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Lei Natural e Lei Divina

Lei Natural e Lei Divina

Ao longo dos anos dedicados ao estudo da tradição iniciática, sempre me fascinou a forma como a Maçonaria articula duas dimensões aparentemente opostas: a lei que vem do alto, inscrita no coração da criação, e a lei que emerge da razão humana, acessível a todos os homens de boa vontade.

Esta dualidade — entre o que é revelado e o que é descoberto — não é uma contradição, mas uma harmonia profunda. 

O maçom, ao percorrer os graus da Ordem, aprende que o Livro da Lei Sagrada (Lex Divina) e a Lei Natural (Lex Naturalis) não são rivais, mas faces da mesma verdade: uma ordem universal que rege tanto os astros quanto a consciência humana.

Neste artigo, convido o leitor a compreender como a Maçonaria entende e integra as leis divinas e as leis naturais, e como essa síntese orienta a jornada do iniciado em busca da Luz.

As Quatro Leis de Tomás de Aquino: Um Fundamento Filosófico

Para compreender a visão maçônica sobre as leis divinas e naturais, é indispensável recorrer à tradição filosófica que a influenciou profundamente.

Vou analisar sob a perspectiva. Onde, Santo Tomás de Aquino (1225-1274), na sua Suma Teológica, sistematizou a doutrina das quatro modalidades de lei.

Esta hierarquia é a chave para entender a relação entre o céu e a terra, entre o divino e o humano:

  1. Lei Eterna (Lex Aeterna): A própria razão de Deus, o plano divino que governa todo o universo. É a fonte de todas as leis, invisível aos olhos humanos, mas presente em cada ato da criação.

  2. Lei Divina (Lex Divina): A lei revelada por Deus nas Escrituras Sagradas, como os Dez Mandamentos. É a manifestação da lei eterna num código acessível ao homem.

  3. Lei Natural (Lex Naturalis): A participação da lei eterna na criatura racional. É a capacidade inata no ser humano de distinguir o bem do mal, uma lei “escrita por Deus mesmo, em caracteres de vida, no grande livro da natureza física, intelectual e moral”.

  4. Lei Humana (Lex Humana): As leis positivas criadas pelos homens para reger a vida em sociedade. Para ser justa, deve estar de acordo com a lei natural.

 O Que É a Lei Natural?

Lei Natural (lex naturalis) é um conceito central na Maçonaria.

Ela é definida como uma lei cujo conteúdo é definido pela própria natureza e, portanto, possui validade universal. É a capacidade inata no ser humano de distinguir o bem do mal.

Diferentemente da lei positiva — aquela criada por uma comunidade política ou Estado — a lei natural é acessível a todos os homens pelo uso da razão. Ela não depende de revelação divina, mas é descoberta pela inteligência humana ao contemplar a ordem do universo.

Esta distinção é fundamental para a Maçonaria, que se define como uma instituição que “investiga as leis da natureza e relaciona as primeiras bases da moral e da ética pura.

O maçom é, portanto, um investigador da lei natural, um homem que busca na ordem do cosmos os princípios que devem reger a sua conduta.

O Que É a Lei Divina?

Lei Divina é a lei revelada por Deus, contida nas Sagradas Escrituras. Na Maçonaria, o Livro da Lei Sagrada (V.’.L.’.S.’.) é colocado no centro do altar e é aberto nos trabalhos da Loja, representando a Palavra Divina ou Verdade Suprema.

A Maçonaria exige de seus membros a crença em um Ser Supremo.

No entanto, a Ordem é inclusiva: aceita homens de diferentes religiões, cada um jurando sobre o livro sagrado da sua tradição.

O que une os maçons não é uma interpretação específica da lei divina, mas o reconhecimento de que existe uma verdade suprema que orienta a conduta moral e espiritual.

