Henrique II (1133–1189): O Rei Fogo que Criou o “Pai da Common Law” e Morreu Devorado pela Própria Família
janeiro 13, 2026
Henrique II (1133–1189): O Rei Fogo que Criou o “Pai da Common Law” e Morreu Devorado pela Própria Família
Introdução
Confesso que, antes de me aprofundar na figura de Henrique II, eu o imaginava como umnome genérico entre os tantos reis da Inglaterra medieval — uma figura ofuscada pelos famosos herdeiros que gerou: o lendário Ricardo Coração de Leão, o sinistro João Sem Terra e a extraordinária Leonor da Aquitânia.
Ao longo desta pesquisa, porém, deparei-me com um personagem tão central quanto os grandesconstrutores de impérios que já estudei. Foi Henrique, não seus filhos, quem criou o chamado “Império Angevino”, uma vasta extensão territorial que se estendia da Escócia aos Pireneus.
Foi ele, não seus sucessores, quem lançou as bases do sistema jurídico inglês, merecendo o título de “Pai da Common Law” — um legado que ainda hoje estrutura o direito em dezenas de países.
Sua história, porém, também é a de umhomem atormentado pela própria família: uma esposa que se rebelou contra ele, filhos que o traíram repetidas vezes e um amigo que, ao tentar defender os direitos da Igreja, foi assassinado em sua catedral — e cuja morte, ironicamente, fez de Henrique um dos reis mais humilhados da história.
Neste artigo, convido o leitor a conhecer a trajetória desse rei de energia indomável que, mais de oitocentos anos após sua morte, ainda é lembrado como um dos maiores governantes da Idade Média.
Henrique II nasceu em 5 de março de 1133 em Le Mans, na França, filho de Godofredo V, Conde de Anjou (apelidado de “o Belo”) e de Matilde da Inglaterra, filha do rei Henrique I da Inglaterra e neta de Guilherme, o Conquistador.
Seu pai foi o responsável por adotar o famoso ramo de “Plantageneta” para a família, uma alcunha que se tornaria o nome de uma das mais importantes dinastias reais da história inglesa — embora o nome “Plantageneta” propriamente dito só tenha sido usado muito mais tarde pelos descendentes de Henrique.
Curiosamente, o nome deriva de uma flor, o planta genista (giesta ou genista), que Godofredo usava em seu chapéu.
QuandoHenrique I morreu em 1135, sua filha Matilde reivindicou a coroa, mas o trono foi tomado por seu primo Estêvão de Blois, desencadeando um período de guerra civil conhecido como “A Anarquia” (1135-1153), no qual a Inglaterra se fragmentou em zonas de controle militar, e a nobreza e o clero se rebelaram contra a autoridade real. Henrique envolveu-se aos catorze anos nos esforços de sua mãe para reivindicar o trono, e suas habilidades militares impressionaram até mesmo seus inimigos.
Estêvão, que havia perdido seu herdeiro e cuja posição tornara-se insustentável, concordou com o Tratado de Wallingford (1153), pelo qual adotou Henrique como seu sucessor.
Em 1151, Henrique herdou de seu pai os títulos de Conde de Anjou e Duque da Normandia. Pouco tempo depois, casou-se com Leonor da Aquitânia (1122-1204), uma das mulheres mais poderosas e influentes da Idade Média. O casamentofoi uma das maiores aquisições territoriais da história: Leonor, cujo casamento com o rei Luís VII da França havia sido anulado, trouxe como dote o imenso Ducado da Aquitânia, que compreendia grandeparte do centro e do oeste da França atual. Henrique era onze anos mais novo que Leonor, mas a união consolidou um vasto império que se estendia da Escócia até os Pireneus, dominando quase metade do território francês.
O Império Angevino e a Restauração da Autoridade Real
Quando Henrique subiu ao trono, com apenas 21 anos, encontrou seus domínios devastados por duas décadas de guerra civil. Nos primeirosanos de seu reinado, restaurou a administração real, reconstruiu a hegemonia inglesa sobreGales e consolidou o controle total sobre suas terras francesas. Ao contrário de seus antecessores, Henrique eraum governante energético, viajando constantemente entre seus domínios e acompanhando pessoalmente cada aspecto da administração. Sua corte era itinerante, e ele passava mais tempo na França do que na Inglaterra, gerenciando seu vasto império com mão de ferro.
Henrique controlava, em vários momentos, não apenas a Inglaterra e grandeparte da França, mas também exercia hegemonia sobreGales, a Escócia e a Bretanha. Na Escócia, impôs o Tratado de Falaise (1174), que tornava o rei Guilherme I seu vassalo, subordinando a Igreja escocesa à inglesa e entregando castelos estratégicos.
