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Serviço em Primeiro Lugar: Como o Fraternalismo das Lojas deu Lugar aos Clubes de Serviço Masculinos

Serviço em Primeiro Lugar: Como o Fraternalismo das Lojas deu Lugar aos Clubes de Serviço Masculinos

Ao longo dos anos dedicados à pesquisa sobre as formas de sociabilidade que moldaram o tecido social americano, sempre me impressionou como a Maçonaria – com suas lojas imponentes e rituais iniciáticos – foi, por décadas, o centro nevrálgico da vida associativa masculina.

Não foi uma surpresa, portanto, ao mergulhar na investigação sobre a virada do século XIX para o XX, descobrir que esse modelo de fraternalismo começou a ceder espaço a uma nova modalidade de organização: os clubes de serviço, como Rotary, Lions e Kiwanis, que substituíam o segredo e a hierarquia iniciática pelo engajamento prático e pela filantropia aberta.

A compreensão dessa transição ganhou consistência ao confrontar o ensaio “Service over Secrecy”, do historiador Clifford Putney, publicado originalmente em 1993 no Journal of Popular Culture e incorporado à obra Freemasonry in Context.

Putney oferece uma análise lúcida sobre como as antigas lojas, que valorizavam o sigilo e a tradição, foram gradualmente substituídas por organizações que priorizavam o serviço comunitário e a visibilidade pública, refletindo as mudanças culturais e económicas de uma América que se tornava mais urbana, pragmática e voltada para o bem-estar coletivo.

Este artigo, fruto de uma pesquisa que atravessou as transformações do século XX, convida o leitor a redescobrir como o espírito fraternal, embora tenha mudado de forma, nunca deixou de pulsar – e como compreender essa passagem é compreender a própria evolução da solidariedade organizada.

O Autor: Clifford Putney, Historiador da Cultura Americana

Clifford Putney é professor assistente de História na Bentley University, em Waltham, Massachusetts. Doutorando no Programa de História da Civilização Americana pela Brandeis University quando publicou o artigo, Putney é especialista em história religiosa e cultural dos Estados Unidos, com ênfase nas interseções entre masculinidade, esporte e protestantismo.

Sua obra mais conhecida é Muscular Christianity: Manhood and Sports in Protestant America, 1880-1920 (2001), considerada um trabalho definitivo sobre a relação entre protestantismo e esporte na América. Nesse livro, Putney investiga como líderes protestantes promoveram esportes competitivos e educação física para criar um ideal de masculinidade cristã.

Além disso, é autor de Missionaries in Hawai’i: The Lives of Peter and Fanny Gulick, 1797-1883 (2010), uma biografia equilibrada de missionários pioneiros no Havaí.

Sua trajetória acadêmica revela um interesse constante pelas formas como instituições americanas — religiosas, fraternais e associativas — moldaram e foram moldadas por transformações culturais mais amplas. Assim utilize como base da minha reflexão.

O Contexto: A Era de Ouro do Fraternalismo e seu Declínio

Putney inicia seu artigo com uma constatação que, à época, ainda era recente nos meios acadêmicos: o estudo das organizações fraternais masculinas, até então, não despertava grande interesse entre os historiadores.

Geralmente brancas e de classe média, essas associações não pertenciam nem ao universo dos “grandes pensadores” nem ao das “massas oprimidas” — o que as tornava pouco atraentes tanto para historiadores intelectuais quanto para marxistas.

Felizmente, o crescente interesse pela cultura popular e pelas questões de gênero começou a mudar esse panorama. Putney cita trabalhos pioneiros como o estudo de Lynn Dumenil sobre os maçons, a obra sintética de Mary Ann Clawson, Constructing Brotherhood, e a análise de Mark Carnes sobre o ritualismo vitoriano.

O autor então apresenta dados impressionantes: entre 1700 e 1972, os Estados Unidos testemunharam a formação de 425 organizações fraternais e sororais. O auge dessas fundações ocorreu entre 1865 e 1899, com 235 novas ordens — incluindo 16 apenas em 1896.

Essas organizações dividiam-se basicamente em dois tipos: as “sociedades secretas” (como os maçons, Odd Fellows e Knights of Pythias), que preservavam rituais e segredos, e as “sociedades beneficentes”, que ofereciam seguro de vida aos membros e, com o tempo, secularizaram suas transações.

