Henrique Dias – O Comandante do Terço dos Homens Pretos que Lutou por Liberdade e Dignidade
agosto 14, 2026
Henrique Dias – O Comandante do Terço dos Homens Pretos que Lutou por Liberdade e Dignidade
Introdução
Em meio à guerra que decidiu o futuro do Nordeste brasileiro no século XVII, um nome emerge como símbolo de resistência, coragem e luta por liberdade: Henrique Dias.
Filho de africanos libertos, ele ascendeu da condição de negro liberto à liderança de um dos mais temidos e respeitados regimentos da Insurreição Pernambucana — o Terço dos Homens Pretos.
Nas batalhas decisivas dos Guararapes (1648-1649), sua tropa ocupou o flanco mais vulnerável do campo de batalha e sustentou o combate até a vitória final.
Mais do que um militar, Henrique Dias foi um agente político que, ao longo de sua carreira, usou sua posição para negociar com a Coroa portuguesa a liberdade de seus soldados e o reconhecimento da população negra como parte ativa e fundamental da defesa do território.
Sua trajetória, silenciada por séculos, foi resgatada pela historiografia contemporânea, e hoje seu nome está inscrito no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria” , no Panteão da Pátria em Brasília.
1. Origens e Juventude
1.1. Nascimento e Família
Henrique Dias nasceu na Capitania de Pernambuco, em data desconhecida — as fontes divergem entre o final do século XVI e o início do século XVII. Era filho de africanos libertos, o que significa que, embora não tenha nascido escravo, cresceu em uma sociedade profundamente marcada pela escravidão e pela hierarquização racial.
Sua data de nascimento é incerta: algumas fontes sugerem 1575, outras 1590, e há ainda quem situe seu nascimento por volta de 1624.
O que se sabe com segurança é que ele viveu durante todo o período da ocupação holandesa em Pernambuco (1630-1654) e participou ativamente de todas as fases do conflito.
1.2. Os Primeiros Anos e o Alistamento
Desde jovem, Henrique Dias conviveu com as tensões sociais, econômicas e raciais que marcavam o Brasil Colônia.
Quando os holandeses invadiram o Nordeste em 1630, dominando cidades e destruindo igrejas, a resistência portuguesa precisou ser forjada a partir de uma aliança inédita entre três pilares: nobres portugueses, indígenas comandados por Filipe Camarão e negros liderados por Henrique Dias.
Em 1631, Henrique Dias alistou-se nas tropas de Matias de Albuquerque, que organizava a resistência a partir do Arraial do Bom Jesus, no interior de Pernambuco. Desde o início das lutas, demonstrou bravura e dedicação, conquistando rapidamente a confiança de seus superiores.
Henrique Dias organizou e assumiu o comando do Terço dos Homens Pretos, uma unidade militar composta majoritariamente por negros livres, libertos e escravizados, recrutados para as forças portuguesas.
Essa tropa representou uma inovação dentro do sistema militar da América portuguesa, pois reconhecia oficialmente uma força comandada por um oficial negro.
O regimento de Henrique Dias era composto por negros de quatro nações: “Minas, Ardras, Angolas e Creoulos”.
Essa diversidade étnica demonstra a complexidade da população negra presente na colônia e a capacidade de Henrique Dias de unir diferentes origens em torno de um objetivo comum.
2.2. As Primeiras Campanhas
O Terço de Henrique Dias participou de importantes campanhas militares durante a Insurreição Pernambucana, incluindo os combates em Porto Calvo, Casa Forte e Forte das Cinco Pontas.
Em 1637, na Batalha de Porto Calvo, Henrique Dias foi ferido pela sexta vez no braço esquerdo, o que resultou na amputação de sua mão. Conta-se que, ao perder a mão, ele afirmou que “no outro lhe ficavam muitos para servir ao seu Deus e ao seu rei”. Essa frase — também registrada como “lhe bastava ter a mão direita para defender a sua terra e o seu rei” — tornou-se um símbolo de sua determinação inabalável.
2.3. As Batalhas dos Guararapes (1648-1649)
O momento culminante da carreira de Henrique Dias veio com as duas Batalhas dos Guararapes, travadas nos Montes Guararapes, em Pernambuco.
Primeira Batalha (18 e 19 de abril de 1648): Henrique Dias comandou o Corpo dos Homens Pretos e Pardos Livres no flanco direito, o ponto mais vulnerável da formação luso-brasileira.
O terreno era pantanoso, estreito e coberto por vegetação, mas sob seu comando, o impossível tornou-se defesa sólida. Com armas leves — lanças, espadas curtas e mosquetes de tiro rápido — seus homens resistiram ao avanço inicial da vanguarda holandesa, sustentando o combate até o contra-ataque decisivo de João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros.
