Ao me aprofundar na figura de Ciro II da Pérsia, mais conhecido como Ciro, o Grande, confesso que esperava encontrar apenas mais um conquistador sanguinário das estepes asiáticas.
No entanto, a cada nova fonte que consultava, fui sendo tomado por um fascínio crescente. Descobri umlíder que não apenas forjou o maior império que o mundo havia visto até então, mas que também governou com uma clemência e tolerância verdadeiramente inovadoras para a sua época — valores que ressoam surpreendentemente contemporâneos.
Sua decisão de libertar os judeus do cativeiro babilônico, registrada nas páginas da Bíblia, e seu famoso cilindro, frequentemente saudado como a primeira declaração dos direitos humanos, fazem de Ciro uma figura ímpar na história da humanidade.
Neste artigo, convido o leitor a conhecer a trajetória desse homem que unificou o Oriente Médio sob uma só bandeira e que, mais de dois milênios depois, ainda é lembrado como ummodelo de governante justo e benevolente.
Ciro II nasceu entre 590 e 580 a.C., provavelmente na região de Persis (atual província de Fars, no Irã), embora algumas fontes sugiram a Média como seu local de nascimento. Era filho de Cambises I, rei de Anshan e nobre persa da dinastia Aquemênida, e de Mandane, filha do poderoso rei Astíages, soberano da Média. O nome “Ciro” — em persa antigo Kūruš — tem significado incerto, sendo objeto de debate entre os especialistas se seria umnome pessoal ou um título real. Uma curiosidade notável é que, após o Império Aquemênida, o nome não volta a aparecer em fontes relacionadas ao Irã, o que pode indicar algum sentido especial ou sagrado associado a ele.
A infância de Ciro está envolta em lendas, sendo a versão mais famosa registrada pelo historiador grego Heródoto. Segundo essa narrativa, o rei medo Astíages teve um sonho perturbador no qual uma videira crescia das costas de sua filha Mandane, lançando gavinhas que envolviam toda a Ásia. Os sacerdotes interpretaram o sonho como um presságio de que seu neto, ainda por nascer, se tornaria governante de toda a Ásia. Aterrorizado, Astíages ordenou que o bebê fosse assassinado, mas o oficial encarregado da missão, movido por piedade, entregou a criança a um casal de pastores, que o criou como seu próprio filho. Anos depois, Ciro descobriu sua verdadeiraorigem, liderou uma revolta contra o avô e cumpriu a profecia.
A lenda, que apresenta notáveis semelhanças com a história do rei grego Édipo, estabelece umpadrão mitológico comum entre fundadores de dinastias em todo o Oriente Antigo.
Ciro ascendeu ao trono de Anshan por volta de 559 a.C., sucedendo seu pai Cambises I. Na época, os persas eram umpovo vassalo do ImpérioMedo, então a potência dominante no planalto iraniano. Insatisfeito com essa condição de subordinação, Ciro liderou uma rebelião contra seu avô materno, o rei Astíages, em 550 a.C. — ou 553 a.C., conforme algumas cronologias. Com o apoio de uma facção descontente da nobreza meda, liderada por Harpago, Ciro derrotou Astíages, conquistou a capital Ecbátana e unificou os persas e os medos sob seu comando, fundando o que seria o núcleo do Império Aquemênida.
Consolidado o domíniosobre os medos, Ciro voltou suas atenções para o oeste, onde o lendário rei Creso governava o próspero Império Lídio, na Anatólia (atual Turquia). Creso, famoso por sua imensa riqueza e por ter cunhado as primeiras moedas de ouro e prata da história, atacou os domínios persas em 547 a.C., após consultar o Oráculo de Delfos, que lhe disse que, se cruzasse o rio Hális, destruiria umgrandeimpério — sem especificar qual seria. Ambos os exércitos encontraram-se na Batalha do Rio Hális, mas o inverno interrompeu os combates. Creso recuou para sua capital, Sardes, confiante de que retomaria a guerra na primavera. No entanto, Ciro o perseguiu implacavelmente, sitiou a cidade e a conquistou em apenas quatorze dias. Creso foi capturado e, segundo a tradição, teve sua vida poupada, tornando-se conselheiro do rei persa.
Em 539 a.C., Ciro voltou sua atenção para o poderoso Império Neobabilônico, então governado pelo impopular rei Nabonido. Aproveitando-se do descontentamento popular e da negligência religiosa do monarca babilônico, Ciro marchou sobre a Mesopotâmia. A lendária cidade da Babilônia, considerada impenetrável com suas imensas muralhas, caiu sem grandes combates. Segundo o relato do historiador Heródoto e confirmado pelo próprio Cilindro de Ciro, o exército persa desviou as águas do Rio Eufrates e entrou na cidade pelos leitos secos, pegando os defensores de surpresa.
