Deísmo e Teísmo na Maçonaria: Diferenças e Influência nos Ritos Maçônicos
Introdução
A questão da crença em Deus é central na Maçonaria, especialmente no que diz respeito ao seu caráter universal e inclusivo. Dois conceitos fundamentais costumam surgir nesse contexto: deísmo e teísmo .
Essas visões sobre a divindade moldaram não apenas as práticas filosóficas da Ordem, mas também os ritos maçônicos , influenciando sua formação e desenvolvimento ao longo dos séculos XVIII e XIX.
Este artigo busca esclarecer as diferenças entre deísmo e teísmo , bem como analisar quais ritos maçônicos são historicamente mais próximos de uma ou outra corrente, com base em doutrinadores renomados e documentos históricos.
I. Deísmo e Teísmo – Definições Filosóficas
1. O Que é o Deísmo?
O deísmo é uma corrente filosófica que surgiu principalmente durante o Iluminismo , no século XVIII. Afirma a existência de um Deus criador do universo , dotado de inteligência e ordem, mas que não intervém diretamente nos assuntos humanos .
Características principais:
- Crença em um Deus racional e impessoal
- Rejeição de revelações sobrenaturais
- Valorização da razão e da natureza como fontes de conhecimento divino
“O deísta reconhece um princípio ordenador do universo, mas não aceita dogmas religiosos nem intervenção divina nos eventos terrenos.”
Fonte: Manly P. Hall , Os Mistérios da Livre-Maçonaria .
2. O Que é o Teísmo?
O teísmo , por outro lado, pressupõe a existência de um Deus pessoal , ativo e interessado nos destinos humanos . Essa visão é comum nas religiões monoteístas (cristianismo, islamismo e judaísmo), embora possa ser adotada independentemente de uma religião específica.
Características principais:
- Deus é pessoal e transcendente
- Intervém na história humana
- Relaciona-se com o homem por meio de revelações ou experiências espirituais
“O teísmo pressupõe um relacionamento ativo entre o homem e o Ser Supremo.”
Fonte: Herculano Pires , Introdução ao Estudo da Maçonaria Universal .
II. A Questão do “Ser Supremo” na Maçonaria
Um dos princípios básicos da Maçonaria é a exigência de crença em um Ser Supremo , sem imposição de dogma específico. Isso permite que membros de diferentes tradições religiosas — cristãos, judeus, muçulmanos, hindus, deístas etc. — convivam fraternalmente.
Porém, dentro dessa pluralidade, há distinção entre rituais e sistemas que tendem para o modelo deísta e outros que se aproximam do modelo teísta .
“A Maçonaria exige fé em um Ser Supremo, mas não impõe dogmas; daí a coexistência de deístas e teístas dentro da Ordem.”
Fonte: Carlos Torres Pastorino , Maçonaria – Doutrina e Prática .
III. Ritos Maçônicos Deístas
Alguns ritos e correntes maçônicas refletem claramente a influência do racionalismo iluminista , característico do deísmo.
1. Rito Inglês ou Moderno (Grande Loja da Inglaterra)
Fundado em 1717, este rito foi fortemente influenciado pelo ambiente intelectual londrino do século XVIII, marcado pelo deísmo. Seus textos iniciais evitavam referências explícitas a Jesus Cristo ou à Bíblia, enfatizando um Deus racional e abstrato.
“A Grande Loja da Inglaterra, desde sua fundação, mantinha uma postura deísta e ecumênica, aberta a todos os homens de bem.”
Fonte: José Antonio Leme Lopes , História Geral da Maçonaria .
2. Rito Escocês Rectificado
Embora tenha uma orientação moral forte, este rito, desenvolvido na Alemanha no século XVIII, manteve certa neutralidade religiosa, permitindo a presença de membros de várias confissões e tendências.
IV. Ritos Maçônicos Teístas
Outros ritos e correntes manifestam claramente uma visão teísta , com ênfase na relação pessoal com Deus e até mesmo referências explícitas ao cristianismo.
1. Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA)
Desenvolvido no final do século XVIII e sistematizado por Albert Pike no século XIX, o REAA tem uma forte influência cristã oculta , especialmente no Brasil e em países latino-americanos.
“O Rito Escocês Antigo e Aceito, embora oficialmente não confessional, incorpora muitos símbolos e valores cristãos em seus graus superiores.”
Fonte: Luiz Carlos Lisboa , Maçonaria – História e Fundamentos .
2. Rito Frances ou Emulação
Mais popular na França e em países latinos, o Rito Francês valoriza a liberdade religiosa, mas frequentemente apresenta uma visão teísta, com uso frequente da Bíblia e referências a Jesus Cristo.
“O Rito Francês, embora laico, mantém uma linguagem simbólica que se aproxima do teísmo cristão.”
Fonte: Armando Righetto , Maçonaria – Ciência, Filosofia e Arte .
3. Rito Brasileiro
Desenvolvido no Brasil no início do século XIX, o Rito Brasileiro tem uma forte influência teísta e católica, sendo considerado por muitos como uma adaptação local do Rito Escocês com características específicas da cultura brasileira.
“O Rito Brasileiro, embora não seja confessionário, reflete claramente uma visão teísta, enraizada na cultura católica brasileira.”
Fonte: Paulo S. R. Carvalho , O Simbolismo Maçônico .
V. A Convivência Pacífica entre Deístas e Teístas na Maçonaria
Apesar das diferenças, a Maçonaria sempre buscou manter um equilíbrio entre essas correntes, garantindo que o espaço maçônico fosse de diálogo e não de confronto religioso.
“A Maçonaria não é religião, mas espaço de reflexão e convivência fraterna entre homens de diferentes crenças.”
Fonte: Joseph Fort Newton , The Builders – A Story and Study of Freemasonry .
Isso é possível porque a Maçonaria privilegia os valores éticos e simbólicos acima das doutrinas dogmáticas, promovendo a união pela virtude, e não pela fé específica.
VI. Conclusão
A diferença entre deísmo e teísmo na Maçonaria reflete as diversas correntes filosóficas que influenciaram a Ordem ao longo de sua história. Enquanto alguns ritos, como o Rito Inglês , refletem uma visão deísta, racionalista e universalista, outros, como o Rito Escocês Antigo e Aceito e o Rito Brasileiro , assumem uma postura mais próxima do teísmo cristão .
Essa pluralidade é uma das maiores riquezas da Maçonaria, permitindo que homens de diferentes origens e crenças compartilhem um mesmo ideal de liberdade, igualdade e fraternidade .
Como ensina Manly P. Hall :
“A Maçonaria é uma ponte entre o humano e o divino, onde cada um caminha segundo sua luz interior.”
Fonte: Manly P. Hall , Os Mistérios da Livre-Maçonaria .
Ivair Ximenes Lopes
VII. Referências Bibliográficas e Fontes Consultadas
- Hall, Manly P. Os Mistérios da Livre-Maçonaria . Ed. Pensamento, SP, 1990.
- Pires, Herculano. Introdução ao Estudo da Maçonaria Universal . IBRASA, São Paulo, 1995.
- Pastorino, Carlos Torres. Maçonaria – Doutrina e Prática . GOB, São Paulo, 1976.
- Lopes, José Antonio Leme. História Geral da Maçonaria . Editora Pensamento, São Paulo, 2002.
- Lisboa, Luiz Carlos. Maçonaria – História e Fundamentos . Editora Madras, São Paulo, 2005.
- Newton, Joseph Fort. The Builders – A Story and Study of Freemasonry . Macoy Publishing, Richmond, 1914.
- Mansur, Alberto. Ética e Liberdade na Maçonaria . Editora Teológica, 2008.
- Righetto, Armando. Maçonaria – Ciência, Filosofia e Arte . Madras, São Paulo, 2007.
- Carvalho, Paulo S. R. O Simbolismo Maçônico . Editora Pensamento, São Paulo, 2001.
- Benimelli, Pe José A.F. Maçonaria – Segredos e História . Editora Madras, 2003.

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











