Ao longo dos meus estudossobre as figuras mais controversas do período da Reforma, poucas me provocaram tantas questões quanto Thomas Müntzer. Como é possível que um teólogo, discípulo de Lutero e mestre em artes, se tornasse o arauto da insurreição mais sangrenta do século XVI? Como umhomem que dominava o latim, o grego e o hebraico podia escrever panfletos tão incendiários que ainda hoje parecem queimar as mãos de quem os lê? E, afinal, o que moveu Müntzer — a inspiração divina de um profeta, a fúria desesperada de um camponês ou a coerência trágica de um místico que quis construir o céu na terra a golpes de espada?
Nesta pesquisa, não procuro apresentar um santo nem um demónio. Procuro, antes, reconstituir a trajetória de umhomem que, num momento de fendas tectónicas na história europeia, ousou acreditar que a vontade de Deus devia ser imposta aqui e agora, sem compromissos com os poderosos. Esta é a história de Thomas Müntzer: teólogo, revolucionário, místico, herege e, acima de tudo, símbolo de uma esperança tão radical que só poderia terminar em sangue.
Thomas Müntzer nasceu no final de 1489 ou início de 1490 na pequena cidade de Stolberg, nas Montanhas Harz, na Alemanha central. Ao contrário da lenda — difundida por Friedrich Engels no século XIX — de que o seu pai fora executado pelas autoridades feudais, há razões para supor que Müntzer teve uma origem confortável e uma educação prolongada. Ambos os pais ainda estavam vivos em 1520, e a sua mãe faleceu por essa altura.
A sua formação foi notável para a época. Em 1506, matriculou‑se na Universidade de Leipzig e, no final de 1512, ingressou na Universidade Viadrina em Frankfurt an der Oder. Obteve o grau de bacharel em Teologia e o título de mestre em artes (Magister Artium). Foi nestas universidades que desenvolveu um profundo domínio do latim, do grego antigo e do hebraico, línguas que lhe permitiram aceder diretamente às Escrituras no seu original.
Em 1514, tornou‑se padre católico em Brunswick, onde começou a questionar as práticas e os ensinamentos da Igreja.
Müntzer tornou‑se seguidor de Martinho Lutero, que o recomendou para um cargo em Zwickau, na Saxónia. Em 1520, tornou‑se pregador na principal igreja da cidade, onde a sua eloquência rústica e os seus ataques aos monges rapidamente lhe granjearam influência.
Em Zwickau, Müntzer associou‑se a Nikolaus Storch, um tecelão que afirmava receber revelações divinas. Juntamente com Storch, formou uma sociedade entre os tecelões, cujos membros acreditavam em sonhos, visões e inspirações divinas, rejeitando o batismo infantil. Esta ligação com os chamados “Profetas de Zwickau” foi decisiva para o seu afastamento progressivo de Lutero.
O conselho municipal, que inicialmente apoiara Müntzer, acabou por considerar as suas ideias revolucionárias perigosas para a paz pública, prendendo muitos dos seus seguidores. Müntzer foi forçado a deixar Zwickau.
Em 1521, rumou a Praga, onde redigiu umdocumento que ficaria conhecido como o Manifesto de Praga (ou “Protesto de Praga”), um apelo incendiário à revolta contra “a prostituta da Babilónia” — a Igreja de Roma. Neste escrito, evocava um cenário apocalíptico em que Cristo e o Anticristo reuniam os seus exércitos para a batalha final.
Allstedt: A Ruptura com Lutero e as Reformas Litúrgicas (1523–1524)
Na Páscoa de 1523, Müntzer chegou a Allstedt e foi nomeado pregador da igreja de São João, onde introduziu extensas alterações nos serviços religiosos. Foi o primeiro a substituir o latim pelo alemão nas orações públicas e no canto. Compôs um diretório para o culto, em harmonia com as suas ideias de reforma, determinando que o batismo infantil fosse administrado na presença da igreja (em vez de em privado) e que a liturgia baptismal fosse em alemão.
Foi também em Allstedt que Müntzer organizou aqueles que considerava verdadeiramente regenerados numa sociedade separada, cujos membros praticavam a comunidade de bens e visavam a derrubada da hierarquia e do despotismo.
A sua violência verbal despertou a hostilidade de Lutero, que o apelidou de “Satanás de Allstedt” e escreveu contra ele. Em retaliação, Müntzer denunciou publicamente o ensino de Wittenberg.
A 13 de julho de 1524, Müntzer proferiu na capela do Castelo de Allstedt o seu famoso Sermão aos Príncipes (Fürstenpredigt), dirigido ao duque João da Saxónia e ao seu filho JoãoFrederico. Neste sermão, atacou com veemência a autoridade da Igreja e do Império, exortou os príncipes a não resistirem à Reforma e denunciou as injustiças sociais. Advogou pela primeira vez o direito do “homem comum” à autodeterminação.
