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Anaxímenes de Mileto: O Filósofo que Tornou o Invisível Explicável

Anaxímenes de Mileto

Anaxímenes de Mileto: O Filósofo que Tornou o Invisível Explicável

Introdução

Na história do pensamento ocidental, os primeiros filósofos são frequentemente lembrados por uma grande ideia: Tales elegeu a água, Anaximandroápeiron (o ilimitado). Anaxímenes de Mileto, o terceiro e último grande representante da Escola de Mileto, escolheu o ar como o princípio primordial de todas as coisas. Sua escolha, no entanto, não foi arbitrária. Com o ar, Anaxímenes encontrou um elemento que era ao mesmo tempo tangível e sutil, divino e imanente, capaz de explicar a unidade do cosmos e a aparente diversidade dos fenômenos naturais.

Discípulo de Anaximandro e continuador da tradição inaugurada por Tales, Anaxímenes avançou em relação a seus antecessores ao propor um mecanismo físico para a transformação da matéria: a rarefação e a condensação. Ao fazê-lo, ele deu um passo decisivo em direção ao pensamento científico, oferecendo um modelo que permitia explicar como uma única substância poderia gerar a multiplicidade do mundo.

1. Juventude e Formação: O Herdeiro da Escola de Mileto

Anaxímenes nasceu na próspera cidade de Mileto, na costa da Jônia (atual Turquia), provavelmente por volta de 588/585 a.C. Era filho de Eurístrato, e a tradição, preservada pelo filósofo Teofrasto, o descreve como discípulo e companheiro de Anaximandro, sendo cerca de 22 anos mais novo do que seu mestre. Esse dado cronológico é fundamental, pois situa Anaxímenes como o elo final de uma cadeia de transmissão do saber filosófico em Mileto: ele teria conhecido Tales em sua velhice e recebido a herança intelectual diretamente de Anaximandro.

Suas datas de nascimento e morte são aproximadas e variam nas fontes antigas, mas a maioria dos historiadores converge para um período de atividade na segunda metade do século VI a.C. , com sua morte ocorrendo entre 528 e 525 a.C. . A cronologia é importante porque, ao situar o auge de Anaxímenes por volta do ano 546 a.C. , o vinculamos a eventos históricos como a tomada de Sardes pelos persas, um marco do expansionismo persa que ameaçava as cidades gregas da Jônia.

Pouco se sabe sobre sua vida pessoal para além dessas relações de discipulado. O silêncio das fontes indica que, como Tales e Anaximandro, Anaxímenes dedicou-se integralmente à investigação da natureza, sem deixar registros de envolvimento político ou de feitos espetaculares. Sua grandeza residiu inteiramente em sua obra escrita.

2. O Pensamento Filosófico: O Ar como Arché e os Mecanismos de Transformação

A filosofia de Anaxímenes representa a maturação do pensamento milesiano. Ele retomou a busca pelo arché (ἀρχή) — o princípio primordial, a substância eterna e geradora de todas as coisas — e ofereceu uma resposta que combinava a concretude de Tales com a busca por um princípio mais dinâmico, como queria Anaximandro.

2.1 O Ar: Entre o Divino e o Material

Anaxímenes elegeu o ar (ἀήρ, aēr) como a substância fundamental do universo. O ar não era, para ele, apenas o elemento visível ou atmosférico, mas um princípio cósmico com atributos especiais:

  • É infinito e sempre em movimento: Assim como a alma (ψυχή, psykhē) anima o corpo e é identificada com o sopro vital, o ar cósmico é eternamente vivo e dotado de movimento intrínseco. Ele é, ao mesmo tempo, a substância material e o princípio dinâmico que a anima, o que os filósofos chamam de hilozoísmo (a doutrina de que a matéria é viva).

  • É divino: Para Anaxímenes, o ar não era apenas a origem de todas as coisas, mas também o próprio divino. Ele não negava a existência dos deuses, mas os subordinava ao poder do ar primordial, que seria a verdadeira divindade geradora.

Essa identificação entre o ar e o divino foi expressa de forma lapidar em um fragmento preservado por Aécio: “Anaxímenes de Mileto, filho de Eurístrato, declarou que o princípio das coisas existentes é o ar; pois dele todas as coisas provêm e nele novamente se dissolvem.

2.2 O Mecanismo da Transformação: Rarefação e Condensação

Se Tales e Anaximandro apontaram uma substância primordial, coube a Anaxímenes explicar como essa substância se transforma nas coisas que percebemos. Sua resposta foi genial em sua simplicidade: o ar se transforma por rarefação e condensação.

  • Rarefação (ἀραίωσις, araiōsis): Quando o ar se torna mais rarefeito, ou seja, menos denso, ele se expande e se torna fogo.

  • Condensação (πύκνωσις, pyknōsis): Quando o ar se condensa, tornando-se progressivamente mais denso, ele se transforma em vento, depois em nuvem, em água, em terra e, finalmente, em pedra.

