou no meio a grande bigorna e pegou com uma mão no pesado martelo e com a outra as tenazes.
Fez primeiro
um escudo grande e forte, de variado labor, com tripla cenefa brilhante e reluzente, provido duma abraçadeira de prata. Cinco camadas tinha o escudo, e na superior gravou o
deus muitas artísticas figuras, com sábia inteligência.
Lá pôs a terra, o céu, o mar,
o sol infatigável e a
lua cheia; além, as estrelas que o céu coroam. ..
Lá representou também duas cidades de homens dotados de palavra. Numa celebravam-se casamentos e banquetes: as noivas saíam dos seus quartos e eram acompanhadas pela cidade à luz de tochas acesas. ..
A outra cidade aparecia cercada por
dois hirsutos, cujos indivíduos, revestidos de reluzentes armaduras, não concordavam: os do primeiro queriam arruinar a praça, e os outros desejavam dividir em duas partes quantas riquezas encerrava a bela povoação. ..
Representou também uma mole terra nova,
um campo fértil e vasto que se lavrava pela terceira vez. ..
Gravou do mesmo modo
um campo de crescidas searas que os jovens ceifavam com foices afiadas: muitas molhadas caíam no chão ao longo do sulco, e com eles formavam fardos os ceifeiros.. .
Também recortou uma bela vinha de ouro, cujas cepas apareciam carregadas de negros cachos”.
A ARTE DE HEFESTO /VULCANO
O relato continua com a mesma carga de lirismo que tudo o até aqui exposto:
“Representou depois
um rebanho de vacas de erguida cornamenta: os animais eram de ouro e estanho e saíam do estábulo mugindo para pastar nas margens de
um sonoro rio, junto de
um oscilante canavial.
Fez também “o ilustre coxo de ambos pés”
um grande prado em
belo vale, onde pastavam as cândidas ovelhas, com estábulos, choças com teto e currais.
Representou, depois,
um grupo de mancebos e donzelas executando
um belo baile; estas levavam ligeiros vestidos de linho e aqueles cobriam-se com belas túnicas.
Um divino aedo cantava, acompanhando-se com a cítara. ..
Na orla do sólido escudo representou a poderosa corrente do rio Oceano.
Depois de construir o grande e forte escudo, fez para Aquiles uma couraça mais reluzente do que o resplendor do
fogo;
um sólido capacete,
belo, lavrado, com a cimeira de ouro, que se adaptasse às têmporas do
herói. ..
Assim que Hefesto entregou as armas a Tétis esta saltou, como
um gavião, levando a reluzente armadura que o ilustre Coxo tinha construído. E, assim, chegou ao lugar onde o seu filho velava o companheiro morto. Com gesto complacente, entregou-lhe a apreciada carga. As armas lavradas produziram
um ruído metálico que assustou todos os presentes; exceto o valente
herói que, ensimesmado, dispôs-se a contemplar a reluzente armadura.
UM TRONO COM CORRENTES
Hefesto, ao sentir-se relegado ao esquecimento pela sua própria mãe, procurou a maneira de dar uma lição a
Hera por ter cometido tão deplorável
ação.
Foi assim como construiu
um trono
belo e reluzente, e tão
cômodo que incitava a sentar-se quem o olhasse. Enviou-o como presente à sua própria mãe e esta sentiu-se imediatamente atraída por tão singular cadeirão.
Sentou-se placidamente e notou os seus efeitos relaxantes; permaneceu assim, em atitude serena e de
meditação, por
um espaço incalculável, e nem sequer se notava da passagem do tempo.
Mais, quando se dispôs a levantar-se do fofo assento, experimentou uma tensão que lhe impedia qualquer
movimento. Depressa comprovou que umas, até essa altura invisíveis, correntes a cobriam por todos os lados e formavam uma espécie de tupida rede que a aprisionava com as suas malhas de metal nobre.
Hera ensaiou todos os tipos de artes e estratagemas para livrar-se dos efeitos de semelhante invento. Mas de nada lhe serviram; todo o seu saber resultava inútil e vão perante tão insólita situação. Já pensava em resignar-se, enquanto pedia ajuda aos outros deuses do Olimpo, quando se deu conta de que só Hefesto /Vulcano era capaz de construir tão sofisticado trono. Pensou que tudo aquilo fazia parte de
um plano que o seu próprio filho tinha tramado para vingar-se dela. Recordou, então, o seu mau comportamento para com ele e, ao sentir-se apanhada, suplicou ao resto das deidades que intercedessem perante Hefesto /Vulcano para libertá-la de tão apertadas ataduras.
O FRUTO DA VIDEIRA
Antes de acudir ao mais avisado dos
ferreiros, ao “ilustre coxo de ambos pés”, os deuses do Olimpo provaram todos os métodos que possa imaginar-se, tentando conseguir a libertação de
Hera.
