Ao final desta longa e fascinante jornada por vidas que moldaram o destino da humanidade, confesso que me sinto ao mesmo tempo exausto e revigorado. Exausto pela quantidade monumental de informações, batalhas, reformas, intrigas palacianas e tragédias pessoais que atravessaram os mais de três milênios que abrangem esta série.
Revigorado, porém, pela percepção de que, apesar das enormes diferenças de época, cultura e geografia, os grandes governantes que estudei compartilham traços comuns que transcendem o tempo.
Neste artigo de conclusão, proponho-me a sintetizar os padrões que emergem dessa galeria extraordinária: o que torna um monarca “grande”? A conquista militar? As reformas administrativas? A tolerância religiosa? O legado cultural? Ou a capacidade de, paradoxalmente, unificar e destruir com igual ímpeto?
Ao final, apresentarei uma tabela comparativa com indicadores-chave de cada soberano, extraídos dos artigos anteriores, e compartilharei minhas impressões finais sobre essa experiência única de pesquisa.
Os Padrões da Grandeza: O que Une os Vinte?
Ao longo de 20 biografias, alguns padrões claramente se repetem. O primeiro, e talvez o mais óbvio, é a capacidade de unificação. Praticamente todos os monarcas estudados herdaram reinos fragmentados, impérios decadentes ou coalizões instáveis — e os transformaram em estados coesos e poderosos.
Qin Shi Huang unificou a China combatente; Akbar integrou hindus e muçulmanos na Índia; Isabel de Castela uniu os reinos ibéricos; Otto von Bismarck (modelo para Frederico, o Grande) unificou a Alemanha. A unificação territorial e política é o fio condutor mais evidente.
O segundo padrão é a reforma institucional. Os monarcas verdadeiramente “grandes” não se contentaram em conquistar; eles reorganizaram a administração, as leis, os impostos e o exército.
O Código Napoleônico, o Kanun de Suleiman, o sistema provincial de Kublai Khan, a Tabela de Classes de Pedro, o Grande, o Mansabdari de Akbar — todos são exemplos de reformas que sobreviveram a seus criadores.
O terceiro padrão é o patrocínio da cultura e do conhecimento. Dos doze mil manuscritos da biblioteca de Akbar à Academia Real de Música de Luís XIV; das traduções de textos hindus ordenadas por Akbar à Universidade de Sankoré fundada por Mansa Musa; da escola palatina de Carlos Magno à corte elisabetana de Shakespeare — a grandeza, para esses governantes, não se media apenas em províncias anexadas, mas também em bibliotecas construídas.
O quarto padrão, mais sombrio, é a capacidade de violência extrema. Muitos desses monarcas foram, ao mesmo tempo, construtores e destruidores.
O massacre de 4.500 saxões por Carlos Magno, a execução de 72 mil rebeldes por Henrique VIII, o assassinato de irmãos por Ashoka (antes de sua conversão), a decapitação de esposas e conselheiros — a linha entre “grande” e “tirano” é, muitas vezes, indistinta. Isso nos leva a uma questão filosófica incômoda: a grandeza justifica a crueldade?
As Diversidades: O que os Distingue?
Apesar dos padrões comuns, as diferenças são igualmente marcantes. A mais óbvia é a relação com a religião. Enquanto Ashoka converteu-se ao budismo e pregou a não-violência; Akbar criou o Din-i-Ilahi em umesforço sincrético; Isabel de Castela e Henrique VIII usaram a religião como instrumento de unificação e perseguição.
Suleiman, o Magnífico, foi um sultão muçulmano devoto, mas governou com tolerância relativa aos cristãos e judeus.
Pedro, o Grande, subordinou a Igreja Ortodoxa ao Estado, enquanto Carlos Magno foi coroado pelo papa.
A relação com o próprio poder também varia enormemente. Luís XIV personificou o absolutismo com o lema “O Estado sou eu”. Frederico, o Grande, autodenominou-se “primeiro servidor do Estado” — uma formulação que, embora ainda absolutista, sugere um senso de dever.
Elizabeth I construiu o “culto à virgindade” e à Rainha Virgem como esposa da nação, uma forma de legitimação muito diferente da masculina e guerreira de Alexandre ou Gengis Khan.
O legado territorial também difere. Gengis Khan e Alexandre criaram impérios imensos, mas efêmeros, que se fragmentaram logo após suas mortes.
O Império Otomano de Suleiman perdurou até o século XX. A Espanha unificada por Isabel perdurou como potência global por três séculos. A longevidade do império, portanto, não é um correlato direto da “grandeza” individual.
Inflação no Egito, império fragmentado após sua morte
Eixos de Análise: O que Podemos Aprender?
Ao examinar a tabela, algumas linhas de força emergem. A primeira é que não existe um perfil único de “grande monarca”.
Alexandre foi um conquistador que não viveu para administrar. Pedro, o Grande, foi um reformador brutal. Ashoka foi um guerreiro arrependido que se tornou pacifista.
Mansa Musa foi um administrador e patrono da educação, mais do que um grande general. Elizabeth I foi uma construtora de imagens e uma política hábil, não uma guerreira de campo (embora tenha se vestido de armadura em Tilbury). A grandeza pode assumir múltiplas formas.