Perante a crescente oposição dos príncipes saxónicos e do próprio Lutero, Müntzer foi obrigado a deixar Allstedt no verão de 1524.
Expulso de Allstedt, Müntzer refugiou‑se em Nuremberga, onde escreveu um violento panfleto contra Lutero. Depois, dirigiu‑se a Basileia, onde se reuniu com o reformador Oecolampadius, e a Waldshut, onde exerceu uma influência considerável sobre os homens que pouco depois iniciariam a Guerra dos Camponeses.
Regressou à Turíngia no início de 1525 e instalou‑se como cura em Mühlhausen, onde o pregador Heinrich Pfeiffer já difundia doutrinas semelhantes. O conselho municipal, que se opusera à sua instalação, foi deposto, e um novo conselho, inteiramente controlado por Müntzer e Pfeiffer, tomou posse.
Em Mühlhausen, Müntzer organizou umgrupo chamado “Aliança Eterna de Deus” e, após a derrubada do conselho governante em março de 1525, formou-se o que os insurgentes designaram por “conselho eterno”.
Müntzer pregava “uma república mística e universal” e, mais do que isso, “uma completa comunidade de bens” — a abolição da propriedade privada e o regresso a uma forma de comunismo primitivo. Defendia a igualdade absoluta entre todos os homens e a expulsão dos ricos das cidades. A sua visãoera a de uma sociedade sem classes sociais e sem propriedade privada, um “reinado de Deus” na terra.
A Batalha de Frankenhausen, a Captura e a Execução (Maio de 1525)
Quando a Guerra dos Camponeses deflagrou no sul da Alemanha, Müntzer convocou o povo a levantar‑se e a assegurar a sua liberdade, ameaçando vingança sobre todos os que lhes resistissem. Os seus panfletos e cartas eram assinados “Thomas Müntzer, servo de Deus contra os ímpios” ou “Thomas Müntzer, com a espada de Gideão”.
Decidido a juntar‑se à revolta camponesa, Müntzer assumiu o comando de um exército de cerca de sete mil camponeses mal equipados e inexperientes.
Em 15 de maio de 1525, na Batalha de Frankenhausen, as forças camponesas, acampadas numa posição fortificada, foram aniquiladas pelos exércitos do Eleitor João da Saxónia, do Duque Jorge da Saxónia e do Landegrave Filipe de Hesse. Müntzer assegurara aos camponeses que Deus lhes daria a vitória — mas cerca de cinco mil camponeses foram mortos no campo de batalha.
Müntzer fugiu disfarçado para Frankenhausen, mas foi capturado. Submetido a tortura durante vários dias, foi transferido para o campo dos príncipes em Mühlhausen, onde foi julgado e condenado.
No dia27 de maio de 1525, Thomas Müntzer foi decapitado nos arredores de Mühlhausen. Antes da execução, teria escrito uma carta confessando a justiça da sua sentença. O seu corpo foi provavelmente queimado ou deixado a apodrecer na forca.
II. Obras
Thomas Müntzer foi um autor prolífico de panfletos, sermões e tratados. As suas principais obras incluem:
Manifesto de Praga (1521) — Escrito na Boémia, é um apelo apocalíptico à revolta contra Roma, evocando a figura de Jan Hus e convocando os eleitos para a batalha final entre Cristo e o Anticristo.
Sermão aos Príncipes (13 de julho de 1524) — O seu texto mais famoso, proferido em Allstedt. Ataca a cumplicidade dos príncipes com a injustiça social, exorta‑os a não resistirem à Reforma e defende o direito do “homem comum” a lutar pela sua liberdade.
Exposição Exposta da Falsa Fé (1524) — O seu principal tratado teológico, no qual expõe a sua doutrina da revelação contínua do Espírito contra o princípio luterano da sola Scriptura.
Panfleto contra Lutero (1524) — Escrito em Nuremberga, um ataque virulento ao que considerava a “conivência” de Lutero com os príncipes e a sua traição à causa da reforma radical.
Confissão e Retratação (16 de maio de 1525) — Escrito na prisão, sob tortura, este documento terá incluído uma confissão da sua condenação, embora a sua autenticidade seja controversa.
As suas obras foram proibidas de impressão já durante a sua vida.
Teólogo poliglota. Müntzer dominava o latim, o grego antigo e o hebraico — algo raro mesmo entre os teólogos da sua época.
Reformador litúrgico pioneiro. Foi o primeiro a substituir o latim pelo alemão nas orações públicas e no canto congregacional, antes de Lutero o fazer em larga escala.
A lenda da execução paterna.Friedrich Engels, no século XIX, difundiu a lenda de que o pai de Müntzer fora enforcado pelas autoridades feudais, ummito que ainda hoje persiste. Na verdade, ambos os pais estavam vivos em 1520.
A assinatura iconoclasta. Os seus panfletos eram frequentemente assinados “Thomas Müntzer, com a espada de Gideão” — uma referência ao juiz bíblico que, com apenas trezentos homens, derrotou os inimigos de Israel.
