Aspectos Religiosos das Coroas Inglesa e Escocesa
Durante anos, sempre que me debruçava sobre a história da formação do Reino Unido, minha mente traçava uma linha simplificada: a Inglaterra tornara-se protestante por vontade de Henrique VIII, a Escócia seguira o mesmo caminho por influência de João Calvino, e ambas, com o tempo, encontrariam um modus vivendi sob a coroa unificada.
Era uma narrativa confortável, que os manuais escolares repetem com a precisão de quem não deseja aprofundar-se nas arestas incômodas da história. Mas, ao iniciar esta pesquisa, fui confrontado com uma realidade muito mais complexa e fascinante: as trajetórias religiosas da Inglaterra e da Escócia não foram paralelas, mas profundamente divergentes – e foi precisamente essa divergência que moldou não apenas a espiritualidade de cada nação, mas as próprias estruturas políticas, constitucionais e culturais que ainda hoje definem o caráter do Reino Unido.
Ao mergulhar nas crônicas e nos documentos eclesiásticos, deparei-me com um contraste que me surpreendeu pela sua intensidade. Na Inglaterra, a Reforma foi um processo conduzido de cima para baixo, impulsionado pela vontade de um monarca que desejava controlar a Igreja em seu próprio reino – Henrique VIII, cujo rompimento com Roma em 1534 foi menos uma questão teológica do que uma necessidade política de anulação matrimonial e de afirmação do poder régio.
Foi uma reforma "por decreto", que preservou grande parte da liturgia católica e manteve uma estrutura episcopal, com o soberano como chefe supremo da Igreja.
Já na Escócia, a transformação foi radicalmente diferente: liderada por figuras carismáticas como John Knox, que retornara de Genebra imbuído das ideias calvinistas, a Reforma escocesa foi um movimento popular, iconoclasta e descentralizado, que varreu o catolicismo das terras altas e baixas com uma fúria que a monarquia inglesa jamais ousou empregar.
Compreendi, então, que não estava diante de duas versões do mesmo fenômeno, mas de dois protestantismos distintos – um mais conservador e hierárquico, outro mais puritano e democrático – cuja coexistência sob uma mesma coroa seria uma fonte permanente de tensões.
E, no entanto, foi precisamente dessa tensão que emergiu a singularidade do Reino Unido: a capacidade de abrigar, sob uma mesma estrutura política, duas tradições religiosas que, embora protestantes, mantinham diferenças profundas na liturgia, na organização e na relação com o poder secular. Ao longo dos séculos, essas diferenças geraram conflitos – desde as guerras civis do século XVII até as disputas sobre a sucessão católica – mas também forjaram uma cultura de tolerância e de compromisso que, a seu modo, antecipou o pluralismo religioso do mundo moderno.
Neste artigo, compartilho os frutos dessa minha imersão nos aspectos religiosos das coroas inglesa e escocesa – uma investigação que me levou a revisitar os tratados de união, os atos de supremacia e as confissões de fé que deram forma a duas nações espiritualmente distintas, mas politicamente unidas.
Convido o leitor a acompanhar-me nessa jornada pela interseção entre fé e poder, pois compreender a Reforma na Inglaterra e na Escócia é compreender como as escolhas teológicas de ontem continuam a ecoar nas instituições políticas e na identidade cultural do Reino Unido de hoje – um legado vivo de que a história religiosa nunca é apenas uma questão de alma, mas também de espada e de coroa.s políticas e na identidade cultural do Reino Unido de hoje – um legado vivo de que a história religiosa nunca é apenas uma questão de alma, mas também de espada e de coroa.

Usuário não autorizado! O acesso integral à esta página e aos demais artigos do MS MAÇOM é reservado a membros devidamente identificados. Solicitamos que realize o login para proceder. Privacidade e discrição são pilares de nossa comunidade, e seu cumprimento é essencial!

Nos siga nas redes sociais:












