Ibn Rushd (Averróis): O Comentador que Reconectou o Ocidente à Razão
Introdução
Na história do pensamento medieval, poucas figuras exerceram uma influência tão paradoxal e duradoura quanto Abū l-Walīd Muḥammad ibn Aḥmad ibn Rushd, conhecido no Ocidente latino como Averróis. Nascido em Córdova em 1126, em uma família de juristas ilustres, e falecido em Marraquexe em 1198, este polímata andaluz foi, simultaneamente, o último grande filósofo do Islã clássico e o ponteiro que reorientou o pensamento europeu para a razão aristotélica. Seu título de “O Comentador” por excelência de Aristóteles não era mera designação honorífica: entre 1169 e 1195, ele produziu dezenas de comentários sobre o Corpus Aristotelicum, em três níveis graduais (epítomes, comentários médios e grandes comentários), que se tornariam a porta de entrada para o pensamento grego na Europa medieval. A presente biografia percorre sua trajetória singular — de juiz a médico da corte, de defensor intrépido da filosofia contra os teólogos a exilado e finalmente reabilitado —, analisa suas principais obras e revela as curiosidades que cercam a vida deste homem cuja obra dividiu a história entre o que se pensava antes dele e o que se pôde pensar depois.
1. Juventude e Formação: O Herdeiro de uma Dinastia de Juízes
1.1 Um Berço de Autoridade
Ibn Rushd nasceu em Córdova em 1126, em uma família de juristas malikitas que ocupava o cargo de qādī al-quḍāt (juiz dos juízes, ou chefe da magistratura) da cidade há gerações. Seu avô, o influente Abdul-Walīd Muḥammad (falecido em 1126), era o qādī de Córdova sob a dinastia almorávida e um respeitado especialista em direito islâmico e em metodologia legal. Seu pai, Abdul-Qāsim Aḥmad, ocupou o mesmo cargo após seu avô, mas o perdeu quando os almóadas, uma dinastia berbere mais rigorosa, depuseram os almorávidas em 1146.
A família de Ibn Rushd, conhecida como Banu Rushd, havia se tornado uma instituição quase sinônima da própria justiça cordovesa. Em seus primeiros anos, a educação de Ibn Rushd seguiu os cânones tradicionais: ele estudou o ḥadīth (tradições do profeta Maomé), a linguística, a jurisprudência islâmica (fiqh) e a teologia escolástica (kalām). Os primeiros biógrafos muçulmanos destacam muito mais sua preparação nas ciências religiosas do que suas incursões na filosofia, o que indica que ele foi, antes de tudo, um faqīh (jurisconsulto) formado para suceder os passos da família.
1.2 A Iniciação na Filosofia
Ainda assim, Ibn Rushd foi progressivamente atraído para o estudo da filosofia e das ciências gregas. Acredita-se que ele tenha sido influenciado por Ibn Bājja (Avempace) (falecido em 1139), um filósofo e médico aragonês que foi uma das primeiras vozes do aristotelismo no Ocidente islâmico. Não há certeza de que Ibn Rushd tenha sido tutelado diretamente por ele, mas certamente leu e dialogou com suas obras. Sua educação médica foi orientada por Abū Ja’far ibn Hārūn de Trujillo, um médico de renome. A fama de suas habilidades médicas, especialmente seu conhecimento da clínica e da farmacologia, espalhou-se rapidamente pela Andaluzia.
Para compreender o contexto intelectual em que Ibn Rushd se formou, é necessário recordar que, apenas quinze anos antes de seu nascimento, o grande crítico da filosofia islâmica, al-Ghazālī (1058–1111), havia desferido um golpe devastador contra a tradição filosófica neoplatônica, especialmente contra as obras de Ibn Sīnā (Avicena) . A sentença de al-Ghazālī de que os filósofos eram incrédulos e heréticos foi amplamente aceita no Oriente islâmico, sufocando a falsafa (filosofia) no mundo muçulmano oriental. Foi justamente nesse ambiente de hostilidade e declínio filosófico que surgiram os últimos e mais combativos filósofos do Ocidente islâmico — entre eles, Ibn Tufayl e o próprio Ibn Rushd.
