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John Tillotson (1630–1694): O Arcebispo da Tolerância, Pregador da Razão e Estilista do Sermão Inglês

John Tillotson (1630–1694)

John Tillotson (1630–1694): O Arcebispo da Tolerância, Pregador da Razão e Estilista do Sermão Inglês

(i) Ximenes

Introdução 

Há muitos anos, ao folhear os arquivos da literatura inglesa do século XVII, deparei-me com um nome recorrente nos tratados sobre a arte da pregação: John Tillotson. O que me chamou a atenção, desde o início, foi o contraste fascinante entre a sua origem humilde — filho de um modesto comerciante de tecidos puritano — e a posição mais alta que poderia ocupar na Igreja da Inglaterra, o arcebispado de Cantuária.

Ao longo da minha pesquisa, fui descobrindo que Tillotson foi muito mais do que um simples clérigo de sucesso. Ele foi, no melhor sentido da palavra, um pacificador numa época profundamente dividida pela religião. Nascido no seio do puritanismo, testemunha das guerras civis e do regime de Cromwell, Tillotson acabou por abraçar uma visão moderada e conciliatória do cristianismo que lhe valeu o epíteto, nem sempre amigável, de “latitudinário”. A sua arma não era a controvérsia teológica, mas a pregação clara, racional e prática. Os seus sermões, que rejeitavam o estilo metafísico e floreado dos seus antecessores, foram lidos e admirados por toda a Inglaterra, tornando-se modelos de lucidez e bom senso.

Neste artigo, procuro reconstituir a trajetória deste homem notável: desde a sua formação em Cambridge, passando pela sua ascensão na hierarquia eclesiástica e o seu breve mas influente arcebispado, até à sua morte prematura. Para além da biografia, examinarei as suas principais obras, destacarei algumas curiosidades que revelam a sua personalidade e analisarei o seu legado duradouro, que moldou a cultura e a religião inglesas do século XVIII.

I. Biografia

Origens humildes e formação em Cambridge

John Tillotson nasceu em outubro de 1630 em Haughend, Sowerby, no condado de Yorkshire, na Inglaterra. Filho de Robert Tillotson (falecido em 1683), um modesto comerciante de tecidos e fervoroso puritano. Os puritanos eram um grupo protestante que defendia a simplificação da Igreja da Inglaterra, livrando-a do que consideravam ser os excessos católicos. Apesar da sua origem simples, o pai de Tillotson proporcionou-lhe uma boa educação.

Frequentou a Colne Grammar School e, em 1647, ingressou como pensioner (estudante bolseiro) no Clare Hall da Universidade de Cambridge. Em Cambridge, teve como tutor David Clarkson, um ministro puritano. Tillotson revelou-se um aluno brilhante: graduou-se com o título de Bachelor of Arts (BA) em 1650 e, no ano seguinte, foi eleito fellow do seu colégio. Mais tarde, obteve o título de Master of Arts (MA) em 1654.

A sua estadia em Cambridge foi crucial para a sua formação intelectual e religiosa. Embora tivesse nascido num ambiente puritano, o contacto com obras como The Religion of Protestants (1638) de William Chillingworth, que defendia a Bíblia como única regra de e criticava o dogmatismo, afastou-o gradualmente das posições mais radicais do puritanismo. Foi também em Cambridge que travou conhecimento com os chamados “platonistas de Cambridge” (como Ralph Cudworth), que influenciaram a sua ênfase na razão e na moral.

Carreira eclesiástica e consolidação do latitudinarismo

Em 1656, Tillotson tornou-se tutor do filho de Sir Edmund Prideaux, procurador-geral de Oliver Cromwell, o que lhe garantiu importantes contactos políticos. Por volta de 1661, foi ordenado sem subscrição (ou seja, sem aderir formalmente a todos os artigos da Igreja da Inglaterra) por Thomas Sydserf, um bispo escocês.

Tillotson esteve presente na Conferência de Savoy (1661), um encontro entre anglicanos e presbiterianos na tentativa falhada de rever o Livro de Oração Comum. Até à aprovação do Ato de Uniformidade (1662), Tillotson identificou-se com os presbiterianos. Contudo, com a aprovação do ato, que impunha a conformidade com a Igreja da Inglaterra sob pena de expulsão, Tillotson submeteu-se às suas exigências, optando por permanecer na Igreja estabelecida.

