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Ulrico Zuínglio (Huldrych Zwingli): O Guerreiro da Palavra e Fundador da Reforma Suíça

Ulrico Zuínglio (Huldrych Zwingli

Ulrico Zuínglio (Huldrych Zwingli): O Guerreiro da Palavra e Fundador da Reforma Suíça

Introdução

Nos meus anos de estudo sobre a Reforma Protestante, uma figura sempre me pareceu injustamente situada na penumbra da história: Ulrico Zuínglio. Enquanto Martinho Lutero e João Calvino recebem a merecida atenção que os seus legados exigem, Zuínglio é frequentemente tratado como o “terceiro homem da Reforma”, uma figura de transição entre o gigante alemão e o metódico francês. Mas esta visão é redutora. Ao mergulhar na sua vida, descobri um reformador de coragem singular, um humanista apaixonado, um pregador que pôs a Bíblia no centro da sua existência e, por fim, um soldado que morreu no campo de batalha pela causa que abraçou. O seu legado é vasto: ele fundou a Igreja Reformada Suíça, influenciou decisivamente João Calvino e deu forma a uma tradição teológica que se espalhou por toda a Europa. Neste artigo, convido o leitor a conhecer a trajetória deste guerreiro da Palavra, as suas obras e algumas curiosidades que revelam a complexidade deste grande reformador suíço.

I. Biografia: Um Humanista em Tempos de Mudança

1.1. Origens e formação humanista (1484–1506)

Ulrico Zuínglio (em alemão: Huldrych Zwingli) nasceu a 1 de janeiro de 1484 em Wildhaus, no cantão de São Galo, na Suíça. Era o terceiro de oito filhos de uma família abastada; o seu pai era magistrado da aldeia e o seu tio era padre e mais tarde deão. Desde cedo, a família destinou-o à carreira eclesiástica, e a sua educação foi cuidadosamente planeada.

Estudou em Basileia (1494) e Berna (1496), onde o seu mestre Heinrich Wölflin lhe incutiu um amor pelos clássicos e pela música, que manteve toda a vida. A sua habilidade musical foi tão notável que os dominicanos quase o convenceram a entrar num convento, algo que o pai e o tio impediram. Prosseguiu os estudos nas universidades de Viena (1498) e Basileia (1502), onde se graduou em 1504. Foi em Basileia que entrou em contacto com o humanismo renascentista e com o pensamento de Thomas Wyttenbach, um professor reformador que o influenciou profundamente.

1.2. Os primeiros anos como padre e a oposição ao mercenariado (1506–1518)

Ordenado padre em 1506, Zuínglio foi colocado na paróquia de Glarus, onde permaneceu até 1516. Ali, revelou-se um pastor dedicado, incentivando a educação e dedicando-se ao estudo intensivo das línguas bíblicas: aprendeu grego sozinho e estudou hebraico, para poder aceder diretamente às Escrituras no seu original. Foi também em Glarus que tomou consciência de um problema social e político que o marcaria: o mercenariado suíço. As suas constantes críticas a este sistema acabaram por lhe granjear hostilidade, forçando-o a deixar a paróquia em 1516.

Transferiu-se para Einsiedeln, onde serviu como sacerdote até 1518. Neste período, Zuínglio aprofundou o seu estudo do Novo Testamento grego e entrou em contacto direto com os escritos de Erasmo de Roterdão, de quem se tornou admirador e correspondente. Mais tarde, ele próprio afirmou que foi em Einsiedeln que começou a compreender o evangelho de forma mais clara: “A soma e substância do evangelho é que o nosso Senhor Jesus Cristo, o verdadeiro filho de Deus, nos deu a conhecer a vontade do seu Pai celestial e, com a sua pureza, nos libertou da morte e nos reconciliou com Deus”.

1.3. A chegada a Zurique e o início da Reforma (1519–1522)

A 11 de dezembro de 1518, Zuínglio foi eleito pregador da Catedral de Zurique (Grossmünster), o principal templo da cidade. A sua chegada a Zurique estava envolta em controvérsia: um boato acusava-o de ter engravidado uma jovem em Einsiedeln. O próprio Zuínglio admitiu a sua falha, atribuindo-a a uma mulher que o teria seduzido “a muito custo e com tentações muito sedutoras”, e que teria uma conduta desonrosa. Apesar disso, foi confirmado no cargo e iniciou um ministério que mudaria a história da Suíça.