Segunda Batalha (19 de fevereiro de 1649): No ano seguinte, o Terço de Henrique Dias avançou novamente sobre o inimigo em meio ao mangue, abrindo caminho para a vitória final.
Durante os combates, Henrique Dias foi ferido diversas vezes — ao todo, sete ferimentos ao longo de sua carreira —, perdeu parte de um braço, recebeu tiros e cortes, mas jamais deixou o campo. Testemunhas o descrevem orando antes do combate, dizendo: “Deus é nosso general, e o Brasil é a causa que Ele nos confia.”
3. O Agente Político
3.1. A Luta pela Liberdade dos Soldados
Henrique Dias fez algo até então impensável: reuniu escravizados para formar um exército.
Convenceu as autoridades portuguesas de que, se quisessem resistir, precisariam da força dos que até então eram invisíveis.
Mas seu objetivo era mais profundo do que uma simples vitória militar. Desde o início, exigiu uma garantia ao rei de Portugal: se ganhassem a guerra, seus homens deveriam ser libertos.
Essa foi a primeira grande alforria coletiva da história do Brasil, conquistada no campo de batalha.
Em diversas petições enviadas à Coroa portuguesa, Henrique Dias reivindicou recompensas para os soldados de seu regimento e defendeu a libertação daqueles que haviam sido mobilizados mediante promessas de alforria.
3.2. O Reconhecimento da Coroa
Como recompensa pelos serviços prestados durante as guerras contra os neerlandeses, Henrique Dias recebeu diversas mercês da Coroa Portuguesa:
O posto de Mestre de Campo;
O título de “Governador dos Crioulos, Pretos e Mulatos do Estado do Brasil”, uma distinção inédita;
O hábito da Ordem de Cristo, uma das mais importantes distinções honoríficas do Império Português;
Concessões de terras, como sesmarias na região do atual bairro do Derby, no Recife, além de pensões e outras recompensas financeiras.
A obtenção dessas honrarias por Henrique Dias representou um fato excepcional no século XVII. Em um sistema profundamente marcado pela escravidão e pela hierarquização racial, a ascensão de um homem negro a altos postos militares evidencia as possibilidades — e os limites — da mobilidade social na América portuguesa.
3.3. A Viagem a Lisboa
Em 1656, Henrique Dias viajou a Lisboa para requerer pessoalmente benefícios para si e para seus soldados.
Pediu foros de fidalgo para si e seus genros, além da alforria para os soldados e oficiais escravos que lutaram sob seu comando. Em março de 1657, logrou uma primeira vitória, conseguindo a confirmação de parte de suas demandas.
4. Morte e Legado
4.1. Os Últimos Anos
Henrique Dias faleceu no Recife, em 7 ou 8 de junho de 1662. Sua morte marcou o fim de uma trajetória singular de ascensão social e política de um homem negro no contexto colonial.
4.2. O Legado Familiar
Henrique Dias buscou assegurar o prestígio social de seus descendentes por meio de pedidos de mercês régias destinados aos futuros maridos de suas filhas.
Sua filha Guiomar Henriques casou-se com Pedro de Val, que herdou os títulos de Henrique Dias, incluindo a Comenda de Soure e o título de cavaleiro da Ordem de Cristo.
Sua outra filha, Benta Henriques, casou-se com Amaro Cardigo, oficial do Terço dos Henriques.
4.3. O Reconhecimento Tardio
Por séculos, a trajetória de Henrique Dias foi silenciada pela história oficial.
No entanto, nas últimas décadas, a historiografia contemporânea tem dado mais destaque a sua figura, apontando-o não apenas como um militar, mas como um agente político capaz de negociar privilégios, direitos e reconhecimento para sua tropa.
Em 1992, foi escolhido patrono do então 28.º Batalhão de Infantaria Blindada, atualmente 28.º Batalhão de Infantaria Leve, localizado em Campinas – SP.
Em 6 de agosto de 2012, pela Lei Federal nº 12.701, Henrique Dias foi declarado Herói da Pátria Brasileira, tendo seu nome inscrito no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria” (conhecido como “Livro de Aço”), no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília.
5. Curiosidades
5.1. As Sete Vezes Ferido
Henrique Dias foi ferido sete vezes ao longo de sua carreira militar.
O ferimento mais grave ocorreu em 1637, na Batalha de Porto Calvo, quando sua mão esquerda foi amputada. Apesar da perda, continuou lutando, afirmando que lhe bastava ter a mão direita para defender sua terra e seu rei.