2. Carreira Política, Médica e Filosófica: De Juiz a Conselheiro da Corte
2.1 O Serviço aos Califas Almóadas
A carreira de Ibn Rushd seguiu uma progressão notável. Começou como qādī em Sevilha por volta de 1169 e, mais tarde, foi nomeado juiz em Córdova, uma posição que seu avô havia ocupado com prestígio. Sua ascensão, no entanto, não se deu apenas por herança, mas por indicação do próprio califa almóada.
O encontro decisivo ocorreu entre 1153 e 1169, quando o filósofo e médico Ibn Tufayl (Abubacer) , que servia como vizir e médico pessoal do califa Abū Ya’qūb Yūsuf, apresentou o jovem Ibn Rushd ao soberano. Ibn Tufayl, ele próprio um aristotélico moderado, havia lido alguns escritos de Ibn Rushd e ficou impressionado. Conta-se que, na primeira audiência, o califa perguntou a Ibn Rushd: “O que os antigos disseram sobre os céus? Eles são eternos ou criados no tempo?” Ibn Rushd, intimidado, hesitou em responder, mas o califa calmamente expôs as opiniões de Aristóteles, Platão e dos teólogos muçulmanos, demonstrando uma erudição que surpreendeu o jovem filósofo. Ao final, o califa teria dito: “Prossiga, pois, com sua obra, e que Deus lhe conceda auxílio.”
Após a morte de Ibn Tufayl em 1182, Ibn Rushd o sucedeu como médico pessoal do califa e, sob o governo de Abū Yūsuf Ya’qūb (filho do califa anterior), sua influência e prestígio aumentaram ainda mais. Nomeado juiz em Sevilha e, posteriormente, em Córdova, tornou-se uma figura central na administração do império almóada, que se estendia da Península Ibérica ao norte da África.
2.2 O Pedido do Califa e a Missão Filosófica
Foi por solicitação explícita de Abū Ya’qūb Yūsuf, que considerava os comentários existentes sobre Aristóteles obscuros e contraditórios, que Ibn Rushd se dedicou à grande tarefa de sua vida: escrever uma série de comentários claros e abrangentes sobre as obras do “Primeiro Mestre”. As obras que ele produziu entre 1169 e 1195 são de uma abrangência e sistematicidade impressionantes e incluem comentários sobre quase todos os escritos sobreviventes de Aristóteles.
O próprio Ibn Rushd era profundamente consciente da deterioração do pensamento filosófico em seu tempo. No prólogo de seu comentário médio sobre a Física de Aristóteles, ele lamentou que a filosofia tivesse sido sufocada pelo surgimento do cristianismo e, posteriormente, pelo Islã, e que os árabes tivessem negligenciado os estudos filosóficos, exceto por alguns, como os cristãos sírios e os bizantinos.
2.3 A Queda em Desgraça e o Exílio
A vida de Ibn Rushd, no entanto, não foi uma ascensão contínua. Por volta de 1195, ele caiu em desfavor perante o califa Abū Yūsuf Ya’qūb. As razões são incertas, mas provavelmente envolveram uma combinação de intrigas palacianas e denúncias dos teólogos da corte, que consideravam suas ideias filosóficas perigosas e heréticas. A doutrina da eternidade do mundo — que Ibn Rushd defendia como a posição correta de Aristóteles — era particularmente incômoda, pois parecia contradizer a criação divina ex nihilo afirmada pelo Islã.
O califa ordenou que Ibn Rushd fosse exilado e que seus livros fossem queimados. Ibn Rushd refugiou-se em uma pequena aldeia judaica próxima a Córdova. Contudo, poucos meses antes de sua morte, em 1198, foi reabilitado e autorizado a retornar à corte, onde foi acolhido novamente.
3. A Filosofia: A Defesa da Razão Contra a Teologia
3.1 O Tratado Decisivo: A Filosofia como Dever Religioso
A obra que melhor sintetiza a posição de Ibn Rushd sobre a relação entre filosofia e religião é “Faṣl al-Maqāl” (Tratado Decisivo sobre a Concórdia entre a Lei Religiosa e a Filosofia) (c. 1179–1180). Neste texto corajoso, ele argumenta que o estudo da filosofia não apenas é permitido no Islã, mas obrigatório para aqueles com capacidade intelectual para tal. A base para essa conclusão está no próprio Alcorão, que repetidamente exorta os crentes a refletir sobre os sinais de Deus na criação. A filosofia, argumenta Ibn Rushd, é exatamente esse esforço de reflexão racional sobre a criação.
