Tales de Mileto: O Primeiro dos Filósofos que ousou Explicar o Mundo Pela Razão
Introdução
Na história do pensamento ocidental, poucas figuras são tão envoltas em mistério quanto as que ocupam suas origens. Tales de Mileto, que floresceu por volta do ano 585 a.C., é um desses gigantes cuja silhueta emerge das brumas do mito como um divisor de águas. Embora nenhum de seus escritos tenha sobrevivido, e muitos fatos sobre sua vida sejam lendários, seu lugar na história está firmemente estabelecido: ele é tradicionalmente aclamado como o primeiro filósofo da tradição grega, o primeiro matemático e cientista do Ocidente, e o pai do pensamento racional. A presente biografia percorre sua trajetória, da antiga cidade de Mileto às façanhas que lhe garantiram um lugar entre os lendários Sete Sábios da Grécia, desvendando suas ideias centrais e as curiosidades que tecem a rica tapeçaria de sua vida e legado.
1. Infância, Família e Formação: O Cidadão do Mundo
Tales (em grego antigo: Θαλῆς ὁ Μιλήσιος, Thalḗs ho Milḗsios) nasceu na próspera cidade de Mileto, uma colônia grega situada na costa da Jônia (atual Turquia), por volta do ano 624 ou 623 a.C.. Mileto era um polo comercial estratégico, um caldeirão de culturas onde se encontravam as tradições do Egito, da Babilônia e da Fenícia. Foi nesse ambiente estimulante que Tales provavelmente recebeu sua educação.
Embora algumas fontes sugiram que sua família era de origem fenícia, tradições antigas o consideram um genuíno milesiano, descendente de uma família nobre. Sabe-se que seus pais eram Examio e Cleobulina. Na juventude, e ainda adulto, Tales viajou extensamente. Diz-se que passou um período no Egito, onde aprendeu geometria com os sacerdotes de Mênfis. Essas viagens foram fundamentais para a formação de seu pensamento eclético. Acredita-se que tenha sido um dos primeiros a introduzir na Grécia o conhecimento astronômico dos babilônios, incluindo os métodos que lhe permitiram, mais tarde, prever um eclipse solar.
2. O Sábio Polímata: Carreira Política e Comercial
Tales não era um filósofo enclausurado em sua torre de marfim. Ele foi um verdadeiro “sábio” no sentido prático da palavra. Era ativo politicamente, servindo como conselheiro e estadista, e é descrito em muitas fontes como um legislador na cidade de Mileto. Sua maior contribuição política pode ter sido sua visão para além das fronteiras da cidade-estado. O historiador Heródoto relata que Tales, percebendo a ameaça persa, defendeu a federação das cidades jônicas em uma única entidade política.
Além da política, Tales também foi um homem de negócios. Uma famosa anedota, registrada por Aristóteles em sua Política, conta como Tales usou sua sabedoria para calar aqueles que zombavam de sua pobreza, acusando a filosofia de ser inútil. Utilizando seus conhecimentos astronômicos e meteorológicos, Tales previu uma colheita excepcionalmente boa de azeitonas. Durante o inverno, com pouco dinheiro, ele arrendou todas as prensas de azeitona de Mileto e Quíos a um preço baixo. Quando a entressafra chegou e a demanda por prensas disparou, ele as sublocou pelo preço que desejou, acumulando uma grande fortuna. Com esse simples golpe de mestre, Tales demonstrou que os filósofos podem facilmente enriquecer se quiserem, mas que seu verdadeiro afã está em outras coisas.
3. Contribuições Filosóficas: O “Arché” e a Revolução do Pensamento
Tales é amplamente reconhecido como o primeiro filósofo no sentido moderno porque foi o primeiro a tentar explicar o mundo sem recorrer a causas sobrenaturais, utilizando, em vez disso, princípios do mundo natural e da razão. Sua maior contribuição filosófica é o conceito de arché (ἀρχή), a substância primordial, material e geradora de todas as coisas, da qual tudo se origina e para a qual tudo retorna.
3.1 O Mundo é Feito de Água
Aristóteles nos conta que Tales propôs a água como essa substância fundamental. A escolha não foi aleatória. A água é um elemento familiar e essencial para a vida (nutrição, geração de vida), e está na base dos fenômenos de transformação e mudança. Tales provavelmente observou que a água, ao evaporar, torna-se ar; ao congelar, torna-se gelo; e ao secar em lagoas, deixa para trás terra. Esta ideia original, que inaugura a filosofia natural, contém um gesto de ruptura inegável: pela primeira vez, tentava-se explicar a unidade e a diversidade do universo a partir de um princípio material comum e racional, e não da vontade caprichosa dos deuses.
3.2 O Universo é uma Esfera de Água
Em sua cosmologia, Tales concebia a Terra como um disco achatado flutuando sobre um oceano infinito de água. As marés, os terremotos e a própria estabilidade do planeta eram explicados pelos movimentos e pela sustentação proporcionados por essa massa aquosa subjacente.