O Argumento Central: Do Segredo ao Serviço

O cerne da tese de Putney é a distinção entre dois modelos de fraternalismo:

  • “velho fraternalismo” (old-style fraternalism), representado por grupos como os maçons, caracterizado por ritual, segredo e sociabilidade interna.

  • “novo fraternalismo” (new-style fraternalism), encarnado pelos clubes de serviço — Rotary, Lions, Kiwanis etc. —, caracterizado por transparência, almoços de negócios e um foco explícito no serviço à comunidade.

Putney argumenta que as sociedades secretas floresceram sob o vitorianismo e que seu declínio relativo em favor dos clubes de serviço após a Primeira Guerra Mundial reflete mudanças profundas na paisagem cultural americana. Entre os fatores que ele identifica estão: um menor temor dos homens em relação à domesticidade, a estratificação econômica, o consumo de massa e o impulso reformista do movimento progressista.

Enquanto a Maçonaria e congêneres cultivavam o mistério e a exclusividade, os clubes de serviço optaram por uma abordagem mais pragmática e voltada para o exterior. Não por acaso, o Rotary, o primeiro clube de serviço, foi fundado em 1905, seguido pelo Kiwanis (1915) e pelo Lions (1917) — todos surgidos justamente no período de transição identificado por Putney.

Curiosidades

  1. A “Era de Ouro” dos Fundadores: O pico de fundações de sociedades fraternais ocorreu entre 1865 e 1899, com 235 novas ordens surgindo em apenas 34 anos. Em 1896, sozinho, viram a luz 16 novas organizações. Essa verdadeira febre associativa refletia uma sociedade em rápida transformação, urbanização e industrialização.

  2. O Segredo como Atração e Estigma: O artigo de Putney aborda como o segredo, que era um dos principais atrativos das sociedades fraternais vitorianas, tornou-se também um fardo. O debate público sobre a natureza secreta da Maçonaria desafiou o cerne da ordem fraternal, forçando-a a se defender perante uma opinião pública cada vez mais cética.

  3. Nem Reforma, nem Democracia: Putney faz uma observação provocadora: o que atraía os homens às lojas maçônicas não era nem o impulso reformista social nem a perspectiva de serem escolarizados em democracia. Em vez disso, eram fatores como sociabilidade, identidade e, possivelmente, o apelo do ritual e da exclusividade — o que ajuda a explicar por que, quando esses valores perderam força, os clubes de serviço ganharam espaço.

  4. Um Fenômeno Quantificável: Entre 1920 e 1930, o número de americanos membros de clubes de serviço saltou de 300 mil para mais de 1 milhão. Essa explosão numérica é um indicador elocuente da rapidez com que o “novo fraternalismo” conquistou a sociedade americana.

  5. O Legado de Putney para a Historiografia: O ensaio de Putney foi um dos primeiros a estabelecer uma tipologia clara entre “velho” e “novo” fraternalismo, influenciando uma geração de pesquisadores. Sua abordagem, que conecta mudanças organizacionais a transformações culturais mais amplas — como o consumo de massa e o movimento progressista —, abriu caminho para estudos posteriores sobre a história das associações voluntárias na América.

  6. A Publicação em Heredom: Além de sua aparição no Journal of Popular Culture, o ensaio foi republicado no volume 9 da revista Heredom (2001), a prestigiada publicação anual da Scottish Rite Research Society, antes de ser incorporado à coletânea Freemasonry in Context.

Conclusão

“Service over Secrecy” é um estudo fundamental para compreendermos não apenas a história da Maçonaria, mas também a evolução mais ampla da sociabilidade masculina americana.

Clifford Putney demonstra com clareza que o declínio relativo das sociedades secretas e a ascensão dos clubes de serviço não foram fenômenos isolados, mas sim reflexos de transformações culturais profundas — a erosão do ethos vitoriano, o avanço do consumo de massa, a profissionalização das classes médias e a emergência de um novo ideal de masculinidade engajada com a comunidade.