Após a sua ordenação, dedicou-se ao estudo exaustivo da Bíblia, dos éticos antigos e dos escritos dos primeiros padres da Igreja, especialmente Basílio e Crisóstomo. Esta leitura teve um impacto decisivo no seu estilo de pregação, que se tornou prático, moral e racional, em vez de teológico e especulativo. Pouco depois, tornou-se coadjutor (curate) em Cheshunt e, em junho de 1663, reitor de Kedington, Suffolk. No mesmo ano, foi nomeado pregador da conceituada sociedade jurídica de Lincoln’s Inn, em Londres, uma posição de grande prestígio que lhe permitiu demonstrar as suas qualidades oratórias.

Em 1664, casou com Elizabeth French, sobrinha de Oliver Cromwell, o que o ligou à influente família Wilkins. O mesmo ano, foi nomeado Tuesday lecturer na igreja de St Lawrence Jewry. Em 1670, foi nomeado prebendary (cónego) da Catedral de Cantuária e, em 1672, dean (deão) de Cantuária. Entre 1675 e 1678, foi também cónego da Catedral de São Paulo, em Londres.

A amizade com os grandes e o caminho para Cantuária

Tillotson gozou da amizade e proteção de algumas das figuras mais influentes do seu tempo. Foi capelão do rei Carlos II. A sua proximidade aos círculos do poder aumentou quando, em 1683, acompanhou o bispo Gilbert Burnet ao cadafalso de Lorde William Russell, condenado por envolvimento na Conspiração Rye House. A partir daí, tornou-se amigo e conselheiro da viúva, Lady Rachel Russell, que, por sua vez, o apresentou à princesa Ana, futura rainha. Foi em grande parte através da sua influência que a princesa Ana aceitou a sucessão de Guilherme de Orange, o que lhe valeu a confiança do novo casal real.

Após a Revolução Gloriosa de 1688 e a subsequente deposição do católico Jaime II, o arcebispo de Cantuária, William Sancroft, recusou prestar juramento de fidelidade a Guilherme III e Maria II, sendo suspenso. Em agosto de 1689, o capítulo da catedral nomeou Tillotson para exercer a jurisdição arquiepiscopal durante a suspensão de Sancroft, sendo também nomeado deão da Catedral de São Paulo. Pouco depois, foi eleito para suceder a Sancroft, mas aceitou a nomeação com extrema relutância, adiando a sua posse até abril de 1691.

Arcebispo de Cantuária e morte prematura

O mandato de Tillotson como arcebispo foi curto (1691–1694), mas deixou uma marca. Procurou reformar certos abusos na Igreja, em especial a prática de os clérigos residirem fora das suas paróquias (nonresidence), o que lhe granjeou inimizades. Os seus esforços para reconciliar os dissidentes protestantes com a Igreja da Inglaterra e a sua tolerância para com outras confissões foram mal vistos pelos setores mais conservadores e pelos jacobitas, que o perseguiram com insultos até ao fim da vida.

Em 1693, publicou quatro sermões sobre a controvérsia sociniana, defendendo a ortodoxia da doutrina da Trindade contra os que a negavam. Tillotson morreu a 22 de novembro de 1694, aos sessenta e quatro anos. Foi sepultado na igreja de St Lawrence Jewry, em Londres, onde tinha sido lecturer, e não na Catedral de São Paulo.

II. Obras e Estilo de Pregação

Tillotson foi um autor prolífico, mas a sua obra resume-se essencialmente a três tipos de produção: os sermões, os escritos polémicos e os tratados teológicos.

1. Os Sermões

Os sermões de Tillotson são a sua principal contribuição para a literatura e a teologia inglesas. Foram publicados em vida e, postumamente, em múltiplas edições, alcançando uma popularidade imensa.

A coleção canónica das suas obras completas, publicada postumamente, contém 254 sermões e discursos sobre várias ocasiões. Esta vasta coleção foi organizada em dez volumes, com uma Vida do Autor escrita pelo historiador Thomas Birch. Os seus sermões cobrem uma grande variedade de temas teológicos, morais e práticos, desde a natureza de Deus (bondade, misericórdia, poder, eternidade) até à necessidade do arrependimento, da e da imortalidade da alma.

