Ao longo dos meus anos de estudo sobre os grandes mitos que moldaram a imaginação ocidental, poucas narrativas me provocaram uma reflexão tão profunda quanto a da jornada de Jasão em busca do Velo de Ouro.
Não se trata de uma simples história de aventura, mas do arquétipo mais perfeito da busca heroica – o modelosobre o qual, dois milénios depois, construiríamos as nossas narrativas de formação, as nossas sagas de autodescoberta e os nossos roteiros de transformação interior.
O Velo de Ouro, afinal, nunca foi o objetivo; era apenas o pretexto. O verdadeiro tesouro que Jasão e os Argonautas conquistaram não era um pedaço de lã dourada, mas a própria maturidade, forjada no fogo das provações, dos encontros com o desconhecido e da travessia dos limites.
A viagem da Argo é a viagem de toda alma que ousa aventurar-se para além dos confins do mundo conhecido, em busca de algo que, no fundo, já estava dentro de si.
Neste artigo, convido o leitor a embarcar nessa viagem e a descobrir por que o mito do Velo de Ouro permanece, mais de três milénios depois, a mais duradoura e universal das alegorias da busca humana.
A Origem: O Carneiro Alado e a Fuga de Frixo
O mito do Velo de Ouro tem raízes profundas, anteriores à própria época de Homero, provavelmente do segundo milénio antes de Cristo. A sua origem está ligada ao carneiro alado de lã dourada, Crisómalo, um presente do deusHermes à deusa das nuvens, Nefele.
A história começa com Frixo e sua irmã Hele, filhos do rei Atamante. Atamante, sob a influência de sua segunda esposa, Ino, planejava sacrificar Frixo a Zeus. Nefele, a mãe biológica das crianças, enviou o carneiro alado para resgatá-las. Os doisirmãos fugiram montados no animal. No caminho, Hele caiu no mar e morreu, no local que desde então passou a ser chamado de Helesponto (atual estreito de Dardanelos).
Frixo continuou a viagem até à Cólquida, uma região da atual Geórgia, na costa do Mar Negro. C
Chegando lá, obedeceu a um oráculo: sacrificou o carneiro a Zeus e ofereceu a sua pele de ouro no bosque sagrado de Ares, o deus da guerra. A lã dourada ficou pendurada numa árvore, guardada por um dragão que nunca dormia. Este era o Velo de Ouro, um símbolo de autoridade e realeza que, décadas depois, se tornaria o objetivo da mais famosa expedição da mitologia grega.
A Jornada: Jasão e os Argonautas
A história do Velo de Ouro, no entanto, é inseparável da figura do herói que o conquistou. Jasão era o herdeiro legítimo do trono de Iolcos, na Tessália. O trono, porém, havia sido usurpado por seu tio, o rei Pélias. Este, para se livrar do sobrinho, impôs-lhe uma missão aparentemente impossível: viajar até à Cólquida e trazer de volta o Velo de Ouro.
Jasão, então, convocou os mais nobres heróis da Grécia – entre eles Héracles, Orfeu, Teseu e Laertes, pai de Ulisses – e construiu um navio chamado Argo. A tripulação, os Argonautas, partiu numa viagem que os levaria através de mares desconhecidos, enfrentando monstros, sereias, rochas que se chocavam, gigantes e ilhas encantadas.
Chegando à Cólquida, o rei Eetes impôs a Jasão três tarefas: atrelar dois touros de bronze que cuspiam fogo para lavrar um campo, semear nele dentes de dragão e, quando deles nascessem soldados armados, derrotá-los. Apenas com a ajuda de Medeia, a filha do rei e feiticeira, que se apaixonou por Jasão, o herói conseguiu cumprir as provas. Por fim, com as artes mágicas de Medeia, o dragão que guardava o Velo foi adormecido, e o velo, finalmente, foi tomado.
A Interpretação Alegórica: Muito Além de uma Pele de Carneiro
O que torna o mito do Velo de Ouro uma das mais poderosas alegorias da cultura ocidental é a sua capacidade de significar coisas diferentes em diferentes níveis de interpretação.
