Há uma pergunta que atravessa silenciosamente os rituais maçônicos, ecoando entre colunas e mosaicos, gravada nos altares e nos passos do obreiro: por que a beleza ocupa um lugar tão central na Arte Real?
A resposta não está na ornamentação vazia, nem no deleite estéril dos sentidos.
Na Maçonaria, a beleza é “categoria” operativa — instrumento de elevação espiritual, ferramenta de aperfeiçoamento moral, linguagem silenciosa que fala diretamente à alma do iniciado.
Ela não adorna o Templo; ela constrói o Templo Interior.
A abordagem maçônica dos princípios do gosto universal e da beleza revela uma profunda convergência entre a reflexão filosófica e a prática iniciática.
Como uma tradição que se expressa por meio de rituais, símbolos e arquitetura, a Maçonaria constitui um campo privilegiado para a manifestação desses princípios estéticos, onde o belo não é fim em si mesmo, mas via de acesso ao verdadeiro e ao bom.
1. O Princípio do Gosto Universal e a Beleza Maçônica
Na Maçonaria, a beleza é frequentemente considerada como um dos três pilares simbólicos que sustentam o Templo Interior, ao lado da Sabedoria e da Força.
Estes três pilares representam o eixo vertical que liga o mundo terrestre ao mundo celestial, e cada Loja é concebida como um microcosmo ordenado no qual a beleza ocupa um lugar central.
A experiência estética do maçom no interior do Templo ecoa o princípio do gosto universal kantiano.
Quando um obreiro contempla as ColunasJ e B, o Delta Luminoso ou o Pavimento Mosaico, ele não está apenas diante de objetos decorativos. Ele experimenta uma satisfação desinteressada — aquilo que Kant, na Crítica da Faculdade do Juízo, define como um prazer sem conceito, isento de qualquer interesse prático ou utilitário.
“O belo é aquilo que, sem conceito, é representado como objeto de um prazer universal.” — Immanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, § 9.
Assim como o juízo estético kantiano aspira à universalidade, também o juízo do maçom sobre a beleza do ritual, da palavra e do símbolo é um juízo que, embora não demonstrável por conceitos, pretende ser compartilhado por toda a comunidade fraternal.
A beleza da palavra proferida, da música executada, da cerimônia realizada — todas estas manifestações estéticas são objeto de um consenso tácito que se funda na educação comum do gosto iniciático, e não em uma imposição externa ou dogmática.
O símbolo mais eloquente do princípio da unidade na diversidade na Maçonaria é, sem dúvida, o Pavimento Mosaico (ou Pavimento Quadriculado) que cobre o piso do Templo. Formado por quadrados brancos e pretos dispostos alternadamente em diagonal, este pavimento carrega uma mensagem estética e moral de profunda importância.
Diferentemente do que alguns possam supor, o Pavimento Mosaico não possui o significado de algo tão sagrado a ponto de ser proibido pisá-lo.
Ao contrário, ele representa o chão da vida, o campo de ação onde o maçom exerce sua arte de lapidar a pedra bruta.
Os contrastes — branco e preto, claro e escuro, virtude e vício, prazer e dor, verdade e mentira — são inerentes à existência humana.
Contudo, a beleza do conjunto não está numa das cores isoladamente, nem na supressão de um dos termos do contraste, mas na harmonia dos opostos: os quadrados formam um todo contínuo e ordenado, onde cada elemento, por mais diferente que seja de seu vizinho, contribui para a unidade do desenho.
Eis aí a aplicação concreta do princípio da unidade na diversidade: a beleza reside na integração dos contrários em um plano superior, que os reconcilia sem os anular.
“Mais do que um elemento visual, o Pavimento Mosaico representa a dualidade inerente à existência. Ao caminhar sobre ele, um maçom é constantemente relembrado de que viver é aprender a equilibrar opostos, sem negar nenhum deles. […] O pavimento não propõe a vitória de um lado sobre o outro. Ele ensina-nos que a Luz só é reconhecida porque existe Escuridão.” — Fonte: O Simbolismo do Pavimento Mosaico na Maçonaria (Coletânea de Ensaios, GOB).
