Ao longo de minhas pesquisas sobre o pensamento alemão, sempre me intrigou o fato de que a imagem do Iluminismo é muitas vezes reduzida a poucos nomes, deixando figuras fundamentais numa sombra injusta. Nenhum caso ilustra melhor esse esquecimento do que Christian Wolff, umhomem que, em sua época, foi uma verdadeirainstituição.
Por décadas, a pergunta que se fazia nas universidades alemãs não era “O que você lê?“, mas sim “Você segue Wolff ou é contra ele?”.
Ele era, para o século XVIII alemão, o que Aristóteles foi para a Idade Média. Foi o grande sistematizador do racionalismo, o homem que estabeleceu a terminologia filosófica alemã que usamos até hoje, e o fundador da psicologia como disciplina científica. Neste artigo, vou guiá-lo pela vida, obra e legado desse gigante do pensamento.
Christian Wolff nasceu em 24 de janeiro de 1679, na cidade de Breslau, na Silésia (atual Wrocław, Polônia), em uma família de artesãos de poucos recursos. Filho de um curtidor de couro, desde cedo demonstrou inteligência e diligência notáveis. Seu pai, mesmo com parcos recursos, sacrificou-se para lhe dar uma educação de qualidade, matriculando-o no Ginásio Maria-Magdalena, onde teve contato com a filosofia cartesiana e a literatura barroca.
Em 1699, ingressou na Universidade de Jena, onde estudou teologia, física e matemática. Trêsanos depois, transferiu-se para a Universidade de Leipzig, obtendo o título de mestre em filosofia em 1702. No ano seguinte, completou sua habilitação (livre-docência) com uma tese que já revelava seu caráter inovador: “Filosofia Prática Universal, Composta Segundo o Método Matemático” (Philosophia practica universalis, methodo mathematica conscripta).
O examinador de sua tese, Otto Mencke, ficou tão impressionado que enviou o trabalho a Gottfried Wilhelm Leibniz, dando início a uma profícua correspondência entre os dois filósofos que se estenderia até a morte de Leibniz, em 1716.
Por influência de Leibniz, Wolff foi nomeado professor extraordinário de matemática na Universidade de Halle em 1706, tornando-se professor ordinário no ano seguinte. Halle era, na época, o principal reduto do pietismo — ummovimento luterano que enfatizava a piedade pessoal e a experiência religiosa em detrimento da ortodoxia racional.
A chegada de Wolff à cidade foi tudo menos glamorosa. Ao passar pelo portão de Galgtor, foi recebido por monturos, lixo e um odor insuportável — a cidade não contava com sistema de esgoto ou coleta de lixo. Ele descreveu sua primeira impressão de Halle como “nada positiva”.
Apesar do início modesto, Wolff logo se tornou uma celebridade acadêmica. Suas aulas atraíam estudantes de toda a Europa, e ele começou a publicar uma série de obras em alemão que democratizavam o pensamento de Leibniz e sistematizavam o saber filosófico. Sua série “Pensamentos Racionais” (Vernünftige Gedanken), publicada a partir de 1712, tornou-se leitura obrigatória para todo intelectual alemão da época.
Expulsão e Martírio
Wolff defendia que a moralidade poderia ser fundamentada pela razão, independentemente da existência de Deus, e sustentava uma visão determinista do mundo, herança do racionalismo leibniziano. Essas posições eram um ataque direto ao pietismo dominante em Halle. A faísca que incendiou o pavio foi umdiscurso elogioso de Wolff sobre a filosofiamoral de Confúcio, que os pietistas interpretaram como uma apologia do paganismo.
Liderados pelo teólogo Joachim Lange, os pietistas convenceram o rei FredericoGuilherme I da Prússia (o chamado “Rei Sargento”) de que as ideias de Wolff eram perigosas para a disciplina militar e para a santidade do juramento. Em 8 de novembro de 1723, o rei ordenou que Wolff deixasse Halle em 24 horas e o território prussiano em 48, sob ameaça de forca. As obras de Wolff foram queimadas, e o filósofo foi banido como herege.
