Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Anglicana Inglesa: Diferenças, Doutrinas e Situação Atual
Introdução
A Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Anglicana são duas das mais antigas e influentes tradições cristãs no mundo ocidental. Embora compartilhem raízes históricas comuns e alguns elementos litúrgicos e doutrinais semelhantes, as duas tradições divergem significativamente em questões de autoridade, teologia sacramental, estrutura eclesiástica e visão do magistério.
Este artigo busca apresentar uma análise detalhada das diferenças históricas, doutrinais e institucionais entre a Igreja Católica e a Igreja Anglicana , bem como uma reflexão sobre a situação atual de suas relações e desafios contemporâneos.
Contexto Histórico: O Rompimento com Roma
A Origem da Igreja Anglicana
A Igreja da Inglaterra (Igreja Anglicana) surgiu oficialmente no século XVI durante o reinado de Henrique VIII , como resultado de um conflito pessoal e político com o Papa Clemente VII.
- Henrique solicitou ao Papa a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, que não lhe dera um herdeiro do sexo masculino.
- O Papa recusou, temendo ofender o Sacro Imperador Romano Carlos V, sobrinho de Catarina.
- Em 1534, Henrique promulgou o Ato de Supremacia , declarando-se “único chefe supremo” da Igreja na Inglaterra, rompendo assim com a autoridade do Papa.
Esse rompimento não foi motivado por razões teológicas , mas sim políticas e pessoais. No entanto, nos anos seguintes, especialmente durante o reinado de Rainha Elizabeth I , a Igreja Anglicana desenvolveu uma identidade teológica própria, combinando elementos católicos e reformistas.
Estrutura e Autoridade
Igreja Católica: Centralizada e Hierárquica
- Autoridade central: O Papa é considerado o sucessor de São Pedro e detém a suprema autoridade doutrinal e pastoral na Igreja.
- Magistério: Composto pelo Papa e pelos bispos em comunhão com ele; responsável por interpretar a Palavra de Deus com autoridade infalível.
- Organização hierárquica: Bispos, padres e diáconos formam uma hierarquia clara e definida.
Igreja Anglicana: Colegial e Descentralizada
- Não reconhece a autoridade do Papa.
- É organizada em torno de uma estrutura episcopal colegial , com autonomia significativa para cada província local.
- O Arcebispo de Canterbury é visto como “primus inter pares” (primeiro entre iguais), mas não possui autoridade universal ou infalível.
- Dividida em comunhões autônomas dentro da Comunhão Anglicana , que inclui cerca de 80 milhões de fiéis em todo o mundo.
Diferenças Teológicas e Doutrinais
1. Fonte da Autoridade Religiosa
2. Sacramentos
3. Eucaristia (Santa Ceia / Missa)
4. Maria e os Santos
5. Ordem Sacerdotal
6. Matrimônio e Moral Sexual
Correntes Internas na Igreja Anglicana
A Igreja Anglicana é caracterizada pela coexistência de diversas correntes teológicas:
- Altos-irmãos (High Church) – mais próximos do catolicismo, valorizam rituais tradicionais, ordem sacerdotal e continuidade com a tradição apostólica.
- Médios-irmãos (Broad Church) – tendem ao liberalismo teológico e à ênfase na razão e na ética.
- Baixos-irmãos (Low Church) – mais evangélicos, focados na Bíblia e na salvação pela fé.
Essa pluralidade torna difícil uma posição única sobre muitas questões doutrinais.
Diálogo Ecumênico e Relações Contemporâneas
Apesar das diferenças, diálogos oficiais entre a Igreja Católica e a Igreja Anglicana têm ocorrido desde o Concílio Vaticano II.
Principais Iniciativas:
- Relatório ARCIC (Anglican-Roman Catholic International Commission) : grupo criado em 1967 para promover diálogo teológico. Publicou documentos importantes sobre eucaristia, ministério e moral.
- Carta Anglicanorum Coetibus (2009) : documento do Papa Bento XVI que permitiu a criação de ordinariatos pessoais para grupos anglicanos que desejavam retornar à comunhão com Roma, mantendo sua liturgia e tradição.
Obstáculos para a Reconciliação
- Ordenação de mulheres e pessoas LGBTQ+ : a Igreja Católica não reconhece essas ordenações como válidas.
- Diferenças sobre a autoridade papal e a infalibilidade .
- Divergências sobre moral sexual e família .
Situação Atual
Igreja Católica
- Presente em todos os continentes, com cerca de 1,3 bilhão de fiéis .
- Continua firme em seus dogmas tradicionais, embora com uma postura mais aberta e pastoral sob o pontificado do Papa Francisco.
- Tem buscado diálogo com outras tradições cristãs, inclusive com a Igreja Anglicana.
Igreja Anglicana
- Cerca de 85 milhões de fiéis em todo o mundo, principalmente em países de língua inglesa.
- Passa por tensões internas , especialmente entre os ramos mais conservadores (África) e os mais liberais (Europa e América do Norte).
- Em 2022, uma grande conferência global (Lambeth Conference) mostrou divisões profundas sobre questões como ordenação de mulheres e bênçãos para casais homoafetivos.
Considerações Finais
A relação entre a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Anglicana reflete tanto a riqueza quanto a complexidade do cristianismo ocidental. Apesar de terem se separado por razões políticas, hoje suas diferenças envolvem questões profundas de autoridade, moralidade e compreensão da fé .
Embora o caminho para a plena unidade continue distante, o diálogo teológico, a cooperação em causas sociais e o respeito mútuo continuam sendo sinais de esperança para o futuro.
Ivair Ximenes Lopes
Referências Bibliográficas
- Anglican-Roman Catholic International Commission (ARCIC) – Documentos oficiais
- Catecismo da Igreja Católica (CIC)
- The Book of Common Prayer (1662 e versões posteriores)
- Congregation for the Doctrine of the Faith – Declarações sobre ecumenismo
- Pope Benedict XVI – Carta Anglicanorum Coetibus (2009)
- Jenkins, Philip. The Next Christendom: The Coming of Global Christianity . Oxford University Press, 2002.
- Duffy, Eamon. Saints and Sinners: A History of the Popes . Yale University Press, 2002.

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
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No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