Uma das ações mais célebres de Ciro após a conquista da Babilônia foi a promulgação de um decreto que permitia o retorno dos judeus, que haviam sido exilados por Nabucodonosor II cerca de cinquenta anos antes, à sua terranatal e autorizava a reconstrução do Templo de Jerusalém. Este evento é relatado em detalhes no Antigo Testamento, nos livros de Esdras e Isaías. Isaías, inclusive, refere-se a Ciro como o “ungido do Senhor” — o único não-judeu a receber tal distinção na Bíblia. Estima-se que cerca de 40.000 judeus tenham se beneficiado desse decreto, retornando à Judeia e pondo fim ao período conhecido como Cativeiro Babilônico. Devido a esse feito, Ciro é mencionado mais de trinta vezes na Bíblia, umnúmero que demonstra a profundidade de sua influênciasobre o imaginário judaico-cristão.
Com suas conquistas sucessivas, Ciro estruturou o vasto Império Aquemênida que se estendia do Mar Egeu, a oeste, até o Rio Indo, a leste, abrangendo terras que hoje correspondem a mais de trinta países. Para administrar esse domínio de forma eficiente, Ciro implementou umsistema inovador: dividiu o império em províncias chamadas satrapias, cada uma governada por um sátrapa (governador) que detinha considerável autonomia local, mas respondia diretamente ao rei. Para facilitar a comunicação entre as satrapias, Ciro estabeleceu uma extensa rede de estradas e um eficiente serviço postal conhecido como “Caminho Real”, que mais tarde seria ampliado e aperfeiçoado por Dario I.
No auge de seu poder, em 530 a.C., Ciro liderou uma expedição contra os Massagetas, umpovo nômade que habitava as regiões da Ásia Central além do RioSir Dária. Os relatos sobre sua morte variam, mas a versão mais aceita é a do historiador Heródoto: Cirofoi morto em combate e sua cabeça foi cortada e colocada dentro de um odre cheio de sangue pela rainha Tômiris dos Massagetas, que buscou assim vingar a morte de seu filho.
Seu corpo foi levado de volta à cidade de Pasárgada, que ele havia estabelecido como capital cerimonial do império. Lá, foi sepultado em uma tumba de pedra de design simples, com base escalonada e uma pequena câmara no topo, que permanece intacta até os dias de hoje no atual Irã. A inscrição original em caracteres persas antigos, registrada pelo historiador grego Arriano, teria dito: “Mortal! Eu souCiro, filho de Cambises, que fundou o Império Persa e foi rei da Ásia.”
Feitos e Conquistas
O legado de Ciro, o Grande, é vasto e multifacetado, consolidando-o como uma das figuras mais influentes da Antiguidade:
Fundador do Império Aquemênida (PrimeiroImpério Persa): Ciro unificou os persas e medos e, por meio de campanhas militares brilhantes, anexou os impérios Lídio e Neobabilônico, além de diversas cidades-estado gregas da Ásia Menor, criando o maior império que o mundo conhecera até então, estendendo-se do Mediterrâneo ao Rio Indo.
Conquista da Babilônia (539 a.C.): Capturou a impenetrável cidade da Babilônia utilizando uma tática engenhosa de desvio do Rio Eufrates, pondo fim ao reinado de Nabonido.
Libertação dos Judeus do Cativeiro Babilônico: Emissão do famoso decreto permitindo o retorno dos exilados judeus a Jerusalém e a reconstrução do Templo, um evento registrado na Bíblia e que lhe rendeu o epíteto de “ungido do Senhor” pelo profeta Isaías.
Criação do Cilindro de Ciro: Após a conquista da Babilônia, Ciro mandou inscrever em um cilindro de argila um decreto em escrita cuneiforme acadiana que descreve suas políticas de restauração dos templos locais e repatriação dos povos deportados. Este artefato, descoberto em 1879 e hoje no Museu Britânico, é frequentemente saudado como a primeira declaração de direitos humanos da história, devido à sua ênfase na liberdade religiosa e na tolerância.
Sistema Administrativo das Satrapias: Dividiu o vasto império em províncias autônomas, permitindo governabilidade eficiente e respeito às culturas e religiões locais. Essa estrutura administrativa seria mantida e expandida por seus sucessores.
Tolerância Religiosa e Respeito às Culturas Locais: Ao contrário de muitos conquistadores de sua época, Ciro não impunha a religião persa aos povos subjugados. Pelo contrário, ele restaurava santuários, respeitava os deuses locais e permitia que cada nação mantivesse suas tradições e crenças — uma política que lhe garantiu a lealdade dos súditos e minimizou rebeliões.
Construção de Pasárgada e a Tumba: Fundou Pasárgada como capital cerimonial do império, onde construiu palácios, jardins e sua própria tumba. A tumba, uma estrutura de pedra de base escalonada com câmara superior, é a estrutura com isolamento sísmico mais antiga conhecida e uma obra-prima da arquitetura aquemênida.
“O Pai dos Persas”: Os antigos persas chamavam Ciro de “Pai”, uma distinção que seus sucessores (como Dario I) não receberam, refletindo seu papel fundador e o carinho do povo por ele.
A Verdadeira Causa da Morte: Embora Heródoto relate que Cirofoi morto pelos Massagetas e sua cabeça exibida em um odre de sangue pela rainha Tômiris, outras fontes, como o historiador Xenofonte, afirmam que ele morreu pacificamente em sua capital, Pasárgada. A maioria dos historiadores modernos, no entanto, aceita a versão de sua morte em batalha contra os Massagetas. Pesquisas recentes sugerem ainda que Ciro pode ter sucumbido a doenças contraídas durante a campanha na Ásia Central.