Essa escala de transformação é contínua e gradual. Não há saltos qualitativos, mas sim um acréscimo ou decréscimo de uma propriedade quantitativa: a densidade. O frio e o calor não eram causas da transformação para Anaxímenes, mas consequências dela: o ar rarefeito (pouco denso) é quente; o ar condensado (muito denso) é frio.

Para demonstrar sua teoria, Anaxímenes recorreu a uma experiência empírica simples, talvez a primeira da história da filosofia: “se alguém sopra na mão com a boca relaxada, o ar sai quente; se sopra com os lábios contraídos, o ar sai frio. O mesmo ar, submetido a diferentes pressões, produz sensações opostas. A observação cotidiana confirmava a teoria.

A analogia entre o microcosmo e o macrocosmo também é fundamental em seu pensamento. Assim como nossa alma (psykhē), que é ar, nos mantém unidos e nos dá vida, o sopro (pneuma) e o ar cósmico envolvem e sustentam o mundo inteiro. O universo é, portanto, um grande ser vivo, animado pela mesma substância que anima cada um de nós.

3. Cosmologia e Ciência: O Universo como um Flutuante de Ar

A partir de seu princípio do ar, Anaxímenes construiu uma cosmologia e uma teoria dos fenômenos naturais que impressionam pela ousadia e pela coerência.

3.1 A Terra e os Astros Flutuantes

Anaxímenes concebia a Terra como um disco achatado, flutuando sobre o ar, assim como uma folha ou um pedaço de madeira flutuam sobre a água. A Terra é mantida em seu lugar pelo ar que a sustenta por baixo. Os astros (Sol, Lua e estrelas) também eram considerados corpos planos e achatados, feitos de terra ou fogo, que flutuavam no ar como as folhas no vento. Eles não atravessam a Terra por baixo, mas circulam ao seu redor, sendo ocultados pelo lado norte da abóbada celeste, que é mais elevado.

Uma ideia notável, que revela sua capacidade de observação astronômica, é que as estrelas são fixas no céu como “pregos” ou “cravos” em uma superfície cristalina. Essa imagem das estrelas como pontos fixos em uma esfera sólida antecipa a noção posterior da esfera celeste das estrelas fixas.

3.2 A Origem da Luz Lunar e das Chuvas

Anaxímenes foi um dos primeiros pensadores a afirmar, de forma inequívoca, que a luz da Lua é um reflexo da luz do Sol. Ele também propôs explicações racionais para fenômenos meteorológicos:

  • arco-íris seria formado quando os raios do Sol incidem sobre nuvens muito densas e compactadas.

  • Os terremotos seriam causados pelo rachamento da Terra quando ela seca excessivamente ou, em outra versão, por movimentos do ar em seu interior.

  • Relâmpagos e trovões seriam produzidos pela iluminação brusca do ar quando as nuvens se rompem.

3.3 A Invenção do Relógio de Sol

A tradição atribui a Anaxímenes um feito prático notável: a construção de um relógio de sol (skiotherikon horologium) . Ele teria apresentado esse instrumento em Esparta, possivelmente aperfeiçoando o gnômon (o instrumento básico de medição do tempo pela sombra) que já era conhecido. Essa invenção demonstra que, mesmo em sua busca pelo princípio último da realidade, Anaxímenes não desprezava as aplicações técnicas do conhecimento astronômico.

4. Principais Obras: “Sobre a Natureza” e a Prosa Jônica

Assim como seus antecessores, Anaxímenes é autor de uma única obra, provavelmente intitulada “Sobre a Natureza” (Περὶ φύσεως, Peri Physeos) . Hoje, o texto original está completamente perdido, e dele restam apenas alguns poucos fragmentos citados por autores posteriores, como Diógenes Laércio, Plutarco e Aécio.

O estilo de Anaxímenes, segundo Diógenes Laércio, era escrito em dialeto jônico puro, de forma simples e concisa, sem referências a “lutas entre contrários” ou a “indemnizações por injustiças”, em contraste com a linguagem poética e enigmática de seu mestre Anaximandro. Ele teria escrito em prosa, um estilo que, para a época, representava uma escolha deliberada pela clareza e pela exposição racional, em oposição à poesia épica e ao discurso mítico.

A obra estava estruturada em torno da tese central do ar como arché e dos processos de rarefação e condensação, mas também incluía, provavelmente, seções sobre meteorologia, astronomia e cosmologia.

5. Curiosidades e Anedotas: O Observador Genial

A vida de Anaxímenes, embora menos lendária que a de Tales, oferece algumas curiosidades fascinantes.

  • A experiência do sopro na mão: Como mencionado, essa experiência simples é um dos primeiros registros da história da filosofia em que um pensador recorre à observação empírica direta para fundamentar sua teoria. Não é um experimento controlado no sentido moderno, mas já é um apelo à experiência sensível para corroborar uma hipótese racional.

  • O observador do brilho fosforescente: Um testemunho preservado por Aristóteles relata que Anaxímenes teria observado o brilho fosforescente produzido pelo movimento de um remo na água durante a noite. Esse fenômeno o intrigou e serviu como base para suas reflexões sobre a natureza da luz.

