Louis de Bourbon-Condé, Conde de Clermont (1709-1771): O Grão-Mestre que Quase Arruinou a Maçonaria Francesa
1. Introdução
Na longa e tumultuada história da Maçonaria francesa, poucos personagens foram tão contraditórios e controversos quanto Louis de Bourbon-Condé, Conde de Clermont. Neto do Rei Sol Luís XIV, príncipe de sangue, abade comendatário, militar fracassado, membro da Academia Francesa por imposição, amante de dançarinas da Ópera e, sobretudo, o quinto Grão-Mestre da primeira Grande Loja da França — um cargo que exerceu por nada menos que 28 anos, de 1743 até sua morte, em 1771.
Sua longa permanência no comando da Maçonaria francesa, porém, foi marcada por profundo desinteresse pelas questões da Ordem, por uma administração terceirizada e desastrosa e por uma série de conflitos internos que fragmentaram a jovem obediência francesa. Este artigo, fundamentado em fontes históricas e na análise de doutrinadores maçônicos como Guy Chassagnard e Yves Hivert-Messeca, examina a biografia deste príncipe excêntrico, sua atuação à frente da Maçonaria francesa e as numerosas curiosidades que envolvem sua vida e seu legado.
2. Biografia: Um Príncipe de Sangue Entre a Igreja, a Espada e o Prazer
2.1. Nascimento e Linhagem: O Neto do Rei Sol
Louis de Bourbon-Condé nasceu no Palácio de Versalhes em 15 de junho de 1709, em pleno apogeu do reinado de seu avô, Luís XIV. Era o nono filho — e o terceiro e mais novo dos varões — de Louis III de Bourbon-Condé, Príncipe de Condé (1668-1710), e de Louise Françoise de Bourbon, Mademoiselle de Nantes (1673-1743). Esta última era filha legitimada do Rei Sol e de sua famosa amante, Madame de Montespan, o que fazia do pequeno Louis um neto direto do monarca mais poderoso da Europa. Ele também era bisneto do célebre Grande Condé, o lendário general que desafiara o próprio Luís XIV.
Como príncipe de sangue — membro da família real francesa com direito à sucessão ao trono, ainda que remotamente —, Louis estava destinado a uma carreira nas altas esferas da nobreza. Contudo, por ser o filho mais novo, sua trajetória foi direcionada desde cedo para a vida clerical.
2.2. Carreira Eclesiástica: O Abade que não Queria ser Monge
Aos 11 anos de idade, Louis foi tonsurado e nomeado abade comendatário de Saint-Claude, uma posição eclesiástica lucrativa que não exigia residência nem votos monásticos. Ao longo dos anos, acumulou as abadias de Buzay (1733), Marmoutier, Cercamp, Chaalis (1736) e finalmente a prestigiosa abadia de Saint-Germain-des-Prés (1737), uma das mais ricas da França.
No entanto, o Conde de Clermont — título que recebeu desde o nascimento — nunca teve verdadeira vocação religiosa. Sua vida foi, ao contrário, uma sucessão de paixões mundanas e escândalos. Em 1733, usando sua influência como príncipe de sangue, obteve do Papa Clemente XII uma dispensa especial para portar armas e seguir a carreira militar, algo incomum para um membro do clero. O escritor Sainte-Beuve sintetizou sua personalidade contraditória com uma frase que se tornou célebre: “Príncipe de sangue, abade, militar, libertino, amante das letras e dos meios acadêmicos, opositor ao Parlamento, devoto em seus últimos anos”.
2.3. Carreira Militar: A Derrota de Crefeld
Comissionado como tenente-general dos exércitos do rei graças ao seu título e influência, o Conde de Clermont participou de campanhas nos Países Baixos e na Boêmia. Sua maior oportunidade de glória veio em 1758, durante a Guerra dos Sete Anos. Com o apoio de sua amiga e protetora, Madame de Pompadour, foi nomeado comandante do exército francês do Reno, sucedendo ao Duque de Richelieu.
Contudo, a campanha foi desastrosa. Em 23 de junho de 1758, suas forças foram derrotadas pelas tropas hanoverianas do Príncipe Fernando de Brunswick na Batalha de Crefeld. A derrota manchou permanentemente sua reputação militar. O exército francês, mal equipado e flagelado por doenças, não conseguiu romper as linhas inimigas nem capturar Hanôver. O próprio Sainte-Beuve, em seu famoso retrato, registrou que ele foi “infeliz” no comando das tropas.