A viagem de Jasão e os Argonautas é o arquétipo da jornada do herói. O herói parte do mundo conhecido (Iolcos), atravessa um limiar (o mar desconhecido), enfrenta provações (os touros de fogo, os dentes de dragão, o dragão guardião), recebe ajuda de um aliado (Medeia) e, finalmente, regressa transformado. Esta estrutura, que o estudioso Joseph Campbell identificou como o “monomito”, é a base de inúmeras narrativas, desde a Odisseia até Star Wars. Jasão não é apenas umherói; ele é o protótipo de todo aquele que se aventura em busca de algo que o transcende.
O ouro, desde os tempos mais remotos, é símbolo do sol, da luz e da imortalidade. O Velo de Ouro, nessa leitura, representa a própria luz divina, o conhecimento supremo que o herói deve conquistar. A viagem para o leste, em direção ao amanhecer, onde se situa a Cólquida, reforça essa interpretação. A conquista do velo é a conquista da iluminação.
O Velo de Ouro é, na superfície da narrativa, um símbolo de autoridade e realeza. Jasão precisa dele para reivindicar o trono que lhe foi usurpado. Esta camada da alegoria fala da necessidade de provar o próprio valor, de conquistar a legitimidade através do mérito e do esforço, em vez de herdar o poder passivamente.
A Leitura Alquímica e Iniciática
Alquimistas dos séculos XVI e XVII, como Guillaume Mennens e Godfridus Wendelinus, ofereceram uma interpretação alquímica do mito. O Velo de Ouro, nessa leitura, seria a “pedra filosofal” – o objeto da Grande Obra alquímica, a transformação do chumbo em ouro, que era, na verdade, uma metáfora para a transformação espiritual do iniciado. Jasão, Medeia e a própria Argo tornam-se figuras de um drama iniciático, onde cada prova representa uma etapa da purificação da alma.
O Casamento do Céu e da Terra
Outra interpretação, de cariz astrológico, vê no mito a representação das núpcias do Sol (Jasão) e da Lua (Medeia). O Velo de Ouro seria o fruto dessa união, a harmonia entre o princípio masculino e feminino, entre a razão e a intuição, entre o céu e a terra.
O mito de Jasão e o Velo de Ouro é contado há mais de 3.000 anos. É anterior à própria Ilíada e à Odisseia.
2. O Navio que se Tornou Constelação
Após a morte de Jasão, a deusa Atena colocou o navio Argo no céu, transformando-o na constelação de Argo Navis. Zeus também teria elevado o Velo de Ouro às estrelas.
3. A Expedição mais Antiga da Mitologia
A expedição dos Argonautas é considerada a mais antiga viagem marítima da mitologia grega, uma espécie de “missão impossível” do mundo antigo.
A Geórgia, país onde se localizava a antiga Cólquida, incorporou o Velo de Ouro em seus símbolos nacionais, incluindo o brasão de sua antiga capital, Kutaisi.
5. Uma História de Traição
A conquista do Velo de Ouro, mais do que por Jasão, é uma conquista da própria Medeia. Ao ajudar Jasão, ela trai o seu país e a sua família, um ato que terá consequências trágicas.
O legado do Velo de Ouro é imenso. Ele é, talvez, a mais influente alegoria da busca heróica na tradição ocidental, tendo moldado a literatura, a filosofia, a psicologia e a cultura popular durante mais de três milénios.
O mito nos ensina que o verdadeiro tesouro não é o objetivo, mas a jornada. Jasão parte em busca de um objeto mágico, mas o que ele realmente encontra – o que realmente o transforma – são as provações, os encontros, as perdas e a ajuda inesperada que recebe ao longo do caminho. O Velo de Ouro não é o fim; é o pretexto para a viagem.
O mito também nos ensina que a busca heroica é, em última instância, uma busca interior. Cada monstro que Jasão enfrenta, cada prova que supera, cada aliado que encontra, é um aspecto do seu próprio eu que ele deve confrontar e integrar. O Velo de Ouro, afinal, não está na Cólquida; está dentro de cada um de nós, esperando para ser conquistado.
O Velo de Ouro continua a nos desafiar, lembrando-nos de que a vida é uma viagem, e não um destino. E, como o próprio Jasão, somos todos argonautas, navegando em mares desconhecidos, em busca de algo que, no fundo, já sabemos onde encontrar.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).