Ibn Rushd (Averróis) — “O Comentador” que Defendeu a Autonomia da Razão
(i) Ximenes
Introdução
Há figuras na história do pensamento cujo legado é maior do que a sua própria biografia. Ibn Rushd, conhecido no Ocidente como Averróis, é uma dessas figuras. Nascido em Córdoba, filho de uma família de juízes, tornou‑se o mais importante comentador de Aristóteles no mundo islâmico medieval e uma das figuras centrais do pensamento racionalista europeu.
Neste artigo, procuro reconstituir a sua vida, marcada pelo favor real e pelo exílio, e a sua doutrina, que defendeu a autonomia da filosofia e a harmonia entre fé e razão — teses que lhe valeram a condenação no Islão e a imortalidade no Ocidente.
I. Biografia
Família e formação em Córdoba (1126–1153)
Abū al‑Wālīd Muḥammad ibn Aḥmad ibn Rushd, latinizado como Averróis, nasceu em Córdoba em 1126, numa família proeminente de juízes (qāḍīs). Estudou direito islâmico, medicina, matemática e filosofia, tornando‑se um dos mais brilhantes intelectuais da Al‑Andalus.
Médico da corte e patrono (1153–1195)
Em 1169, foi apresentado ao califa almóada Abū Yaʻqūb Yūsuf, que ficou impressionado com o seu conhecimento e o incumbiu de comentar as obras completas de Aristóteles. Tornou‑se juiz em Sevilha e Córdova e, em 1182, foi nomeado médico da corte e juiz supremo de Córdova.
Exílio e retorno (1195–1198)
Em 1195, caiu em desgraça junto do califa, provavelmente por razões políticas, e foi exilado para a cidade vizinha de Lucena. Morreu em Marraquexe em 1198, tendo o seu corpo sido transladado para Córdoba.
II. Obras
Os Comentários a Aristóteles — Escreveu três níveis de comentários: as Epítomes (resumos), os Comentários Médios (paráfrases) e os Grandes Comentários (análises linha a linha). Por isso ficou conhecido como “O Comentador”.
“A Incoerência da Incoerência” (Tahāfut al‑tahāfut) — Resposta direta à obra homónima de al‑Ghazali, defendendo a filosofia contra as suas críticas.
“Tratado Decisivo sobre a Harmonia entre a Lei Divina e a Filosofia” (Fasl al‑maqāl) — Obra em que defende que a verdade filosófica e a verdade religiosa não podem contradizer‑se, pois ambas emanam de Deus.
“O Livro do Colírio” (Kitāb al‑Kulliyyāt fī al‑ṭibb) — Tratado médico de grande influência no Ocidente.
III. Curiosidades
O maior dos peripatéticos islâmicos. Considerado por muitos o maior filósofo da tradição peripatética islâmica, tendo‑se esforçado por restaurar o ensino original de Aristóteles contra as interpretações neoplatónicas de Avicena e Alfarábi.
O “duplo efeito” da verdade. Desenvolveu a teoria da “dupla verdade”: a verdade da razão e a verdade da revelação são ambas verdadeiras, ainda que por caminhos diferentes.
Célebre pela sua frase: “O mundo é dividido entre homens com inteligência e sem inteligência”, que o tornou um precursor do secularismo.
A sua influência na Europa. As suas obras foram traduzidas para latim em Toledo e Paris, influenciando Tomás de Aquino, Duns Escoto e, sobretudo, o movimento do Averroísmo Latino, que se tornou uma das correntes mais dinâmicas da escolástica parisiense.
IV. Conclusão
Ibn Rushd foi o filósofo que ousou defender a razão contra os teólogos que a queriam silenciar. A sua doutrina da harmonia entre fé e filosofia, a sua defesa da eternidade do mundo e a sua crítica às interpretações neoplatónicas de Aristóteles marcaram um ponto de viragem na história do pensamento. Embora condenado no seu mundo, tornou‑se um dos pais do racionalismo europeu e um símbolo da autonomia da razão face ao poder religioso.
Pesquisa e redação Ivair Ximenes Lopes
Fontes
Wikipédia, a enciclopédia livre. Averróis. (Consulta em maio de 2026)
Humanists International. Ibn Rushd: Pai do Secularismo. 2009.
Oxford Bibliographies. Ibn Rushd (Averroës) — by Oliver Leaman. 2020.
Webarchive (Wayback Machine). Averroes. (Consulta em maio de 2026)

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