2.4. Madame de Pompadour e a Vida Pessoal: Amantes, Bastardos e Escândalos
Apesar de sua posição clerical, o Conde de Clermont levou uma vida notoriamente libertina. Foi grande amigo e protegido da Marquise de Pompadour, a influente amante de Luís XV. Tal era a intimidade entre eles que Clermont teria usado a cocarda de Pompadour (um laço ou símbolo usado por seus partidários) ao se preparar para o combate, um gesto que ilustrava sua dependência política dela.
Sua vida amorosa foi igualmente escandalosa para um abade. Em 1730, já era conhecido como amante da Duquesa de Bouillon. Posteriormente, envolveu-se com Marie-Anne de Camargo, uma famosa dançarina da Ópera de Paris, e, após o fim desse relacionamento, com Élisabeth Claire Leduc, pupila de Camargo, que se tornou sua amante por muitos anos e com quem teve dois filhos ilegítimos. Ele vivia abertamente com Mademoiselle Leduc no Château de Berny, onde promovia festas comparáveis às da corte de Sceaux.
2.5. O Acadêmico Imposto: A Polêmica Eleição para a Academia Francesa (1753)
A personalidade imperiosa do Conde de Clermont revelou-se de forma mais cristalina em sua eleição para a Academia Francesa. Em 1º de dezembro de 1753, o Marechal de Richelieu, por artimanha, forçou a Academia a aceitar o príncipe como membro antes mesmo de qualquer votação. Clermont enviou uma carta de “agradecimento antecipado” pela honraria que lhe faziam — uma clara violação dos procedimentos acadêmicos.
Indignado com a imposição, o corpo acadêmico recusou-se a tratá-lo por “Monsenhor”, como ele exigia. Após negociações tensas, Clermont cedeu, mas em protesto recusou-se a proferir o discurso de recepção e, quando sorteado para exercer funções diretivas, alegou problemas de saúde para se furtar ao encargo. Com o tempo, passou a tratar os colegas como iguais e chegou a declarar que usaria ostensivamente o jeton de presença (a medalha de membro) como se fosse sua “cruz de São Luís de acadêmico”.
3. O Governo Maçônico (1743-1771): Um Grão-Mestrado Desastroso
3.1. Contexto: A Sucessão do Duque de Antin
Em 24 de junho de 1738, o Duque de Antin tornara-se o primeiro Grão-Mestre francês, mas seu interesse pela Ordem foi limitado, e ele faleceu prematuramente em 1743. Diante da necessidade de manter a Maçonaria sob as boas graças do poder real, os maçons franceses cometeram o que muitos historiadores consideram um erro estratégico: elegeram um príncipe de sangue, neto de Luís XIV, como Grão-Mestre, na esperança de que seu prestígio garantisse proteção e prosperidade à Ordem.
Assim, a 24 de junho de 1743 — novamente no dia de São João Batista — Louis de Bourbon-Condé, Conde de Clermont, foi eleito “Grão-Mestre de todas as lojas regulares da França”, sucedendo ao Duque de Antin. Seu mandato, porém, seria o mais longo da história da primeira Grande Loja francesa: duraria 28 anos, até sua morte em 1771.
3.2. Um Grão-Mestre Ausente e a Crise Administrativa
A despeito de seu título, o Conde de Clermont manifestou pouco ou nenhum interesse pela administração da Maçonaria. Absorto em seus prazeres, em suas campanhas militares e em suas disputas acadêmicas, ele delegou a gestão da Ordem a prepostos sucessivos, que passaram a exercer o poder em seu nome.
O primeiro deles foi o banqueiro Baure, nomeado com o título de Grão-Mestre Adjunto. Baure, no entanto, revelou-se igualmente desinteressado e logo foi substituído. A sucessão de administradores ausentes ou incompetentes gerou um vácuo de poder que cindiu a Grande Loja em facções rivais. Os Veneráveis Mestres das lojas mais antigas e prestigiadas passaram a reivindicar privilégios e autonomia excessiva, enquanto o Grão-Mestre, de seu gabinete no Château de Berny, limitava-se a avalizar — ou ignorar — as decisões tomadas em seu nome.
