Ao longo dos meus anos de estudosobre a natureza do conhecimentohumano, sempre me impressionou como uma certeza filosófica, aparentemente sólida, pode ser desmontada por um artigo de apenas três páginas.
Foi exatamente o que aconteceu em 1963, quando o filósofo Edmund Gettier publicou um texto que abalou os alicerces da epistemologia — o ramo da filosofia que investiga o que significa “saber”.
Por mais de dois mil anos, desde Platão, a definição de conhecimento como “crença verdadeira justificada” parecia intocável. Gettier, porém, mostrou que essa definição é insuficiente.
Ele apresentou situações em que alguém tem uma crença verdadeira e bem justificada — mas, por um acaso, a verdade não tem relação com a justificativa. Seria isso conhecimento?
A resposta, para a maioria dos filósofos, é não. O “Problema de Gettier” tornou-se, desde então, um dos desafios mais duradouros e fecundos da filosofia contemporânea, obrigando-nos a repensar o que realmente significa saber algo.
A Definição Tradicional: A Crença Verdadeira Justificada
Antes de Gettier, a definição clássica de conhecimento — conhecida como definição tripartida — era aceita por praticamente todos os epistemólogos. Segundo essa definição, uma pessoa S sabe que uma proposição P é verdadeira se, e somente se, três condições forem satisfeitas:
P é verdadeira — não se pode saber algo que é falso.
S crê que P — é necessário que acredite na proposição.
S está justificado em acreditar que P — a crença deve ser baseada em boas razões ou evidências.
Essa análise remonta a Platão, especialmente ao diálogo Teeteto, e percorreu toda a história da filosofia ocidental. Até 1963, era o consenso dominante entre os filósofos. Mas Gettier demonstrou que essas três condições, embora necessárias, não são suficientes.
Os Contraexemplos de Gettier
O artigo de Gettier, intitulado “Is Justified True Belief Knowledge?” (É a crença verdadeira justificada conhecimento?), apresenta dois experimentos mentais que funcionam como contraexemplos à definição tripartida. Esses casos mostram que uma pessoa pode ter uma crença verdadeira e justificada, mas ainda assim não possuir conhecimento genuíno.
O Exemplo do Ford e da Disjunção
O primeiro contraexemplo envolve dois personagens, Smith e Jones. Smith tem boas razões para acreditar que Jones possui um Ford — por exemplo, Jones lhe disse que possui um e Smith viu Jones dirigindo um Ford. Além disso, Smith não sabe onde seu amigo Brown está, mas escolhe arbitrariamente a cidade de Barcelona e, a partir da crença sobre o Ford, infere a seguinte proposição disjuntiva:
“Jones possui um Ford ou Brown está em Barcelona.”
Acontece que, por um acaso, Brown está realmente em Barcelona. Portanto, a disjunção é verdadeira. Além disso, Smith está justificado em acreditar nela, pois derivou-a de uma crença que tinha boas razões para considerar verdadeira.
No entanto, a verdade da disjunção não se deve à parte que Smith tinha razões para acreditar (o Ford), mas à parte que ele escolheu ao acaso (Brown em Barcelona).
A crença de Smith é verdadeira e justificada, mas não parece ser conhecimento. Ele simplesmente teve “sorte” — a verdade não está conectada à sua justificativa.
O Exemplo das Fachadas de Estábulos
Um segundo tipo de caso Gettier, proposto posteriormente por Alvin Goldman, ilustra o problema de outra forma. Imagine que você está viajando pelo campo e vê o que parece ser um estábulo. Você o vê claramente, a curta distância; ele tem a aparência típica de um estábulo. Você forma, então, a crença justificada de que “aquilo é um estábulo”.
E, de fato, é um estábulo real. No entanto, o que você não sabe é que, naquela região, os moradores construíram muitas fachadas de estábulos extremamente realistas, apenas para dar a impressão de riqueza. Há mais fachadas do que estábulos reais.
Nesse cenário, sua crença é verdadeira e justificada, mas, se você tivesse visto uma fachada, teria a mesma aparência e formaria a mesma crença — que seria falsa.
O fato de você ter acertado foi mera sorte. Portanto, a maioria dos filósofos concorda que você não sabe que aquilo é um estábulo, mesmo tendo uma crença verdadeira e justificada.
