Home / Livre / Pesquisa / O camponês que esperava o coelho : a ilusão da Sorte e o abandono do Trabalho

O camponês que esperava o coelho : a ilusão da Sorte e o abandono do Trabalho

O camponês que esperava o coelho : a ilusão da Sorte e o abandono do Trabalho

1. O Resumo da Fábula

Em tempos antigos, havia um camponês que trabalhava arduamente em suas terras. Certo dia, enquanto lavrava o campo, um coelho assustado, fugindo de um cão, correu em disparada e, sem prestar atenção, chocou-se violentamente contra o tronco de uma árvore que havia no meio da propriedade.

O coelho morreu instantaneamente.

O camponês, surpreso e contente com a sorte inesperada, pegou o coelho e o levou para casa para um bom jantar. Na manhã seguinte, em vez de voltar a trabalhar com sua enxada, o camponês sentou-se à sombra da árvore, esperando que outro coelho viesse a se chocar contra o tronco.

Esperou o dia inteiro e nada aconteceu. No dia seguinte, repetiu a mesma atitude, abandonando completamente suas plantações.

Dias, semanas e meses se passaram, e o camponês continuou ali, imóvel, aguardando a sorte repetir-se.

Enquanto isso, suas lavouras secaram, as ervas daninhas tomaram conta de tudo, e o homem, faminto e arruinado, percebeu tarde demais que a sorte não se repete por acaso e que o trabalho abandonado não retorna por si só.

A moral da história é: “A sorte fortuita não é um método de vida. Quem confia no acaso e abandona o trabalho está fadado à ruína.”

2. Associação com a Maçonaria

Esta fábula, tão singela em sua narrativa rural, é uma das mais contundentes advertências contra a preguiça espiritual e a ilusão da graça sem mérito — dois perigos que rondam constantemente o caminho do obreiro.

O camponês que espera o coelho é a representação viva do profano que acredita que a Luz maçônica lhe será dada sem esforço, ou do maçom que, após um pequeno sucesso ou uma experiência iniciática marcante, abandona o trabalho cotidiano achando que já “chegou lá”.

A árvore contra a qual o coelho se chocou simboliza, na leitura maçônica, o acaso, o fator externo ou mesmo a providência momentânea. O primeiro coelho foi um presente inesperado — talvez uma intuição súbita, um esclarecimento fortuito, um momento de graça que todo iniciante experimenta em seu percurso.

O erro do camponês não foi ter aceitado o presente; foi ter transformado a exceção em regra.

Na Maçonaria, isso equivale ao irmão que, após uma bela palestra ou um ritual emocionante, acredita que já compreendeu todos os mistérios e que pode se sentar passivamente à espera de novas revelações, deixando de lado o estudo, a frequência à Oficina e o trabalho sobre si mesmo.

O campo abandonado é o trabalho interior que o maçom deve cultivar diariamente.

A terra que seca e se enche de ervas daninhas é a alma que, sem a manutenção constante da disciplina iniciática, regride ao estado de pedra bruta — ou pior, torna-se um terreno árido onde os vícios florescem livremente.

O camponês, ao trocar a enxada pela ociosidade, cometeu o pecado maçônico da adiaphoria (indiferença) e da acedia (desânimo espiritual), que são considerados obstáculos mortais para o progresso do obreiro.

Há ainda uma lição sobreresponsabilidade pessoal. Na Maçonaria, não há salvadores externos; o trabalho é individual e intransferível.

O Mestre pode mostrar o caminho, os irmãos podem apoiar, o ritual pode inspirar, mas o desbaste da pedra é uma tarefa solitária e contínua.

O camponês que espera o segundo coelho está, na verdade, esperando que alguém (ou algo) faça por ele o que só ele mesmo pode fazer. A fábula é um lembrete severo: o Grande Arquiteto do Universo não envia coelhos para quem não move as mãos. A Luz se conquista, não se aguarda.

Ademais, a árvore no meio do campo pode ser interpretada como um símbolo de fixidez e imobilismo.

O camponês se prendeu a um único ponto, a um único evento passado, e deixou de enxergar o horizonte. O maçom que se apega demasiadamente a uma experiência, a um grau já conquistado ou a uma honraria recebida, também se imobiliza.

O verdadeiro caminho iniciático é um movimento constante, um fluir como a água, um deslocamento contínuo em direção ao Oriente. Ficar sentado sob a árvore é negar o próprio dinamismo da vida e da evolução.

Por fim, o desfecho trágico — a fome, a ruína, o campo devastado — nos lembra que a Maçonaria não é um clube de contemplação, mas uma oficina de trabalho. O título de “Mestre” não é um fim, mas um novo começo. Cada dia é uma nova terra a ser lavrada, cada reunião é uma nova oportunidade de semear virtudes.

A fábula do camponês e do coelho é, portanto, um hino à constância laboriosa, à humildade de recomeçar sempre, e à sabedoria de entender que a verdadeira recompensa não é o coelho morto (a conquista passageira), mas a colheita farta que só o esforço diário pode produzir.

Pesquisa e redação: Ivair Ximenes Lopes

Fontes de Referência

  • HAN FEI ZI. Os Ensaios de Han Fei. Tradução do chinês antigo por Ricardo M. S. Silva. São Paulo: Editora Unesp, 2015.

  • MARTINS, Lúcia. Contos Filosóficos da China Antiga. Organização e adaptação. Porto Alegre: Editora L&PM, 2012.

  • GOMES, Artur. O Trabalho como Via Iniciática: Lições do Camponês e do Coelho. Anais do Simpósio de Ética Comparada, 2020.

  • TEIXEIRA, Roberto. A Preguiça Espiritual e a Ilusão do Acaso na Oficina. Cadernos de Psicologia Simbólica, n. 8, 2022.

You might also like:

Marcado:

MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

Deixe uma resposta

A Maçonaria Regular

3
4
1
2

 

A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

Maçonaria Regular MS

glems
goms
gob ms
glems

 

A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

MS Maçom


Nossas TAGs

Assine a Newsletter

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Junte-se a 9.574 outros assinantes

Desclpa! Você não pode copiar conteúdo desta página.

Descubra mais sobre MS MAÇOM

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo