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Entenda a origem do nome das operações militares

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Entenda a origem do nome das operações militares

Batizar operações militares serve para melhorar o moral das tropas e tem efeito de propaganda, mas por vezes falta inspiração aos autores, como se vê neste título
Em 19 de março de 2011, navios e submarinos americanos cruzaram o mar Mediterrâneo rumo ao litoral da Líbia. Pela primeira vez em mais de uma década, o Exército dos EUA participava de uma ação militar apoiada pela maior parte da população árabe.
O objetivo era destruir as forças do ditador Muamar Kadafi, há 40 anos no poder. O regime, sacudido por uma rebelião interna, reagiu com o massacre de civis.
A intervenção militar tinha aval da ONU e contava com a adesão de países como a França e o Reino Unido. Apesar da seriedade da situação, risinhos irônicos se espalharam pelo mundo, enquanto os mísseis americanos Tomahawk choviam sobre as Forças Armadas líbias. Por que tanta graça em uma hora tão grave? O motivo era o nome da operação americana: Odissey Dawn, que em português quer dizer "Aurora da Odisseia".
A esdrúxula combinação de palavras, com suas vagas e malsucedidas intenções poéticas, foi um prato cheio para humoristas como Jon Stewart: "Isso mais parece título de algum álbum do Yes". (A banda de rock progressivo tem em seu currículo pérolas como Contos dos Oceanos Topográficos e Chaves da Ascensão 1 e 2.)

O ditador foi derrubado, mas é improvável que a Aurora da Odisseia continue despertando, daqui a meio século, sentimentos solenes como os que envolvem a Operação Overlord - codinome para a invasão aliada nas costas da Normandia, o dia D da 2ª Guerra.
O contraste entre a força de alguns codinomes e a - digamos - esquisitice de outros levou muita gente a se perguntar: afinal de contas, quem escolhe o nome dessas operações militares e de que forma se dá o "batismo"? Ironias à parte, essa questão aponta para um interessante - e pouco conhecido - capítulo na história militar. Dar nomes a operações é um hábito com várias funções - entre elas, levantar o moral dos soldados e fazer boa propaganda.
 
"É natural que os soldados sintam-se mais motivados por participar em uma operação denominada Tempestade no Deserto do que Colinho da Mamãe", diz Cesar Machado Domingues, historiador e editor da Revista Brasileira de História Militar. "Da mesma forma, algumas expressões bem escolhidas podem influenciar favoravelmente a opinião pública." Mas também operações que fracassaram por causa de nomes mal bolados, como você vai ver a seguir.
Letras, números e santos
Lá nos primórdios da humanidade, fazer guerra era relativamente simples. Bastava juntar um bando de correligionários, reunir algumas lanças e correr para o terreno do vizinho. Com o tempo, as coisas se complicaram. Os exércitos se dividiram em cavalaria, infantaria, artilharia etc. Navios - e, bem mais tarde, aviões - foram acrescentados à equação. Os exércitos passaram de algumas centenas a centenas de milhares de soldados. Em meados do século 19, a arte da guerra estava tão cheia de variáveis que foi preciso dar nomes específicos a cada movimentação de tropas. "Nome", no caso, é hipérbole: na época, as operações eram batizadas com letras ou números, como Diretiva 1 e Plano de Operações Y.
Foi a partir da 1ª Guerra que as operações ganharam nomes. Os pioneiros foram os alemães. "Atribuir um nome em código tinha dois objetivos: aumentar a segurança e facilitar o planejamento", afirma o historiador Carlos Daróz, da Universidade do Sul de Santa Catarina. Os codinomes escondiam o verdadeiro objetivo de um plano: em vez de escrever em seus documentos "projetos para a invasão da França na primavera de 1918", os oficiais alemães tascavam uma referência religiosa - São Jorge e São Miguel são dois exemplos pioneiros. "Isso deixaria os inimigos na dúvida caso documentos secretos fossem capturados", explica Daróz. Já naquela época o pessoal se preocupava com o lado marqueteiro da coisa. A Alemanha estava perdendo, e a alusão a seres semidivinos era uma tentativa de dar ânimo aos soldados.
Na 2ª Guerra, dois dos principais protagonistas do conflito, Winston Churchill e Adolf Hitler, tinham obsessão por batizar ações de guerra, de preferência com nomes grandiosos e inesquecíveis. O primeiro-ministro britânico escreveu um manual sobre o assunto. Para Churchill, um bom nome deveria evitar palavras banais, mas sem transparecer excesso de confiança. "Afinal de contas, o mundo é amplo, e o raciocínio inteligente proverá um número ilimitado de nomes sonoros, que nada revelem sobre o caráter da operação, mas que tampouco levem alguém a dizer, algum dia, que seu pobre filho morreu na operação Joaninha ou Peixinho Dourado", escreveu Churchill (que mesmo em documentos não perdia a verve de humorista diletante).
Pecando pelo excesso
Foi Churchill quem transmitiu o entusiasmo pelo tema aos americanos. Em 1943, o Alto Comando dos EUA planejou um bombardeio aos campos de petróleo da Romênia. A ação foi batizada de Espuma de Sabão. Horrorizado com a falta de elegância, Churchill convenceu os aliados a trocar o codinome para Onda Sísmica. Ninguém sabe ao certo quem escolheu o nome da principal operação aliada no Front Ocidental - mas é bem provável que o primeiro-ministro britânico tenha dado pitacos no batismo da Overlord (Senhor Supremo). Nesse caso, o conselho sobre evitar o excesso de confiança foi deixado de lado. Tudo bem, pois a operação foi um sucesso e os aliados venceram.
Hitler foi bem menos feliz em suas escolhas. Aos nomes das operações nazistas, não faltava grandiosidade, mas discrição. Veja o caso do megalomaníaco plano de invasão da União Soviética em 1941, a Operação Barbarossa - referência a Frederico Barbarossa, monarca do século 12 que expandiu o domínio germânico para terras ao leste da Alemanha. O nome era certamente inspirador - mas poderia ter revelado as intenções da Alemanha se caísse em mãos soviéticas. "Não se sabe por que motivo os alemães deram uma indicação tão clara de que seu plano era invadir a URSS", diz Daróz, da Unisul. Hitler deu sorte, pois o nome não vazou (embora a Barbarossa tenha fracassado de qualquer jeito). Com a Operação Leão Marinho, de 1941, foi diferente. Hitler decidiu invadir a Inglaterra por mar e ocupar o país. A ideia era desembarcar 70 mil soldados por meio de veículos anfíbios. Mas o serviço
de inteligência britânico interceptou uma mensagem cifrada de rádio que falava no tal "Leão Marinho" - e os oficiais logo sacaram que a ideia de Hitler era atravessar o canal da Mancha.
Após a 2ª Guerra, na Guerra Fria e até os dias de hoje, foram os americanos que mais batizaram operações (veja ao lado). Mas todo Exército gosta de dar nome a suas ações. Os franceses, por exemplo, escolhem expressões sonoras e evocativas. Se os americanos foram à Líbia de Aurora da Odisseia, as forças francesas chamaram sua expedição de Harmattan - referência ao vento quente e seco que sopra sobre o Saara em março. Bem, digam o que quiserem sobre os franceses, mas ninguém pode negar que os caras sabem escolher um nome.
José Francisco Botelho | 30/01/2012 11h32
Saiba mais
Livros
Codeword Barbarosa, Barton Whaley, MIT Press, 1973
Most Secret War, R. V. Jones, Hamish Hamilton, 1976

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