Nas palavras de um maçom do século XIX, a lei divina é “a lei imutável de Deus” que exige que “além de respeitar os direitos absolutos dos outros, e de ser meramente justo, devemos fazer o bem, ser caridosos e obedecer aos ditames dos sentimentos generosos e nobres da alma”.

A Conexão entre Lei Natural e Lei Divina na Maçonaria

A grandeza da visão maçônica está em não opor a lei natural à lei divina, mas em vê-las como expressões complementares da mesma ordem universal.

A Lei Natural como Fundamento da Moral Maçônica

As Constituições de Anderson (1723), o documento fundacional da Maçonaria especulativa, afirmam no seu Artigo Primeiro: “Um Maçom, por seu compromisso com a Ordem, está obrigado a obedecer à Lei Moral”. A lei moral, na tradição maçônica, está intimamente ligada à lei natural.

A Lei Natural é formada pelo conjunto dos direitos inerentes a todo o ser humano.

Filósofos como Aristóteles, Cícero, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Hobbes, Locke, Rousseau e Kant desenvolveram este conceito.

A Maçonaria bebe desta fonte filosófica, entendendo que a moral não é uma imposição arbitrária, mas uma descoberta da razão sobre o que é justo e bom.

O Livro da Lei como Fonte da Lei Divina

Para a Maçonaria, os Landmarks — os antigos marcos que definem a essência da Ordem — “não são invenções maçônicas autônomas; eles são reflexos da Lei Divina”. A moral que o maçom busca “não é relativa; ela deriva de uma Moral Absoluta contida no Livro da Lei”.

Nesta perspectiva, o V.’.L.’.S.’. é o Sol; os Landmarks são o calor e a Luz. As compilações humanas tentam descrever a luz, mas o Livro é a fonte da luz.

A lei divina, revelada nas Escrituras, é a fonte última da moralidade; a lei natural é a participação dessa lei na consciência humana.

A Síntese Maçônica: A Lei Natural e a Lei Divina como Uma Só

A Maçonaria ensina que a lei natural, “a da natureza, é necessária, e que “quando a lei escrita estiver de acordo com a lei natural, que é a lei do ser racional que vem da lei eterna (vontade de Deus nas suas criaturas)”, então ela é justa.

O maçom, ao jurar sobre o Livro da Lei, compromete-se a obedecer à lei divina revelada.

Ao estudar a natureza e a razão, compromete-se a obedecer à lei natural descoberta. As duas leis não se contradizem: são expressões da mesma lei eterna, do mesmo plano divino que governa o universo.

As Leis na Prática: A Justiça Humana e a Justiça Divina

A Maçonaria distingue entre a Justiça Divina e a Justiça Humana.

A justiça divina é aquela que permite que os maus pereçam em consequência dos seus pecados e os bons sejam salvos. A justiça humana, por outro lado, é falível, como exemplificado pelo episódio em que Pilatos lavou as mãos ao condenar Jesus.

Esta distinção não é um convite ao fatalismo, mas um alerta para que o maçom busque sempre alinhar a justiça humana com a justiça divina.

A lei positiva deve estar em harmonia com a lei natural, que por sua vez é participação da lei eterna.

A Síntese Maçônica

A conexão entre leis divinas e leis naturais na Maçonaria é a expressão de uma visão de mundo onde o céu e a terra não estão separados.

O Livro da Lei, no centro do altar, representa a revelação divina.

A razão, que investiga a natureza, representa a descoberta humana. O maçom, ao longo da sua caminhada, aprende que estas duas fontes de conhecimento não se opõem, mas se complementam.

A Lei Natural ensina ao maçom os seus deveres para com a sociedade.

A Lei Divina recorda-lhe a sua obrigação para com o Criador. Juntas, elas formam o fundamento da ética maçônica: uma ética que é ao mesmo tempo racional e espiritual, humana e divina.

Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes

Referências Bibliográfica

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

Maçonaria Regular MS

glems
goms
gob ms
glems

 

A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

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