Os historiadores avaliam que o governo de Clermont foi uma crise institucional de grandes proporções. A fragmentação das estruturas de poder, combinada com a ausência de uma liderança efetiva, levou à paralisia da Grande Loja e abriu caminho para as disputas que, em 1773, culminariam na criação do Grande Oriente da França e na cisão definitiva entre as alas “escocesas” (jacobitas) e “modernas” (dependentes de Londres).
3.3. O Capítulo de Clermont e o Desenvolvimento dos Altos Graus
A despeito da má administração do Grão-Mestre, seu nome foi associado a um desenvolvimento importante na história dos altos graus maçônicos. Em 1754, o Cavaleiro de Bonneville, um jacobita partidário dos Stuarts, fundou em Paris uma estrutura de altos graus denominada Capítulo de Clermont, em homenagem ao Conde. Instalado nas dependências do antigo Colégio dos Jesuítas, que já havia servido de residência a Carlos Eduardo Stuart, o “Jovem Pretendente”, esse capítulo tinha como objetivo reunir os graus superiores que vinham sendo desenvolvidos na França desde a década de 1740.
O Capítulo de Clermont, embora de existência efêmera, exerceu grande influência no desenvolvimento dos altos graus europeus. A partir dele, segundo alguns historiadores, teria emergido o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente, que posteriormente contribuiria para a formação do Rito Escocês Antigo e Aceito. É possível que o Capítulo tenha operado com a conivência do Conde de Clermont, cujo nome emprestava legitimidade ao empreendimento, mas não há evidências de que o Grão-Mestre tenha participado ativamente de seus trabalhos.
4. Curiosidades e Fatos Marcantes
4.1. O “Coração dos Condés”: Um Legado Macabro
Após sua morte, em 16 de junho de 1771, o corpo do Conde de Clermont foi sepultado na Igreja de São Paulo e São Luís, em Paris. Contudo, seu coração foi extraído e preservado em uma urna de chumbo, ao lado dos corações de outros príncipes da Casa de Condé dos séculos XVII e XVIII. Essa relíquia macabra encontra-se atualmente no Museu Condé, em Chantilly, onde repousa em um suporte metálico dourado de 73,6 cm de altura, ao lado de outros sete corações principescos.
4.2. O Conde Poeta e o Servo Agressivo
O Conde de Clermont tinha pretensões literárias e, em certa ocasião, o poeta Roy compôs uma epigrama satírica sobre sua conturbada eleição à Academia Francesa. Indignado, Clermont ordenou que um servo o agredisse fisicamente — e o servo cumpriu a ordem, espancando o poeta com um bastão. O incidente ilustra o temperamento autoritário do príncipe e sua pouca tolerância à crítica.
4.3. “Metade Plumas, Metade Bandas”: O Retrato de uma Contradição
Uma das descrições mais vívidas do Conde de Clermont foi cunhada pelo historiador Sainte-Beuve e frequentemente repetida pelos doutrinadores maçônicos: “Metade plumas, metade bandas” — uma alusão ao seu estatuto ambíguo de abade (com as vestes clericais) e militar (com o elmo emplumado). Essa dualidade era uma constante em sua vida, e Guy Chassagnard, em sua crônica maçônica, registra que ele “entrou muito jovem nas ordens” mas sempre “frequentou dançarinas da Ópera” e acumulou dívidas ao ponto de arruinar as abadias que lhe foram confiadas.
4.4. A Derrota de Crefeld e a Fama Póstuma
A desastrosa Batalha de Crefeld (1758) valeu-lhe uma reputação militar tão negativa que, mais de dois séculos depois, biógrafos espanhóis o descrevem como “uma figura marcada por seus fracassos e derrotas na carreira militar, mas cuja vida reflete os altos e baixos da nobreza francesa em uma época de constantes conflitos”.
4.5. O “Estado de Crise” da Maçonaria sob seu Comando
A despeito de sua longevidade no cargo, o governo de Clermont é unanimemente criticado pelos historiadores maçônicos. Segundo José Filardo, tradutor e comentador do Bibliot3ca, o Conde de Clermont foi “um príncipe de sangue, educado, mas mais interessado em seus prazeres que nas especulações filosóficas”. Sua “academia do Petit-Luxembourg” reunia sábios e artistas — mas sua paixão maior eram as dançarinas, não a administração da Ordem.
