Quando comecei a pesquisar sobre a Palestina do século I e os eventos que levaram à destruição de Jerusalém, deparei com um nome que aparecia em todas as fontes: Flávio Josefo. Confesso que, a princípio, me pareceu apenas mais um historiador antigo.
Mas ao mergulhar em sua vida, descobri uma das figuras mais controversas e fascinantes da Antiguidade: um sacerdote judeu que se tornou general rebelde, depois prisioneiro de guerra e, finalmente, cidadão romano e historiador da corte dos imperadores.
Sua história é um turbilhão de traições, profecias mirabolantes, sobrevivência improvável e, acima de tudo, uma luta para preservar a memória de seu povo diante da aniquilação. Neste artigo, compartilho os resultados dessa pesquisa profunda.
Flávio Josefo nasceu por volta do ano 37 d.C. em Jerusalém, com o nome hebraico de Yosef ben Mattityahu — “José, filho de Matias”. Vinha de uma linhagem impressionante: seu pai pertencia a uma das mais importantes famílias sacerdotais, da casa e ordem de Joiaribe, e sua mãe descendia da dinastia real dos asmoneus, que governara a Judeia antes da chegada dos romanos. Em sua autobiografia, Josefo orgulhosamente escreveu: “Tenho reis entre meus antepassados”.
Criado na melhor tradiçãojudaica, recebeu instrução minuciosa da Torá e uma boa educação geral. Aos treze anos, iniciou seu aprendizado sobre as principais seitas judaicas da época: fariseus, saduceus e essênios. Passou três anos vivendo no deserto com um asceta chamado Bano antes de, aos dezenove anos, optar por aderir ao farisaísmo — a escola mais popular e influente do judaísmo rabínico.
A Primeira Viagem a Roma (64 d.C.)
Aos 26 anos, Josefo viajou a Roma em uma missão delicada: negociar com o imperador Nero a libertação de alguns sacerdotes judeus que estavam presos. Por intermédio de Popeia Sabina, esposa de Nero, obteve êxito. Essa viagem foi decisiva: pela primeira vez, Josefo entrou em contato direto com o poderio esmagador de Roma, uma experiência que o deixou fascinado e convencido da invencibilidade romana — uma convicção que moldaria todas as suas decisões futuras.
A Grande Revolta e a Defesa da Galileia (66-67 d.C.)
Ao retornar a Jerusalém, a situação era explosiva. Os zelotas, a facção mais radical, haviam convencido a maioria dos judeus a se revoltar contra o domínioromano. Josefo tentou dissuadir os líderes, mas seus esforços foram inúteis. O Sinédrio (conselho judaico) o designou governador militar da Galileia, incumbindo-o de organizar a resistência na província.
A tarefa era quase impossível. A Galileia estava dividida, com algumas cidades leais a Roma e outras alinhadas aos rebeldes de João de Giscala, umlíder extremista que logo se tornaria rival de Josefo.
A Queda de Jotapata e o Pacto de Suicídio (67 d.C.)
Em 67 d.C., o general Vespasiano, enviado por Nero, atacou a Galileia com um exército de mais de 60 mil homens. Josefo refugiou-se na cidade fortificada de Jotapata, que resistiu por 47 dias de cerco. Quando as muralhas finalmente caíram, Josefo e quarenta companheiros se esconderam em uma cisterna. Descobertos, propuseram um pacto de suicídio coletivo para não cair vivos nas mãos dos romanos.
O episódio é relatado com uma pitada de embaraço pelo próprio Josefo. Para evitar que alguém tirasse a própria vida, ele sugeriu que se matassem reciprocamente em uma ordem determinada por sorteio — um problema matemático que ficaria conhecido séculos depois como o Problema de Josefo. Milagrosamente (ou convenientemente), Josefo foi o penúltimo a sobreviver. Sobrou apenas ele e mais um companheiro, a quem convenceu a se render.
A Profecia a Vespasiano e a Virada na Vida (69 d.C.)
Feito prisioneiro, Josefo protagonizou o momento mais audacioso de sua vida. Diante de Vespasiano, profetizou que o general romano em breve se tornaria imperador. Quando, em 69 d.C., a profecia se concretizou, Josefo foi libertado como recompensa e passou a ser protegido dos romanos. Adotou o nome de seus benfeitores, tornando-se TitoFlávio Josefo.
Acompanhou Vespasiano a Alexandria, testemunhou o cerco e a queda de Jerusalém (70 d.C.) ao lado do futuro imperador Tito, e seguiu para Roma, onde se estabeleceu, recebeu cidadania romana, uma generosa pensão vitalícia e terras na Judeia confiscadas dos revoltosos.
Josefo viveu em Roma como um homem entre dois mundos: era cidadão romano e cliente da dinastia flaviana, mas sempre se considerou um judeu leal e cumpridor das leis. Casou-se quatro vezes, perdeu sua primeira esposa e pais durante o cerco de Jerusalém, e dedicou o resto da vida a escrever as obras que o tornariam imortal. Morreu por volta do ano 100 d.C..
Sua primeira e mais dramática obra, narra a história da Judeia desde a revolta dos macabeus (167 a.C.) até a destruição de Jerusalém em 70 d.C.. Originalmente escrita em aramaico para os judeus do Oriente, foi vertida para o grego com ajuda de colaboradores.