5.2. O “Governador dos Negros”
Henrique Dias recebeu o título de “Governador dos Negros, Índios e Mulatos do Brasil” , uma distinção inédita para um homem negro na época.
O título, posteriormente alterado para “Governador dos Crioulos, Pretos e Mulatos do Estado do Brasil”, reforçava sua posição e prestígio dentro da hierarquia militar colonial.
5.3. A Primeira Grande Alforria Coletiva
Henrique Dias foi responsável pela primeira grande alforria coletiva da história do Brasil.
Ele exigiu do rei de Portugal que, se vencessem a guerra, seus homens fossem libertos — e cumpriu sua palavra.
5.4. Um Exército de Excluídos
O Corpo dos Negros Livres foi mais que uma unidade militar — foi um marco social. Composto por homens livres e libertos, era um exército de excluídos que encontrava nas armas um caminho para a dignidade. Os registros coevos destacam sua organização: oração diária, turnos de vigia, partilha igual de alimento e proibição de deserção.
5.5. A Atuação em Angola e Contra Palmares
Além de combater os holandeses em Pernambuco, as companhias de Henrique Dias atuaram em Angola (1645) e na batalha de Ambuíla (1665), além de diversas vezes contra o Quilombo dos Palmares.
Essa atuação revela a complexidade de sua trajetória: ao mesmo tempo em que lutava pela liberdade de seus soldados, era mobilizado para combater comunidades de negros fugidos.
5.6. As Petições à Coroa
Henrique Dias foi um incansável petitionário da Coroa portuguesa.
Em suas cartas, não constavam apenas pedidos de mercês para si, mas também requerimentos de alforria aos soldados escravos que lutaram em suas tropas.
Ele também solicitou que os combatentes negros recebessem privilégios semelhantes aos concedidos aos corpos militares compostos por brancos.
Apesar de suas conquistas, Henrique Dias e sua família enfrentaram os limites da mobilidade social na sociedade colonial. Seu genro, Amaro Cardigo, cobrou da Coroa o título de cavaleiro da Ordem de Santiago, que foi prometido pela rainha Luísa de Gusmão aos genros de Henrique Dias.
O pedido foi negado pela Ordem após três apelações.
Conclusão
Henrique Dias foi, sem dúvida, uma das mais importantes lideranças negras da história do Brasil colonial. Nascido filho de libertos em uma sociedade escravista, ele ascendeu à liderança de um exército de homens negros e construiu uma trajetória de coragem, determinação e luta por justiça que atravessou os séculos.
Sua genialidade não esteve apenas no campo de batalha, onde comandou o flanco mais vulnerável dos Guararapes e sustentou o combate até a vitória final.
Esteve também na capacidade de negociar com a Coroa portuguesa, de exigir a liberdade para seus soldados e de construir, dentro das limitações da sociedade colonial, um espaço de dignidade e reconhecimento para a população negra.
O comandante do Terço dos Homens Pretos, que perdeu a mão esquerda em batalha e continuou lutando, que foi ferido sete vezes e jamais deixou o campo, que exigiu a alforria de seus homens e a obteve, é hoje reconhecido como um dos heróis fundadores do Exército Brasileiro e um símbolo da resistência negra no Brasil.
Sua história, silenciada por séculos, foi finalmente restaurada — e seu nome, inscrito no “Livro de Aço”, permanece como testemunho de que a liberdade e a dignidade se conquistam com coragem, fé e determinação.
Henrique Dias. In: Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Henrique_Dias.
Henrique Dias – Herói da Pátria. Livro de Aço. Disponível em: livrodeaco.com.br/henrique-dias.
Henrique Dias: o herói negro do Brasil que a história apagou. Defesa em Foco. Disponível em: defesaemfoco.com.br/henrique-dias-o-heroi-negro-do-brasil-que-a-historia-apagou.
Henrique Dias: fé, ferimentos e o heroísmo do comandante dos negros livres. Defesa em Foco. Disponível em: defesaemfoco.com.br/henrique-dias-fe-ferimentos-e-o-heroismo-do-comandante-dos-negros-livres.
Biografia de Henrique Dias. Dilva Frazão. eBiografia. Disponível em: ebiografia.com/henrique_dias.
Henrique Dias. BRASILHIS: Redes pessoais e circulação no Brasil durante o período da Monarquia Hispânica (1580-1640). Disponível em: brasilhis.usal.es.
Henrique Dias – Construtores do Brasil. TV Câmara. Disponível em: camara.leg.br/tv/170887-henrique-dias.
Lei Federal nº 12.701 de 6 de agosto de 2012. Plan alto. Disponível em: planalto.gov.br.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
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No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
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