Anne Charles Sigismond de Montmorency-Luxembourg: O Fundador Silencioso do Grande Oriente da França
1. Introdução
A história da Maçonaria francesa está repleta de figuras contraditórias: príncipes ausentes, nobres libertinos e abades militares. Mas poucos personagens foram tão paradoxalmente fundamentais e discretos quanto Anne Charles Sigismond de Montmorency-Luxembourg, décimo duque de Piney-Luxembourg.
Enquanto os manuais de história maçônica reservam um lugar de destaque ao Duque de Chartres (futuro Philippe Égalité) como o primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente de França, a verdade é que a estrutura, os estatutos e a expansão da nova obediência foram obra de um homem cujo nome raramente figura nas listas oficiais de Grão-Mestres. Ele nunca foi Grão-Mestre. Mas, durante quase duas décadas, foi o verdadeiro regente da Maçonaria francesa — o Administrador-Geral que, à sombra do poder honorário dos príncipes, reformou, unificou e consolidou a maior obediência maçônica da Europa continental.
Este artigo, fundamentado em fontes históricas e na análise de doutrinadores maçônicos como Guy Chassagnard e Alain Bauer, examina a biografia deste controverso nobre, seu papel central na fundação do Grande Oriente da França (1773), sua atuação durante a Revolução e o exílio, e as curiosidades que envolvem um dos mais decisivos — e mais esquecidos — organizadores da Maçonaria moderna.
2. Biografia: O Herdeiro de uma das Mais Antigas Casas da França
2.1. Nascimento e Linhagem
Anne Charles Sigismond de Montmorency-Luxembourg nasceu em Paris em 15 de outubro de 1737. Era o filho primogênito de Charles Anne Sigismond de Montmorency-Luxembourg e de Marie Étiennette de Bullion-Fervacques (1712-1749). Pela linhagem paterna, descendia de uma das mais antigas e prestigiadas casas da nobreza francesa: a Maison de Montmorency, cujas origens remontam ao século X. A família deu à França vários condestáveis e marechais, e era tradicionalmente conhecida como a primeira nobreza cristã da França, um título honorífico que refletia sua antiguidade e poder.
Em 1764, ao suceder a Charles II Frédéric de Montmorency-Luxembourg como o décimo duque de Piney-Luxembourg, Anne Charles herdou não apenas um título, mas uma vasta fortuna e uma rede de influência que atravessava toda a nobreza francesa.
2.2. A Carreira Militar: Do Regimento de Hainaut à Luta contra a Revolução
Como bom primogênito da nobreza de espada, a carreira militar começou cedo para o duque. Apenas aos onze anos de idade (1748), foi nomeado segundo-tenente. Por “obrigação de nobreza”, seguiu uma trajetória que o levaria, em 1780, aos quarenta e três anos, ao posto de marechal de campo. Aos vinte e quatro anos, tornou-se coronel do Regimento de Infantaria de Hainaut, uma unidade que viria a ter um papel central em sua vida maçônica.
No plano político, Montmorency-Luxembourg aproximou-se do Conde de Clermont, com quem compartilhava posições políticas de oposição ao governo de Luís XV. Ambos desejavam maior rigor no recrutamento de irmãos e nutriam reservas em relação à Maçonaria “moderna” que se desenvolvia em Paris. Esta aliança lhe seria crucial quando, em 1771, se abriu o vácuo de poder na Grande Loja da França.
2.3. Casamento e Família
Em 1774, Anne Charles casou-se com Madeleine Suzanne Adélaïde de Voyer de Paulmy d’Argenson (1752-1813), filha do Secretário de Estado da Guerra Antoine-René de Voyer de Paulmy d’Argenson e dama de companhia da rainha. O casamento gerou quatro filhos, dos quais o mais conhecido é Charles-Emmanuel-Sigismond de Montmorency-Luxembourg, o décimo-primeiro duque de Piney-Luxembourg.
