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A União das Grandes Lojas de Londres de 1813: O Acordo que Forjou a Maçonaria Moderna

A União das Grandes Lojas de Londres de 1813 O Acordo que Forjou a Maçonaria Moderna

A União das Grandes Lojas de Londres de 1813: O Acordo que Forjou a Maçonaria Moderna

1. Introdução

O dia 27 de dezembro de 1813, data dedicada a São João Evangelista na tradição cristã, testemunhou um dos momentos mais decisivos da história da Maçonaria inglesa. Nessa data, na Freemasons’ Hall de Londres, as duas Grandes Lojas rivais que por mais de seis décadas haviam disputado a legitimidade da Ordem reuniram-se solenemente para constituir a Grande Loja Unida da Inglaterra (United Grand Lodge of England — UGLE).

Este evento, conhecido como a “União”, não apenas pôs termo a um cisma que dividia a Maçonaria inglesa desde 1751, mas também estabeleceu as bases institucionais e rituais que, com poucas modificações, perduram até aos nossos dias.

Este artigo, fundamentado em fontes documentais e na investigação de historiadores maçónicos como William James Hughan e George Oliver, examina o processo de negociação que antecedeu a União, analisa a cerimónia fundadora, explora as figuras-chave envolvidas, e apresenta as curiosidades e debates que ainda hoje rodeiam este momento fundador.

2. Os Antecedentes do Cisma: Modernos e Antigos

Para compreender a magnitude da União de 1813, é necessário recuar ao contexto do cisma que a tornou necessária. A Primeira Grande Loja, fundada em 1717, tornou-se conhecida como a Grande Loja dos “Moderns” (Modernos). Em 1751, um grupo de maçons insatisfeitos — muitos deles de ascendência irlandesa e artesãos de profissão — constituiu uma Grande Loja rival, autodenominando-se “Antients” (Antigos) ou “Atholl Grand Lodge“, em referência ao patrocínio dos Duques de Atholl.

As diferenças entre as duas obediências eram substanciais. Os Antigos acusavam os Modernos de terem alterado as palavras nos rituais, “descristianizado” e abreviado as cerimónias, e removido práticas esotéricas tradicionais. Para os Antigos, o Arco Real era considerado um quarto grau essencial da Maçonaria pura, enquanto os Modernos não o reconheciam oficialmente. Além disso, a composição social das duas Grandes Lojas era distinta: os Modernos recrutavam predominantemente entre as elites metropolitanas e aristocráticas; os Antigos, mais inclusivos, atraíam largamente as classes médias e trabalhadoras.

Estas duas Grandes Lojas coexistiram, por vezes em competição aberta, durante 63 anos. Em 1809, porém, com o crescente reconhecimento de que a divisão enfraquecia a Maçonaria inglesa, as duas obediências nomearam Comissários para negociar uma união.

3. As Negociações e os Artigos da União

As negociações prolongaram-se por quatro anos, culminando na redacção dos Artigos da União, assinados a 25 de novembro de 1813 no Palácio de Kensington. Um dos documentos originais, pertencente à Grande Loja dos Antigos, encontra-se preservado na Biblioteca e Museu da Freemasonry em Londres.

A assinatura dos Artigos contou com a participação de figuras proeminentes. Pelo lado dos Modernos, destacou-se Thomas Harper, que serviu como Deputy Grand Master e desempenhou um papel crucial no processo. Os Artigos foram ratificados pelas duas Grandes Lojas em assembleias especiais realizadas em dezembro de 1813.

Um dos pontos mais delicados das negociações dizia respeito ao estatuto do Arco Real. Os Antigos insistiam na sua inclusão como parte integrante da “pura Maçonaria Antiga”; os Modernos resistiam a esta formulação. A solução encontrada, conhecida como “Sussex Fudge” , foi uma obra-prima de engenharia diplomática, que seria consagrada na cerimónia de 27 de dezembro.

4. A Cerimónia de União: 27 de Dezembro de 1813

4.1. O Local e o Cenário

A cerimónia realizou-se na Freemasons’ Hall, em Londres, então recentemente concluída. O espaço foi preparado com um elemento cenográfico notável: uma Arca da Aliança Maçónica, concebida pelo arquitecto Sir John Soane, Grão-Superintendente de Obras da nova instituição. Esta arca foi colocada como foco central da cerimónia, simbolizando a união das duas tradições sob um novo pacto fraternal.