Tudo foi inútil, e nem sequer o poderoso raio de Zeus conseguia fazer aberturas nas correntes que Hefesto /Vulcano tinha fabricado. Ninguém conhecia a liga dos metais empregados nem as proporções da mistura. E, assim, era impossível imaginar qualquer idéia a esse
respeito e a obtenção de resultado satisfatório algum.
Depois de reunir-se durante algum tempo, os deuses do Olimpo decidiram pedir a Hefesto que regressasse à montanha idílica, da qual tinha sido expulso tempo atrás sem contemplações, isto é, dum pontapé.
Mas Hefesto não aceitou o convite das deidades olímpicas, pois considerava que não atuavam por próprio convencimento, mas pressionadas -na sua opinião- pela magnitude dos fatos e pelo poder que sobre todos exercia a protagonista principal. De resto, ele sabia que foi ontem mesmo, para dizer dalguma forma, quando se riam do seu ar externo e da sua coxeira; e, assim, decidiu não satisfazer os requerimentos dos deuses do Olimpo.
Então, estes tramaram
um plano que obteria os resultados esperados. Decidiram encarregar a sua execução a Dionísio, considerado como o descobridor do vinho, que foi visitar Hefesto à sua colossal forja. Este, por causa do calor que estava lá dentro, aceitou a bebida que o seu acompanhante lhe oferecia e saboreou-a com fruição. Conforme contam as lendas clássicas, sentiu-se pleno de euforia e acompanhou Dionísio até ao Olimpo. Entrou montado num asno e dirigiu-se imediatamente para o lugar onde
Hera estava encadeada e, com sábia mão, soltou todas as ataduras do seu reluzente trono, pelo qual a deusa ficou livre da rede e das correntes, que jaziam amontoadas no chão. Mãe e filho viveram, desde essa altura, reconciliados e em harmonia.
Mas Hefesto /Vulcano teve outras experiências, também dolorosas para ele, relacionadas com belas mulheres. Tinha sido Zeus, o rei do Olimpo, quem lhe tinha dado
Afrodite /
Vênus por
esposa e embora esta, ao princípio, não tivesse aceito de bom grado tal decisão – devido à feiúra e à coxeira do seu futuro marido -, nem por isso via com maus olhos o “ilustre coxo de ambos pés”, uma vez que já o tinha conhecido e tratado.
Mas a
beleza de
Afrodite não passava inadvertida para o resto dos deuses e, uma e outra vez, era assediada por pretendentes egrégios. Bem é verdade que a própria deusa não opunha excessiva resistência perante certas solicitudes. Talvez fosse o caso dos seus amores com Ares /Marte, o qual foi atacado por tal ofuscação perante os encantos de
Afrodite /
Vênus que decidiu torná-la sua amante e esquecer que era a
esposa do melhor e mais trabalhador dos
ferreiros que no mundo, e na lenda, existiram.
Hefesto/Vulcano soube imediatamente o engano de que era objeto por parte da sua bela
esposa -pois, no dizer dos narradores clássicos, era imediatamente informado pelo
Sol que, das alturas, via tudo-, e decidiu comprovar por si próprio até onde chegava tal encantamento, e se este era passageiro ou, pelo contrário, tinha ares de perpetuar-se no tempo.
Foi deste modo como chegou a surpreendê-los “nos braços
um do outro”; e, assim, já sob uma perspectiva objetiva, concluiu que lhes daria
um lição, pois não podia suportar tal escárnio com passividade. É certo que os outros deuses do Olimpo se riam e zombavam na sua própria cara, por causa da infidelidade de que era objeto por parte da sua mulher, mas isto não preocupava absolutamente nada a Hefesto /Vulcano. O que verdadeiramente lhe importava era a forma de encontrar a melhor maneira de dar uma lição aos
dois amantes. Mas como é que podia enfrentar Ares /Marte, se era nada menos do que o
deus da guerra? Estava claro que desafiar o seu oponente a
um combate corpo a corpo significava a total derrota de Hefesto. Tinha que procurar, portanto, outro método mais hábil e prático.
E foi assim como o engenho do “ilustre coxo de ambos pés” se aguçou ao máximo. E concebeu
um plano à sua própria
medida, cheio de arte e de imaginação. Para tal efeito, dispôs-se a misturar metais de diversas propriedades e procedências. Com eles fundidos conseguiu fabricar uma rede de textura
invisível que tinha, não obstante, o poder de imobilizar quem caísse nas suas imperceptíveis e finas malhas.
Como, numa ocasião,
o Sol, lá do alto, avisara Hefesto da presença de Marte e
Afrodite em certo recôndito e escondido lugar, o “ilustre Coxo” foi lá e arrojou a sua rede sobre eles. Ficaram imediatamente presos por invisíveis fios e Hefesto correu a avisar todos os outros deuses do Olimpo para contemplarem o amancebamento de ambos amantes. Depois de chegarem ao lugar, desataram em sonoras gargalhadas, à vista de tão febril espetáculo.
Afrodite /
Vênus sentiu tal vergonha que, assim que se viu livre, fugiu daquele lugar e daquele amante.