O Conflito com Thomas Becket
Henrique II teve ao seu lado como chanceler o seu amigo Thomas Becket. Em 1162, Becket foi nomeado arcebispo de Cantuária, o cargo religioso mais importante da Inglaterra. Henrique esperava que Becket, agora líder da Igreja inglesa, cooperasse com seus planos de limitar a autonomia judiciária da Igreja, especialmente o direito de clérigos acusados de crimes serem julgados por tribunais eclesiásticos em vez dos tribunais reais.
O plano deu terrivelmente errado. Becket, longe de serum fantoche dócil, tornou-se um defensor ferrenho dos privilégios da Igreja e renunciou à chancelaria para não servir a dois senhores.
Em 1164, Henrique promulgou as Constituições de Clarendon, um conjunto de leis que regulamentavam as relações entre a Igreja e o Estado, limitando a competência dos tribunais eclesiásticos e subordinando o clero ao poder real. Becket recusou-se a aceitá-las e foi forçado ao exílio na França.
Anos de negociações infrutíferas se seguiram. Em 1170, Becket retornou à Inglaterra, e a crise atingiu seu clímax. Em uma explosão de fúria, Henrique teria perguntado, na presença de seus cortesãos: “Ninguém vai me livrar deste padre intrometido?”Quatrocavaleiros interpretaram a frase como uma ordem e, em 29 de dezembro de 1170, assassinaram Thomas Becket diante do altar da Catedral de Cantuária.
O assassinato chocou a cristandade. A repercussão foi tão grande que Henrique foi obrigado a negociar com o papado, aceitou fazerpenitência pública diante do túmulo do mártir, e o rei foi obrigado a renunciar às Constituições de Clarendon, além de financiar cruzadas. Becket foi canonizado em 1173 e tornou-se um dos santos mais populares da Inglaterra medieval, com seu santuário em Cantuária atraindo peregrinos de toda a Europa.
Enfraquecido pelo escândalo Becket, Henrique enfrentou sua maior provação: uma rebelião de três de seus filhos legítimos — Henrique, o Jovem (coroado rei associado em 1170), Ricardo (futuro Ricardo Coração de Leão) e Godofredo —, de sua esposa Leonor da Aquitânia e dos barões que os apoiavam. A revolta durou 18 meses (abril de 1173 a setembro de 1174) e contou com o apoio do rei Luís VII da França, do rei Guilherme I da Escócia, do duque da Bretanha e do conde de Flandres.
A deserção de sua amada esposa, que apoiou os filhos contra ele, foium golpe pessoal devastador. Leonor foi capturada e permaneceria prisioneira de Henrique pelos quinze anos seguintes. A rebelião, no entanto, fracassou, em parte devido à habilidade militar de Henrique e à lealdade de seus fiéis comandantes. Os membros rebeldes da família real foram forçados a se reconciliar com o pai. Trêsanos depois, Henrique tomou uma atitude simbólica no Castelo de Winchester: forçou seus filhos a prestarem uma homenagem pública de submissão a seu irmão mais novo, João Sem Terra, como herdeiro do trono — uma decisão que plantou as sementes de futuros conflitos.
Henrique II, que nunca se recuperou totalmente da traição de seus filhos, faleceu em 6 de julho de 1189 no Castelo de Chinon, na França, aos 56 anos de idade. Diz a tradição que, ao saber que seu filho mais amado, João, também o havia traído, o rei virou-se para a parede e murmurou: “Que vergonha para um rei conquistador ser vencido por uma mulher [Leonor] e por seus próprios filhos.” O corpo de Henrique foi sepultado na Abadia de Fontevrault, ao lado de sua esposa Leonor, em um túmulo duplo que pode ser visitado até hoje.
“Pai da Common Law”: Foi durante seu reinado que o direito comum inglês (common law) começou a se desenvolver, substituindo as leis locais fragmentadas por umsistema jurídico uniforme em todo o reino. Henrique criou juízes itinerantes (justices in eyre) que viajavam pelo país aplicando as mesmas leis, e desenvolveu o sistema de “writs” (ordens reais) que permitia que os súditos levassem suas queixas diretamente aos tribunais reais. Graças a Henrique II e a seus conselheiros, a monarquia inglesa foi o único poder leigo na Europa Ocidental a estabelecer um direito comum no início do século XIII.