4.2. Os Protagonistas Reais

A União foi presidida por dois príncipes, filhos do rei Jorge III, cuja participação conferiu prestígio e legitimidade à nova instituição:

4.3. A Cerimónia

Segundo os registos da época, a assembleia foi conduzida com a maior solenidade. Após a leitura e ratificação dos Artigos da União, o Duque de Sussex foi instalado como Grão-Mestre. A nova Grande Loja adoptou então o lema “Audi Vide Tace” (Ouve, Vê, Cala-te), que substituiu os lemas anteriores dos Modernos (“In the beginning was the Word”) e dos Antigos (“Holiness to the Lord”).

5. A Loja de Reconciliação e a Padronização Ritual

Imediatamente após a constituição da UGLE, foi criada a Lodge of Reconciliation (Loja de Reconciliação), uma estrutura temporária que existiu de 1813 a 1816. O seu propósito era harmonizar os rituais das duas tradições, produzindo um sistema uniforme para todos os três graus simbólicos.

Entre os membros mais ativos desta Loja contaram-se Thomas Harper (que a presidiu) e outros oficiais graduados de ambas as obediências. O trabalho da Lodge of Reconciliation foi posteriormente sistematizado por George Oliver na sua obra The Historical Landmarks of Freemasonry Explained, que apresenta “o sistema que foi adotado pela Grande Loja da Inglaterra, conforme estabelecido pela Loja de Reconciliação na união de 1813”.

6. O “Sussex Fudge”: A Solução Diplomática para o Arco Real

A questão mais espinhosa da União foi resolvida por meio de uma formulação deliberadamente ambígua, que a posteridade designou como “Sussex Fudge” (o “embuste de Sussex”). O compromisso, redigido sob a supervisão do Duque de Sussex, declarou que:

“pure Antient Masonry consists of three degrees and no more, viz. those of the Entered Apprentice, the Fellow Craft, and the Master Mason, including the Supreme Order of the Holy Royal Arch.”

Esta frase engenhosa permitiu que ambas as partes reivindicassem vitória: os Modernos mantinham o princípio dos três graus; os Antigos viam o Arco Real incluído na definição da Maçonaria pura. Como observa Jim Daniel, da UGLE, foi este compromisso que impediu que os Antigos se retirassem das negociações, garantindo assim a União.

7. Consequências e Renumeração das Lojas

Uma das consequências práticas mais imediatas da União foi a renumeração das lojas. As listas de lojas de ambas as Grandes Lojas foram fundidas, e cada loja recebeu um novo número. O historiador William James Hughan, na sua obra Memorials of the Masonic Union of A.D. 1813, documentou meticulosamente estas alterações, que foram registadas em 1814, 1832 e novamente em 1863.

Muitas lojas viram os seus números alterados mais do que uma vez. Por exemplo, a Loyalty Lodge, originalmente No. 243, foi renumerada para No. 448 após a União, depois para No. 299 em 1832, e finalmente recuperou o No. 243 em 1863.

8. Curiosidades e Debates Historiográficos

8.1. O “Sussex Fudge” e a sua Permanência

Mais de duzentos anos após a União, o compromisso alcançado pelo Duque de Sussex continua a definir a relação entre a UGLE e o Arco Real. Como ironiza Jim Daniel, “eles ainda estão colados pelo ‘Sussex fudge'”.

8.2. O Lema e a Identidade

A UGLE adotou o lema latino Audi Vide Tace (Ouve, Vê, Cala-te) apenas após a União. Antes disso, os Modernos usavam a frase grega “In the beginning was the Word”, enquanto os Antigos usavam a frase hebraica “Holiness to the Lord”. A escolha de um lema neutro, em latim, foi uma solução diplomática que evitava privilegiar qualquer uma das tradições anteriores.

8.3. A Arca da Aliança de Sir John Soane

Sir John Soane, o famoso arquiteto neoclássico, foi incumbido pelo Duque de Sussex de projetar uma Arca da Aliança maçónica para a cerimónia de União. Este objeto, descrito nos arquivos como a “Masonic Ark of the Covenant”, foi colocado como foco central das celebrações. Infelizmente, pouco se sabe sobre o paradeiro atual desta peça.

8.4. O Papel de Thomas Harper

Thomas Harper, que serviu como Deputy Grand Master dos Modernos, foi uma figura central no processo de União. Foi ele quem abriu a Loja de Reconciliação e presidiu a muitas das suas sessões. Harper publicou edições do Ahiman Rezon (a constituição dos Antigos) em 1800, 1807 e 1813, demonstrando o seu compromisso com a integração das duas tradições.

8.5. A Ausência de William Preston

William Preston (1742–1818), o famoso autor de Illustrations of Masonry, não participou no processo de União. Segundo os historiadores, Preston “não tomou parte e não fez comentários públicos no longo processo de unificação das duas Grandes Lojas”. A sua obra, contudo, continuou a ser publicada após a sua morte, tendo sido adaptada ao sistema unificado.