3. A Entrada na Maçonaria e a Construção de uma Base Provincial
Ao contrário de muitos aristocratas que aderiam à Maçonaria por conveniência social, Montmorency-Luxembourg foi introduzido na Ordem de forma tardia e por meio de uma patente concedida pelo próprio Conde de Clermont. A 12 de junho de 1762, foi iniciado na loja que ele mesmo fundou em seu regimento, sob o título de “Saint-Jean de Montmorency-Luxembourg”.
Esta foi uma decisão estratégica: ao instalar uma loja no Regimento de Hainaut, ele criou um espaço maçônico que lhe era pessoalmente leal, distante das lutas de facções que paralisavam as assembleias parisienses. Durante anos, ele se manteve afastado dos centros de poder, dedicando-se à “vida feliz das lojas de província”, onde acumulou uma base de irmãos que mais tarde constituiria o núcleo de sustentação do Grande Oriente.
Ele não detinha outro título maçônico além de Mestre de Loja; seu poder advinha do prestígio de sua linhagem, de sua capacidade organizativa e de sua lealdade à pessoa do Conde de Clermont.
4. O Contexto de Crise: A Morte do Conde de Clermont e o Vácuo de Poder (1771)
Quando Louis de Bourbon-Condé, Conde de Clermont, faleceu em junho de 1771, a Grande Loja da França encontrava-se à beira do colapso. Durante seus vinte e oito anos de Grão-Mestrado nominal, Clermont pouco se envolvera na administração da Ordem, delegando o poder a prepostos que apenas agravaram a fragmentação interna.
A sucessão era urgente. As lojas parisienses e provinciais, que há muito disputavam privilégios, ameaçavam se separar definitivamente. Foi nesse clima de anarquia iminente que Louis Philippe d’Orléans, Duque de Chartres (futuro Philippe Égalité), foi eleito Grão-Mestre da Grande Loja da França a 24 de junho de 1771.
Contudo, o duque de Chartres, então com vinte e quatro anos, mostrou-se “cauteloso” e desinteressado pelo cargo. Sua instalação foi repetidamente adiada: a ata de aceitação só foi assinada em 5 de abril de 1772, e a confirmação pela assembleia geral só ocorreu em 8 de março de 1773. A cerimônia solene de instalação realizou-se apenas em 22 de outubro de 1773.
5. O Papel de Administrador-Geral: A Reforma Silenciosa (1771-1773)
5.1. A Nomeação e os Novos Estatutos
Diante da negligência do Grão-Mestre, os maçons recorreram a Montmorency-Luxembourg para assumir o poder efetivo. A 24 de junho de 1771, ele foi nomeado Administrador-Geral da Grande Loja da França (mais tarde designado “Administrador do Grande Oriente de França”).
Ele impôs uma condição prévia: o fim das divisões internas entre lojas parisienses e provinciais. Para isso, reduziu o poder dos veneráveis mestres da capital e fortaleceu a representação das províncias, garantindo-lhes peso decisório nas assembleias gerais. O poder efetivo da Ordem foi concentrado em uma Câmara de Administração, da qual ele próprio era o presidente.
Em 1773, após meses de assembleias preparatórias (de 5 de março a 1 de setembro de 1773), a Grande Loja da França foi oficialmente transformada no Grande Oriente de França (GODF). Os novos estatutos tornaram o cargo de Grão-Mestre um encargo “mais honorário que ativo”: o príncipe presidia as assembleias e nomeava os oficiais de honra, mas todo o poder administrativo residia no Administrador-Geral — ou seja, em Montmorency-Luxembourg.
5.2. A Estruturação da Obediência (1773-1789)
Entre 1773 e a Revolução, Montmorency-Luxembourg exerceu uma liderança firme e centralizadora. Sob sua direção:
Foram elaborados regulamentos e estatutos precisos para todos os graus do Rito Moderno.
Foram controlados os ritos escoceses, que proliferavam sem supervisão, reduzindo sua influência e padronizando suas práticas.
Foram criadas as lojas de adoção (1774), que admitiam mulheres sob tutela das lojas masculinas, um pioneirismo na Maçonaria europeia.
O número de lojas ativas cresceu exponencialmente: de 112 no momento da fundação do GODF, passou a 637 lojas em 1787.