  • A morte: Não há registros lendários de sua morte comparáveis à queda no poço de Tales. Apenas se sabe que ele viveu até uma idade avançada, por volta dos 60 anos, falecendo provavelmente em sua cidade natal.

  • A negação do vácuo: Anaxímenes rejeitava a existência do vácuo. Para ele, todo o espaço era preenchido pelo ar — ou por suas formas condensadas ou rarefeitas. O vazio era impensável, pois interromperia a continuidade da substância primordial.

  • A confusão com Anaxímenes de Lâmpsaco: É importante distinguir o filósofo de Mileto de Anaxímenes de Lâmpsaco (c. 380-320 a.C.), um historiador e retórico grego que viveu cerca de dois séculos depois, foi discípulo de Diógenes, o Cínico, e escreveu histórias sobre a Grécia, Filipe da Macedônia e Alexandre, além de tratados de retórica. A homonímia causa confusões em algumas fontes secundárias.

6. Legado e Influência

Anaxímenes foi, por muito tempo, o menos estudado dos três grandes milesianos, ofuscado pela originalidade de Anaximandro. No entanto, sua influência foi profunda e duradoura.

  • O primeiro modelo de transformação da matéria: Ao propor a rarefação e a condensação como mecanismos físicos, Anaxímenes inaugurou uma forma de pensar que persistiria na ciência ocidental. Ele transformou uma questão metafísica (“qual é a substância primordial?”) em uma questão explicativa (“como essa substância se transforma?”). Essa passagem do “o quê” para o “como” é um traço essencial do pensamento científico.

  • A redução da qualidade à quantidade: Ao explicar as diferenças qualitativas entre fogo, ar, água e terra como meras diferenças de densidade (uma propriedade quantitativa), Anaxímenes lançou as bases para uma visão unitária da matéria que será retomada pelos atomistas (Leucipo e Demócrito) e, mais tarde, pela química e pela física modernas.

  • Inspiração para Heráclito e Anaxágoras: A teoria da rarefação e condensação influenciou diretamente Heráclito (em sua doutrina do devir e das transformações do fogo) e Anaxágoras (em sua teoria da mistura e separação). A ideia de que a matéria é contínua e que as transformações são graduais é uma herança direta de Anaxímenes.

  • Reabilitação por Diógenes de Apolônia: No século V a.C., o filósofo Diógenes de Apolônia retomou o sistema de Anaxímenes, fazendo do ar o princípio único e identificando-o com a inteligência divina que ordena o cosmos.

Conclusão

Anaxímenes de Mileto ocupa um lugar central na história da filosofia. Se Tales deu o primeiro passo e Anaximandro expandiu o horizonte, foi Anaxímenes quem construiu a ponte entre a especulação filosófica e a investigação científica. Ao eleger o ar como princípio e ao fornecer um mecanismo físico para explicar como esse princípio se manifesta na diversidade do mundo, ele ofereceu uma resposta mais completa e satisfatória do que a de seus predecessores.

Sua contribuição, porém, não foi apenas material. Ao recorrer à observação empírica, ao buscar explicações causais e ao reduzir a qualidade à quantidade, Anaxímenes estabeleceu um método e uma atitude que definem o pensamento científico até os dias de hoje. Embora a resposta específica — o ar — tenha sido superada, a pergunta e o modo de perguntar que ele inaugurou permanecem como um dos legados mais preciosos da Grécia antiga ao mundo ocidental.

Autor e pesquisa Ivair Ximenes Lopes

Fontes Citadas

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  • WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Anaxímenes. Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Anax%C3%ADmenes. [8†L2-L38].
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  • MUNDO EDUCAÇÃO. Anaximandro e Anaxímenes. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/filosofia/anaximandro-anaximenes.htm. [17†L2-L42].
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  • ENCICLOPAEDIA HERDER EDITORIAL. Anaxímenes. Disponível em: https://encyclopaedia.herdereditorial.com/wiki/Autor:Anax%C3%ADmenes. [16†L6-L42].
  • KIDDLE (enciclopédia para crianças). Anaxímenes. Disponível em: https://ninos.kiddle.co/Anax%C3%ADmenes. [13†L2-L37].
  • LOEB CLASSICAL LIBRARY. Anaximenes: Testimony 9. Disponível em: https://www.loebclassics.com. [5†L4-L7].
  • BRASIL ESCOLA. Anaxímenes: conheça sua teoria cosmológica. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/anaximenes.htm. [22†L5-L8].
  • INFOESCOLA. Anaxímenes – Biografia do filósofo. Disponível em: https://www.infoescola.com/filosofia/anaximenes/. [22†L17-L20].
  • CONHECER E PENSAR. Anaxímenes, o último dos grandes pensadores milésios. 16 fev. 2016. Disponível em: https://conhecerepensar.wordpress.com. [23†L4-L7].
  • PROF. CLAUDE MIR. Cosmologia (texto). Disponível em: https://profiloclaudemir.comunidades.net. [23†L18-L21].
  • RAMOS, João Pedro dos Santos. Discurso cartesiano sobre o arco-íris versus Anaxímenes. Ojs.letras.up.pt. Disponível em: https://ojs.letras.up.pt. [21†L11-L14].

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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