O Período Regencial (1831–1840): disputas políticas, revoltas internas e a memória maçônica
1. Introdução
O Período Regencial corresponde a uma das fases mais instáveis e decisivas da história política brasileira. Iniciado com a abdicação de Dom Pedro I, em 7 de abril de 1831, estendeu-se até o Golpe da Maioridade, em 1840, que antecipou a ascensão de Dom Pedro II ao trono.
Sem a figura moderadora do imperador, o Império enfrentou profundas tensões entre projetos políticos concorrentes, revoltas regionais armadas e o desafio de manter a unidade territorial. Nesse contexto, a Maçonaria voltou a exercer papel relevante como espaço de sociabilidade política, debate ideológico e articulação institucional.
2. Influências ideológicas e políticas do Período Regencial
O período foi marcado pela convivência e disputa entre diversas correntes:
Liberalismo constitucional, herdeiro das lutas do Primeiro Reinado;
Federalismo, defendido por setores que buscavam maior autonomia provincial;
Centralismo monárquico, sustentado por grupos conservadores;
Positivismo incipiente, sobretudo entre militares e intelectuais;
Influências do constitucionalismo europeu e norte-americano.
Essas correntes não se expressavam apenas em partidos formais, mas em clubes políticos, jornais, associações civis e Lojas maçônicas.
3. Quem estava no poder: estrutura política regencial
3.1. As Regências
O poder central foi exercido por diferentes arranjos institucionais:
Regência Trina Provisória (1831)
Regência Trina Permanente (1831–1835)
Regência Una:
Diogo Antônio Feijó (1835–1837)
Pedro de Araújo Lima (1837–1840)
O Parlamento adquiriu protagonismo, enquanto o Poder Moderador permaneceu suspenso na prática.
3.2. Grupos políticos
Consolidaram-se três grandes correntes:
Liberais moderados – defensores da ordem constitucional;
Liberais exaltados – favoráveis ao federalismo e reformas profundas;
Regressistas (conservadores) – partidários da centralização e do fortalecimento do poder central.
Esses grupos disputavam influência no governo, nas províncias e na imprensa.
4. Desafios estruturais do período
O Estado imperial enfrentou desafios profundos:
Fragilidade institucional do poder central;
Indisciplina militar;
Crise financeira e fiscal;
Dificuldades de comunicação e integração territorial;
Conflitos entre autonomia provincial e unidade nacional;
Manutenção do regime escravista.
A ausência de um imperador adulto acentuou as disputas políticas e regionais.
5. Relações internacionais
Apesar das turbulências internas, o Brasil manteve relativa estabilidade externa:
Preservação do reconhecimento internacional do Império;
Relações diplomáticas estáveis com Inglaterra, França e Estados Unidos;
Continuidade das negociações comerciais, sobretudo com a Inglaterra;
Atenção às fronteiras sulinas e à instabilidade no Prata.
A política externa foi marcada pela cautela, evitando conflitos internacionais enquanto o país enfrentava revoltas internas.
6. Revoluções e lutas do Período Regencial
O período regencial ficou marcado por uma série de revoltas armadas, que ameaçaram a unidade do Império:
Cabanagem (Pará, 1835–1840) – revolta popular com forte componente social;
Farroupilha (Rio Grande do Sul, 1835–1845) – movimento republicano regional;
Sabinada (Bahia, 1837–1838) – revolta de oficiais e setores urbanos;
Balaiada (Maranhão, 1838–1841) – levante social e sertanejo;
Revoltas liberais urbanas, como a Abrilada e motins militares.
Essas revoltas revelam o caráter fragmentado da sociedade imperial e os limites do poder central.
7. Principais nomes do Período Regencial
Entre as figuras centrais do período, destacam-se:
Diogo Antônio Feijó – regente uno e líder liberal;
Pedro de Araújo Lima (Marquês de Olinda) – regente uno de orientação conservadora;
Evaristo da Veiga – jornalista e líder político liberal;
Bernardo Pereira de Vasconcelos – articulador do Regresso Conservador;
Padre Antônio Diogo Feijó, Limpo de Abreu, Honório Hermeto Carneiro Leão (em ascensão).
Muitos desses nomes mantinham vínculos diretos ou indiretos com a Maçonaria.
8. A Maçonaria no Período Regencial
8.1. Reorganização e atuação
Com o fim do Primeiro Reinado, a Maçonaria recuperou espaço institucional. Lojas maçônicas tornaram-se centros de:
debate político;
articulação parlamentar;
formação de quadros administrativos;
difusão de ideias liberais e constitucionalistas.
A Ordem acompanhou as divisões do período, refletindo em seu interior as disputas entre liberais e conservadores.
8.2. Lideranças e influência
Diversos regentes, parlamentares, magistrados e militares do período são identificados em registros maçônicos ou na tradição histórica como membros da Ordem. A Maçonaria funcionou como rede de sociabilidade das elites políticas, sem atuar como bloco homogêneo.
8.3. A memória maçônica
Na memória institucional da Maçonaria, o Período Regencial é visto como:
fase de afirmação da liberdade política;
resistência ao autoritarismo;
defesa do constitucionalismo e do Estado laico.
A historiografia crítica, contudo, aponta que a Maçonaria foi um espaço de convergência, e não um ator único, coexistindo com outras formas de organização política.
9. O Golpe da Maioridade e o fim da Regência
O acúmulo de crises levou à antecipação da maioridade de Dom Pedro II, em 1840. O chamado Golpe da Maioridade representou:
reação conservadora à instabilidade;
restauração do Poder Moderador;
início de uma fase de maior estabilidade política.
Encerrava-se o período mais turbulento do Império.
10. Considerações finais
O Período Regencial foi uma fase de intensas disputas políticas, revoltas regionais e experimentações institucionais. Nele se definiram os limites da autonomia provincial, o papel do Parlamento e a necessidade de um poder central forte.
A Maçonaria, embora não hegemônica, exerceu papel relevante como espaço de sociabilidade política, formação de lideranças e difusão do liberalismo, permanecendo viva na memória histórica do período.
A compreensão desse momento exige leitura equilibrada, que reconheça tanto a importância das redes maçônicas quanto a complexidade do cenário político imperial.
Autor e Pesquisa Ivair Ximenes Lopes
Fontes
CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem.
FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. História Geral da Civilização Brasileira.
NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. O Império do Brasil.
LYRA, Maria de Lourdes Viana. A Utopia do Poder.
MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema.
BARATA, Alexandre Mansur. Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência do Brasil.
COLUSSI, Eliane. Maçonaria e Poder no Brasil.
Trabalhos históricos e anais do Grande Oriente do Brasil.
Periódicos políticos e maçônicos do século XIX.

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
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O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