Estilo de pregação
O estilo de Tillotson representou uma rutura radical com o que o precedeu. Os seus sermões, que se tornaram modelos de lucidez e bom senso, mostravam uma diferença marcante em relação ao estilo metafísico e rebuscado de pregadores como John Donne e Lancelot Andrewes.

Os contemporâneos elogiaram a sua clareza e simplicidade. Como escreveu Gilbert Burnet: “Os seus sermões foram tão bem ouvidos e apreciados, e tão lidos, que toda a nação o propôs como modelo e estudou para o imitar”. Tillotson ganhou a reputação de “ter levado a pregação à perfeição”. O seu estilo, notável pela simplicidade e clareza, refletia a sua própria candura e sinceridade.

2. Outras Obras

  • The Rule of Faith (A Regra da ), 1666: Uma resposta ao jesuíta John Sergeant, que defendia a tradição oral como regra de . Tillotson argumentou que a Escritura é a única regra de suficiente e clara.

  • Sermons (1682): Uma coleção dos seus sermões publicados em vida, com um prefácio em que defende o seu amigo John Wilkins contra acusações de plágio.

  • Four Lectures on the Socinian Controversy (Quatro Sermões sobre a Controvérsia Sociniana, 1693): Obra em que refuta as doutrinas antitrinitárias.

  • The Works of John Tillotson (Obras Completas): A coleção póstuma que inclui os 254 sermões e outros escritos, publicada em várias edições nos séculos XVIII e XIX.

III. O Legado Teológico: O Latitudinarismo e a Razão Cristã

1. O Latitudinarismo

Tillotson foi uma das principais figuras do movimento conhecido como latitudinarismo, uma corrente teológica moderada que ganhou força na Igreja da Inglaterra após a Restauração (1660). Os latitudinários defendiam uma teologia racional, prática e tolerante, minimizando as diferenças doutrinárias e enfatizando a conduta moral como núcleo da religião.

A visão eclesiológica (sobre a Igreja) de Tillotson, que estudou detalhadamente, assentava na caridade como virtude central. Para ele, o que distinguia a Igreja da Inglaterra tanto da Igreja de Roma como das comunidades dissidentes era a caridade. A sua visão era a de uma comunidade nacional cristã fundada no amor e na unidade, defendendo que “todos os verdadeiros seguidores de Jesus devem obedecer ao seu mandamento principal: amar uns aos outros e viver em unidade”.

2. O Recurso à Razão

Tillotson era um entusiasta do uso da razão na religião. Defendia que a crença em Deus devia estar baseada em argumentos racionais e que era necessário compreender a lógica da para adorar corretamente a divindade. Esta abordagem valeu-lhe a acusação de “racionalista” que minava a tradicional.

No entanto, investigações mais recentes sugerem que o racionalismo de Tillotson tinha um propósito apologético, sendo usado para defender os elementos sobrenaturais do cristianismo tradicional, em vez de os minar. A sua verdadeira ênfase recaía na prática do amor cristão, em vez da defesa racional das doutrinas.

3. Influência no Pensamento Britânico

A ênfase de Tillotson na razão e na religião natural influenciou não apenas os seus contemporâneos, mas também pensadores posteriores. John Locke adotou ideias semelhantes, e a influência de Tillotson foi sentida no deísmo do século XVIII. Como argumenta um estudo recente, Tillotson e os latitudinários, ao promoverem um comportamento cristão virtuoso e tolerante, contribuíram para tornar a sociedade britânica mais educada e benevolente, influenciando a cultura e a religião do século XVIII de formas subestimadas.

IV. Curiosidades

1. A “Latitude” que irritou os puritanos. Tillotson foi acusado de “latitude” e de não dar tratamento especial a nenhum credo específico, irritando os puritanos mais radicais.

2. O casamento com uma sobrinha de Cromwell. Em 1664, casou com Elizabeth French, filha de um cónego de Christ Church, Oxford, e sobrinha de Oliver Cromwell. Este casamento ligou-o à influente família Wilkins, já que a sua sogra casou em segundas núpcias com John Wilkins, tutor de Tillotson e importante figura da ciência e da religião.

