Nas pesquisas que tenho realizado sobre as obras que moldaram a imaginação ocidental, poucas histórias me provocaram uma reflexão tão profunda quanto A Viagem do Peregrino, de John Bunyan.
Publicada em 1678, durante os doze anos em que o autor esteve preso por pregar sem licença, esta alegoria não é uma simples fábula moral, mas o relato de uma jornada interior — a peregrinação da alma em busca de redenção.
A sua importância reside na forma como transforma a experiência espiritual numa aventura épica, onde cada personagem e lugar — a Cidade da Destruição, o Pântano do Desânimo, a Feira das Vaidades, o Rio da Morte — se torna umespelho da condição humana.
Ao mergulhar nas fontes históricas, encontrei em Santo Agostinho, nas Confissões, a matriz da ideia da vida como peregrinação (homo viator), e em Boécio e Dante a tradição da visão onírica e do debate interior.
Doutrinadores como C. S. Lewis, que releu a obra mais de cem vezes, e Charles Spurgeon, que a considerava inferior apenas à Bíblia, reconheceram o seu valor perene.
Novas interpretações, como as de Thomas Luxon, sugerem que Bunyan, ao abraçar a alegoria, operou uma “queda” deliberada na representação figurativa, transformando a própria crise da linguagem puritana numa pedagogia da salvação.
Este ensaio convida o autor e o leitor a percorrerem a estrada que leva à Cidade Celestial, para compreenderem por que esta obra, mais de trêsséculos depois, continua a ecoar como um dos mais belos retratos da busca humana por sentido e redenção.
O Contexto: Bunyan, o Prisioneiro que se Tornou Clássico
Para compreender “A Viagem do Peregrino”, é preciso conhecer a vida extraordinária de seu autor.
John Bunyan nasceu em 1628 em Elstow, Bedfordshire, na Inglaterra, em uma família paupérrima. Teve pouca educação formal, mas aprendeu a ler e devorava os romances medievais de cavalaria. Na juventude, era conhecido pelos muitos impropérios que proferia e por dedicar os domingos à dança e ao desporto, o que era malvisto pelos puritanos.
Aos 16 anos, no auge da Guerra Civil Inglesa, juntou-se ao exército parlamentarista. Certa vez, foi “retirado” do seu posto, e o soldado que o substituiu foi baleado mortalmente — o que Bunyan viu como uma intervenção divina que mudaria a sua vida. Esse evento deu um novo sentido à sua fé, tornando-o um pregador de excelência que todos queriam ouvir.
Porém, sua vocação religiosa custou-lhe caro. Por pregar sem permissão, violando o Conventicle Act de 1664, que proibia a realização de serviços religiosos fora dos auspícios da Igreja Anglicana, Bunyanfoi preso e passou mais de 12 anos no cárcere — um dos mais longos períodos registados pelo mesmo motivo.
Apesar das miseráveis condições das prisões da época, foi ali que Bunyan escreveu grandeparte da sua obra. Foi nesse ambiente de privação e isolamento que ele começou a escrever sua obra-prima.
Publicado em 1678 com o título original The Pilgrim’s Progress from This World to That Which Is to Come, o livro logo se tornou umfenômeno editorial: a demanda foi tão grande que antes do final do mesmo ano foi publicada uma segunda edição com acréscimos. Bunyan faleceu em 1688, tendo deixado escritas mais de 60 obras. The Pilgrim’s Progress é considerado o segundolivro mais relevante da História do cristianismo.
A obra é uma alegoria cristã, uma narrativa em que cada personagem, lugar ou situação representa aspectos da fé, das provações ou das virtudes cristãs. É dividida em duas partes, cada uma lida como uma narrativa contínua, e está escrita em um inglês simples e direto que a tornou acessível a leitores de todas as classes sociais.
A história começa com o protagonista, Cristão — umhomem comum, atormentado por uma culpa profunda.
Ele lê umlivro que lhe revela que sua cidade, a Cidade da Destruição, está condenada à ruína. Carregando umpesado fardo nas costas — símbolo de seus pecados —, ele decide abandonar sua família e tudo o que possui para empreender uma peregrinação em direção à Cidade Celestial.
Guiado por Evangelista, Cristão atravessa uma série de lugares e enfrenta personagens que representam os desafios espirituais do caminho cristão:
O Pântano do Desânimo: um atoleiro de dúvida e desespero onde Cristão quase se afoga.
O Castelo da Dúvida: onde ele é aprisionado pelo Gigante Desespero.
A Feira da Vaidade: uma cidade onde tudo é vendido — honra, títulos, reinos, prazeres — e onde a fidelidade a Cristo é perseguida.
Apoliom: o demônio que tenta desviar Cristão de seu caminho.
O Vale da Sombra da Morte: uma passagem aterradora onde Cristão enfrenta seus maiores medos.
Ao longo do caminho, Cristão também encontra aliados: Fiel, que é martirizado na Feira da Vaidade; e Esperançoso, que se junta a ele na reta final da jornada. A narrativa é uma sucessão de avanços e retrocessos, vitórias e quedas, que retratam a complexidade da vida espiritual.