Além disso, Ibn Rushd introduz uma doutrina hermenêutica de grande alcance: quando a razão filosófica parece contradizer o significado literal (ẓāhir) da Escritura, a Escritura deve ser interpretada alegoricamente (ta’wīl) . A razão filosófica é um dom de Deus, e não pode haver contradição genuína entre duas verdades divinas — a verdade da Revelação e a verdade da Razão —, apenas uma má compreensão de uma delas.
3.2 A Doutrina dos Três Caminhos
Ibn Rushd argumenta que há três caminhos legítimos para se chegar à verdade, adequados a diferentes níveis de capacidade humana:
O caminho retórico (para as massas): as parábolas e as imagens, adequadas àqueles que não podem compreender a verdade abstrata.
O caminho dialético (para os teólogos): o uso de argumentos e controvérsias, embora sujeito a erros.
O caminho demonstrativo (para os filósofos): a prova rigorosa e a certeza alcançada pela razão filosófica.
A tese é que a filosofia não é apenas um conhecimento superior, mas também mais exato e seguro do que a teologia escolástica. A verdade revelada e a verdade filosófica são idênticas; as diferenças são apenas de formulação.
3.3 A Refutação de al-Ghazālī: A Incoerência da Incoerência
A mais célebre controvérsia filosófica do mundo islâmico medieval opôs Ibn Rushd a al-Ghazālī. Em seu famoso “Tahāfut al-Falāsifa” (A Incoerência dos Filósofos), al-Ghazālī havia acusado os filósofos — especialmente Avicena — de cometer três erros fatais: (1) a doutrina da eternidade do mundo (contra a criação no tempo), (2) a negação do conhecimento divino dos particulares, e (3) a negação da ressurreição corporal.
Ibn Rushd respondeu com “Tahāfut al-Tahāfut” (A Incoerência da Incoerência) (c. 1180), uma obra monumental na qual ele defende a filosofia ponto a ponto. O título é uma ironia: se a filosofia é incoerente para al-Ghazālī, então a tentativa de provar sua incoerência é, ela mesma, incoerente. A obra, no entanto, não é uma mera polêmica; é uma exposição sistemática do aristotelismo e uma defesa da possibilidade do conhecimento demonstrativo.
3.4 A Unidade do Intelecto e a Teoria da Dupla Verdade
Uma das doutrinas mais controversas associadas a Ibn Rushd é a unidade do intelecto (wahdat al-‘aql). Ele sustentava que o intelecto agente (parte da alma que abstrai as formas universais) é único para toda a humanidade, e não um atributo individual de cada alma. Essa teoria foi interpretada pelos latinos como uma negação da imortalidade pessoal da alma, o que gerou imensa oposição por parte de Tomás de Aquino e outros escolásticos.
Embora Ibn Rushd nunca tenha defendido uma “teoria da dupla verdade” (a ideia de que algo poderia ser verdade na filosofia e falso na religião, ou vice-versa), essa doutrina foi atribuída a ele por seus seguidores latinos, os averroístas latinos, que a usaram para justificar seu racionalismo radical no século XIII.
4. Contribuições Médicas e Científicas
Além da filosofia, Ibn Rushd deixou uma marca indelével na medicina e nas ciências da natureza.
4.1 O Colliget: O Compêndio Médico
Sua obra médica principal, “Kitāb al-Kulliyyāt fī al-Ṭibb” (O Livro das Generalidades sobre a Medicina), escrita por volta de 1162, é uma enciclopédia médica dividida em sete livros: anatomia, fisiologia, patologia, semiologia, farmacologia, higiene e terapêutica. Conhecida no Ocidente pelo título latino “Colliget” (que significa “coletânea”), foi traduzida para o hebraico em 1285 e para o latim em 1490, servindo como livro-texto nas universidades europeias durante séculos.
