Aspectos Religiosos das Monarquias Europeias
Quando comecei a estudar as monarquias europeias, sempre tive a impressão de que a religião, nas casas reais do continente, era uma questão secundária – um adorno cerimonial, um resquício de tempos em que o poder dos reis era legitimado pelo altar.
Foi essa visão simplista que se desfez quando iniciei esta investigação e percebi que a geografia religiosa das monarquias europeias não é um acidente histórico, mas o resultado direto de um dos eventos mais transformadores da história ocidental: a Reforma Protestante do século XVI. As linhas que dividem o mapa religioso da Europa hoje – o norte protestante, o sul católico e o centro fragmentado – são as mesmas cicatrizes deixadas pelas convulsões teológicas que, há quase quinhentos anos, reconfiguraram não apenas a fé dos povos, mas a própria natureza do poder real.
Ao mergulhar nas biografias das casas reais contemporâneas, deparei-me com um contraste que me surpreendeu pela sua clareza.
O norte da Europa – os Países Baixos, a Dinamarca, a Suécia, a Noruega – abraçou o protestantismo nas suas diversas vertentes, e as suas famílias reais permanecem até hoje ligadas a igrejas nacionais que são, na prática, departamentos de Estado geridos pelo soberano. Já o sul e o centro do continente – Espanha, Bélgica, Luxemburgo, os principados de Mónaco e Liechtenstein – mantiveram-se fiéis a Roma, e as suas monarquias ainda se revestem de uma sacralidade católica que ecoa os tempos em que os reis eram ungidos pelo Papa.
E, no meio deste espectro, encontram-se as monarquias que, como a holandesa, atravessaram a Reforma e a Contrarreforma com uma flexibilidade que lhes permitiu preservar o trono enquanto as confissões religiosas se transformavam à sua volta.
Foi fascinante constatar que, ao contrário do que a laicidade moderna poderia sugerir, a filiação religiosa das monarquias europeias não é uma relíquia inofensiva, mas um elemento central da sua identidade constitucional e simbólica.
Na Dinamarca, a rainha é a chefe da Igreja Luterana; em Espanha, o rei é o defensor do catolicismo num país que, embora secularizado, ainda respira a herança da Reconquista; no Mónaco, o príncipe reina sob a proteção de Nossa Senhora Imaculada.
Neste artigo, compartilho os resultados dessa minha travessia pelas monarquias europeias – excluindo Inglaterra e Escócia, que mereceriam um estudo à parte – e convido o leitor a compreender como, em cada coroa, há uma história de fé que ainda hoje ilumina – e, por vezes, obscurece – o exercício do poder.
Pois, na Europa, a religião das monarquias não é uma página virada – é um capítulo vivo, que continua a ser escrito a cada missa real e a cada juramento constitucional.

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