Há muitos anos, quando me debrucei sobre os manuais de estética e filosofiamoral do século XVIII, deparei-me com umnome recorrente e sempre envolto em um ar de subtileza aristocrática: Anthony Ashley Cooper, o terceiro Conde de Shaftesbury. A princípio, fiquei intrigado não apenas pelas suas ideias revolucionárias, mas pela sua biografia invulgar: um nobre inglês, educado pelo grandeJohn Locke, que trocou a carreira política pelos rigores da asma e pela contemplação da beleza nas ruas de Nápoles. Nesta pesquisa, procurei ir além dos manuais. Quis compreender como umhomem de saúde frágil pôde erigir umsistema filosófico tão otimista a respeito da natureza humana e como a sua figura continua a projetar-se sobrepensadores tão díspares como Kant, os românticos alemães e os filósofos do Iluminismoescocês.
O que se segue é o resultado desse mergulho: um retrato biográfico, uma análise das suas obras e uma colecção de curiosidades que ajudam a explicar por que razão este conde inglês, que morreu jovem e longe da sua terranatal, merece ainda hoje ser lido e recordado.
I. Biografia
Infância e educação privilegiada
Anthony Ashley Cooper nasceu em Londres a 26 de fevereiro de 1671, num berço de ouro político e intelectual. Era filho de Anthony Ashley-Cooper, 2.º Conde de Shaftesbury, uma figura descrita pelo poeta Dryden como “um pedaço disforme, como anarquia”, devido à sua fragilidade mental. Coube, pois, ao avô, o primeiro Conde de Shaftesbury — um dos fundadores do partido Whig e patrono de John Locke — assumir a sua educação. Foi o avô quem confiou a supervisão dos estudos do neto ao filósofo John Locke, que, por sua vez, contratou uma jovem governanta de nome Elizabeth Birch para lhe ensinar grego e latim. Graças aos métodos de Birch, o pequeno Anthony lia fluentemente as duas línguas clássicas antes dos doze anos.
A morte do avô, em 1683, interrompeu esta bolha de tranquilidade. O jovem foi então matriculado no Winchester College, onde sofreu perseguições e insultos dos colegas devido à herança política whig da família. Inconformado, convenceu o pai a deixá-lo partir em viagem pelo continente. Entre 1686 e 1689, percorreu França, Itália, Boémia, Áustria e Alemanha, regressando a Inglaterra precisamente no ano da Revolução Gloriosa.
Carreira política e declínio da saúde
A saúde frágil de Shaftesbury, marcada por uma asma crónica, agravada pelo clima húmido de Londres, condicionaria toda a sua vida. Em 1695, foi eleito para a Câmara dos Comuns, onde se manteve fiel ao ideário whig, votando sistematicamente a favor da liberdade dos súbditos e dos direitos legais dos acusados. A sua passagem pela política activa, porém, foi curta: em 1698, forçado pela doença, resignou ao mandato e retirou-se para a Holanda. Com a morte do pai em 1699, tornou-se o 3.º Conde de Shaftesbury e tomou assento na Câmara dos Lordes. O rei Guilherme III ofereceu-lhe o cargo de secretário de Estado, mas Shaftesbury recusou, alegando novamente problemas de saúde. A única função pública que aceitou foi a de vice-almirante de Dorsetshire. Com a subida da rainha Ana ao trono, em 1702, retirou-se definitivamente da vida pública para se consagrar inteiramente ao estudo e à escrita.
Em 1709, já doente e isolado, casou com Jane Ewer, uma senhora que mal conhecia, num gesto que para os biógrafos permanece envolto em mistério. Dessa união nasceu um filho, que viria a ser o 4.º Conde de Shaftesbury. Na esperança de encontrar um clima mais ameno para os seus pulmões, Shaftesbury instalou-se em Nápoles em 1711, onde se tornou mecenas do pintor italiano Paolo de Matteis. Ali, apesar da crescente debilidade, concluiu a redacção dos seus principais escritos. A 15 de fevereiro de 1713, uma crise particularmente violenta de asma pôs termo à sua vida, aos quarenta e umanos.
Shaftesbury não foi um autor de tratados sistemáticos, mas sim de ensaios elegantes, escritos muitas vezes sob a forma de diálogos ou cartas. A sua obra-prima é a colectânea Characteristicks of Men, Manners, Opinions, Times (Características dos Homens, Costumes, Opiniões e Épocas), publicada em 1711. A obra abrange a ética, a estética, a religião, as artes (pintura, literatura, arquitectura, jardinagem) e a história, com a ambição de propor um novo ideal para o cavalheiro inglês — polido, virtuoso, culto e socialmente benevolente.
A Letter Concerning Enthusiasm (1708): Uma defesa da liberdade de pensamento e uma crítica ao fanatismo religioso, escrito a propósito dos profetas huguenotes que então agitavam Londres.
Sensus Communis: An Essay on the Freedom of Wit and Humour (1709): Defesa do humor e da ironia como instrumentos de crítica social e como antídotos contra o dogmatismo.
Soliloquy, or Advice to an Author (1710): Uma reflexãosobre o método do auto-exame e sobre a importância de se conhecer a si mesmo antes de ousar escrever para os outros.
