Quaresma: origem, tradição e expressões nas diversas igrejas cristãs
A Quaresma constitui um dos períodos mais antigos e significativos do calendário cristão. Celebrada como tempo de preparação para a Páscoa, articula penitência, jejum, oração e caridade. Sua duração simbólica de quarenta dias remete a marcos bíblicos fundamentais: os quarenta dias do dilúvio (Gn 7,12), os quarenta anos no deserto (Nm 14,33) e, sobretudo, os quarenta dias de Cristo no deserto (Mt 4,1-11).
Origem Histórica
Nos primeiros séculos, a preparação para a Páscoa variava de poucos dias a semanas. A partir do século IV, especialmente após o Concílio de Niceia (325), consolidou-se um período mais amplo de preparação, com forte caráter catecumenal e penitencial. A Quaresma tornou-se tempo de instrução final dos catecúmenos e de reconciliação dos penitentes públicos.
A Quaresma na Igreja Católica Apostólica Romana
Na tradição latina, a Quaresma inicia-se na Quarta-Feira de Cinzas e estende-se até a Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-Feira Santa. Caracteriza-se pelo tríplice exercício espiritual: oração, jejum e esmola.
O jejum é obrigatório na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa, e a abstinência de carne é observada nas sextas-feiras quaresmais. A liturgia adota sobriedade: ausência do “Glória” e do “Aleluia”, uso da cor roxa e ênfase penitencial. O período culmina no Tríduo Pascal.
A Tradição da Igreja Ortodoxa
Na tradição ortodoxa, a chamada “Grande Quaresma” inicia-se na Segunda-Feira Limpa e apresenta disciplina ascética rigorosa. O jejum inclui restrições mais amplas de alimentos, com forte dimensão comunitária.
A espiritualidade ortodoxa enfatiza a metanoia (mudança interior), a oração do coração e a liturgia de São Basílio. O período é precedido por semanas preparatórias com temas como humildade, arrependimento e juízo final.
Igrejas Protestantes Históricas
Entre as igrejas oriundas da Reforma há diversidade de práticas.
A Igreja Luterana e a Igreja Anglicana mantêm o calendário litúrgico tradicional, celebrando a Quaresma com cultos penitenciais, leituras bíblicas específicas e, em alguns contextos, jejum voluntário.
Já igrejas de tradição reformada, como a Igreja Presbiteriana, tendem a não observar formalmente a Quaresma, enfatizando a conversão contínua e a centralidade da Palavra, sem calendário penitencial fixo.
Igrejas Pentecostais
Nas igrejas pentecostais — como a Assembleia de Deus e a Congregação Cristã no Brasil — a Quaresma geralmente não integra o calendário oficial.
O jejum é prática comum, mas realizado de forma espontânea ou em campanhas específicas, não necessariamente vinculado ao ciclo pascal. A ênfase recai na experiência pessoal com Deus, na oração intensa e na expectativa da ação do Espírito Santo.
Convergências e Diferenças
Embora haja diferenças quanto à estrutura litúrgica e disciplina do jejum, todas as tradições cristãs reconhecem a importância da preparação espiritual para a celebração da ressurreição de Cristo.
Para algumas igrejas, a Quaresma possui forma ritual consolidada; para outras, trata-se de tempo opcional ou não observado formalmente. Contudo, o chamado à conversão, à reflexão moral e à renovação da fé permanece elemento comum.
A Quaresma, portanto, transcende calendários: é expressão histórica da consciência cristã de que a vida espiritual exige disciplina, exame de consciência e retorno constante ao Evangelho.
Fontes Consultadas
BÍBLIA SAGRADA.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, §§ 540, 1430-1438.
MISSALE ROMANUM.
CONFISSÃO DE AUGSBURGO.
LIVRO DE ORAÇÃO COMUM (Book of Common Prayer).
SÃO BASÍLIO MAGNO, Homilias sobre o Jejum.
SCHMEMANN, Alexander. A Grande Quaresma.
DANIÉLOU, Jean. História das Doutrinas Cristã

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