Wolff encontrou refúgio na Universidade de Marburgo, no Hesse-Cassel, onde foi nomeado professor de matemática e filosofia. Ali permaneceu por 17 anos, produzindo a maior parte de sua obra em latim e consolidando sua fama internacional. A Academia de Ciências de São Petersburgo, fundada com seu auxílio como conselheiro científico do czar Pedro, o Grande, testemunhava sua influência que ultrapassava fronteiras alemãs.
Com a ascensão de Frederico II da Prússia (o Grande) ao trono, em 1740, a sorte de Wolff mudou. O jovem monarca iluminista reverenciava o filósofo e imediatamente o convocou de volta. A chegada de Wolff a Halle, no dia de São Nicolau de 1740, foi uma apoteose: foi recebido por uma procissão de estudantes a cavalo e em carruagens, e uma medalha comemorativa foi cunhada para celebrar o evento. Em 1743, foi nomeado reitor (chanceler) da Universidade de Halle e, doisanos depois, recebeu o título de barão (Freiherr).
Christian Wolff faleceu em Halle an der Saale, em 9 de abril de 1754, aos 75 anos. Seu corpo foi sepultado no cemitério da Igreja de St. Ulrich. Até seus últimos dias, permaneceu ativo intelectual e politicamente, sendo um dos mais proeminentes pensadores de sua era e uma referência incontornável da filosofiaalemã.
Wolff foi umpolímata no sentido literal. Sua obra abrangeu quase todas as disciplinas acadêmicas de seu tempo, incluindo lógica, metafísica, ética, política, física, biologia, direito, psicologia e até estética. Ele publicou mais de 50 títulos (a maioria em múltiplos volumes) e quase 500 resenhas de livros.
Wolff é frequentemente creditado como o pai da psicologia científica. Foi o primeiro filósofo a separar sistematicamente o estudo da alma em duas partes distintas: a psicologia empírica (baseada na observação e na experiência) e a psicologia racional (baseada em princípios a priori). Além disso, foi ele quem cunhou e utilizou pela primeira vez o termo “psicometria”, referindo-se à possibilidade de medir os fenômenos da almasegundo leis matemáticas. Essa divisão influenciou profundamente todo o desenvolvimento subsequente da psicologia alemã.
Wolff escreveu sua obra mais influente inicialmente em alemão. Ao fazê-lo, foi um dos primeiros a fixar a terminologia filosófica na língua alemã, criando termos que ainda hoje usamos e que tornaram possível a filosofiaalemã dos séculos XVIII e XIX. Kant, que à época escrevia em alemão e se referia a ele como “o célebre Wolff”, foi, sem dúvida, seu herdeiro direto nesse aspecto.
Wolff acreditava que o método dedutivo da matemática poderia e deveria ser aplicado a todos os ramos da filosofia. Segundo sua concepção, bastava partir de definições claras e princípios evidentes (como o princípio da contradição e o princípio da razão suficiente) para deduzir, com absoluta certeza, todo o conhecimento filosófico. O princípio da razão suficiente — que afirma que para tudo o que existe ou acontece deve haver uma razão adequada — era para ele um dos pilares do pensamento.
Na ética, Wolff afastou-se decisivamente do voluntarismo teológico. Para ele, a leimoral não depende do arbítrio divino, mas é absoluta e necessária, derivando da própria natureza das coisas. O princípiomoral de Wolff é a realização da perfeição humana: agir bemsignifica agir de modo a aumentar a perfeição — sua e a dos outros. Assim, a virtude consiste em contribuir para a felicidade e o aperfeiçoamento da comunidade.
Embora fosse profundamente religioso (procurando provar a existência de Deus pela razão em sua Theologia Naturalis), Wolff advogava uma clara distinção entre a religiãonatural — acessível à razão — e a religião positiva (revelada). Essa posição, embora equilibrada, foi uma das razões pelas quais os pietistas o acusaram de “ateísmo”.
O “Mártir do Iluminismo”: Sua expulsão de Halle por FredericoGuilherme I foi um evento de proporções europeias. O “Rei Sargento”, furioso com a “imoralidade” do racionalismo wolffiano, deu-lhe 24 horas para deixar a cidade e ameaçou enforcá-lo caso ele se recusasse a partir. Por isso, Wolff tornou-se umsímbolo do intelectual perseguido pela intolerância.