An Inquiry Concerning Virtue or Merit (1699): O núcleo filosófico da sua obra, onde formula pela primeira vez a teoria do “sentido moral” e argumenta que a virtude é natural ao serhumano.
The Moralists: A Philosophical Rhapsody (1709): Um diálogo de inspiração platónica que explora a beleza, o bem e a relação entre o homem e a ordem cósmica.
Além destes, Shaftesbury deixou escritos sobre teoria da arte, designadamente A Notion of the Historical Draught or Tablature of the Judgment of Hercules (1713), ilustrado pelo pintor Paolo de Matteis, e a sua importante A Letter Concerning Design (1712), onde defende uma concepção idealista e moralmente edificante das artes visuais.
Shaftesbury é justamente considerado o fundador da escola do “sentido moral” (moral sense) na filosofia britânica. Em An Inquiry Concerning Virtue or Merit, ele argumenta que os seres humanos possuem uma faculdade inata — análoga aos sentidos físicos — que lhes permite distinguir o bem do mal de forma imediata, sem necessidade de cálculo racional ou de revelação divina. Este sentidomoral aprova naturalmente as acções benevolentes, generosas e simpáticas, e reprova o egoísmo e a crueldade. Shaftesbury opunha-se, com esta teoria, tanto ao pessimismo de Hobbes, que via o homem como naturalmente egoísta, como ao dogma calvinista da depravação total do serhumano. Para ele, a natureza humana é intrinsecamente social e virtuosa: a virtude é tão natural ao homem como a saúde o é ao corpo.
Uma das marcas mais originais do pensamento de Shaftesbury é a estreita ligação que estabelece entre a beleza e a bondade. Influenciado pelos platónicos de Cambridge, ele sustenta que o belo e o bem são, em última instância, a mesma realidade: a harmonia e a ordem do cosmos. Apreciar uma bela paisagem, uma melodia bem proporcionada ou um rosto harmonioso é, para Shaftesbury, o mesmo tipo de exercício espiritual que aprovar uma acção moral. O prazer estético é desinteressado — ou seja, não visa a posse do objecto nem a satisfação de umdesejo egoísta — e precisamente por isso eleva o homem acima da sua materialidade, aproximando-o da contemplação da ordem divina.
Esta tese, conhecida como “desinteresse estético”, antecipa em mais de meio século as análises de Kantsobre o juízo de gosto e influenciará profundamente os românticos alemães e ingleses. Como escreve OttoMaria Carpeaux, “Shaftesbury é o grande filósofo do Pré‑Romantismo”.
Shaftesbury é geralmente classificado como um dos principais deístas ingleses, ainda que esta etiqueta não lhe caiba inteiramente. Ele rejeita a necessidade de uma revelação sobrenatural e critica duramente o clericalismo, o fanatismo e a superstição. Para ele, a verdadeirareligião coincide com a virtude e com o reconhecimento racional da ordem harmoniosa do universo. O culto a Deus não deve fundar-se no medo do castigo ou na esperança de recompensa, mas num amor desinteressado pela beleza e pela bondade da criação. Alexander Pope chegou a afirmar que as Characteristicks de Shaftesbury fizeram mais mal à religião revelada do que todos os panfletos ateus juntos. Contudo, Shaftesbury nunca foi um ateu; pelo contrário, a sua filosofia está impregnada de um panteísmo optimista que vê Deus na própria natureza.
A anedota do vidraceiro. Shaftesbury gostava de contar uma história reveladora sobre a perversidade humana: a de um vidraceiro inescrupuloso que, para aumentar o seu negócio, oferecia uma bola de futebol aos rapazes da aldeia para que eles partissem os vidros das janelas, garantindo-lhe assim encomendas constantes.
O patrono das artes em Nápoles. Durante a sua estadia em Nápoles, Shaftesbury encomendou ao pintor Paolo de Matteis um quadro alegórico representando “Hércules na Encruzilhada”, que deveria ilustrar a escolha entre o vício e a virtude. As instruções escritas que deixou ao pintor são tão pormenorizadas que constituem por si só um tratado de teoria da arte.
Morte serena e legado póstumo. Nos meses finais, já muito debilitado, Shaftesbury preparou a sua morte com serenidade estoica. Terá discutido com de Matteis o projecto de um retrato seu em leito de morte, inserido num gabinete de virtuoso, que infelizmente nunca foi executado.
Anthony Ashley Cooper, terceiro Conde de Shaftesbury, foi um pensador original que, a partir de uma vida atormentada pela doença e pelo exílio voluntário, construiu uma filosofia de notável optimismo e serenidade. Acreditava que o homem nasce com umsentidonatural da virtude, que a beleza é uma manifestação da ordem divina e que a liberdade de pensamento e de expressão são indispensáveis ao aperfeiçoamento moral. Se hoje falamos de “juízo estético desinteressado”, de “sentido moral” ou da autonomia da ética face à religião revelada, devemo-lo, em grandemedida, a este nobre inglês que trocou os salões do poder pela contemplação do céu napolitano. A sua obra permanece como um convite a confiar na bondadefundamental da natureza humana e a cultivar, em nós mesmos, aquela “beleza interior” que para ele era a mais verdadeira de todas.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).