A obra teve uma concepção particular: foi escrita em colaboração com seu contemporâneo e amigo, o médico clínico Ibn Zuhr (Avenzoar) . Enquanto Ibn Zuhr escreveu o “Kitāb al-Taysīr” (O Livro da Simplificação), que tratava dos detalhes práticos da medicina (doenças específicas, medicamentos, dietas), Ibn Rushd compôs o Kulliyyāt, que tratava dos princípios gerais da medicina — daí o nome “Generalidades”. As duas obras foram concebidas como complementares, formando um tratado completo da medicina.
4.2 Contribuições à Neurologia
Na área da neurologia, as contribuições de Ibn Rushd foram notáveis e, em alguns casos, pioneiras:
A retina como órgão fotossensível: Ibn Rushd foi um dos primeiros a identificar corretamente que a retina é a parte do olho responsável pela percepção da luz, antecipando em séculos as descobertas da oftalmologia moderna.
Descrição da doença de Parkinson: Seus escritos incluem a primeira descrição clínica conhecida dos sintomas da doença de Parkinson — tremores, rigidez e dificuldade de movimento — muito antes de James Parkinson descrever a condição em 1817.
Teoria do acidente vascular cerebral (AVC): Ibn Rushd propôs uma nova teoria para o AVC, identificando sua origem no coração e nos vasos sanguíneos, e não meramente em causas humorais.
4.3 Outras Contribuições Científicas
Ibn Rushd também escreveu sobre astronomia (rejeitando as excêntricas e epiciclos do sistema ptolomaico, propondo um modelo mais aristotélico), sobre física (comentários detalhados sobre a Física de Aristóteles) e sobre psicologia (especialmente em seu longo comentário sobre o De Anima). Sua ênfase na observação empírica e na causalidade natural influenciou o desenvolvimento do método científico na Europa.
5. Principais Obras
A produção intelectual de Ibn Rushd foi vastíssima. Embora muitas de suas obras originais em árabe estejam perdidas, cerca de 38 obras sobreviveram, principalmente em traduções latinas e hebraicas.
5.1 Comentários sobre Aristóteles (1169–1195)
A obra central da carreira de Ibn Rushd, realizada ao longo de quase três décadas, foi uma série de comentários sobre a maioria das obras de Aristóteles. Ele produzia três tipos de comentários para cada obra principal:
| Tipo | Característica | Público-alvo |
|---|---|---|
| Epítome (Jawāmi’) | Resumo muito conciso, frequentemente reorganizando o texto de forma temática. | Iniciantes em filosofia. |
| Comentário Médio (Talkhīṣ) | Paráfrase explicativa, mais detalhada, que segue a ordem do texto aristotélico. | Estudantes avançados. |
| Grande Comentário (Tafsīr) | Análise linha por linha, frequentemente com extensas digressões e debates sobre as interpretações concorrentes. | Especialistas e professores. |
Entre os comentários mais importantes estão:
Comentário sobre o De Anima (Sobre a Alma): especialmente o Grande Comentário, que foi fundamental para o debate medieval sobre a natureza do intelecto e a imortalidade da alma.
Comentário sobre a Física: onde discute questões sobre espaço, tempo e movimento.
Comentário sobre a Metafísica: sua obra mais densa e abstrata.
Comentário sobre o De Caelo (Sobre o Céu): sobre cosmologia.
Comentário sobre a Ética a Nicômaco: um dos raros comentários medievais sobre a ética aristotélica.
5.2 Obras Filosóficas Originais
“Faṣl al-Maqāl” (Tratado Decisivo sobre a Concórdia entre a Lei Religiosa e a Filosofia) (c. 1179–1180): Sua defesa mais clara e acessível da legitimidade da filosofia no Islã.
“Tahāfut al-Tahāfut” (A Incoerência da Incoerência) (c. 1180): Uma resposta monumental à obra de al-Ghazālī, defendendo a filosofia aristotélica contra as críticas dos teólogos.
“Kashf al-Manāhij” (Exame dos Métodos de Prova Relativos às Doutrinas da Religião) (c. 1179–1180): Uma análise dos métodos de argumentação utilizados pelos teólogos muçulmanos, em que ele critica as escolas mutazilita, asharita e sufista.
“Bidāyat al-Mujtahid wa Nihāyat al-Muqtaṣid” (O Início para Aquele que se Esforça e o Fim para Aquele que é Satisfeito): Um tratado monumental de jurisprudência comparada islâmica (malikita), que ainda hoje é estudado nas universidades islâmicas.
5.3 Obras Médicas
“Kitāb al-Kulliyyāt fī al-Ṭibb” (O Livro das Generalidades sobre a Medicina) (c. 1162): sua obra médica mais importante, traduzida como Colliget.
6. Curiosidades e Anedotas
“O Comentador” e “o Filósofo”: Na Europa medieval, Tomás de Aquino chamava Aristóteles de “o Filósofo” e Averróis de “o Comentador” , tamanha era a reverência pela obra de Ibn Rushd. O título designa uma relação única na história da filosofia: ninguém jamais foi tão associado à exegese de um único pensador.
A Lenda da Obesidade e da Alimentação: Fontes antigas descrevem Ibn Rushd como “excessivamente gordo” , embora comesse apenas uma vez por dia. Dizia-se que passava todas as noites estudando filosofia, sugerindo um homem de hábitos muito regrados e dedicado exclusivamente ao saber.
O Raio de Luz Enterrado: No século XIX, Victor Hugo popularizou uma lenda curiosa em sua obra O Homem que Ri: “Alguns pensaram em enterrar um raio de sol, Averróis enterrou um debaixo de uma bigorna”. A atribuição a Averróis parece derivar do fato de seu nome ser o mais conhecido entre os alquimistas e filósofos medievais, e a história ilustra a reputação mágica e misteriosa que ele adquiriu no Ocidente.
O Encontro com Averróis na Divina Comédia: Dante Alighieri, em sua Divina Comédia (Inferno, Canto IV), coloca Averróis entre os grandes filósofos e sábios da antiguidade no Limbo, um lugar de honra reservado aos virtuosos não cristãos. A passagem é um testemunho do alto conceito em que a Idade Média tardia o tinha.
“Tudo o que Deus quer, o homem não pode, e tudo o que o homem pode, Deus não quer”: Um aforismo frequentemente atribuído a Ibn Rushd sintetiza seu entendimento da relação entre a onipotência divina e a liberdade humana dentro da ordem causal da natureza. A frase, no entanto, é uma simplificação moderna de sua doutrina complexa.
O Califa que o Reabilitou: Abū Yūsuf Ya’qūb, o mesmo califa que o exilou, teria ficado tão impressionado com a erudição e a bondade de Ibn Rushd que, pouco antes de sua morte, ordenou seu retorno e o tratou com as maiores honras.
A Estátua em Córdova: Uma estátua em bronze de Ibn Rushd foi erguida em Córdova, sua cidade natal, como reconhecimento duradouro de sua contribuição à cultura andaluza e ao pensamento universal.
7. Legado e Influência
7.1 O Averroísmo Latino
A influência de Ibn Rushd no Ocidente latino foi ainda maior do que no mundo islâmico. A partir do século XIII, as traduções latinas de suas obras — especialmente dos grandes comentários — tornaram-se rapidamente acessíveis nas universidades de Paris, Oxford, Bolonha e Pádua. Uma escola de pensamento conhecida como averroísmo latino (ou “radical aristotelismo”) floresceu na Faculdade de Artes da Universidade de Paris, representada por figuras como Siger de Brabante e Boécio da Dácia. Esses “averroístas” adotaram e radicalizaram as teses mais polêmicas de Ibn Rushd: a eternidade do mundo, a unidade do intelecto (e, portanto, a negação da imortalidade individual) e a teoria da dupla verdade.
A resposta da Igreja foi enérgica. As condenações de 1270 e 1277 pelo bispo de Paris, Étienne Tempier, visaram diretamente as teses averroístas. Tomás de Aquino escreveu sua obra “De Unitate Intellectus contra Averroistas” (Sobre a Unidade do Intelecto contra os Averroístas) em 1270, para refutar a doutrina da unidade do intelecto e defender a imortalidade pessoal da alma. Apesar das condenações, o averroísmo sobreviveu e floresceu na Universidade de Pádua, onde influenciou pensadores como Pietro Pomponazzi e, mais tarde, Galileu Galilei.