8.6. As Lojas “Atholl” Após a União

As lojas que pertenciam à Grande Loja dos Antigos (Atholl) continuaram a ser identificadas como lojas “Atholl” ou “Ancients” por alguns meses após a União, até que a nova numeração e a nova identidade institucional se consolidassem. Hoje, existem ainda 122 lojas que ostentam orgulhosamente o nome “Atholl” na sua designação.

8.7. A Participação Irlandesa

Embora a Grande Loja da Irlanda não tenha enviado representantes à cerimónia de 27 de dezembro, expressou a sua alegria pela União e manifestou o desejo de cooperação entre as jurisdições maçónicas da Inglaterra e da Irlanda.

8.8. O Número de Lojas na Época

Na altura da fusão, os Antigos contavam com cerca de 260 lojas ativas, enquanto os Modernos tinham aproximadamente 386 lojas sob a sua jurisdição. A UGLE resultante da União herdou, portanto, cerca de 646 lojas, um número que rapidamente cresceria nas décadas seguintes.

9. Considerações Finais

A União de 1813 representa mais do que a simples fusão de duas instituições rivais. Foi um exercício de reconciliação que exigiu não apenas habilidade diplomática, mas também uma visão partilhada do futuro da Maçonaria. Os Artigos da União, a Lodge of Reconciliation e o célebre “Sussex Fudge” são testemunhos da capacidade da Ordem de resolver as suas diferenças internas sem comprometer os seus princípios fundamentais.

A UGLE, que emergiu deste processo, tornou-se a mais influente obediência maçónica do mundo, servindo como modelo e referência para inúmeras Grandes Lojas regulares nos cinco continentes. O lema Audi Vide Tace continua a adornar os seus documentos e edifícios, lembrando a todos os maçons que a verdadeira sabedoria reside em ouvir, observar e, quando apropriado, manter o silêncio.

Como observa o historiador John Hamill, “aqueles que participaram na cerimónia de 27 de dezembro de 1813 não poderiam ter imaginado que a sua obra daria à luz uma fraternidade espalhada por todo o mundo”. A União, longe de ser um mero episódio de política interna, foi o ato fundador da Maçonaria moderna.

Pesquisa e redação Ivair Ximenes Lopes

Fontes

Documentos Primários e Arquivos:

  • National Archives (UK). Discovery Catalogue: Antients (or Atholl) Grand Lodge Governance. Museum of Freemasonry, London. 

  • Hughan, William JamesMemorials of the Masonic Union of A.D. 1813: Consisting of an Introduction on Freemasonry in England; the Articles of Union; Constitutions of the United Grand Lodge of England, A.D. 1815, and other Official Documents. 1913. 

  • Oliver, George. The Historical Landmarks and Other Evidences of Freemasonry Explained: In a Series of Practical Lectures, with Copious Notes. Arranged on the System which has been Enjoined by the Grand Lodge of England, as it was Settled by the Lodge of Reconciliation, at the Union in 1813. London: 1846.

  • Order of Proceedings for the Grand Assembly of Freemasons, on the Union of the Two Grand Lodges, on St. John’s Day, 27th December, 1813. Kensington Palace, Dec. 9, 1813. Soane Museum Collections. 

  • The Freemason (periodical). “Proceedings of the Two Grand Lodges of England in Ratification of the Union, 1813”. 10 April 1869, p. 7.

  • The Freemasons’ Quarterly Review (periodical). 1842–1844. 

Obras de Síntese e Enciclopédias:

Fontes Audiovisuais e Museológicas:

  • The Sceptre and the Trowel. Museum of Freemasonry, London. 

  • *RMM-047: On the Duke of Sussex, First Grand Master of the United Grand Lodge of England*. Rocky Mountain Mason (iHeart). 

  • Bust of HRH Edward, Duke of Kent and Strathearn. Art UK. 

Periódicos Maçónicos Históricos:

  • The Freemason’s Chronicle, 30 Jan. 1892, p. 4.

  • The Freemason’s Chronicle, 2 Nov. 1901, p. 4. 

  • The Freemason’s Chronicle, 5 Feb. 1881, p. 5. 

  • The Freemason’s Chronicle, 7 April 1877, p. 10. 

  • The Masonic Magazine, 1 Dec. 1876, p. 21.

  • The Masonic Magazine, 1 June 1879, p. 66. 

Marcado:

MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas três "potências" são reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

Maçonaria Regular MS

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glems

 

A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

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