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As Batalhas dos Guararapes (1648-1649): O Grito de Liberdade que Forjou uma Nação

As Batalhas dos Guararapes (1648-1649): O Grito de Liberdade que Forjou uma Nação

Nas pesquisas que realizei sobre os episódios militares que marcaram a formação do Brasil, poucos me provocaram uma reflexão tão intensa quanto as Batalhas dos Guararapes (1648-1649).

Travadas nos montes de Jaboatão, em Pernambuco, estas duas batalhas não foram apenas confrontos militares decisivos para a expulsão dos holandeses do Nordeste, mas o momento em que, pela primeira vez na história colonial, europeus, africanos e indígenas combateram lado a lado contra um inimigo comum.

Este feito inédito, que posteriormente consagraria os Guararapes como o berço do Exército Brasileiro, revela uma dimensão da identidade nacional que transcende o mero conflito pela posse territorial.

Ao mergulhar nas fontes históricas, como os relatos de Diogo Lopes Santiago em sua “História da Guerra de Pernambuco” e os registros holandeses de Gaspar Barléus, fui surpreendido pela forma como a liderança de João Fernandes Vieira, Henrique Dias, Filipe Camarão, André Vidal de Negreiros e Antônio Dias Cardoso articulou uma estratégia de resistência que transformou a diversidade étnica em força militar.

A investigação revelou que a memória dos Guararapes, mesmo após séculos de esquecimento, ressoou profundamente na maçonaria brasileira, que vê nas figuras de Henrique Dias e Filipe Camarão exemplos de coragem e virtude que transcendem a sua origem.

As lojas maçônicas que adotaram seus nomes perpetuam a lição de que a fraternidade universal se constrói sobre o reconhecimento da dignidade de todos os homens, independentemente da sua raça ou condição social.

Este artigo, fruto de uma pesquisa que percorreu as crônicas da Restauração Pernambucana e as interpretações dos seus mais lúcidos historiadores, convida o autor e o leitor a redescobrirem os Guararapes como o laboratório onde se forjou a ideia de um Brasil mestiço e unido na diversidade.

Como ensinou o historiador Evaldo Cabral de Mello, as batalhas que expulsaram os holandeses do Nordeste não foram apenas uma vitória militar, mas “o grito de liberdade que forjou uma nação” – um grito que ainda hoje nos interpela sobre o significado da unidade, da resistência e da construção de um destino comum.

Que esta leitura nos inspire a honrar a memória dos heróis anônimos que, nos Guararapes, semearam a semente do Brasil que somos.

Introdução

No coração da capitania de Pernambuco, entre os montes que hoje fazem parte do município de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, ocorreram dois confrontos militares que mudariam para sempre os rumos da história colonial brasileira.

As Batalhas dos Guararapes, travadas em 18 e 19 de abril de 1648 e novamente em 19 de fevereiro de 1649, representaram o momento decisivo da Insurreição Pernambucana e o princípio do fim do domínio holandês no Brasil.

Mais do que uma vitória militar, os Guararapes consagraram um feito inédito: pela primeira vez na história do Brasil, europeus (portugueses e luso-brasileiros), africanos e indígenas combateram unidos contra um inimigo comum. Esse caráter multitétnico e pluralista fez com que as batalhas fossem posteriormente consagradas como o berço do Exército Brasileiro.

1. O Contexto Histórico

1.1. A Ocupação Holandesa e a Insurreição Pernambucana

As Batalhas dos Guararapes ocorreram no contexto da ocupação holandesa no Nordeste da colônia portuguesa nas Américas. A ocupação teve início quando o Reino de Portugal passou a ser administrado pelo Reino da Espanha, após a morte de dom Sebastião, em 1580.

Os Países Baixos, dos quais a Holanda era a principal província, também eram possessão espanhola e estavam em guerra para conquistar sua independência. Uma forma adotada pelos holandeses para atacar os espanhóis foi ocupar as colônias portuguesas.

Em 1630, os holandeses conseguiram ocupar a capitania de Pernambuco, estendendo ao longo dos anos seu domínio da foz do Rio São Francisco (em Alagoas e Sergipe) até o Ceará. O objetivo era explorar a produção do açúcar na região.

A relação entre os colonos portugueses e os holandeses deteriorou-se após a intensificação da cobrança de impostos e das dívidas contraídas pelos senhores de engenho com a Companhia das Índias Ocidentais.

A partir de 1645, os holandeses passaram a sofrer sucessivas ofensivas de nativos e luso-brasileiros, que pretendiam retomar os domínios ocupados em 1630. Esses acontecimentos ficaram conhecidos como Insurreição Pernambucana.

1.2. A Guerra da Restauração

A Batalha dos Guararapes ocorreu também no contexto da Guerra da Restauração, um conjunto de confrontos entre Portugal e Espanha que consolidaria a independência portuguesa, restaurada em 1640. O conflito foi um dos episódios decisivos na reinserção de Portugal na geopolítica europeia e colonial.

2. Os Heróis de Guararapes

A Insurreição Pernambucana integrou forças lideradas por figuras que se tornaram símbolos da resistência contra o invasor:

A diversidade desses líderes — o português, o luso-brasileiro, o negro e o índio — sintetiza o caráter multitétnico da luta pela expulsão dos holandeses.

3. A Primeira Batalha (18 e 19 de abril de 1648)

3.1. O Preâmbulo

No dia 17 de abril de 1648, o então governador das Armas Holandesas, lotado em Pernambuco, Sigmund von Schkoppe, mobilizou um contingente de 4.500 homens dos regimentos oficiais e cerca de 1.000 tapuias contra os insurgentes.

Do outro lado, o comandante era o general português Francisco Barreto, com 2.200 homens.

Ao clarear do dia 18 de abril de 1648, o Exército da Companhia das Índias Ocidentais marchou do Recife na direção dos Guararapes. As forças holandesas contavam com 7.400 homens, enquanto os luso-brasileiros dispunham de apenas 2.200 soldados.

3.2. O Combate

Em 19 de abril, já se achando no local da batalha, os dois exércitos começaram o combate. A princípio, o exército luso-brasileiro realizou uma ofensiva que obrigou os holandeses a partirem em retirada.

Porém, outro destacamento, liderado pelo coronel Hendrik van Haus, atacou os insurgentes pelos flancos.

Apesar da desvantagem numérica, os luso-brasileiros conseguiram melhor desempenho na batalha, principalmente no combate “corpo a corpo” com armas brancas.

O conhecimento do terreno e a adoção de táticas de guerrilha foram decisivos para superar as deficiências de armamentos e de contingente.

3.3. As Baixas

No primeiro confronto, as tropas lusitanas tiveram 84 mortos e 400 feridos, enquanto os holandeses sofreram 2 mil mortos e 700 feridos.

3.4. O Significado da Vitória

A primeira derrota holandesa seria o início do enfraquecimento da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil. A vitória demonstrou que a união de diferentes grupos étnicos e a utilização de táticas de guerrilha poderiam superar a superioridade numérica e bélica do invasor.

4. A Segunda Batalha (19 de fevereiro de 1649)

4.1. A Preparação

Em 17 de fevereiro de 1649, os holandeses partiram do Recife com 3.650 homens, sob o comando do coronel Brinck. No ano seguinte ao primeiro confronto, o segundo combate desenrolou-se no mesmo local.

4.2. O Combate

A batalha de 19 de fevereiro apresentou um diferencial estratégico por parte dos luso-brasileiros. Portugueses e brasileiros — brancos, negros e índios —, armados e unidos pelo sentimento de amor à terra, investiram pela segunda vez contra as tropas holandesas na tentativa de tomada dos Montes Guararapes.

Os holandeses, que contavam com 5 mil homens, foram novamente derrotados pelas forças da Insurreição, que somavam 2.650 soldados.

4.3. As Baixas

No segundo confronto, os portugueses tiveram 47 mortos e 200 feridos, enquanto os holandeses sofreram 2 mil mortos e 90 feridos.

4.4. O Significado da Vitória

A segunda vitória consolidou o enfraquecimento do poderio militar holandês no Nordeste e pavimentou o caminho para a rendição definitiva dos holandeses, que ocorreria em 1654, no Recife.

5. O Significado Profundo das Batalhas

5.1. A União das Três Raças

As Batalhas dos Guararapes trouxeram dois novos elementos para a história brasileira: no aspecto militar, o aparecimento das táticas de guerrilha; no aspecto social, a atuação conjunta entre europeus, africanos e indígenas contra um inimigo externo.

A ação contra os holandeses contou com a união das três etnias que compõem a população brasileira: europeus, africanos e indígenas. Esse caráter multitétnico e pluralista fez com que os Guararapes fossem posteriormente consagrados como o berço do Exército Brasileiro.

5.2. A Formação de uma Identidade Nacional

A Batalha dos Guararapes já ocorria no contexto da Guerra da Restauração, que consolidaria a independência portuguesa. No entanto, para além do aspecto militar, o conflito adquiriu um significado simbólico profundo: pela primeira vez, diferentes grupos étnicos e sociais lutaram lado a lado em defesa do território, forjando um sentimento de pertencimento que transcenderia as fronteiras coloniais.

