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Louis de Pardaillan de Gondrin, Duque de Antin: O Primeiro Grão-Mestre Francês e o Símbolo da Transição da Maçonaria

Louis de Pardaillan de Gondrin

Louis de Pardaillan de Gondrin, Duque de Antin: O Primeiro Grão-Mestre Francês e o Símbolo da Transição da Maçonaria

1. Introdução

A história da Maçonaria francesa encontra no Duque de Antin um de seus personagens mais emblemáticos e, paradoxalmente, mais enigmáticos. Nomeado em 24 de junho de 1738 como o primeiro grão-mestre francês da Ordem, sua figura marca a transição definitiva da liderança da Maçonaria na França, até então exercida por nobres britânicos exilados, para as mãos da alta aristocracia francesa. Embora seu mandato tenha sido breve — apenas cinco anos, interrompido por sua morte prematura aos 36 anos — e sua atuação pessoal na Ordem tenha sido limitada, o Duque de Antin ocupa um lugar central na historiografia maçônica por simbolizar a emancipação institucional da Maçonaria francesa em relação à Grande Loja de Londres.

Este artigo, fundamentado em fontes históricas e na análise de doutrinadores maçônicos, examina a biografia de Louis de Pardaillan de Gondrin, segundo Duque de Antin, seu papel na consolidação da primeira Grande Loja da França e as curiosidades que envolvem sua passagem pela Ordem.

2. Biografia: Herdeiro de uma Ilustre Linhagem

2.1. Nascimento e Origem Familiar

Louis de Pardaillan de Gondrin nasceu em 9 de novembro de 1707, no Palácio de Versalhes, em pleno coração do poder absolutista francês. Era o filho primogênito de Louis de Pardaillan de Gondrin, marquês de Gondrin (1688–1712), e de Marie Victoire de Noailles, uma das vinte filhas de Anne Jules de Noailles e Marie Françoise de Bournonville. Sua família, a Casa de Pardaillan de Gondrin, era uma antiga linhagem da nobreza gascã, com raízes profundas na história francesa.

O que torna a genealogia do Duque de Antin verdadeiramente notável, contudo, é sua ligação direta com a corte de Luís XIV. Ele era bisneto de Madame de Montespan (Françoise Athénaïs de Rochechouart de Mortemart), a famosa amante do Rei Sol. Seu avô paterno, Louis Antoine de Pardaillan de Gondrin, foi o único filho legítimo de Madame de Montespan e tornou-se o primeiro Duque de Antin. Assim, o jovem Louis cresceu imerso nas intrigas e no esplendor da corte de Versalhes, cercado por uma família que incluía desde bastardos legitimados do rei até figuras proeminentes da nobreza, como o Duque de Noailles e o Duque de La Vallière.

2.2. Juventude e Ascensão Tardia

A vida de Louis foi marcada por perdas e ascensões prematuras. Seu pai faleceu subitamente em 1712, quando Louis tinha apenas cinco anos. Com a morte do pai, ele herdou o título de Marquês de Gondrin. Em 1722, seu avô, o primeiro Duque de Antin, renunciou ao ducado em seu favor, transferindo o título ao neto, então com apenas 15 anos.

Apesar da tenra idade, Louis já acumulava funções importantes: foi nomeado governador do Orléanais aos 14 anos e, com 15 anos, tornou-se oficialmente Duque de Antin. Sua carreira militar também progrediu rapidamente: aos 20 anos, já era coronel do prestigiado Regimento de Picardia.

Em 29 de outubro de 1722, aos 15 anos, casou-se com Françoise Gillonne de Montmorency (1704–1768), descendente de François Henri de Montmorency, Duque de Piney-Luxembourg e Marechal da França. Dessa união nasceram um filho, Louis (1727–1757), que se tornaria o terceiro e último Duque de Antin, e três filhas.