A sua abordagem à pregação foi revolucionária. Em vez de seguir o lecionário litúrgico tradicional, Zuínglio passou a pregar de forma contínua e expositiva, começando pelo Evangelho de Mateus e avançando sistematicamente por todo o Novo Testamento. Este método de pregação, conhecido como lectio continua, tornou-se uma das suas marcas e um dos pilares da Reforma.

1.4. As rupturas e a afirmação da Reforma em Zurique (1522–1525)

Em 1522, o conflito com a Igreja Católica tornou-se inevitável. Zuínglio defendeu publicamente o direito de comer carne durante a Quaresma, o que constituía uma violação direta da disciplina eclesiástica. Em resposta, escreveu um tratado intitulado Da Liberdade Cristã, no qual argumentava que a Bíblia não impunha tais jejuns.

Para resolver as tensões, o Conselho Municipal de Zurique convocou uma Disputa pública em janeiro de 1523. Zuínglio apresentou as suas 67 Teses (ou 67 Artigos), nas quais resumia a sua e as suas críticas à Igreja de Roma. As teses afirmavam a autoridade suprema da Escritura (Sola Scriptura), a salvação apenas pela em Cristo (Sola Fide), e rejeitavam a autoridade papal, o purgatório, o celibato clerical forçado e a Missa como sacrifício. O Conselho aceitou as suas teses e autorizou-o a continuar a pregar.

Em 1524, Zuínglio casou publicamente com Anna Reinhart, uma viúva que já era sua companheira. O seu casamento, à semelhança do de Lutero (que ocorreu um ano depois), constituiu um desafio direto à disciplina do celibato clerical. Nesse mesmo ano, as imagens foram removidas das igrejas de Zurique e a Missa foi abolida.

1.5. O colóquio de Marburgo e a rutura com Lutero (1529)

À medida que a Reforma se consolidava na Suíça e na Alemanha, tornava-se evidente a necessidade de unidade entre os protestantes. O conde Filipe de Hesse convocou um encontro entre Zuínglio e Lutero em Marburgo, com o objetivo de resolver as suas diferenças doutrinárias. Durante vários dias, os dois reformadores discutiram quinze artigos de e chegaram a um acordo em catorze deles. O ponto de rutura foi a Ceia do Senhor: Lutero defendia a presença real do corpo de Cristo no pão e no vinho (consubstanciação), enquanto Zuínglio afirmava que a Ceia era apenas uma recordação simbólica da morte de Cristo, rejeitando qualquer presença corporal. As diferenças eram insanáveis, e o encontro terminou sem acordo.

1.6. A guerra civil e a morte no campo de batalha (1529–1531)

As tensões entre os cantões suíços reformados e os católicos intensificaram-se. Em 1529, a primeira Guerra de Kappel foi resolvida com um tratado de paz que, pela primeira vez na Europa, estabeleceu o princípio da igualdade legal entre católicos e protestantes. A paz, porém, era frágil.

Em outubro de 1531, as forças católicas atacaram Zurique. Zuínglio, que acompanhava o exército como capelão, vestiu armadura e empunhou uma espada. A 11 de outubro, na batalha de Kappel am Albis, as tropas de Zurique foram derrotadas. Zuínglio foi mortalmente ferido e, quando os soldados católicos o encontraram caído, recusou-se a confessar os seus pecados a um sacerdote. Foi então morto, o seu corpo queimado e as cinzas espalhadas ao vento. Era uma morte trágica e violenta para um homem que, como Lutero observou, “morreu em grande pecado e blasfémia”. A Reforma suíça, porém, não morreu com ele.

II. Obras

Ao contrário de Lutero, que foi um escritor prolífico, Zuínglio deixou uma obra mais modesta, mas não menos importante. Os seus escritos são marcados pela clareza, pelo rigor lógico e pela profunda erudição humanista. As suas obras principais incluem:

  • Os 67 Artigos (1523): A sua confissão de apresentada na Primeira Disputa de Zurique, que rejeitava a autoridade papal, o celibato clerical, o purgatório e a Missa como sacrifício, entre outras doutrinas. É o documento fundador da Reforma Suíça.