3.3 “Todas as Coisas estão Cheias de Deuses” e o Ímã
Tales também afirmava que “todas as coisas estão cheias de deuses” ou que “tudo está repleto de almas”. Embora pareça um retorno ao mito, essa ideia é revolucionária: ele estava postulando uma força ou princípio de movimento imanente à própria matéria. Ele apontava o ímã (magnetita) e o âmbar como exemplos, pois o ímã move o ferro (tem uma “alma”) e o âmbar, quando atritado, atrai pequenos objetos (eletricidade estática), demonstrando que a matéria inanimada pode possuir uma força motriz interna.
4. Contribuições Científicas: Do Céu à Terra, a Geometria Triunfa
Tales foi um grande astrônomo, matemático e engenheiro prático. Sua fama lendária está ligada a três feitos notáveis.
4.1 O Eclipse de 585 a.C.
Considerado seu feito mais espetacular, foi a predição de um eclipse solar em 28 de maio de 585 a.C., que interrompeu uma batalha entre os exércitos dos reis lídios e medos, levando-os à paz. Embora provavelmente não pudesse prever a hora e o local exatos, ele certamente conhecia os ciclos astronômicos (como o ciclo de Saros) aprendidos com os babilônios, e sua “predição” foi um marco na aplicação da ciência empírica à natureza.
4.2 Engenharia: Desviando o Rio Halys
Outro feito notável foi sua proeza como engenheiro militar. A serviço do rei Creso da Lídia, Tales permitiu que seu exército atravessasse o caudaloso rio Halys sem a necessidade de construir uma ponte. Ele ordenou que seus soldados cavassem um novo leito em forma de meia-lua atrás do acampamento, desviando as águas do rio para trás de suas próprias linhas, tornando o leito original do rio suficientemente raso para ser atravessado a pé.
4.3 Medindo as Pirâmides à Distância
Heródoto relata que Tales usou seus conhecimentos geométricos para medir a altura das pirâmides do Egito. O método era engenhoso e simples: ele fincou uma estaca verticalmente no solo e esperou até que o comprimento de sua sombra fosse exatamente igual à sua altura. Naquele exato momento, ele mediu a sombra projetada pela pirâmide, que tinha, então, a mesma altura que o monumento.
5. Matemática: O Teorema que Carrega seu Nome
Na matemática, Tales é creditado com a formulação de uma série de teoremas geométricos, particularmente os que levam seu nome.
O Teorema de Tales (também conhecido como Teorema da Interseção) afirma que um feixe de retas paralelas determina, sobre duas retas transversais, segmentos proporcionais. Embora não haja prova de que ele tenha formulado essa ideia de forma abstrata, é amplamente aceito que ele introduziu os seguintes conceitos fundamentais na Grécia:
Um círculo é dividido em duas partes iguais por seu diâmetro (Teorema de Tales, versão do círculo).
Os ângulos opostos pelo vértice são iguais.
O ângulo inscrito em uma semicircunferência é um ângulo reto (Teorema de Tales do círculo).
Dois triângulos são congruentes quando têm um lado igual e os dois ângulos adjacentes a esse lado também iguais.
Não é exagero dizer que, com Tales, a matemática deixou de ser uma coleção de receitas empíricas e se transformou em uma ciência dedutiva, onde a partir de princípios gerais se podem demonstrar verdades particulares.
6. Principais Obras: O Espectro da Escrita
Como é comum entre os primeiros pensadores gregos, Tales pode não ter deixado nenhum escrito de sua autoria. O que sabemos dele nos foi transmitido por autores posteriores, como Aristóteles, Heródoto e Diógenes Laércio.
Embora alguns antigos lhe atribuam a autoria de “Astrologia Náutica” (Nautical Astronomy), uma obra sobre navegação pelas estrelas e que foi citada por autores como Calímaco, a autoria é disputada, sendo atribuída por alguns ao poeta Foco de Samos. Outros ainda mencionam tratados menores como “Sobre o Solstício” e “Sobre o Equinócio” , que também podem ser apócrifos. No entanto, a autoria dessas obras é incerta e a maioria dos historiadores conclui que Tales, provavelmente, nada escreveu, e seu legado foi transmitido oralmente por seus discípulos.
7. Curiosidades e Anedotas: O Filósofo e o Poço
Sua vida é rica em anedotas que humanizam o mito.
A Queda no Poço: A anedota mais famosa sobre Tales é a de sua distração. Conta-se que, enquanto caminhava ao ar livre, absorto na contemplação das estrelas, ele não viu um poço e caiu dentro. Uma velha serva trácia que o acompanhava teria dito, rindo: “Ele quer saber o que se passa no céu, mas não vê o que está bem debaixo de seu nariz!”. A frase simboliza o eterno conflito entre a especulação teórica e a sabedoria prática.