A vida familiar do Duque de Antin também foi marcada por um casamento dinástico notável. Após a morte de seu pai, sua mãe, Marie Victoire de Noailles, casou-se secretamente em 1723 com Louis-Alexandre de Bourbon, Conde de Toulouse, filho legitimado de Luís XIV e, curiosamente, também filho de Madame de Montespan, sua própria avó. Assim, o Duque de Antin tornou-se meio-irmão de Louis Jean Marie de Bourbon, Duque de Penthièvre, um dos homens mais ricos da França antes da Revolução.

2.3. Morte Prematura e Extinção da Linhagem

O Duque de Antin faleceu em 9 de dezembro de 1743, aos 36 anos, vitimado por uma doença breve e repentina. Seu título passou para seu único filho, Louis, que morreu solteiro e sem herdeiros em Bremen durante a Guerra dos Sete Anos (1757). Com sua morte, a linhagem ducal de Antin foi extinta. Sua esposa, Françoise Gillonne, sobreviveu-lhe por 25 anos.

3. O Duque de Antin e a Maçonaria Francesa

3.1. O Contexto: A Maçonaria Francesa antes de 1738

Antes da ascensão do Duque de Antin, a Maçonaria francesa era liderada exclusivamente por nobres britânicos exilados, na sua maioria partidários da causa jacobita. O primeiro Grão-Mestre documentado foi Philip Wharton, Duque de Wharton, reconhecido em 1728, seguido por James Hector MacLean e Charles Radclyffe, Conde de Derwentwater. A estrutura era conhecida como “Grande Loja Inglesa da França” e ainda mantinha laços formais com a Grande Loja de Londres.

Contudo, em 1735, com o crescimento expressivo do número de lojas ditas “stuartistas” (de orientação escocesa e jacobita), surgiu a necessidade de se designar um grão-mestre genuinamente francês, que pudesse liderar uma obediência independente dos interesses britânicos. Foi nesse contexto que as lojas de Paris, mesmo a contragosto dos ingleses, decidiram fundar uma Loja Provincial na França.

3.2. A Instalação como Grão-Mestre Geral e Perpétuo (24 de junho de 1738)

24 de junho de 1738, data simbolicamente escolhida por ser o dia de São João Batista — padroeiro tradicional dos maçons —, Louis de Pardaillan de Gondrin, Duque de Antin, foi solenemente instalado como “Grão-Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons no Reino da França”.

Este evento é considerado por muitos historiadores como o verdadeiro marco fundador da Grande Loja da França enquanto obediência autônoma e francesa. Alguns autores sustentam que, com a eleição do Duque de Antin, a Maçonaria francesa deixou de ser uma mera província da Maçonaria inglesa e passou a constituir uma instituição nacional. Outros, mais cautelosos, preferem ver neste ato menos uma fundação do que uma evolução interna, com a transição da liderança britânica para a francesa.

A nomeação como “perpétuo” (vitalício) conferia ao Duque de Antin uma autoridade que os grão-mestres ingleses anuais jamais haviam ostentado em solo francês, consolidando assim a independência da jovem obediência.

3.3. Um Grão-Mestre de Fato ou de Nome?

Apesar da importância simbólica de sua nomeação, o envolvimento pessoal do Duque de Antin na administração da Maçonaria foi notoriamente limitado. O doutrinador Guy Chassagnard, em sua crônica sobre o Duque de Antin, observa que ele “nunca manifestou qualquer interesse pela franco-maçonaria ou pelos franco-maçons”. O único discurso que lhe é atribuído, proferido em 1740, parece ter sido uma adaptação livre do famoso discurso do Cavaleiro Michael Ramsay de 1737.

O historiador José Filardo corrobora esta visão, afirmando que o Duque de Antin, que morreu prematuramente em 1743, “foi Grão-Mestre por apenas cinco anos e não deixou vestígios particulares no desenvolvimento da Grande Loja da França”. Seu breve mandato — de 1738 a 1743 — foi, portanto, essencialmente honorífico, servindo mais para emprestar à Ordem o prestígio de sua linhagem do que para dirigir efetivamente seus trabalhos.