O artigo de Gettier, com apenas duas páginas e meia, provocou uma verdadeira revolução na epistemologia. Antes dele, a definição tripartida era praticamente um dogma. Depois, tornou-se claro que algo estava faltando. Filósofos de todo o mundo começaram a buscar uma quarta condição que pudesse excluir os casos de Gettier, preservando a ideia de que conhecimento é algo mais do que crença verdadeira justificada.
Décadas se passaram, e centenas de artigos e livros foram dedicados ao problema. Várias soluções foram propostas: algumas sugeriram que a justificação não pode depender de crenças falsas; outras propuseram que a crença deve ser “indefeasível” (ou seja, não pode haver evidência contrária que a anularia); outras ainda defenderam que o conhecimento exige uma conexão causal adequada entre a crença e o fato. No entanto, nenhuma dessas tentativas alcançou consenso. O problema de Gettier permanece em aberto, e a busca por uma definição completa de conhecimento continua sendo um dos debates mais ativos da filosofia contemporânea.
O artigo de Gettier tem apenas três páginas. Publicado em 1963 na revista Analysis, tornou-se um dos textos mais influentes da filosofia do século XX. Gettier, que nunca mais publicou outro artigo filosófico de grande repercussão, entrou para a história com uma única, porém devastadora, contribuição.
2. A Definição Platônica em Xeque
A definição de conhecimento como crença verdadeira justificada remonta a Platão, no diálogo Teeteto. Por mais de dois milênios, essa definição foi aceita como a base da teoria do conhecimento. Gettier mostrou que ela é insuficiente, obrigando os filósofos a repensarem um dos problemas mais fundamentais da tradição ocidental.
3. A Diversidade dos Casos Gettier
Os exemplos originais de Gettier inspiraram uma infinidade de variações. Filósofos criaram casos envolvendo relógios quebrados que marcam a hora certa por acaso, miragens, ilusões de ótica e situações de coincidência improvável. Todos esses exemplos compartilham a mesma estrutura: uma crença verdadeira e justificada, mas que não é conhecimento por causa do elemento de sorte.
4. O Problema que Não Tem Solução Consensual
Apesar de décadas de esforço, não há consenso sobre como resolver o problema de Gettier. Isso levou alguns filósofos a abandonar a definição tripartida e a buscar abordagens alternativas, como o externalismo (que enfatiza a confiabilidade do processo que gera a crença) ou o virtuismo (que foca nas virtudes intelectuais do sujeito).
5. Gettier e o Ceticismo
O problema de Gettier não é um argumento cético no sentido de que não podemos saber nada. Ele é, antes, umdesafio conceitual: mostra que nossa definição tradicional de conhecimento é inadequada. No entanto, alguns filósofos argumentam que o problema aponta para uma dificuldade mais profunda: talvez o conceito de conhecimento seja, por sua própria natureza, “instável” ou “vago”.
Legado do Problema de Gettier
O legado de Edmund Gettier é, acima de tudo, o de ter revolucionado a epistemologia moderna. Seu artigo, embora breve, obrigou os filósofos a abandonarem uma definição que parecia imutável e a buscarem novas formas de entender o que significa conhecer.
O problema de Gettier gerou uma fecunda literatura filosófica, estimulou o desenvolvimento de novas teorias do conhecimento e mantém-se como um dos problemas centrais da filosofia contemporânea.
O problema nos ensina que o conhecimento não é apenas uma questão de ter crenças verdadeiras apoiadas por boas razões.
É preciso algo mais — talvez uma conexão adequada entre a crença e o mundo, talvez a ausência de sorte epistêmica, talvez a confiabilidade do processo que nos leva a crer. Ainda não sabemos exatamente o que é esse “algo mais”, mas Gettier nos mostrou, com uma clareza inigualável, que ele existe.
Como observou a Internet Encyclopedia of Philosophy, “Gettier desencadeou um período de pronunciada energia e inovação epistemológica — tudo com um único artigo de duas páginas e meia”.
Esse é, talvez, o maior legado de Gettier: ter mostrado que a filosofia, mesmo nas questões mais antigas, ainda tem muito a descobrir.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).