O fardo que Cristão carrega nas costas é uma das imagens mais poderosas da literatura ocidental. Ele representa o peso da culpa, do pecado e da separação de Deus. A libertação desse fardo ocorre no Calvário, onde Cristão vê a cruz e, ao olhar para ela, o fardo se desprende de suas costas e rola para dentro de um sepulcro aberto. É o momento central da jornada — a experiência da graça que transforma o peregrino.
Os Nomes como Chave Interpretativa
Cada personagem em “A Viagem do Peregrino” tem umnome que revela sua natureza ou função: Evangelista (o pregador do evangelho), Fiel (o mártir perseverante), Esperançoso (a esperança que surge da experiência), Senhor Mundo-Sábio (a sabedoria mundana que desvia do caminho), Gigante Desespero (a depressão espiritual), Apoliom (o destruidor).
Esses nomes funcionam como um código que permite ao leitor identificar imediatamente o papel de cada personagem na economia da salvação.
Bunyan escolheu a forma alegórica porque ela permitia que o leitor comum — muitas vezes analfabeto ou sem educação teológica — compreendesse os princípios da fé cristã de forma concreta e memorável. A jornadafísica de Cristão torna-se uma metáfora para a jornada espiritual, e cada obstáculo no caminho representa uma tentação ou provação que o cristão enfrenta na vida real.
Bunyan começou a escrever “A Viagem do Peregrino” durante sua longa prisão em Bedfordshire. A tradição diz que ele escrevia com um lápis e, quando não tinha papel, usava as margens da Bíblia ou qualquer pedaço de papel que encontrasse. O carcereiro permitia que sua filha, uma menina cega, levasse os manuscritos para fora da prisão para serem copiados.
Acredita-se que “A Viagem do Peregrino” seja o livro mais lido e traduzido da história, depois da Bíblia. Foi traduzido para mais de 200 idiomas e nunca ficou fora de catálogo. Sua primeira edição em holandês foi publicada em 1681, em alemão em 1703, e em sueco em 1727.
A obra influenciou profundamente a literatura mundial, inspirando escritores tão diversos como Charles Dickens, Charlotte Brontë, Mark Twain, Louisa May Alcott, C.S. Lewis, John Steinbeck e até Enid Blyton. Em Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, a personagem Jo March cresce lendo “A Viagem do Peregrino”.
O termo “Feira da Vaidade” (Vanity Fair), cunhado por Bunyan, tornou-se o título do famoso romance de William Makepeace Thackeray.
Embora seja uma alegoria cristã, “A Viagem do Peregrino” transcendeu suas origens religiosas para se tornar um arquétipo cultural universal. A imagem do peregrino que atravessa ummundo hostil em busca de um lar — a jornada do herói — ressoa em inúmeras obras da literatura, do cinema e da filosofia.
Bunyan escreveu a obra para serlida em voz alta. O ritmo, as repetições e a simplicidade da linguagem tornam o texto especialmente adequado para a leitura oral, o que contribuiu para sua popularidade entre os analfabetos, que ouviam a história sendo lida em voz alta nas famílias e nas comunidades.
“A Viagem do Peregrino” mantém-se extraordinariamente atual. Num mundo de distrações incessantes, de promessas vazias de felicidade e de uma ansiedade generalizada, a jornada de Cristão ressoa como umchamado à autenticidade e ao propósito.
A Feira da Vaidade é uma profecia sobre o consumismo moderno — ummundo onde tudo se compra e se vende, onde a alma humana é tratada como mercadoria e onde a fidelidade a valores mais elevados é perseguida como loucura.
O Pântano do Desânimo é a depressão que aflige tantos na era digital. O Castelo da Dúvida é a paralisia existencial que nos impede de avançar. E Apoliom é a personificação de todas as forças que tentam nos desviar do caminho.
A obra também nos lembra que a jornada espiritual não é solitária. Cristão encontra aliados, aprende com os erros, conforta os caídos e é confortado por eles. A vida, para Bunyan, não é uma corrida solitária em direção à salvação, mas uma peregrinação comunitária, onde a fé é partilhada e fortalecida pelo encontro com o outro.
Legado de “A Viagem do Peregrino”
O legado de “A Viagem do Peregrino” é imenso. Ela é, talvez, a mais influente alegoria cristã já escrita, tendo moldado a teologia, a literatura, a arte e a culturaocidental durante mais de trêsséculos.
A obra nos ensina que a vida é uma jornada, e não umdestino. Cada passo, cada queda, cada encontro é parte de um processo de transformação. A Cidade Celestial não é um lugar que se alcança de uma só vez, mas um horizonte que se aproxima a cada escolha que fazemos.
Bunyan nos legou uma visão de mundo onde a esperança é possível mesmo nas circunstâncias mais adversas. Ele próprio escreveu a obra na prisão, isolado da sua família e da sua comunidade, mas a sua pena produziu umlivro que falaria a milhões ao longo dos séculos.
Como disse o Rev. William Landels, “o homem que ficou proibido de pregar para algumas poucas pessoas… foi provido com recursos para escrever umlivro por meio do qual fala a milhões”.
A obra continua a nos desafiar, lembrando-nos de que a verdadeira peregrinação não é geográfica, mas interior. É a jornada da alma em busca de sentido, de redenção e de um lar que não é deste mundo.
E, como o próprio Bunyan nos mostra, essa jornada pode começar no lugar mais improvável — numa cela de prisão, no coração de umhomem que, apesar de tudo, escolheu acreditar.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).