Ao longo dos meus anos de estudo sobre os processos que forjaram a identidade nacional, sempre me impressionou a força silenciosa que operou nos bastidores da Independência do Brasil — não nos campos de batalha, mas nos templos maçônicos do Rio de Janeiro.
Mais do que uma data inscrita nos calendários, o 7 de setembro de 1822 foi o desfecho visível de uma trama cuidadosamente urdida nas Lojas, onde liberais, republicanos e monarquistas constitucionais — todos maçons — disputavam o futuro do país.
Foi ali, sob o signo do esquadro e do compasso, que se decidiu o destino de uma nação.
A foto, mostra o parque da Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro, estando instalado no Palácio de São Cristóvão. O palácio serviu de residência à família real portuguesa de 1808 a 1821, abrigou a família imperial brasileira de 1822 a 1889 e sediou a primeira Assembleia Constituinte Republicana de 1889 a 1891.
Neste artigo, convido o leitor a conhecer a participação decisiva da Maçonaria no processo de Independência, os protagonistas que a conduziram, as divisões internas que a marcaram e o legado que permanece vivo até hoje.
A Maçonaria no Brasil: Antes de 1822
A presença da Maçonaria no Brasil remonta ao século XVIII. A primeira loja maçônica de que se tem registro foi fundada em 1796, em Pernambuco.
A Inconfidência Mineira (1789), movimento que sonhou com a liberdade nas Minas Gerais, já contava com a influência da Ordem: segundo as Memórias do Distrito Diamantino, de Joaquim Felício dos Santos, “os conjurados eram todos iniciados na maçonaria, introduzida por Tiradentes”.
Com a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, a Maçonaria ganhou novo fôlego.
Apesar da repressão — em 1818, Dom João VI proibiu, sob pena de morte, as sociedades secretas — as Lojas continuaram a prosperar nas sombras, alimentando o ideário iluminista que circulava pela Europa e que encontraria no Brasil um terreno fértil para germinar.
As Duas Facções: Bonifácio e Ledo
Em 1822, a Maçonaria brasileira estava dividida em duas grandes facções, ambas favoráveis à Independência, mas com projetos distintos para o futuro do país.
Liderada por José Bonifácio de Andrada e Silva (1763–1838), o “Patriarca da Independência”, defendia a manutenção de Dom Pedro como imperador, em um regime de monarquia constitucional.
Bonifácio foi o primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, fundado em 17 de junho de 1822. Sua estratégia era conduzir a separação de Portugal de forma controlada, preservando a unidade territorial e a ordem social.
Liderada por Joaquim Gonçalves Ledo (1781–1847), defensor de ideias republicanas e adversário político de Bonifácio. Ledo foi o grande agitador da causa independentista nas Lojas. Para ele, o povo brasileiro tinha plenas condições de fazer suas próprias leis e se governar.
Apesar das divergências, ambas as facções compartilhavam um objetivo comum: a separação definitiva de Portugal.
A Maçonaria, ainda que dividida, funcionou como o principal espaço de sociabilidade que reunia os protagonistas da emancipação.
A Reunião de 20 de Agosto de 1822: O Dia em que a Independência Foi Decidida
A data de 20 de agosto de 1822 é tão crucial quanto o 7 de setembro — e é por isso que se tornou o Dia do Maçom no Brasil.
Nesse dia, em uma sessão extraordinária da Maçonaria, convocada por Gonçalves Ledo (que presidia a reunião na ausência do Grão-Mestre Bonifácio), foi decidida a separação do Brasil de Portugal. Ledo proferiu um discurso histórico, cuja frase mais célebre ecoa até hoje: “Os povos não são propriedade de ninguém”.
A reunião, que contou com maçons das três Lojas metropolitanas, aprovou a Independência e definiu os passos seguintes para a sua concretização. A decisão tomada naquela Loja tornou-se pública menos de três semanas depois, no 7 de setembro.
Como registrou o historiador Pedro Calmon: “A maçonaria teve a maior parte das responsabilidades naqueles acontecimentos. Foi o sigilo maçônico a alma da revolução”. O escritor Gustavo Barroso, crítico ferrenho da Maçonaria, testemunhou: “A independência do Brasil foi realizada à sombra da Acácia, cujas raízes prepararam o terreno para isso”.
A participação de Dom Pedro na Maçonaria é um dos capítulos mais fascinantes daquele período.
Em 13 de julho de 1822, o Príncipe Regente foi iniciado nos mistérios maçônicos, adotando o nome simbólico de “Guatimozin” (em homenagem ao último imperador asteca).
Sua iniciação não foi um gesto simbólico vazio. Ela o vinculou diretamente à causa independentista que vinha sendo gestada nas Lojas. A influência da sociedade maçônica sobre Dom Pedro foi decisiva para que ele aceitasse a ideia da Independência e a proclamasse em 7 de setembro.