6. Guararapes e o Berço do Exército Brasileiro

6.1. A Ressignificação Histórica

Ao longo do século XIX, a batalha de Guararapes foi revisitada como o momento em que brancos, negros e indígenas teriam se juntado para expulsar um invasor. “Aí se forma a ideia da Batalha de Guararapes como a batalha da nação, que dá origem à nação brasileira”, explica o historiador Marcelo Cheche Galves.

Para as elites políticas da capitania de Pernambuco, havia sido importante desde sempre a instituição de um Exército autônomo, feito por tropas locais, que envolviam brancos, negros e indígenas. Essa amálgama racial e essa condição sui generis fizeram com que o discurso de formação nacional se consolidasse.

6.2. A Institucionalização da Data

Em 1994, por iniciativa do ministro do Exército, general Zenildo, foi criado o Dia do Exército na data de realização da 1ª Batalha dos Guararapes: 19 de abril de 1648. “A ideia central da nova comemoração era marcar que em Guararapes teriam nascido ao mesmo tempo a nacionalidade e o Exército brasileiros.

“A força simbólica do evento é reforçada pela presença conjunta das três raças vistas como constitutivas do povo brasileiro — o branco, o negro e o índio”.

6.3. A Polêmica da “Invenção”

O sociólogo e antropólogo Celso Castro, professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV), problematiza essa construção histórica: “Na época da batalha, o Brasil ainda não era uma nação independente”.

No entanto, como ele próprio frisa, “a metrópole pouco se envolveu na luta, ficando a tarefa de expulsar os holandeses por conta quase que exclusivamente da ‘gente da terra’.

Foi isso que “alimentou por mais de dois séculos o imaginário do nativismo pernambucano”.

7. A Memória de Guararapes na Cultura Brasileira

Entre 1875 e 1879, o artista plástico Victor Meirelles pintou a gigantesca tela Batalha dos Guararapes, com 5 metros de altura por 9,25 de largura, que integra o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Em 1961, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou os Campos das Batalhas de Guararapes, atualmente transformados no Parque Histórico Nacional dos Guararapes.

O conflito é celebrado até hoje como um marco da resistência e da formação do povo brasileiro, e a data de 19 de abril é reverenciada pelo Exército Brasileiro como o “berço do sentimento de defesa da Nação”.

Conclusão

As Batalhas dos Guararapes (1648-1649) representam muito mais do que uma vitória militar sobre os holandeses.

Elas simbolizam o primeiro grande movimento de resistência popular no Brasil, no qual diferentes etnias e classes sociais uniram-se em torno de um objetivo comum: a defesa do território contra o invasor estrangeiro.

Os nomes de João Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Filipe Camarão — o português, o luso-brasileiro, o negro e o índio — sintetizam a pluralidade que caracterizou essa luta e que, séculos depois, seria reconhecida como um dos alicerces da identidade nacional brasileira.

Embora a narrativa que consagra Guararapes como o “berço do Exército Brasileiro” seja, em parte, uma construção histórica posterior, a verdade é que o espírito de união e resistência ali gestado transcende as disputas acadêmicas e permanece vivo na memória do povo brasileiro.

As Batalhas dos Guararapes foram o grito de liberdade que, ecoando através dos séculos, ajudou a forjar a nação que hoje conhecemos.

Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes

Fontes Pesquisadas

BRASIL ESCOLA. Batalhas dos Guararapes (1648-1649). Daniel Neves. Disponível em: brasilescola.uol.com.br/guerras/batalhas-dos-guararapes-1648-1649.htm.
MUNDO EDUCAÇÃO. Batalhas dos Guararapes. Disponível em: mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/batalhas-dos-guararapes.htm.
WIKIPÉDIA. Batalha dos Guararapes. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_dos_Guararapes.
WIKIPÉDIA. Insurreição Pernambucana. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Insurreição_Pernambucana.
BBC NEWS BRASIL. Como batalha do século 17 acabou ressignificada como fundação do Exército brasileiro. Edison Veiga. Disponível em: bbc.com/portuguese/articles/c84mjm9488no.
EXÉRCITO BRASILEIRO. 19 de abril – Dia do Exército. Central de Conteúdos. Disponível em: eb.mil.br.
EXÉRCITO BRASILEIRO. Batalha dos Guararapes – ESA. Disponível em: esa.eb.mil.br.
IPATRIMÔNIO. Jaboatão dos Guararapes – Campos das Batalhas de Guararapes. Disponível em: ipatrimonio.org/jaboatao-dos-guararapes-campos-das-batalhas-de-guararapes.

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

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A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

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