Reforma administrativa e militar: Henrique restaurou a autoridade real após a anarquia, reorganizou o sistema de impostos (o “Dangeld”), profissionalizou o exército e estabeleceu uma administração centralizada com um tesouro (Exchequer) eficiente e burocratas treinados.
Restauração da hegemonia inglesa: Henrique restabeleceu o controle inglês sobreGales e a Escócia, impondo tratados de vassalagem, e iniciou a conquista da Irlanda, obtendo a bula papal Laudabiliter que autorizava a invasão e se tornando Lorde da Irlanda em 1171.
Legado dinástico: Henrique II foi o pai de dois reis da Inglaterra (Ricardo I e João I), além de ser avô de Eduardo I e ancestral de todos os monarcas ingleses subsequentes, estabelecendo uma dinastia que governaria a Inglaterra por mais de 300 anos.
“Curtmantle” (Manto Curto) : Henrique era conhecido por seu apelido Curtmantle (“Manto Curto”), devido ao seu hábito de usar mantos mais curtos do que o costume da época — uma preferência que o tornava mais prático para as longas cavalgadas entre seus vastos domínios.
Poliglota e culto: Ao contrário da maioria dos reis medievais, Henrique dominava várias línguas, incluindo latim, francês e inglês antigo. Eraum patrono do conhecimento e incentivou o desenvolvimento das universidades e da literatura em sua corte.
A lenda do rei devorado pela família: A famosa frase atribuída a Henrico ao saber da traição de seus filhos captura a essência de seu reinado: umhomem que conquistou umimpério, mas foi consumido pela própria família. “Que vergonha para um rei conquistador ser vencido por uma mulher e por seus próprios filhos.”
A amante Rosamund Clifford: Henrique teve várias amantes ao longo da vida, mas a mais famosa foiRosamund Clifford, a “Bela Rosamund”, por quem se apaixonou quando já tinha 40 anos. Diz a lenda que Leonor da Aquitânia teria envenenado Rosamund por ciúmes, mas a história é apócrifa.
A Grande Torre de Dover: Henrique II mandou reconstruir a Grande Torre do Castelo de Dover, um dos castelos mais imponentes da Inglaterra, em parte para rivalizar com o crescente culto a Thomas Becket e consolidar seu poder simbólico.
O rei que nunca esteve em paz: Henrique passou seu reinado guerreando constantemente — contra a França, contra seus filhos, contra a Igreja. Mesmo nos intervalos das guerras, viajava incessantemente entre seus domínios, raramente permanecendo mais de algumas semanas no mesmo lugar.
A reconciliação forçada com o papa: Após o assassinato de Becket, Henrique foi forçado a fazer uma penitência humilhante. Em 21 de maio de 1172, na Catedral de Avranches, ajoelhou-se diante dos legados papais e jurou sobre os Evangelhos que não ordenara nem desejava a morte de Becket. Como punição, foi ordenado a financiar 200 cavaleiros para as cruzadas por um ano e a restaurar todos os privilégios da Igreja.
O leito de morte solitário: Henrique morreu sozinho, abandonado por seus filhos e por grandeparte de seus cortesãos. Apenas um servo leal, Guilherme Marshal (que mais tarde se tornaria regente de João e um dos maiores cavaleiros da história), permaneceu ao seu lado.
O “rei do papel”: Ao contrário de seu neto, o famoso Ricardo III, Henrique raramente aparece em romances ou filmes, sendo ofuscado pelos filhos. No entanto, historiadores o consideram um dos administradores mais competentes e inovadores da Idade Média.
O túmulo em Fontevrault: O corpo de Henrique II repousa na Abadia de Fontevrault, ao lado de Leonor da Aquitânia, em uma tumba que retrata o casal deitado lado a lado — umsímbolo de seu poder conjunto, apesar dos conflitos que os separaram. O túmulo é uma das poucas efígies reais do século XII ainda preservadas na França.
Obras e Legado
Ao contrário de outros monarcas literatos, Henrique II não foium escritor. No entanto, sua produção intelectual foi imensa, sob a forma de leis, tratados e decretos:
Principais Contribuições Jurídicas e Administrativas
Assizes de Henrique II: Uma série de decretos reais que reformaram a justiça e a administração. As mais importantes incluem a Assize of Clarendon (1166), que estabeleceu procedimentos para julgamento criminal, e a Assize of Northampton (1176), que expandiu o sistema de juízes itinerantes.
O “Tractatus de Legibus et Consuetudinibus Regni Angliae” (Tratado das Leis e Costumes do Reino da Inglaterra) : O mais antigo livro de direito inglês, escrito por Ranulf de Glanvill, o principal juiz de Henrique nos últimos dez anos de seu reinado. O tratado descreve o sistema de “writs” e consolidou o direito comum inglês. É um dos documentos mais importantes da história jurídica ocidental.