5.3. A Ambiguidade Política: Reformista, Não Revolucionário
Embora fosse um “indiscutível reformista”, Montmorency-Luxembourg nunca foi um revolucionário. Ele via na Maçonaria um instrumento de modernização da nobreza e de reconciliação entre as elites, não um trampolim para a derrubada da monarquia. O historiador Robert Kalbach, em sua biografia do duque, caracteriza-o como “um dos mais eminentes inovadores de seu tempo, mas também um dos campeões mais tradicionalistas de um Antigo Regime condenado pela história”.
6. A Revolução e o Exílio (1789-1803)
A eclosão da Revolução Francesa pegou Montmorency-Luxembourg em um momento de plena atividade maçônica. Em 1789, foi eleito deputado da nobreza do Bas-Poitou aos Estados Gerais, e chegou a presidir a ordem da nobreza em junho daquele ano. Porém, sua posição era abertamente contra-revolucionária: recusou as posições da nobreza liberal e tentou convencer o rei a agir rapidamente para conter a insurreição.
Quando as tropas reais foram derrotadas e a monarquia entrou em colapso, ele tomou uma decisão dramática. A 15 de julho de 1789, dias após a Queda da Bastilha, emigrou para a Inglaterra, abandonando uma “fortuna considerável” na França. Na Inglaterra, juntou-se ao Exército dos Príncipes, comandando a brigada de Navarre como segundo em comando.
Mais tarde, retirou-se para Portugal, onde viveu exilado até o fim de seus dias. Uma de suas filhas, Marie Madeleine Charlotte Henriette Émilie, casou-se com Miguel Caetano Álvares Pereira de Mello, Duque de Cadaval, ligando a linhagem dos Montmorency à alta nobreza portuguesa.
Apesar de convites do poder francês para retornar, ele recusou sistematicamente. Faleceu em Lisboa em 13 de outubro de 1803, dois dias antes de completar 66 anos, “em sua cama”, como registram as crônicas.
7. Curiosidades e Pontos de Interesse Histórico
7.1. “Os Talentos Desperdiçados”: A Expressão que Definiu sua Biografia Maçônica
O artigo de 2010 de Pierre Menvielle Tichadel, traduzido por José Filardo, dá à seção sobre Montmorency-Luxembourg o título de “Os Talentos Desperdiçados”. A expressão capta uma percepção generalizada entre os historiadores: um homem de extraordinária competência organizativa, que poderia ter exercido um papel de primeiro plano na política francesa, mas que optou por servir à Maçonaria e depois desapareceu no exílio.
7.2. O Primeiro “Baronete Cristão” e o Título Honorífico
Os documentos da época sempre lhe conferem o título de “primeiro barão cristão da França” , uma distinção que remetia à antiguidade da Maison de Montmorency e à sua pretensão de ser a mais antiga família nobre do reino depois da casa real. O próprio Luís XIV, ao elevar os Montmorency ao ducado, teria afirmado que eles eram “mais antigos que os Capetos”.
7.3. O Controle dos Ritos Escoceses e a Criação de uma Identidade Francesa
Uma das contribuições menos conhecidas de Montmorency-Luxembourg foi o controle rigoroso dos ritos escoceses. Na década de 1770, proliferavam na França lojas que se reclamavam de uma tradição escocesa “pura”, muitas vezes ligadas a círculos jacobitas ou a estruturações de altos graus independentes. O administrador impôs-lhes regras comuns e, em alguns casos, simplesmente as absorveu, garantindo que o Grande Oriente se tornasse uma obediência francesa, não uma colônia de influências estrangeiras.
7.4. A “Dupla Marca Histórica”: Legado e Esquecimento
O artigo de Tichadel conclui com uma passagem reveladora: *“A dívida dos maçons para com [Roettiers de Montaleau] após 1793 não pode ser comparada à dos maçons de 1773 em relação a Montmorency-Luxembourg”*. Esta afirmação sugere que, embora os historiadores reconheçam a importância do duque para a fundação do GODF, sua memória foi ofuscada por figuras posteriores que sobreviveram ao Terror e reconstruíram a Ordem sob o Consulado e o Império.