O pesquisador Steve Mason a descreve como “um texto ocidental dos mais influentes, no qual um aristocrata judeu vivendo em Roma combina sua cultura nativa com a política, a retórica e os discursos historiográficos gregos”.
Antiguidades Judaicas (c. 94 d.C.)
Sua obra monumental, em 20 livros, conta a história do mundo desde a criação de Adão e Eva até o início da revolta contra Roma. Foi composta em grego para seus patronos romanos e é uma fonte inestimável sobre o judaísmo do período do Segundo Templo.
Um apêndice polêmico escrito para refutar as acusações de seu rival João de Giscala. Josefo dedicou grande parte dessa obra a se justificar sobre o curto período em que governou a Galileia.
Contra Ápio (c. 97 d.C.)
Uma apologia vigorosa do judaísmo e do povo judeu contra os ataques de intelectuais antissemitas gregos. A obra defende a antiguidade e a dignidade da nação judaica, refutando calúnias sobre suas práticas religiosas e origens.
3. Curiosidades
Ao longo da pesquisa, deparei com fatos surpreendentes que humanizam essa figura complexa:
O problema de Josefo: O episódio do suicídio coletivo em Jotapata deu origem a um famoso problema matemático de sobrevivência — encontrar a posição segura em um círculo onde cada terceira pessoa é eliminada. A solução envolve representação binária e hoje é estudada em cursos de ciência da computação.
Umlíder, doze esposas?: A tradiçãojudaica registra que Josefo (Yosef ben Matityahu) teve 12 esposas — um número que, para além da questão histórica, foi interpretado por alguns como uma metáfora para os desafios e dilemas enfrentados pelo povo judeu sob o domínioromano.
As três esposas depois da guerra: Fontes históricas indicam que Josefo se casou pelo menos quatro vezes ao todo. Após a perda de sua primeira esposa e pais durante o cerco de Jerusalém, casou-se mais três vezes com mulheres judias, com quem teve filhos.
O linguista incansável: Josefo dominava o hebraico, o aramaico, o grego e o latim — uma raridade na época.
O profeta que acertou: A profecia de Josefo a Vespasiano foi um divisor de águas. Quando se concretizou, Josefo não apenas ganhou a liberdade, mas também o respeito e a proteção dos imperadores flavianos.
Judeu aos próprios olhos: Apesar de toda a sua proximidade com o poder romano, Josefo “nunca pretendeu se distanciar de seu povo” e “sempre permaneceu, pelo menos aos seus próprios olhos, um judeu cumpridor das leis”.
4. O Testimonium Flavianum: A Passagem Mais Famosa e Controversa
O Testimonium Flavianum (“Testemunho de Flávio”) é um breve parágrafo da obra Antiguidades Judaicas (Livro 18, capítulo 3, seção 3) que menciona JesusCristo, constituindo uma das mais antigas referências extrabíblicas a Jesus:
“Havia neste tempo Jesus, um homem sábio [se é lícito chamá-lo de homem, porque ele foi o autor de coisas admiráveis, um professor tal que fazia os homens receberem a verdade com prazer]… [Ele era o Cristo]. Quando Pôncio Pilatos, seguindo a sugestão dos principais entre nós, condenou-o à cruz… [porque ele apareceu a eles vivo novamente no terceiro dia]…”
Desde o século XVI, estudiosos contestam sua autenticidade integral. O problema é que algumas frases soam como uma confissão de fé cristã — incompatível com um autor judeu que nunca se converteu. A maioria dos especialistas atuais defende a autenticidade parcial: Josefo escreveu algo sobreJesus, mas escribas cristãos posteriores interpolaram (adicionaram) as partes mais explicitamente messiânicas.
A descoberta de uma versão árabe do texto, que omite os elogios mais efusivos, reforça essa tese. Seja como for, a passagem é uma prova preciosa de que, nos círculos judaicos cultos do final do século I, Jesus era visto como um sábio e um mestre que existiu historicamente — e não como uma invenção posterior.
Além da passagem sobreJesus, Josefo também menciona João Batista (Antiguidades, XVIII, 116-119) e Tiago, o Justo (irmão de Jesus), incluindo o detalhe de que Tiago foi apedrejado por ordem do sumo sacerdote Anás — um testemunho crucial para o estudo do cristianismo primitivo.
5. Legado: Entre a Traição e a Preservação
Flávio Josefo é, até hoje, uma figura controversa. Para muitos judeus, ele foi umtraidor — um general que abandonou a revolta, colaborou com Roma, recebeu terras confiscadas dos rebeldes e escreveu a história da guerra para os vencedores. Sua ambiguidade na Galiléia, suas acusações mútuas com João de Giscala e sua sobrevivência milagrosa (ou conveniente) em Jotapata nunca foram totalmente esclarecidas.
Para os historiadores, no entanto, Josefo é insubstituível. Sem ele, saberíamos muito pouco sobre a Palestina do século I: os fariseus, saduceus e essênios; a dinastia herodiana; os governadores romanos como Pôncio Pilatos; a revolta judaica; e o cenário em que o cristianismo nasceu.
Como escreveu Lewis Browne, “Josefo tornou-se caudilho romano, porém, tanto o remoía a consciência, que ele passou o resto da vida a escrever sobre a grandeza do seu próprio povo“. Foi essa contradição — um homem partido entre dois mundos — que lhe permitiu construir uma ponte entre a história judaica e a romana, preservando para a posteridade a memória de uma cultura que ele testemunhou nascer e quase morrer.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas três "potências" são reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).