A segunda é que o legado duradouro muitas vezes independe da moralidade do governante. O massacre de Verden não apaga o Renascimento Carolíngio.
A Inquisição Espanhola não apaga o patrocínio de Colombo e a unificação da Espanha. O genocídio dos saxões não torna Carlos Magno menos “pai da Europa”. Isso não é uma justificativa, mas uma constatação: a história, como disciplina, não é um tribunal de justiça. Ela é um registro do que foi feito e de suas consequências.
A terceira é que a estabilidade institucional parece ser o fator mais importante para a longevidade do legado. Os impérios construídos exclusivamente pela espada (Alexandre, Gengis Khan) fragmentaram-se rapidamente. Os impérios construídos sobre instituições (Roma, China, Inglaterra) duraram séculos. As reformas de Suleiman, de Akbar, de Pedro, de Frederico — todas visavam criar estruturas que sobrevivessem a seus criadores.
Ao final desta pesquisa, três lições me parecem particularmente relevantes para o mundo contemporâneo.
Primeira: a grandeza não é unidimensional.Um monarca pode ser umgênio militar e um administrador medíocre (Napoleão?). Pode ser um tirano cruel e um patrono das artes (Henrique VIII?). Pode ser um conquistador sanguinário e um legislador visionário (Suleiman?). A história se recusa a nos dar heróis sem mancha.
Segunda: o poder exige legitimidade. Os monarcas mais duradouros foram aqueles que construíram alguma forma de legitimidade além da força bruta: religiosa (Isabel, Carlos Magno), cultural (Akbar, Elizabeth), legal (Suleiman, Frederico). Os que governaram apenas pelo terror tiveram impérios efêmeros.
Confesso que esta série foi uma das mais desafiadoras e recompensadoras que já realizei. Mergulhar em 20 vidas tão distintas — da Macedônia antiga à Inglaterra vitoriana, da China de Qin ao Mali medieval — foi como percorrer a história da humanidade em suas múltiplas facetas.
Aprendi que nenhum desses monarcas pode ser reduzido a uma única palavra (tirano, herói, sábio). Todos foram, em graus variados, produtos de seu tempo e, também, agentes que moldaram o tempo futuro.
O que mais me surpreendeu foi a relevância contemporânea de muitos desses debates. A tolerância religiosa de Akbar e Ciro dialoga com nossas sociedades multiculturais.
A tensão entre poder centralizado e autonomia local, que afligiu todos os impérios, ainda é uma questão central na política global. A relação entre governante e governado, entre a glória do Estado e o bem-estar do cidadão, entre a guerra e a paz — todos esses temas emergem repetidamente dessas biografias.
A história, dizem, é mestra da vida (magistra vitae).
Concordo, com uma ressalva: ela nos ensina mais por contraste do que por imitação. Não podemos “imitar” Alexandre ou Gengis Khan no século XXI — nem deveríamos querer. Mas podemos aprender com seus erros e acertos.
Podemos admirar a visão de Ciro e Akbar, sem endossar sua autocracia. Podemos nos inspirar na resistência de Elizabeth sem idealizar sua monarquia absoluta.
O verdadeiro valor desta série, acredito, não está em celebrar ou condenar esses vinte soberanos, mas em compreender as engrenagens do poder — suas seduções, suas armadilhas, suas possibilidades.
E, quem sabe, ao compreendê-las, tornar-nos cidadãos mais críticos, mais conscientes e mais capazes de exigir de nossos próprios governantes o que há de melhor nesses exemplos — e rejeitar o que há de pior.
Encerramento
Agradeço ao leitor que me acompanhou até aqui.
Foram 52 artigos publicados aqui no MS Maçom, sobre a monarquia, aproximadamente 290 páginas de pesquisa, e um aprendizado imenso. Espero que, assim como eu, você tenha encontrado nessas histórias não apenas entretenimento, mas também alimento para a reflexão sobre o poder, a liderança, a justiça e a condição humana.
Pois, no fim das contas, todos esses reis e imperadores, com suas coroas e seus cetros, foram — acima de tudo — seres humanos.
Com virtudes, vícios, medos, amores, ódios e, invariavelmente, com uma data de nascimento e uma data de morte. A diferença é que, entre essas duas datas, eles inscreveram seus nomes na pedra e na memória coletiva. Cabe a nós, agora, decidir o que fazer com esse legado.
Documentários e programas de televisão: National Geographic, BBC, History Channel, Discovery Channel.
Periódicos de divulgação histórica: Aventuras na História, National Geographic Brasil, Superinteressante, BBC News Brasil, Deutsche Welle.
Documentos primários (em tradução): Éditos de Ashoka, Cilindro de Ciro, Tratado de Cades, Akbarnama, Código Napoleônico, Kanun de Suleiman, Mémoires de Luís XIV, diários de Vitória.
Sites especializados: Royal.uk, Château de Versailles, Museu Britânico, Biblioteca Nacional da Espanha, Russia Beyond.
Cada artigo individual contém a lista de fontes específicas consultadas para aquele monarca. Esta lista é uma síntese das principais fontes utilizadas em toda a série.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).