Simbolicamente, o Pavimento Mosaico ensina que a Maçonaria reúne homens das mais variadas nacionalidades, raças, credos e opiniões — diversidade que poderia ser fonte de conflito — e os une em uma fraternidade harmoniosa.
3. As Colunas Jachin e Boaz: Estética e Simbolismo da Dualidade Complementar
Ladeando a entrada do Templo, as colunasJachin e Boaz são outro testemunho do princípio da unidade na diversidade. É fundamental, contudo, estabelecer corretamente seus significados:
Jachin (do hebraico Yākhin – “Ele estabelecerá”) representa a Estabilidade, a fixidez e o princípio da continuidade.
Boaz (do hebraico Bō’az – “Nele está a força”) representa a Força, a energia ativa e o poder de realização.
Elas representam pares de opostos fundamentais: princípio ativo e passivo, masculino e feminino, expansão e contenção. O maçom, ao ingressar, passa entre elas, em um ato simbólico de reconhecer e equilibrar essas forças dentro de si.
A beleza arquitetônica e alegórica das colunas reside precisamente no fato de que nenhuma delas é bela sozinha. O par, na sua confrontação harmoniosa, produz uma impressão estética que ultrapassa a soma de suas partes.
Esta dualidade complementar é uma manifestação concreta da “unidade na diversidade”: a diversidade dos princípios não é caótica, nem excludente; ela é organizada, relacional, dialógica — e por isso mesmo, bela.
Como bem sintetiza a filosofia estética, ecoando o pensamento neoplatônico:
“A verdadeira beleza reside na relação justa entre as partes, que juntas formam um todo superior, onde a força de uma é equilibrada pela estabilidade da outra.”
Os três pilares que sustentam a Loja — Sabedoria, Força e Beleza — são frequentemente personificados no Venerável Mestre, no Primeiro Vigilante e no Segundo Vigilante.
Cada um tem uma arquitetura simbólica associada (geralmente as ordens jônica, dórica e coríntia, conforme a correspondência ritual). Contudo, o que torna estes três pilares um conjunto belo não é a perfeição isolada de cada um, mas sim a relação harmônica que estabelecem entre si.
A Beleza, neste contexto, é entendida como uma qualidade relacional, uma propriedade emergente da interação coordenada dos elementos. O Templo, enquanto espaço sagrado e obra de arte simbólica, convida o maçom a contemplar a unidade que subjaz à multiplicidade aparente.
Esta lição ecoa a máxima do referido autor, que nos ensina a transcender as aparências contraditórias do mundo fenomênico para alcançar a síntese superior que caracteriza a verdadeira iniciação. Na tríade, a Sabedoria planeja, a Força executa, e a Beleza harmoniza e finaliza a obra — um processo que espelha a própria criação divina e a arte do construtor.
Considerações Finais
Todo o acervo que levantei, no que diz respeito aos eixos discutidos e privilegiando uma abordagem deliberadamente trivial, ausente de soluções antecipadas ou exóticas, alicerçado em documentação idônea e em escritos de linha coesa, suponho haver abordado o tema com a simplicidade e a reverência que ele exige.
Não almejei sufocar as indagações, nem oferecer capítulos derradeiros. Coloco em cena um caminho justificado — nos prismas filosófico, teológico, humanístico e maçônico — que venera as origens consultadas e evita esforços retóricos excessivos. Cada leitor, com sua própria lente, pode ampliar ou vetar as ideias.
Atribuiu-se a mim a tarefa de meramente dispor o que entendimentos mais autorizados já refletiram e gravaram, incorporando o testemunho franco de alguém que, na sucessão dos anos, captou que respirar, fenecer e aguardar a outra margem são charadas que se revelam mais na rotina concreta do que nas abstrações sem carne.
Que este escrito funcione não como marco de encerramento, mas como empurrão ao exame individual.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).