Ao longo dos anos e após pesquisa sobre a natureza da percepção e do conhecimentohumano, poucos problemas me provocaram uma reflexão tão profunda quanto o Problema de Molyneux.
Não se trata de um mero quebra-cabeça filosófico, mas de uma janela para questões fundamentais sobre como construímos a nossa compreensão do mundo: será que o conhecimento adquirido por um sentido pode ser imediatamente reconhecido por outro?
A experiência tátil de uma forma geométrica se traduz automaticamente numa imagem visual, ou cada sentido constrói o seu próprio mundo, exigindo um aprendizado que vai além da simples percepção?
O que parecia uma curiosidade filosófica revelou-se um campo de batalha onde empiristas e racionalistas, psicólogos e neurocientistas, ainda disputam a primazia da experiência sobre a inata capacidade de interpretar o mundo.
Percebi que a pergunta de Molyneux não é sobreum cego que recupera a visão, mas sobre a própria arquitetura da mente – sobre como integramos os dados dos sentidos numa imagem coerente da realidade.
Este artigo, fruto de uma pesquisa que atravessou três séculos de filosofia e ciência, convida o autor e o leitor a percorrerem connosco as respostas – e as perguntas – que o Problema de Molyneux continua a suscitar.
Pois, no seu aparente simples enunciado, encontramos o eco de uma questão que nos acompanha desde que começámos a pensar: como podemos ter certeza de que o que vemos é o que tocamos, e de que o mundo que construímos é o mundo que realmente existe?
A Formulação do Problema
O Problema de Molyneux, também conhecido como Questão de Molyneux, foi proposto pelo cientista irlandês William Molyneux (1656-1698) a John Locke em uma carta datada de 7 de julho de 1688. Molyneux, um admirador devoto de Locke, dedicou sua obra Dioptrica Nova (1692) ao filósofo antes mesmo da inclusão do problema na obra de Locke.
A formulação clássica do problema, publicada por Locke na segunda edição de seu Ensaio sobre o Entendimento Humano (1694), é a seguinte:
“Suponha um homem nascido cego, agora adulto, e ensinado pelo tato a distinguir entre umCubo e uma Esfera do mesmo metal e aproximadamente do mesmo tamanho, de modo que, quando toca um e outro, saiba dizer qual é o Cubo e qual a Esfera. Suponha então que o Cubo e a Esfera sejam colocados sobre uma mesa, e que o cego recupere a vista. Pergunta-se: se ele, com a visão, antes de tocá-los, poderia agora distinguir e dizer qual é a Esfera e qual o Cubo?”
A questão, portanto, é se uma pessoa que aprendeu a distinguir formas apenas pelo tato seria capaz de reconhecê-las imediatamente ao recuperar a visão, sem a mediação do toque.
Tanto Molyneux quanto Locke responderam negativamente à questão.
Sua resposta refletia a posição empirista de que todo conhecimento deriva da experiência sensorial. Para eles, as ideias de espaço e forma adquiridas pelo tato são distintas daquelas adquiridas pela visão.
Locke acreditava que a visão e o tato são percepções sensoriais completamente diferentes.
Portanto, o cego que recuperasse a visão não seria capaz de conectar imediatamente a experiência visual de uma forma com a experiência tátil previamente aprendida.
A primeira visão de umcubo ou de uma esfera seria, para ele, uma experiência completamente nova, desprovida do significado que o tato havia lhe conferido.
O filósofo George Berkeley, em sua obra Ensaio sobre uma Nova Teoria da Visão (1709), defendeu uma posição ainda mais radical. Berkeley argumentou que os sentidos são metafisicamente distintos, sendo o tatoum portal para dimensões espaciais e a visão para dimensões não espaciais.
Ele sustentou uma “individuaçãometafísica” ou heterogeneidade entre os conceitos adquiridos por diferentes sentidos.
Para Berkeley, um conceito de uma linha vista e um conceito de uma linha tocada não se combinam para formar uma percepção mais longa da linha; eles existem em eixos distintos de existência.
Leibniz argumentou que o cego, ao recuperar a visão, poderia sim reconhecer as formas, pois isso demonstraria a unidade da razão e a existência de ideias inatas. Para Leibniz, o conhecimento não deriva apenas da experiência, mas é, em grande parte, inato à mente humana.
O filósofo iluminista Denis Diderot, em sua Carta sobre os Cegos para Uso dos que Veem (1749), antecipou uma posição mais matizada. Diderot sugeriu que, embora o cego não distinguisse o cubo e a esfera em um primeiro momento, após um certo aprendizado, ele acabaria por conseguir.