  • Comentário sobre a Verdadeira e Falsa Religião (1525): A sua obra teológica mais sistemática, na qual expõe a sua doutrina sobre Deus, a Escritura, a salvação, a Igreja e os sacramentos.

  • Da Ceia do Senhor (1526): Uma defesa da sua interpretação simbólica da Eucaristia, em contraste com a doutrina luterana. Este escrito consolidou a rutura entre as duas tradições reformadas.

  • Da Providência de Deus (1530): Um tratado sobre a soberania divina e a ação de Deus no mundo, que antecipa a teologia calvinista.

  • Uma Exposição da Cristã (1531): A sua última obra, dirigida ao rei Francisco I de França, na qual resume a sua teologia e apela à tolerância religiosa. Foi publicada postumamente.

III. Teologia: A Palavra como Centro de Tudo

A teologia de Zuínglio pode ser resumida em três princípios fundamentais: a autoridade suprema da Escritura, a ênfase na soberania divina e uma visão espiritualizada dos sacramentos.

1. Sola Scriptura e o Papel da Razão

Para Zuínglio, a Bíblia era a única autoridade em matéria de e prática. Nenhum concílio, nenhum padre da Igreja, nenhum papa podia sobrepor-se à Palavra de Deus. Acreditava que a Escritura se interpreta a si mesma e que o Espírito Santo ilumina a mente do crente para a compreender. Contudo, ao contrário de Lutero, Zuínglio valorizava a razão como um instrumento para interpretar a Bíblia, recusando qualquer interpretação que contradissesse os princípios da lógica e da evidência textual. Esta ênfase na clareza e na certeza da Palavra (“A Palavra de Deus é clara e certa”) era o alicerce do seu pensamento.

2. A Ceia do Senhor como Memorial

A sua doutrina da Eucaristia foi o ponto de rutura com Lutero e, em certa medida, com a tradição cristã dominante. Zuínglio rejeitava qualquer forma de presença real de Cristo no pão e no vinho. Para ele, as palavras “Isto é o meu corpo” deviam ser interpretadas no sentido figurado de “Isto significa o meu corpo”. A Ceia era, portanto, um ato memorial e comunitário, uma recordação da morte de Cristo e uma profissão pública de por parte da comunidade.

3. O Batismo como Sinal da Aliança

Os anabatistas, que rejeitavam o batismo infantil, constituíram um grande desafio para Zuínglio. Na sua resposta, desenvolveu uma teologia do batismo como sinal da aliança entre Deus e o seu povo. Tal como Deus fizera uma aliança com Abraão e a marcar com o sinal da circuncisão, que era administrada aos oito dias de idade, assim também a nova aliança em Cristo era marcada pelo batismo, que devia ser administrado aos filhos dos crentes. O batismo, portanto, não era um ato mágico que conferia graça, mas um sinal externo de pertença ao povo de Deus.

4. O Estado e a Igreja: A Teocracia de Zurique

Zuínglio concebia a cidade de Zurique como uma comunidade cristã unificada, onde a Igreja e o Estado eram duas faces da mesma realidade governada por Deus. O magistrado civil era chamado a fazer cumprir a lei de Deus e a proteger a verdadeira religião, enquanto a Igreja tinha o dever de anunciar a Palavra e de exortar o governo. Esta visão, por vezes designada de “teocracia”, explica o seu envolvimento direto na política e na guerra.

IV. Curiosidades e Dados Interessantes

1. O mais humanista dos reformadores. Zuínglio foi frequentemente considerado o mais erudito e o mais humanista dos reformadores. A sua correspondência com Erasmo e o seu domínio do grego e do hebraico atestam a sua profunda formação clássica.

2. Músico talentoso. A sua habilidade musical foi tão notável que quase entrou para um convento dominicano. Ao longo da sua vida, a música foi uma das suas grandes paixões.

3. A Peste e o Poema da Peste. Em agosto de 1519, a peste bubónica (a Peste Negra) atingiu Zurique, matando cerca de 1500 pessoas. Zuínglio contraiu a doença e esteve à beira da morte. Durante a sua convalescença, compôs um poema em três partes, conhecido como o “Poema da Peste”, no qual expressa a sua confiança em Deus face à morte: “Faz a tua vontade, / nada me falta: / sou teu vaso, / para ser restaurado ou quebrado.”.