3. A relação com Lorde Russell e a princesa Ana. A sua coragem ao acompanhar Lorde Russell ao cadafalso e a sua posterior amizade com a viúva, Lady Russell, granjearam-lhe a confiança da princesa Ana, que seguiu os seus conselhos quanto à sucessão de Guilherme de Orange.

4. A relutância em ser arcebispo. Tillotson aceitou o cargo de arcebispo com extrema relutância, adiando a sua posse o máximo que pôde (até abril de 1691). Preferia, ao que parece, os estudos e a pregação às lides administrativas e políticas.

5. A confusão com o cantor Johnny Tillotson. O seu apelido é frequentemente confundido com o do cantor norte-americano Johnny Tillotson (n. 1938), famoso nos anos 1950 e 1960, o que tem gerado algumas situações curiosas.

6. O legado na pregação. Tillotson foi um dos primeiros pregadores a afastar-se do estilo metafísico e a adotar um estilo claro, direto e racional, o que lhe valeu a reputação de “ter levado a pregação à perfeição”.

V. Conclusão

John Tillotson foi um homem que superou as suas origens puritanas para se tornar um dos líderes religiosos mais influentes da sua época. A sua trajetória reflete as transformações profundas da Inglaterra pós-Revolução Gloriosa: a transição do radicalismo religioso para um cristianismo moderado, tolerante e racional.

O seu legado reside, acima de tudo, na sua pregação. Os seus sermões, lidos e admirados por toda a nação, fixaram um novo padrão de clareza, bom senso e moralidade prática que moldaria a cultura religiosa inglesa do século XVIII. A sua defesa da caridade como virtude central da Igreja e a sua ênfase na razão como auxiliar da foram contribuições originais que o distinguem tanto dos puritanos radicais como dos católicos intransigentes.

Tillotson não foi um teólogo original, nem um inovador profundo. Foi, antes, um harmonizador, um pacificador, um homem que procurou construir pontes onde havia abismos. A sua vida e a sua obra ensinam-nos que, mesmo em tempos de violenta controvérsia religiosa, a moderação, a tolerância e a aposta na razão podem ser caminhos fecundos para a construção de uma sociedade mais justa e mais humana.

Pesquisa e redação: Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • CCEL (Christian Classics Ethereal Library)Author info: John Tillotson. (Consulta em maio de 2026).

  • CCEL (Christian Classics Ethereal Library)The Works of Dr. John Tillotson, Vol. VII. (Consulta em maio de 2026).

  • JOO, Euidon*The Theology of John Tillotson (1630-1694) and Latitudinarianism in England* (Tese de Doutoramento). Bangor University, 2019. (Research Portal, Bangor University).

  • JOO, EuidonThe Latitudinarian Ecclesiology of John Tillotson, Archbishop of Canterbury. Korean Journal of British Studies, 2025. (KCI – Korean Journal Database).

  • Kiddle EncyclopediaJohn Tillotson facts for kids. (Consulta em maio de 2026).

  • Oxford ReferenceJohn Tillotson (1630—1694), archbishop of Canterbury. (Consulta em maio de 2026).

  • RIVERS, IsabelTillotson, John (1630–1694), archbishop of Canterbury. Oxford Dictionary of National Biography. (Referência em: Book Owners Online).

  • Texas A&M University LibrariesThe works : of the Most Reverend Dr. John Tillotson, … containing two hundred and fifty four sermons and discourses on several occasions. (Catálogo online).

  • Wikipedia, The Free EncyclopediaJohn Tillotson (Redirected from Tillotsonian). (Consulta em maio de 2026).

  • Wikisource (Encyclopædia Britannica, Ninth Edition)John Tillotson. (Consulta em maio de 2026).

  • WorldCat IdentitiesThe Works of Dr. John Tillotson, late Archbishop of Canterbury : with the life of the author, by Thomas Birch. (Consulta em maio de 2026).

  • Book Owners Online*John Tillotson 1630-1694*. (Consulta em maio de 2026).

  • Book Owners Online*Difference between revisions of “John Tillotson 1630-1694”*. (Consulta em maio de 2026).

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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