Por mais de três séculos, o Problema de Molyneux permaneceu como um experimento mental. No entanto, a ciência moderna tem fornecido evidências empíricas que lançam luz sobre a questão.
O Caso de William Cheselden (1728)
O primeiro caso documentado ocorreu em 1728, quando o médico londrino William Cheselden operou com sucesso um jovem de 14 anos que havia nascido cego de catarata.
Os resultados iniciais apoiaram a resposta negativa de Locke e Molyneux: o paciente não foi capaz de reconhecer visualmente formas geométricas que conhecia pelo tato.
Estudos Contemporâneos com Pacientes Operados de Catarata
Estudos mais recentes com pacientes que tiveram a visão restaurada após uma vida inteira de cegueira confirmaram e aprofundaram esses achados iniciais. Pacientes recentemente curados de cataratas falharam em identificar formas à primeira vista.
No entanto, quando testados novamente após um curto período, apresentaram resultados bem-sucedidos.
Essa descoberta sugere que a resposta ao Problema de Molyneux não é um simples “sim” ou “não”, mas sim um processo de aprendizagem perceptual.
O cego que recupera a visão não possui uma conexão imediata entre as informações táteis e visuais, mas é capaz de estabelecer essa conexão rapidamente através da experiência.
O problema foi um dos principais campos de batalha entre inatistas (como Leibniz) e empiristas (como Locke e Berkeley). Se o cego reconhecesse as formas imediatamente, isso seria uma evidência de que o conhecimento espacial é inato, ou de que a mente possui uma capacidade de traduzir informações entre diferentes modalidades sensoriais.
Se não reconhecesse, isso apoiaria a visão empirista de que todo conhecimento deriva da experiência.
O problema toca na questão fundamental de como integramos informações de diferentes sentidos para formar uma percepção coerente do mundo. A visão e o tato nos fornecem informações sobre o mesmo objeto, mas será que interpretamos essas informações da mesma maneira?
O problema questiona se o espaço visual e o espaço tátil são idênticos ou se exigem um aprendizado para serem integrados.
A Natureza dos Conceitos
O problema também questiona se os conceitos sensoriais são específicos de cada sentido ou se são acessíveis à consciência e podem ser usados em tarefas de reconhecimento por outros sentidos. Se os conceitos de “cubo” e “esfera” são adquiridos pelo tato, eles podem ser imediatamente usados pela visão?
O interesse de Molyneux pela óptica e pela psicologia da visão tinha uma motivação pessoal: sua esposa perdeu a visão no primeiro ano de casamento. Essa experiência íntima pode ter inspirado sua reflexão sobre a relação entre os sentidos.
O problema continua a gerar interesse na ciência contemporânea. Pesquisadores estudam pacientes que recuperam a visão para entender como o cérebro integra informações de diferentes sentidos e como a experiência perceptual é construída.
4. Uma Questão em Aberto
Embora a evidência empírica aponte para uma resposta inicialmente negativa, seguida de aprendizado rápido, o Problema de Molyneux permanece um tópico ativo de debate filosófico.
Alguns filósofos argumentam que a questão é teórica ou empírica, ou que pode ser respondida de diferentes maneiras dependendo do domínio de investigação.
O legado do Problema de Molyneux é imenso. Ele não é apenas uma curiosidade histórica, mas uma ferramenta conceitual que nos ajuda a entender a natureza da percepção, do conhecimento e da mente humana.
O problema nos ensina que a percepção não é um reflexo passivo do mundo, mas um processo ativo de construção e interpretação. A experiência visual de umcubo não é imediatamente compreensível para alguém que só conheceu o cubo pelo tato.
É preciso um aprendizado, uma integração entre os sentidos, para que a visão adquira o significado que o tato já lhe conferiu.
O problema também nos lembra que a filosofia e a ciência não são esferas separadas.
O que começou como um experimento mental no século XVII tornou-se um programa de pesquisa empírica no século XXI, mostrando como as questões filosóficas mais profundas podem ser iluminadas pela investigação científica.
Como observou a Internet Encyclopedia of Philosophy, a questão de Molyneux logo se tornou um fulcro para a pesquisa inicial sobre a epistemologia dos conceitos.
Mais de três séculos depois, ela continua a nos desafiar, lembrando-nos de que a mente humana, em sua capacidade de perceber e conhecer, ainda guarda muitos de seus segredos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).