4. O casamento e a polémica da filha do barbeiro. Zuínglio casou com Anna Reinhart, uma viúva de boa reputação, após vários anos de relacionamento. No entanto, antes do seu casamento, teve de enfrentar sérias acusações de ter engravidado a filha de um barbeiro em Einsiedeln. O próprio Zuínglio admitiu a sua falha, numa carta em que descrevia a mulher como uma “sereia” que o teria seduzido. Foi um episódio que quase lhe custou o lugar em Zurique.

5. O monumento com a espada. A estátua de Zuínglio em Zurique, junto à Wasserkirche, representa-o com uma Bíblia numa mão e uma espada na outra. Este monumento capta, de forma perfeita, a dupla faceta do reformador: o homem da Palavra e o guerreiro que morreu pela sua .

6. O “terceiro homem” da Reforma. Apesar da sua importância, Zuínglio foi ofuscado por Lutero e Calvino. Muitas das suas ideias, como a teologia da aliança e a doutrina dos sacramentos, foram mais tarde desenvolvidas por João Calvino e pelos teólogos reformados. Contudo, sem a coragem de Zuínglio, não teria havido Reforma na Suíça.

7. A independência de Lutero. Zuínglio iniciou a sua própria reforma antes de ter lido as obras de Lutero. Afirmou: “Antes de alguém nesta região ter ouvido falar de Lutero, comecei a pregar o evangelho de Cristo em 1516”. Embora a influência de Lutero seja provável, é inegável que Zuínglio chegou às suas conclusões de forma independente.

V. Conclusão

Ulrico Zuínglio foi um reformador de primeira grandeza, cujo legado tem sido injustamente negligenciado. Foi um humanista que pôs a sua erudiência ao serviço da pregação da Palavra. Foi um pregador que revolucionou a maneira de anunciar o evangelho, substituindo o lecionário litúrgico pela leitura contínua e sistemática da Bíblia. Foi um teólogo que, com lucidez e coragem, repensou a doutrina dos sacramentos e a relação entre a Igreja e o Estado. E foi, por fim, um guerreiro que morreu no campo de batalha, armado com a espada e com a convicção de que estava a lutar pela causa de Deus.

A sua morte trágica, aos 47 anos, às mãos das forças católicas, não significou o fim da sua obra. O seu sucessor, Henrique Bullinger, consolidou a Reforma em Zurique e, através da Segunda Confissão Helvética (1566), deu à teologia zuíngliana uma expressão duradoura. Através de Bullinger e, sobretudo, de João Calvino, o pensamento de Zuínglio influenciou profundamente a tradição reformada na Suíça, nos Países Baixos, na Escócia, em Inglaterra e na América do Norte. Hoje, milhões de cristãos em todo o mundo são herdeiros, ainda que muitas vezes sem o saber, da visão e da coragem deste guerreiro da Palavra. Que a sua memória nos inspire a ler, a estudar e a viver de acordo com as Escrituras, com a mesma paixão e com a mesma intrepidez com que ele o fez.

Pesquisa e redação: Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • BRITANNICA, The Editors of Encyclopaedia. “Huldrych Zwingli”. Encyclopedia Britannica, 2026.

  • MARK, Joshua J. “Os 67 Artigos de Ulrico Zuínglio”. World History Encyclopedia, 2025.

  • MARK, Joshua J. “Ulrico Zuínglio”. World History Encyclopedia, 2022.

  • WIKIPÉDIA. “Ulrico Zuínglio”. Wikipédia, a enciclopédia livre.

  • THE GOSPEL COALITION. “9 Things You Should Know About Ulrich Zwingli”. 2019.

  • CHRISTIANITY TODAY. “From the Archives: Zwingli’s 67 Theses”. 1984.

  • DESIRING GOD. “The Reformation’s Third Man: Huldrych Zwingli (1484–1531)”. 2017.

  • ULTIMATO. “Ulrico Zuínglio – A reforma suíça”. Editora Ultimato.

  • SWISSINFO. “De dia, virgem, à noite, mulher”. 2017.

  • PERIÓDICOS UEM. “Huldrych Zwingli (1484 – 1531), o reformador de Zurique – um esboço biográfico”. 2001.

  • WORLD HISTORY. “Huldrych Zwingli”. World History Encyclopedia.

  • WIKIPÉDIA. “Theology of Huldrych Zwingli”. Wikipedia, The Free Encyclopedia.

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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