Como afirmou o deputado Izalci Lucas, em 2016: “Em 1822, Maçons desejosos de ver um país mais livre… influenciamos D. Pedro I, iniciado na Ordem, a aceitar a ideia de Independência”.
7 de Setembro: O Coroamento do Trabalho Maçônico
A decisão de 20 de agosto transformou-se em ato público no 7 de setembro. O famoso “Grito do Ipiranga” foi, portanto, o coroamento de um processo que já havia sido decidido nas sombras do Templo.
Como registra o documento da ALMG: “Foi por influência da sociedade maçônica que o príncipe regente Dom Pedro I proclamou a independência em 7 de setembro”.
Não se tratou de um ato improvisado, mas do desfecho de uma longa preparação, na qual a Maçonaria atuou como “sustentáculo dos liberais” e como o espaço onde se articularam as forças que conduziram à emancipação.
Doutrinadores e Historiadores
Brasileiros
Francisco Adolfo de Varnhagen (1816–1878) – O Visconde de Porto Seguro, primeiro grande historiador do Império, consagrou a versão oficial da Independência, mas reconheceu a presença maçônica entre os protagonistas do processo.
José Honório Rodrigues (1913–1987) – Em sua obra Independência: Revolução e Contra-Revolução, analisou o papel da Maçonaria como espaço de sociabilidade que articulava os protagonistas da emancipação.
Pedro Calmon (1902–1985) – Historiador e membro da Academia Brasileira de Letras, afirmou que a Maçonaria teve “a maior parte das responsabilidades” na Independência.
Gustavo Barroso (1888–1959) – Crítico ferrenho da Maçonaria, reconheceu que a Independência “foi realizada à sombra da Acácia”.
Laurentino Gomes (1956–) – Em seu best-seller *1822*, descreve a Maçonaria como “sustentáculo dos liberais” e dedica um capítulo inteiro à sua atuação.
A. Tenório de Albuquerque – Autor de A Maçonaria e a Independência do Brasil, obra de referência sobre o tema.
Internacionais
Mário Marinho Béhring – Importante figura da Maçonaria brasileira, documentou a participação da Ordem na Independência em suas obras.
Hipólito José da Costa (1774–1823) – Grande militante da Maçonaria no Brasil na primeira metade do século XIX, considerado o “mentor da geração da independência”.
Curiosidades
A Independência foi decidida em uma Loja Maçônica: Em 20 de agosto de 1822, Gonçalves Ledo presidiu a sessão que aprovou a separação.
Dom Pedro era maçom: Foi iniciado em 13 de julho de 1822, adotando o nome de “Guatimozin”.
O Dia do Maçom: 20 de agosto celebra a reunião que decidiu a Independência.
Bonifácio foi o primeiro Grão-Mestre: O Grande Oriente do Brasil foi fundado em 17 de junho de 1822.
Duas facções, um objetivo: Bonifácio defendia a monarquia constitucional; Ledo, a república.
A Maçonaria evitou a fragmentação: Segundo pesquisadores, sem a atuação da Ordem, o Brasil se fragmentaria como a América Espanhola.
Sem uma gota de sangue: A Independência, ao menos no centro político, foi conduzida sem conflitos armados, graças à articulação maçônica.
A frase de Ledo: “Os povos não são propriedade de ninguém” ecoa como um grito de liberdade.
Considerações Finais
A Independência do Brasil não foi obra de um único homem nem de um único dia.
Foi o resultado de um processo complexo, no qual a Maçonaria desempenhou um papel central — articulando facções, construindo consensos, formando lideranças e decidindo, em 20 de agosto de 1822, o destino da nação.
O 7 de setembro foi a coroa de um trabalho que começara muito antes, nas reuniões secretas das Lojas.
Compreender a participação da Maçonaria na Independência não é apenas resgatar um capítulo esquecido da história; é reconhecer que a liberdade, muitas vezes, nasce no silêncio dos Templos antes de ecoar nas praças.
E, como nos ensinaram Bonifácio, Ledo e tantos outros obreiros, a verdadeira independência não se proclama apenas uma vez — ela se constrói todos os dias, com esquadro e compasso, na edificação de uma sociedade mais justa e fraterna.
Pesquisa e redação Ivair Ximenes Lopes
Fontes de Pesquisa
Portal de Periódicos da Marinha – A Maçonaria no processo de Independência do Brasil
Folha de S.Paulo – Maçonaria se dividiu durante a Independência do Brasil
Senado Federal – Sessão especial lembra o Dia do Maçom
Senado Federal – Congresso celebra o Dia do Maçom
Senado Federal – Mozarildo comemora Dia do Maçom
ALMG – A independência do Brasil foi realizada à sombra da Acácia
Grande Oriente do Brasil – Fundação do GOB em 1822
Senado Federal – Moção sobre a influência da Maçonaria
Correio Braziliense – A Maçonaria e a Independência
DSpace ALMG – Documentos sobre a Maçonaria e a Independência
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).