VULCANO É O HEFESTO ROMANO
Uma série de fábulas, reunidas através dos tempos e propagadas de geração em geração, mostra-nos a diversidade de lendas em que se viu envolvido o
deus Hefesto /Vulcano. Entre estas, talvez a mais importante devido à
transcendência de tal fato, é aquela que atribui à célebre deidade a confecção duma espécie de bonecos de ouro, tão semelhantes aos próprios mortais que não poucos, entre os
autores clássicos, identificaram com os verdadeiros seres humanos e a sua criação.
Os romanos, não obstante, continuam a
tradição grega e consideram Hefesto como o
deus que eles alcunharam Vulcano, e a quem conferem o poder sobre o
fogo.
O próprio raio poderoso de Zeus /Júpiter seria obra de Vulcano. Também o resplandecente e suntuoso carro do
Sol seria obra de tão maravilhoso artífice. Vulcano aparecia sempre, em definitiva, relacionado com o
fogo e seu poder; embora alguns poetas romanos da época clássica -entre os quais se encontra Ovídio com a sua obra “A Eneida”- associam também Vulcano com a força das tempestades e seus relâmpagos, dos vulcões e suas estrondosas erupções e dos terremotos e sua força destrutora. Em não poucas ocasiões foi identificado com o próprio Hélios /Sol.
Não faltou quem associasse Vulcano com a água e, em tal caso, era reconhecido como a deidade que personificava as águas do famoso rio Tigre, que regava a região do Lácio com o seu abundante caudal.
Os romanos também reconheciam Vulcano como o
deus salvador em tempos de conflitos bélicos; o qual implica que rejeitavam a representatividade de Marte neste campo; e em qualquer caso estava considerado como
um deus útil e que se venerava porque se esperavam dele dádivas e dons relacionados com o aspecto prático e material. Por exemplo, era Vulcano quem tinha capacidade para extinguir
um incêndio e, também, para provocá-lo.
Segundo a zona de que se tratasse, Vulcano tinha, para os romanos,
um ou outro sentido. Por exemplo, nas regiões de Lípari, Sicília e Etrúria, era reconhecido como
deus do
fogo e como o forjador de ferro que ninguém podia imitar. Habitava nas entranhas do vulcão Etna, e nas suas profundidades tinha a ígnea forja alimentada com inumeráveis fornos onde o
fogo permanecia continuamente vivo.
Nalguns dos territórios conquistados pelos romanos, por exemplo na Gália, adorava-se Vulcano também como
deus do
fogo, e como personificação dos vulcões, os raios e a luz cegadora de Hélios /Sol. O que indicaria, em qualquer caso, o mimetismo dos vencidos com
respeito aos conquistadores dos seus territórios.
HEFESTO /VULCANO NA ARTE
A iconografia da deidade que estamos considerando, e há suficientes provas disso, representa Hefesto /Vulcano quase sempre com uma figura cuja coxeira não aparece por nenhum lado. Até ao ponto em que as primeiras manifestações artísticas do
deus podem dar lugar a confusões, dado que este aparece com a figura duma pessoa cheia de força e geralmente com o rosto coberto por uma barba comprida. Nas suas mãos costuma portar umas tenazes enormes ou
um martelo.
Em outras ocasiões, os seus atributos também costumam ser a bigorna e o
fogo; assim aparece em algumas das pequenas esculturas de bronze que se conservam nos museus de Berlim, Londres e Vaticano.
Outra das representações mais freqüentes de Hefesto /Vulcano é aquela em que aparece relacionado com as crateras, ou enormes ânforas, que continham o doce néctar reservado aos deuses do Olimpo. Também, em ocasiões, aparece representada a cena em que Hefesto /Vulcano se dirige para o Olimpo: a sua figura aparenta certa alegria devida ao vinho que Dionísio lhe ofereceu.
Contudo, a mais conhecida representação de Hefesto /Vulcano é aquela que aparece no famoso quadro de Velázquez – e que se conserva no Museu do Prado de Madri – intitulado “A Forja de Vulcano”. No conjunto pode observar-se como Hélios /Sol informa o “ilustre Coxo” da infidelidade da sua
esposa Afrodite.
Entre os gregos era muito comum representar Hefesto nas suas moedas. E era adorado em algumas das cidades mais destacadas daqueles tempos. Na região de Meandros, por exemplo, era invocado nos diferentes cultos e faziam-se procissões em sua honra. Outros centros importantes onde se adorava o
deus Hefesto /Vulcano eram as regiões do Olimpo, Atenas e as ilhas Lípari. A moeda cunhada com a sua efígie provinha de algumas destas cidades.
Às vezes, também apareceu a deidade que estamos considerando mencionada em inscrições relacionadas com os famosos Mistérios e, dado que a ilha de Lenos é citada nas obras de Homero como
um dos lugares onde Hefesto morou e amou, diz-se que foi lá onde o seu culto teve mais arraigo.