O “Rei Filósofo” o Restitui: Seu maior defensor veio a serFrederico II da Prússia (o Grande), o monarca iluminista. Frederico não só o chamou de volta em 1740 como lhe concedeu o título de barão e o nomeou reitor da Universidade de Halle. Uma nova moeda comemorativa foi cunhada para celebrar seu retorno triunfal.
Conselheiro do Czar: Entre 1716 e 1725, Wolff atuou como conselheiro científico de Pedro, o Grande, ajudando a fundar a Academia de Ciências de São Petersburgo, na Rússia. Sua influência estendeu-se, assim, para além das fronteiras germânicas.
O Pai da Psicologia Científica: A grande maioria dos manuais de psicologia ainda desconhece que foi Wolff quem, pela primeira vez, separou a psicologia empírica (baseada na observação) da psicologia racional (baseada em princípios a priori). Ele foi também o criador do termo “psicometria”, com o qual se referia à possibilidade de medir a alma através de leis matemáticas.
O “Precursor da Economia”: Wolff é considerado um dos fundadores da economia e da administração pública como ciências acadêmicas. Sua sistematização do conhecimento nessas áreas pavimentou o caminho para a profissionalização dessas disciplinas.
As Quase 50 Obras e a Língua Alemã: Wolff publicou dezenas de livros — muitos em múltiplos volumes — e escreveu quase 500 resenhas. Ao escrever sua obra mais famosa em alemão, foi um dos criadores da linguagem filosófica germânica, que permitiu que Kant e outrospensadores alemães desenvolvessem suas teorias com precisão.
Uma Revelação Recente e Íntima: Uma pesquisa recente revelou que Wolff também escreveu sobreeducação sexual, de forma franca e explícita, em uma época em que isso era impensável. Essa descoberta confirma que seu interesse pela sistematização da vida humana se estendia inclusive aos aspectos mais íntimos da existência.
A Morfologia da Perfeição: Wolff definia a beleza como a “perfeição percebida sensivelmente”. Esta definição é um dos marcos da estética racionalista do século XVIII, que influenciou diretamente seu discípulo Alexander Gottlieb Baumgarten (o “pai da estética” como disciplina).
“O Maior de Todos os Filósofos Dogmáticos”: Foi assim que Immanuel Kant se referiu a Wolff, no Prefácio da Crítica da Razão Pura. Wolff foi o alvo principal da crítica de Kant ao “dogmatismo” racionalista e, ao mesmo tempo, ummestre na arte de construirsistemas filosóficos rigorosos.
Wolff foi o grande sistematizador e popularizador do pensamento de Leibniz. A chamada “Filosofia Leibniziano-Wolffiana” foi o sistema dominante nas universidades alemãs durante a primeira metade do século XVIII, sendo ensinada como um verdadeiro catecismo filosófico. Foi esse sistema que serviu de pano de fundo e de alvo para a revolução filosófica de Kant. Kant, ao refutar o “sono dogmático” de Wolff, construiu sua própria filosofia crítica — mas a estrutura do debate filosófico alemão, com suas disciplinas metafísicas bem delineadas (ontologia, psicologia racional, cosmologia e teologia natural), foi herdada diretamente de Wolff.
Na psicologia, a distinção wolffiana entre psicologia empírica e racional permaneceu como paradigma até o final do século XIX, influenciando diretamente Wilhelm Wundt e o surgimento da psicologia experimental. Na economia e na administração pública, Wolff foi um dos pioneiros ao tratar essas áreas como ciências sistemáticas e demonstrativas.
Wolff foi um dos primeiros a usar consistentemente o alemão como língua filosófica. Criou uma terminologia precisa que permitiu que a filosofiaalemã se desvencilhasse do latim e do francês e florescesse em sua própria língua. Hoje, quando lemos Kant, Hegel ou Schopenhauer, estamos, em grandemedida, lendo a língua que Wolff ajudou a criar.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).