Ao distinguir entre o “fraternalismo do segredo” e o “fraternalismo do serviço“, Putney oferece uma lente analítica que ultrapassa a mera cronologia, permitindo-nos enxergar as continuidades e rupturas que moldaram a vida associativa americana no século XX.

Seu trabalho permanece relevante não apenas para historiadores da Maçonaria, mas para todos que se interessam pelas formas como os homens — e as sociedades — constroem comunidades, identidades e significados.

No âmbito prático, as imponentes Templos Maçônicos, que outrora pontuavam as paisagens urbanas como verdadeiros epicentros da vida social e da distinção masculina, cederam gradualmente espaço a uma nova configuração organizacional: os clubes de serviço, tais como Rotary, Lions e Kiwanis. 

Estas entidades substituíram os elaborados e herméticos rituais iniciáticos por almoços semanais, palestras objetivas e campanhas filantrópicas de alcance comunitário imediato, adaptando-se com muito mais agilidade ao ethos da modernidade industrial e democrática.

É importante destacar, contudo, que esses clubes de serviço, embora compartilhem com a Maçonaria certas características superficiais — como a existência de gradações hierárquicas, o emprego de formalidades cerimoniais em suas reuniões e a promoção de atividades beneficentes —, desenvolveram ao longo do tempo fundações, estruturas administrativas e sistemas de governança próprios que os distinguem radicalmente da instituição maçônica.

Os clubes de serviço são organizações abertas (embora a grande maioria só se adentre por convite e após aprovação), essencialmente seculares e focadas na gestão pragmática de projetos sociais objetivos, pautadas pela eficiência burocrática, pela captação visível de recursos e pelo impacto direto na esfera local.

A Maçonaria, por seu turno, é uma sociedade iniciática e discreta, que preserva um corpo robusto de doutrinas esotéricas, graus simbólicos progressivos, segredos tradicionais e Landmarks (princípios imutáveis e universais) que regem sua existência secular.

Portanto, ainda que haja uma sobreposição considerável de membros (pois muitos maçons também integram tais clubes) e certa influência histórica mútua, a filiação a um clube como o Rotary ou o Lions não confere a seus associados o status de maçons, nem transforma essas entidades em ramificações ou subprodutos da Ordem Maçônica, sequer de paramaçônicas. Pois embora todas fundadas por maçons e como esmiuçado alhures, no seio da maçonaria, não foi esse o objetivo desde o início.

São fenômenos sociais distintos, frutos de épocas e necessidades culturais diversas: a Maçonaria voltada para a construção interior do indivíduo por meio do simbolismo, da reflexão filosófica e da fraternidade iniciática; os clubes de serviço direcionados à atuação externa, imediata e mensurável na esfera cívica e humanitária — cada qual com seu papel, sua legitimidade e seu significado histórico inconfundíveis.

Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes

Referências Bibliográficas e consultas

  • Clifford Putney, “Service Over Secrecy: How Lodge-Style Fraternalism Yielded Popularity to Men’s Service Clubs”, Journal of Popular Culture, Vol. 27, No. 1 (Summer 1993), pp. 179-190 — DOI: 10.1111/j.0022-3840.1993.00179.x

  • Clifford Putney, “Service over Secrecy: How Lodge-Style Fraternalism Yielded to Men’s Service Clubs”, in Freemasonry in Context: History, Ritual, Controversy, ed. Arturo de Hoyos and S. Brent Morris (Lanham, MD: Lexington Books, 2004), cap. 7, p. 105

  • Library of Congress, tabela de conteúdos de Freemasonry in Context

  • Clifford PutneyMuscular Christianity: Manhood and Sports in Protestant America, 1880-1920 (Harvard University Press, 2001)

  • Clifford PutneyMissionaries in Hawai’i: The Lives of Peter and Fanny Gulick, 1797-1883 (University of Massachusetts Press, 2010)

  • Bentley University, perfil de Clifford Putney

  • Stanford University Libraries, registro do artigo “Service Over Secrecy”

  • Scilit, resumo do artigo “Service Over Secrecy”

  • Jeffrey A. CharlesService Clubs in American Society: Rotary, Kiwanis, and Lions (University of Illinois Press, 1993)

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

Maçonaria Regular MS

glems
goms
gob ms
glems

 

A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

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