O Cilindro de Ciro e o Direitos Humanos: A fama do cilindro como “primeira declaração de direitos humanos” foi popularizada pelo xá Mohammad Reza Pahlavi na década de 1960, durante as comemorações de 2.500 anos do Império Persa. Embora sejaum tema de debate acadêmico — muitos historiadores argumentam que se trata, antes, de um texto de propaganda política que justificava o governo persa —, seu conteúdo inovador em termos de tolerância religiosa e liberdade de culto é inegável.
Ciro na Bíblia: Ciro é mencionado mais de trinta vezes no Antigo Testamento, um feito surpreendente para um governante não-judeu. No livro de Isaías (capítulo 45), Deus se dirige a Ciro como seu “pastor” e seu “ungido”, que ele “pegará pela mão direita” para subjugar nações.
Admirador de Creso: Apesar de ter derrotado Creso, rei da Lídia, Ciro o tratou com respeito e o manteve como conselheiro em sua corte — um ato de clemência que contradiz o estereótipo do déspota oriental.
Ciro e a Austrália: Um monumento a Ciro II está localizado no Parque Olímpico de Sydney, na Austrália — uma homenagem inusitada ao imperador persa na região da Oceania.
A Profecia de Daniel: No livro bíblico de Daniel (capítulo 10), o profeta recebe uma visão nos dias de Ciro, indicando que o rei persa já era visto pelos judeus como um instrumento da vontade divina.
Embora Ciro não tenha deixado obras escritas de sua própria lavra, sua vida e legado inspiraram uma vasta produção cultural, artística e literária ao longo dos séculos:
Cilindro de Ciro (539 a.C.): O documento mais importante deixado por Ciro — não escrito por ele, mas em seu nome — contendo o decreto de libertação dos judeus e suas políticas de tolerância religiosa. Foi descoberto em 1879 nas ruínas da Babilônia e está em exibição no Museu Britânico, com uma réplica na sede das Nações Unidas, em Nova York.
Ciropédia (A Educação de Ciro) (c. 370 a.C.): Obra do historiador e filósofo grego Xenofonte, considerada um dos primeiros romances biográficos da história. Xenofonte apresenta Ciro como um governante ideal, cujas qualidades de liderança e virtude deveriam servir de modelo para as gerações futuras.
Histórias de Heródoto (c. 440 a.C.): O “Pai da História” dedica uma parte significativa de sua obra à vida e às conquistas de Ciro, sendo a principal fonte escrita sobre sua trajetória, embora mesclada com elementos lendários.
A Bíblia (Livros de Isaías, Esdras e Daniel): Ciro é mencionado mais de trinta vezes, sendo chamado de “pastor do Senhor” e “ungido” — o único não-judeu a receber tal distinção.
Ciro el Grande (2023): Biografia moderna escrita pelo aclamado historiador Stephen Dando-Collins, que desgrana a intensa juventude do personagem, seu ascenso ao poder através da rebelião, suas brilhantes campanhas militares e seu magnificente e inigualável reinado. É considerada a primeira biografia moderna de Ciro.
Cabeça de Ciro Trazida à Rainha Tômiris (c. 1625): Pintura do mestre barroco flamengo PeterPaul Rubens, que imortaliza o momento lendário em que a rainha dos Massagetas, Tômiris, exibe a cabeça decepada de Ciro como troféu de guerra.
Ciro, o Grande (filme de 2015): Produção iraniana dirigida por Bahram Rezaei e Farzad Moghaddam, que retrata a vida e as conquistas do fundador do Império Persa.
O Caminho de Ciro (documentário de 2018): Produção que segue a rota histórica de Ciro e seus exércitos, explorando os locais arqueológicos e a influência duradoura de sua política de tolerância.
*Monumento a Ciro no Parque Olímpico de Sydney: Uma estátua e estrutura em homenagem a Ciro II, localizada no Parque Olímpico de Sydney, na Austrália, uma demonstração do reconhecimento internacional de sua importância histórica.
Ao final desta jornada pela vida de Ciro, o Grande, fica evidente que sua grandeza reside não apenas na magnitude de suas conquistas militares, mas principalmente na forma como exerceu o poder. Em uma época em que a tirania e a crueldade eram a norma entre os conquistadores, Ciro ousou governar com clemência, tolerância e respeito pela diversidade cultural e religiosa. Seu famoso cilindro ecoa através dos milênios como um testemunho de que o poder pode, sim, ser exercido com justiça e humanidade. Ele libertou os judeus do exílio, restaurou templos, respeitou os deuses alheios e tratou os inimigos derrotados com dignidade — valores que, infelizmente, ainda são a exceção no cenário global contemporâneo. Não é à toa que, mais de 2.500 anos após sua morte, Ciro continua sendo celebrado como um dos maiores estadistas da história, lembrado não apenas como “o Grande”, mas também como “o Pai” e “o Ungido”.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade(Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).