Após sua morte, sucedeu-lhe Louis de Bourbon-Condé, Conde de Clermont, também príncipe de sangue, que governaria a Grande Loja da França de 1743 até 1771.

4. Curiosidades e Episódios Notáveis

4.1. O Episódio da “Loge de la Rapée” (10 de setembro de 1737)

Um dos episódios mais conhecidos envolvendo o Duque de Antin — e que lhe granjeou a fama de protetor da Maçonaria perante as autoridades — ocorreu em 10 de setembro de 1737, portanto, antes mesmo de sua nomeação como grão-mestre. Naquela noite, uma assembleia maçônica reunia-se na casa do comerciante de vinhos Chapelot, no bairro da Rapée, em Paris.

O comissário de polícia Jean Delépinay, informado da reunião, dirigiu-se ao local com o objetivo de dispersar os maçons, uma vez que tais assembléias contrariavam a legislação vigente. Segundo o relato do historiador maçônico Clavel (publicado um século depois), o Duque de Antin — então um dos membros mais eminentes da Ordem — teria surgido no local, enfrentado rudemente o comissário e ordenado que ele se retirasse.

A historiografia moderna ressalta, no entanto, que nenhuma fonte escrita da época confirma esta cena. A gravura que imortalizou o episódio foi executada mais de um século depois, por volta de 1843, pela editora Pagnerre, e não deve ser tomada como testemunho histórico preciso. Contudo, independentemente de sua veracidade factual, a narrativa sobreviveu porque captura uma verdade simbólica essencial: o apoio de um grande senhor do reino colocava a Maçonaria acima das leis, e esta imagem impregnou a iconografia maçônica por todo o século XIX.

4.2. A Publicação da Segunda Edição das Constituições de Anderson (1738)

O Duque de Antin estava à frente da Grande Loja da França no momento em que foi publicada a segunda edição das Constituições de James Anderson, em 1738. Nesta edição, pela primeira vez, reconhecia-se oficialmente a existência de uma Grande Loja autônoma na França. O texto afirma literalmente:

“A Loja antiga da cidade de York, e as Lojas da Escócia, Irlanda, França e Itália têm seu próprio Grão-Mestre, e possuem suas Constituições, Deveres e Regulamentos, à semelhança de seus irmãos da Inglaterra.”

Esta passagem conferiu legitimidade internacional à liderança do Duque de Antin e consolidou o lugar da França entre as grandes obediências maçônicas europeias.

4.3. O “Grande Maître Général et Perpétuel”: Um Título sem Paralelo

O título concedido ao Duque de Antin — “Grão-Mestre Geral e Perpétuo” — era incomum e revelador. Ao contrário dos grão-mestres ingleses, eleitos anualmente, o Duque de Antin recebeu um mandato vitalício, o que refletia tanto o prestígio de sua linhagem quanto a necessidade de uma autoridade estável para a jovem obediência francesa. Este título “perpétuo” seria mantido por seus sucessores até 1773, quando a Grande Loja da França se transformaria no Grande Oriente da França.

4.4. Uma Figura Marginalizada pela Historiografia

Uma curiosidade notável, apontada pelo historiador francês Yves Hivert-Messeca, é a escassez documental sobre o Duque de Antin. “A cronologia, a natureza e os usos da nova confraria na França são frequentemente difíceis de precisar porque a documentação é rara, fragmentária e frequentemente imprecisa”. Esta dificuldade é ainda mais aguda no caso do Duque de Antin, cujo nome é lembrado mais pelo que representa institucionalmente doque por suas ações concretas. Ele é, assim, uma figura mais simbólica do que factual na história da Maçonaria.

