Ao longo dos meus estudossobre o movimentooperário na Europa do século XIX, sempre me impressionou a figura de Agricol Perdiguier.
Não se tratava de um intelectual de gabinete nem de um revolucionário de barricadas, mas de umhomem que, com as mãos calejadas pelo trabalho da madeira, ousou sonhar com a fraternidade entre os trabalhadores.
Foi um “companheiro” (compagnon) no sentido mais pleno da palavra — alguém que percorreu as estradas da França, aprendeu com cada mestre, sofreu com cada rivalidade e dedicou a vida a transformar a tradição dos ofícios num instrumento de pacificação e progresso. A sua história é um convite a descobrir que a luta pela dignidade do trabalho pode ser travada com a caneta, a palavra e a canção, e não apenas com a força bruta.
Neste artigo, convido o leitor a conhecer a trajetória, a obra e as curiosidades desse artesão que se tornou deputado, escritor e símbolo de uma época.
Agricol Perdiguier nasceu no dia4 de dezembro de 1805 (13 frimaire do ano XIV do calendário revolucionário) em Morières-lès-Avignon, na região de Vaucluse, sul da França. Era o sétimo filho de um modesto marceneiro que, durante a Revolução Francesa, chegou a ser capitão dos exércitos republicanos.
A sua infância foi tragicamente marcada pelas violências da Terra Branca (Terreur blanche) — a reação monárquica que se seguiu à queda de Napoleão, particularmente violenta no sul da França. Em 1815, o seu pai, perseguido por sua passagem republicana, foi condenado à morte e obrigado a fugir às pressas; a sua mãe foi molestada e quase perdeu a vida. A família sobreviveu graças à solidariedade dos vizinhos, mas a marca da perseguição política ficaria gravada na alma do jovem Agricol.
O Aprendizado e o Tour de France
Apesar da pobreza, Perdiguier conseguiu aprender as primeirasletras, mas cedo deixou a escola para trabalhar com o pai na marcenaria. Insatisfeito com o aprendizado familiar, fez um novo aprendizado num atelier em Avignon.
Aos 17 anos, partiu para o Tour de France — a tradicional viagem de formação dos artesãos franceses.
Durante quatroanos e meio, percorreu as principais cidades do país como compagnon menuisier (marceneiro-companheiro) do Devoir de Liberté, uma das confrarias rivais do companheirismo. A sua jornada levou-o a Marseille, Nîmes, Montpellier, Béziers, Toulouse, Bordeaux, Rochefort, Nantes, Chartres, Paris, Chalon-sur-Saône e Lyon.
No caminho, testemunhou as rivalidades muitas vezes violentas entre as diferentes obediências do companheirismo, que podiam levar a confrontos sangrentos. Foi essa experiência que o levou a dedicar a vida à pacificação e renovação do companheirismo.
Em Paris, participou da Revolução de 1830. Em 1832, esteve presente nos tumultos republicanos dos dias 5 e 7 de junho. Em 1846, foi iniciado na maçonaria, na lojaLes Hospitaliers de la Palestine, sob a égide do Supremo Conselho da França.
O ano de 1848 foi o auge da sua carreira política. Eleito deputado à Assembleia Constituinte por Paris, sentou-se entre os republicanos moderados. Reeleito para a Assembleia Legislativa em 1849, defendeu a limitação da jornada de trabalho.
Com o golpe de Estado de Napoleão III, em 2 de dezembro de 1851, Perdiguier foi proscrito e obrigado a exilar-se. Passou quatroanos na Bélgica e na Suíça (em Genebra), antes de regressar a França em dezembro de 1855.
Nos últimosanos de vida, abriu uma pequena livraria em Paris. O seu fim de vida foi difícil e sombrio: manteve-se fiel aos ideais republicanos e ao deísmo, mas opôs-se à Comuna de Paris e ao federalismo de Proudhon.
Agricol Perdiguier faleceu em Paris, a 26 de março de 1875, aos 69 anos. Foi deliberadamente esquecido pela historiografia do movimentooperário, e a sua figura foi, mais tarde, objeto de uma tentativa de recuperação pelo regime de Vichy.
Frequentou numerosas lojas, algumas das quais o fizeram membro de honra. A sua adesão à Ordem insere-se na lógica de quem via na fraternidade universal o antídoto para as divisões sociais e políticas do seu tempo.
Perdiguier foi um autor autodidata, que viu na escrita um instrumento de pacificação e de educação popular:
“Le Livre du compagnonnage” (1840) — A sua obrafundamental, que lhe valeu a admiração de intelectuais como George Sand e Eugène Sue. George Sand inspirou-se neste livro para escrever o romance “Le Compagnon du tour de France” (1841).
“Mémoires d’un compagnon” (1854) — Escrito durante o exílio, é um testemunho inigualável sobre a vida dos artesãos no século XIX.
Além disso, Perdiguier compunha cançõessobre factos conhecidos para vulgarizar as suas ideias. Foi também autor de umprojeto de regeneração do companheirismo, apresentado em 1841.
Um apelido eloquente: No companheirismo, era conhecido como “Avignonnais-la-Vertu” — “o Avinhonense da Virtude”, umnome que refletia a sua reputação de probidade.
A dentição que salvou a carreira: Foi declarado inapto para o serviço militar devido à sua má dentição, escapando assim aos seteanos de serviço que eram o destino dos recrutas da sua época.
O encontro com os grandes nomes do seu tempo: A sua obra inspirou George Sand e Eugène Sue, e o poeta provençal Frédéric Mistral recordou-se dele ao escrever *Calendal**.
O “artesão que virou deputado”: Foi um dos raros operários da sua geração a chegar à Assembleia Nacional, incarnando um “certo espírito de 1848”.
Um opositor da Comuna: Embora republicano e democrata, opôs-se à Comuna de Paris e ao federalismo de Proudhon, o que contribuiu para o seu esquecimento pela historiografia do movimentooperário.
“O último dos companheiros”: Perdiguier foi, para muitos, a encarnação do que havia de melhor na alma popular do século XIX — umhomem que, mesmo sem serumgrande pensador, soube viver e transmitir os ideais de fraternidade e trabalho digno.
Legado de Agricol Perdiguier
O legado de Perdiguier é, antes de tudo, o de umtestemunho vivo da cultura operária do século XIX. As suas memórias são uma fonte inestimável para o estudo do companheirismo, das rivalidades entre as confrarias e da vida quotidiana dos artesãos franceses.
Na literatura, a sua obra influenciou diretamente romancistas como George Sand e Eugène Sue, que viram no companheirismo uma metáfora para a fraternidade universal. O seu estilo simples e direto, isento de “enfase”, tornou as suas memórias umdocumentohumano de rara autenticidade.
Na memória coletiva, Perdiguier é uma figura que ficou entre dois mundos: nem o operário revolucionário que a esquerda gostaria de reivindicar, nem o conservador que a direita poderia absorver.
Foi, antes de mais, umhomem de boa vontade, que acreditava que a educação, a fraternidade e o diálogo poderiam curar as feridas do trabalho. Se o seu nome caiu no esquecimento, a sua obra permanece como um monumento à dignidade do trabalho manual e à esperança de que, mesmo nas condições mais adversas, a inteligência e a virtude podem florescer.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).