Constituições de Clarendon (1164): Um conjunto de 16 cláusulas que pretendia regular as relações entre a Igreja e o Estado e limitar a competência dos tribunais eclesiásticos.
Exchequer Rolls: Os primeiros registros financeiros regulares que permitiram o controle real sobre a arrecadação de impostos.
Obras Inspiradas em Henrique II
The Lion in Winter (peça de James Goldman, 1966; filme de 1968): A obra mais famosa ambientada no reinado de Henrique II. Narra o Natal de 1183, quando a família real se reúne em Chinon para discutir a sucessão, em meio a traições, adultérios e conspirações. Peter O’Toole interpretou Henrique no filme ao lado de Katharine Hepburn como Leonor, ambos indicados ao Oscar.
Becket (peça de Jean Anouilh, 1959; filme de 1964): O drama que narra a amizade e a ruptura entre Henrique II (Peter O’Toole) e Thomas Becket (Richard Burton). O filme foium sucesso de crítica e público e ajudou a popularizar a história do conflito entre o rei e o arcebispo.
The Pillars of the Earth (romance de Ken Follett, 1989): Embora não seja inteiramente centrado em Henrique, o épico da construção de uma catedral ocorre durante a guerra civil entre Matilde e Estêvão, culminando na ascensão de Henrique II.
The Devil’s Brood (romance de Sharon Kay Penman, 2008): Parte de sua série sobre os Plantagenetas, narra os conflitos familiares de Henrique II, incluindo a rebelião de 1173-1174.
Thomas Becket: Warrior, Priest, Rebel (biografia de John Guy, 2012): Uma das mais aclamadas biografias do arcebispo, que ilumina seu relacionamento com Henrique e o contexto político do reinado.
Henry II: A Prince Among Princes (biografia de Richard Barber, 2015): Estudo abrangente sobre o reinado, o caráter e as realizações do rei.
Henry II: New Interpretations (coletânea editada por Christopher Harper-Bill e Nicholas Vincent, 2007): Volume acadêmico que reavalia o legado de Henrique sob múltiplas perspectivas, incluindo suas reformas jurídicas, sua política religiosa e suas relações familiares.
“The Murder of Thomas Becket” (programa da BBC, 2004) : Documentário da série “Horizon” que recria o assassinato e seus desdobramentos políticos.
Castle Builders (série da BBC, 2018): Episódio dedicado aos castelos de Dover e Chinon, construídos e reformados por Henrique II.
Ao final desta pesquisa, fica evidente que Henrique II foi uma das figuras mais extraordinárias e influentes da Idade Média. Energético, implacável, inteligente e inovador, ele foi o verdadeiro arquiteto do Império Plantageneta — a base do poder inglês que duraria séculos. Sua maior obrafoi a criação do direito comum inglês, o common law, um dos legados mais importantes da civilizaçãoocidental, que ainda hoje estrutura os sistemas jurídicos de países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e da própria Inglaterra.
No entanto, sua vida também é uma tragédia shakespeariana: um rei que conquistou umimpério, mas foi consumido pela própria família. Sua esposa rebelou-se contra ele; seus filhos conspiraram para depô-lo; seu amigo mais próximo foi assassinado em sua catedral, e o assassinato transformou-se em umculto que humilhou o rei publicamente. E, no final, morreu sozinho, abandonado, murmurando palavras de vergonha.
A grande ironia de sua história talvez seja esta: Henrique II, que passou a vida lutando para centralizar o poder real, criou as instituições jurídicas que, sob seu filho João, limitariam para sempre a autoridade do monarca através da Magna Carta. Em um gesto poético, o “Pai da Common Law” gerou o sistema que tornaria a Inglaterra uma monarquia constitucional.
Como escreveu o historiador John Gillingham, “Henrique II foi o maior rei da Inglaterra que a maioria das pessoas nunca ouviu falar”. Não pela falta de importância, mas porque suas realizações foram ofuscadas pelos filhos que o traíram e pela lenda sombria do arcebispo assassinado. Mas a história, ao contrário da memória popular, não esqueceu: o sistema jurídico que ele criou ainda está vivo, a dinastia que ele fundou ainda governa (a Casa de Windsor é descendente direta de Henrique II), e seu império — embora fragmentado — deixou marcas indeléveis na geografia política da Europa. O “rei fogo” queimou com intensidade, e suas cinzas ainda aquecem o mundo moderno.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
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