7.5. A Ligação com Portugal: O Casamento Dinástico e a Morte em Lisboa
A filha do duque, Marie Madeleine, ao casar-se com o Duque de Cadaval, selou uma aliança entre a aristocracia francesa emigrada e a alta nobreza portuguesa. O próprio duque, ao morrer em Portugal, longe da França revolucionária, inscreveu sua história na tradição das famílias nobres que cruzaram o continente em busca de refúgio.
7.6. A Recusa em Retornar: Um Contra-Revolucionário Intransigente
O fato de ter recusado convites para retornar à França durante o Consulado e o Império demonstra sua intransigência política. Enquanto muitos emigrados aceitaram a anistia de Napoleão, Montmorency-Luxembourg preferiu permanecer no exílio até a morte, fiel aos princípios monárquicos que defendera na Assembleia Constituinte.
8. Conclusão
Anne Charles Sigismond de Montmorency-Luxembourg foi, em muitos sentidos, o verdadeiro fundador do Grande Oriente da França. Enquanto o Duque de Chartres emprestava à nova obediência o prestígio de um príncipe de sangue, foi Montmorency-Luxembourg quem, na sombra, redigiu os estatutos, reconciliou as facções, controlou os ritos escoceses e expandiu a Maçonaria para todo o reino.
Sua trajetória reflete as contradições de uma nobreza esclarecida que, a um só tempo, abraçava os ideais do Iluminismo e defendia a monarquia absoluta. Homem de ação, reformista mas não revolucionário, ele soube construir uma estrutura maçônica moderna, centralizada e disciplinada — mas não conseguiu, nem desejou, deter a avalanche que a Revolução traria sobre a França e sobre a própria Ordem.
Ao emigrar em 1789 e morrer em Lisboa em 1803, ele encerrou sua vida pessoal em silêncio e exílio, mas deixou um legado institucional que sobreviveu ao Terror, ao Império e a todos os regimes subsequentes. Como resume o historiador Guy Chassagnard, “sob a direção do duque de Montmorency-Luxembourg, o Grande Oriente de França foi estruturado e provido de regulamentos e estatutos precisos” — uma frase modesta para descrever a obra de um dos mais eficientes, e menos celebrados, organizadores da Maçonaria europeia.
Pesquisa e redação: Ivair Ximenes Lopes
Fontes
BAUER, Alain; DACHEZ, Roger. L’encyclopédie des franc-maçonnes et des francs-maçons. Paris: Gründ, 2015. (Citado na Wikipédia).
CHASSAGNARD, Guy. “1773 – Le duc de Montmorency-Luxembourg”. In: Miscellanées Maçonniques, GADLU.INFO, 21 mar. 2021.
FILARDO, José (trad.). “História da Maçonaria Francesa no final do Século XVIII” (tradução do artigo de Pierre Menvielle Tichadel, Bordeaux 2010). Bibliot3ca, 2023.
KALBACH, Robert. Montmorency-Luxembourg et son temps ; fondateur du grand Orient de France. Dervy, 2009. (Referência bibliográfica).
LE BIHAN, Alain. Francs-maçons parisiens du Grand Orient de France (fin du XVIIIe siècle). Commission d’histoire économique et sociale de la Révolution française, t. XIX, Paris.
MENVIELLE TICHADEL, Pierre. História da Maçonaria Francesa no final do Século XVIII. Bordeaux, 2010. (Citado na tradução de José Filardo).
“Anne Charles Sigismond de Montmorency-Luxembourg”. In: Wikipédia (francês e português), 2025.
“Grand Orient de France“. In: Wikipédia (francês), 2025.
“Maison de Montmorency”. In: Wikipédia (francês), 2025.
“Anne Charles Sigismond de Montmorency-Luxembourg — Biografia”. In: Bibliothèque nationale de France (BnF) Essentiels, s.d.
“Montmorency-Luxembourg, administrateur et fondateur du Grand Orient”. In: BnF Essentiels, s.d. (legenda de imagem).
“Le duc de Montmorency-Luxembourg”. In: GADLU.INFO — Web maçonnique, 21 mar. 2021.
“Se é para fazer o bem, por que se escondem? — em defesa da Maçonaria”. In: Observador (Portugal), 20 mar. 2021.

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