O “Satanás de Allstedt”.Lutero chamou‑lhe assim num dos seus escritos mais virulentos, acusando‑o de ser movido por umespírito satânico e não por Deus.
Uma única gravura. Só existe uma imagem contemporânea de Thomas Müntzer — uma gravura em madeira que o representa na Batalha de Frankenhausen, empunhando uma bandeira.
Cinema na Alemanha de Leste.Um dos filmes mais caros produzidos pela DEFA, a agência cinematográfica da AlemanhaOriental, foi o épico a cores Thomas Müntzer (1956), que o retratava como umherói revolucionário pré‑marxista.
500 anos depois. Em 2025, a Alemanha celebrou o quinto centenário da Guerra dos Camponeses e da morte de Müntzer, com exposições, conferências e publicações em todo o país.
2. O milenarismo apocalíptico Müntzer acreditava que o fim do mundoera iminente e que a missão dos verdadeiros crentes eraajudar ativamente Deus a inaugurar uma nova era da história — a Terceira Era, profetizada por Joaquim de Fiore, na qual o Espírito Santo reinaria diretamente. Esta convicção milenarista justificava a violência.
3. A rejeição do batismo infantil Müntzer seguia os Profetas de Zwickau na rejeição do batismo de crianças, considerando‑o uma “blasfémia”. Defendia o batismo de adultos como profissão pública de fé e sinal de regeneração consciente.
4. A eucaristia como mero memorial Tal como Zuínglio, Müntzer negava qualquer presença real de Cristo no pão e no vinho, considerando‑os apenas “emblemas” do sacrifício de Cristo.
5. O pecado como poder dos ricos Originalmente, Müntzer interpretou o pecado original como a concupiscência, mas gradualmente passou a interpretá‑lo como a ganância desmedida e o domínio económico dos ricos sobre os pobres.
V. Legado e Avaliação Histórica
O legado de Thomas Müntzer é, talvez, o mais controverso de toda a Reforma.
O ódio de Lutero e o esquecimento forçado Lutero dedicou vários escritos a denunciar Müntzer como um “falso profeta”, “lobo devorador” e “Satanás”. O poder dos príncipes fez o resto: as obras de Müntzer foram proibidas, e a sua memória foi ativamente apagada durante séculos.
O herói da esquerda hegeliana e do marxismo No século XIX, a figura de Müntzer foi resgatada por pensadores como Friedrich Engels, que, na sua obraA Guerra dos Camponeses na Alemanha (1850), o retratou como umprecursor do comunismo moderno — o primeiro teólogo a compreender que a libertação espiritual exigia uma transformação material e social. Para a tradição marxista, Müntzer foi umherói trágico que tentou unir a luta de classes com a utopia do Reino de Deus.
O místico revolucionário O filósofo Ernst Bloch, na sua obraThomas Müntzer, Teólogo da Revolução (1921), reinterpretou Müntzer como uma figura paradigmática da tradição utópica, um místico que tentou realizar o impossível: construir o céu na terra.
O visionário socialista As ideias de Müntzer — a comunidade de bens, a igualdade absoluta, a rejeição da propriedade privada — fazem dele um precursor do socialismo e do comunismo, quase trêsséculos antes de Marx e Engels sistematizarem estas ideias.
A ambiguidade do martírio Müntzer morreu como um “herege impenitente” para a Igreja e como um “rebelde contra a ordem estabelecida” para o Estado. Hoje, é celebrado como umherói por uns e execrado como um fanático sanguinário por outros.
VI. Conclusão
Thomas Müntzer foi umhomem do seu tempo e, simultaneamente, umhomem completamente deslocado do seu tempo. Teólogo erudito e pregador incendiário, místico milenarista e líder revolucionário, ele acreditou com toda a força da sua alma que o Reino de Deus não era uma promessa para além da morte, mas uma realidade a ser construída aqui e agora, com as mãos dos camponeses, com a espada dos oprimidos e com o sangue dos mártires. Esta convicção — bela, terrível e, para os poderosos do seu tempo, profundamente subversiva — custou‑lhe a vida e condenou a sua memória ao exílio durante séculos.
Mas a memória de Müntzer não morreu. Onde quer que homens e mulheres oprimidos levantem a voz contra a injustiça, onde quer que a utopia de uma sociedade sem classes e sem propriedade privada seja sonhada, onde quer que a fé se recuse a ser cúmplice do poder, a sombra longa deste teólogo da revolução volta a projectar‑se. Martinho Lutero chamou‑lhe “Satanás”. FredericoEngels chamou‑lhe “precursor do comunismo”. A verdade, provavelmente, está algures no meio: Thomas Müntzer foi, antes de mais, umhomem que amou Deus com uma intensidade tal que isso o tornou perigosamente indiferente a tudo o resto — incluindo à própria vida.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
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