4.6. O Fracasso da Estratégia Política
A eleição de um príncipe de sangue parecera, em 1743, uma jogada política hábil para proteger a Maçonaria das suspeitas do rei Luís XV, que já ameaçara mandar para a Bastilha “todo francês que aceitasse ser grão-mestre”. A estratégia falhou redondamente: não apenas o Conde de Clermont se revelou um mau gestor, como, a partir de 1745, as lojas francesas mergulharam em um “extraordinário tumulto” — como a festa de 27 de dezembro de 1766, quando maçons excluídos por motivos políticos provocaram um escândalo que paralisou a Grande Loja por meses.
5. Considerações Finais
Louis de Bourbon-Condé, Conde de Clermont, foi um produto típico do Antigo Regime: um príncipe de sangue, educado nas letras mas alheio às obrigações, que acumulava títulos eclesiásticos sem jamais abraçar a fé, comandava exércitos sem jamais vencer uma batalha decisiva e presidia a Maçonaria sem jamais compreender ou governar a Ordem.
Seu grão-mestrado, o mais longo da primeira Grande Loja da França, foi também o mais desastroso. Ao terceirizar a administração a prepostos incompetentes, ao ignorar os conflitos internos que dilaceravam a Obediência e ao usar seu título meramente como adorno pessoal, Clermont deixou a Maçonaria francesa em profundo estado de crise. Quando faleceu, em 1771, a Grande Loja estava fragmentada, as lojas provinciais reivindicavam autonomia e os altos graus se multiplicavam fora do controle do poder central.
Ironicamente, sua morte precipitou a reforma que seu governo jamais realizara: em 1773, dois anos após seu falecimento, a Grande Loja da França se transformaria no Grande Oriente da França, adotando princípios de representação democrática e gestão colegiada que tentariam superar o legado de centralismo aristocrático ineficaz que Clermont personificava.
Assim, o Conde de Clermont entra para a história menos pelo que construiu do que pelo que deixou desmoronar. Como bem observou o acadêmico Sainte-Beuve, ele foi “um dos mais impressionantes, em certos dias divertidos, em outros chocantes (…) exemplos dos abusos e disparates levados ao escândalo sob o regime de bom prazer e privilégio”.
Pesquisa e redação: Ivair Ximenes Lopes
Fontes
CHASSAGNARD, Guy. “Le comte de Clermont, grand maître”. In: Miscellanées Maçonniques, GADLU.INFO, 2019.
DACHEZ, Roger. Histoire de la franc-maçonnerie française. Paris: Presses Universitaires de France, coll. “Que sais-je?”, 2003.
FILARDO, José (trad.). “França – A Ruptura com a GLUI”. Bibliot3ca, s.d.
FILARDO, José (trad.). “1773: 250 anos atrás – Da primeira Grande Loja ao Grande Oriente da França”. Bibliot3ca, 2023.
HIVER-MESSECA, Yves. “Jalons pour l’histoire de la genèse de la franc-maçonnerie en France”. yveshivertmesseca.wordpress.com, 2 jan. 2015.
“Louis, Count of Clermont”. In: Wikipedia (inglês), 2025.
“Louis de Bourbon-Condé (1709-1771)”. In: Wikipédia (francês), 2025.
“Luís de Bourbon, Conde de Clermont”. In: Wikipédia (português), 2025.
“Louis de BOURBON CONDÉ de CLERMONT”. Académie française — Les immortels, s.d.
“Louis de Bourbon-Condé, Comte de Clermont-en-Argonne”. thisisversaillesmadame.blogspot.com, 4 fev. 2017.
“Louis de Bourbon, Count of Clermont”. Wikidata.
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“Veneráveis vitalícios e donos de loja – Maçonaria Francesa do século XVIII”. O Ponto Dentro do Círculo, 17 mar. 2022.
“Clermont, Louis de Bourbon-Condé (1709-1771 ; comte de)”. IdRef — Identifiants et Référentiels, 2025.
“Comte de Clermont (1709-1771)”. Kronobase, s.d.
“Moitié plumet, moitié rabat: Louis de Bourbon Condé, comte de Clermont”. Waddesdon Manor Collections, s.d.
Sainte-Beuve, Charles-Augustin. Nouveaux lundis (citado na página da Académie française).

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
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No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.