7.2 A Redescoberta no Mundo Árabe
No mundo islâmico, a recepção de Ibn Rushd foi muito mais ambivalente. Embora sua obra em jurisprudência continuasse a ser estudada (especialmente a Bidāyat al-Mujtahid), sua filosofia foi progressivamente abandonada. Os comentários de Ibn Rushd sobre Aristóteles tiveram pouca circulação no Oriente, e ele foi frequentemente acusado de heresia pelos ulemás (eruditos religiosos). O teólogo Fakhr al-Dīn al-Rāzī (1149–1209), seu contemporâneo, foi um dos principais críticos da filosofia peripatética e um duro opositor de Ibn Rushd.
No século XIX e XX, com o movimento da Nahda (o renascimento árabe moderno), Ibn Rushd foi resgatado como um símbolo do racionalismo islâmico, especialmente no Egito. O filósofo Muhammad ‘Abduh (1849–1905), o grande reformador do Islã, defendeu o retorno ao método de Ibn Rushd como forma de reconciliar fé e razão. Hoje, ele é invocado como uma “bandeira” para um Islã racionalista.
7.3 A Influência sobre a Ciência e a Filosofia Modernas
A ênfase de Ibn Rushd na observação, na causalidade natural e na autonomia da razão filosófica contribuiu para a formação do pensamento científico europeu. Estudiosos do Renascimento, como Agostino Nifo e Pomponazzi, foram profundamente influenciados pelo averroísmo. A descrição do cérebro como o órgão do pensamento e a defesa da unidade psicofísica também antecipam alguns desenvolvimentos da psicologia moderna.
8. Morte
Ibn Rushd faleceu em Marraquexe em 10 de dezembro de 1198 (ou 11 de dezembro, segundo algumas fontes), aos 72 anos, logo após retornar do exílio. Sua morte ocorreu em circunstâncias que não são totalmente claras. Alguns relatos afirmam que ele sucumbiu a uma doença contraída durante o exílio. Outros, que faleceu em paz na corte, sendo velado com honras.
Seu corpo foi transladado para Córdova e sepultado. Hoje, seus restos mortais repousam em uma tumba na cidade que o viu nascer, onde uma estátua sua o homenageia.
Conclusão
A obra de Ibn Rushd representa o último grande suspiro da filosofia clássica no mundo islâmico e, ao mesmo tempo, o primeiro grande sopro do pensamento racional na Europa medieval. Mais do que qualquer outro pensador de sua época, ele demonstrou que a razão e a fé não são inimigas, mas companheiras na busca pela verdade. Seu legado é, portanto, não apenas intelectual, mas também simbólico: o testemunho de que o pensamento humano não conhece fronteiras religiosas ou geográficas. Em seus comentários sobre Aristóteles, Ibn Rushd escreveu: “O que os antigos disseram é verdade, e o que nós acrescentamos é um complemento; mas o que os que virão depois de nós disserem será sempre uma confirmação”. Sua vida e obra confirmam essa visão da filosofia como um diálogo universal que atravessa os séculos e civilizações.
Autor e pesquisa Ivair Ximenes Lopes
Fontes Citadas
- Fontes primárias em tradução:
- Ibn Rushd (Averróis). Tratado Decisivo sobre a Concordância da Lei Religiosa com a Filosofia (Faṣl al-Maqāl). Tradução de Carlos A. R. do Nascimento. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
- Ibn Rushd (Averróis). A Incoerência da Incoerência (Tahāfut al-Tahāfut). Tradução inglesa de Simon van den Bergh. London: Luzac & Co., 1954.
- Ibn Rushd (Averróis). Comentário Médio sobre o De Anima de Aristóteles. Tradução inglesa de Alfred L. Ivry. Provo: Brigham Young University Press, 2002.
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- Brittannica, The Editors of Encyclopaedia. Averroës – Contents and significance of works. Encyclopaedia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Averroes/Contents-and-significance-of-works. [11†L8-L42].
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- MDPI. Blind Man, Mirror, and Fire: Aquinas, Avicenna, and Averroes on Thinking. 2024. Disponível em: https://www.mdpi.com/. [2†L42-L47].

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
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