O Estrangeiro Sábio: Embora alguns digam que ele era de Mileto, várias tradições sugerem que Tales era de origem fenícia e foi exilado para Mileto, onde foi inscrito como cidadão. Isso explicaria sua fluência em conhecimentos orientais, como a geometria egípcia e a astronomia babilônica.
Os Sete Sábios: Conta-se que Tales teria comprado um tripé de ouro encontrado por pescadores e o dedicado a Apolo, declarando que “o primeiro sábio era o mais sábio”. O tripé passou por vários sábios antes de retornar a Tales, que o enviou ao templo de Apolo. Como membro do lendário grupo dos Sete Sábios da Grécia (juntamente com Sólon, Quílon, Bias, Pítaco, Cleóbulo e Periandro), Tales foi famoso por suas máximas lacônicas, como “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso” , que adornavam o templo de Apolo em Delfos.
Filosofia de Perguntas e Respostas: A sabedoria de Tales se revelava em suas respostas rápidas e profundas:
Perguntado sobre o que é Deus, respondeu: “O que não tem começo nem fim”.
Sobre o que é mais antigo, respondeu: “Deus, pois sempre existiu”.
Quando questionado sobre como se poderia suportar melhor as desgraças, respondeu: “Vendo os inimigos em pior situação”.
E sobre como viver melhor e mais honestamente, afirmou: “Não cometendo o que criticamos nos outros”.
A Morte e o Reconhecimento na Tumba: Segundo a tradição, Tales faleceu durante os Jogos Olímpicos, aos 78 anos, possivelmente vítima de uma insolação ou desidratação enquanto assistia a um certame gímnico. Sobre sua tumba, teriam sido escritos estes versos: “Se pequena é esta tumba, sua fama é ampla como o céu; ela encerra ao muito inteligente Tales”.
8. Legado e Impacto
A influência de Tales foi imediata e profunda. Sua filosofia inspirou seus discípulos diretos, Anaximandro e Anaxímenes, que, embora discordassem da água como o arché, seguiram seu método de buscar uma substância primordial natural para o cosmos, dando origem à chamada Escola Jônica ou de Mileto. Essa busca pela physis (natureza) influenciou todo o desenvolvimento da filosofia pré-socrática.
Muito mais do que suas respostas específicas, que podem parecer ingênuas hoje, a grandeza de Tales reside em sua revolução metodológica. Foi ele quem demonstrou, pela primeira vez, que a natureza pode ser compreendida, que as mudanças não são aleatórias nem resultado da vontade divina, e que a razão humana é capaz de desvendar as leis que regem o universo. Por essa razão, Bertrand Russell, em sua História da Filosofia Ocidental, afirma que “a filosofia começa com Tales”.
Conclusão
Tales de Mileto permanece como uma figura fundadora e simbólica para a ciência e a filosofia. Sua vida e obra nos mostram o momento exato em que o pensamento mítico começou a ceder espaço para a investigação racional. Ao afirmar que o mundo podia ser explicado, que os fenômenos celestes podiam ser previstos e que as figuras geométricas obedeciam a leis demonstráveis, Tales plantou a semente de toda a tradição científica e filosófica que se seguiria. Ele é, portanto, não apenas o primeiro filósofo, mas o arquétipo do filósofo: o pensador que ousa olhar para o céu, mesmo correndo o risco de cair no poço.
Autor e pesquisa Ivair Ximenes Lopes
Fontes Citadas
- ARISTÓTELES. Da Alma (De Anima). In: [16†L6].
- ARISTÓTELES. Metafísica (Metaphysica). In: [16†L5].
- ARISTÓTELES. Política (Politica). In: [18†L4].
- BRITANNICA, The Editors of Encyclopaedia. Thales of Miletus. Encyclopaedia Britannica, 20 jul. 1998. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Thales-of-Miletus. [11†L1-L46].
- DIÓGENES LAÉRCIO. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. In: [22†L6-L7].
- HERÓDOTO. Histórias. In: [11†L27-L28].
- MARK, Joshua J. Tales de Mileto. World History Encyclopedia, 2018. Disponível em: https://www.worldhistory.org/trans/es/1-483/tales-de-mileto/. [8†L1-L43].
- O’GRADY, Patricia. Thales of Miletus: The Beginnings of Western Science and Philosophy. Routledge, 2002. [4†L9-L15].
- RUSSELL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental. Companhia Editora Nacional, 1957. [12†L18].
- WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Tales de Mileto. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tales_de_Mileto. [14†L1-L40].
- WIKIPÉDIA, la enciclopedia libre. Tales de Mileto. Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Tales_de_Mileto. [23†L1-L42].
- WIKIPÉDIA, the free encyclopedia. Thales of Miletus. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Thales_of_Miletus. [12†L1-L46].

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.