4.5. A Conexão com o Rei Luís XV

O Duque de Antin gozava de uma proximidade incomum com o rei Luís XV. O historiador Guy Chassagnard afirma que, por fazer parte do séquito real — como resultado dos antigos amores da Marquesa de Montespan e do novo casamento de sua mãe com o filho caçula do Rei Sol —, o Duque de Antin recebeu do soberano “a insigne honra de presidir, a partir de 1738, ao destino da primeira Ordem maçônica francesa”. Esta relação pessoal com o monarca explica por que a nomeação de um nobre de sangue para liderar uma sociedade discreta e por vezes perseguida foi possível, e por que a Maçonaria francesa pôde desfrutar de uma proteção que lhe faltava em outros países europeus.

5. Conclusão

O Duque de Antin, Louis de Pardaillan de Gondrin, é uma figura histórica cuja importância para a Maçonaria francesa reside mais no simbolismo de sua nomeação do que na efetividade de seu mandato. Nomeado em 1738 como o primeiro grão-mestre francês, ele personifica a emancipação da Maçonaria da França em relação à tutela britânica e a sua transformação em uma instituição aristocrática nacional.

Sua breve vida — nascido em Versalhes em 1707 e falecido em 1743 aos 36 anos — foi marcada pelo privilégio de uma linhagem ilustre e pela ascensão precoce a cargos e títulos de relevo. No entanto, o seu desinteresse pessoal pela administração maçônica, aliado à escassez de fontes históricas sobre sua atuação, fazem dele uma figura mais reverenciada do que conhecida.

Não obstante, seu legado é indelével. Foi sob seu grão-mestrado que a segunda edição das Constituições de Anderson reconheceu a autonomia da Grande Loja francesa; e foi sua nomeação como “Grão-Mestre Geral e Perpétuo” que lançou as bases para o desenvolvimento da obediência que, em 1773, se transformaria no Grande Oriente da França — a mais influente potência maçônica do continente europeu.

Como observa o historiador Guy Chassagnard, o Duque de Antin “não deixou vestígios particulares” na história operacional da Maçonaria, mas sua nomeação permanece como um marco fundador: o momento em que a Maçonaria na França deixou de ser uma associação de exilados britânicos para se tornar uma instituição da nobreza e do Iluminismo francês.

Pesquisa e redação: Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • CHASSAGNARD, Guy. “Le duc d’Antin, grand maître”. In: Miscellanées MaçonniquesGADLU.INFO, 2019.
  • DACHEZ, Roger.Histoire de la franc-maçonnerie française. Paris: Presses Universitaires de France, coll. “Que sais-je?”, 2003. (Capítulo II: “Le Siècle d’or (1725-1793)”, pp. 43-77).
  • FILARDO, José. “1773: 250 anos atrás – Da primeira Grande Loja ao Grande Oriente da França”. Bibliot3ca, 2023.
  • HIVER-MESSECA, Yves. “Jalons pour l’histoire de la genèse de la franc-maçonnerie en France”. In: yveshivertmesseca.wordpress.com, 2 jan. 2015.
  • JAUNEAUX, Laurent. “Concise History of the French Regular Freemasonry”. Regular Grand Lodge of Belgium, 2009 (arquivado).
  • JUGIE, Sophie. “Le duc d’Antin ou le parfait courtisan : réexamen d’une réputation”. In: Bibliothèque de l’École des chartes, vol. 149, n. 2, 1991, pp. 349-379.
  • “Louis de Pardaillan de Gondrin (1707–1743)”. In: Wikipedia (inglês e francês).
  • “Grand maître (franc-maçonnerie)”. In: Wikipédia (francês).
  • “Grande Loge de France: two obediences, one confusion”. In: Nos Colonnes, 11 abr. 2026.
  • “Histoire du Grand Orient de France – Première partie (1728-1815)”. In: Nos Colonnes, 2 fev. 2024.
  • “Un grand seigneur héroïsé par l’historiographie : le duc d’Antin à la Loge de la Rapée en 1737”. In: Bibliothèque nationale de France (BnF) Essentiels.
  • “Veneráveis vitalícios e donos de loja – Maçonaria Francesa do século XVIII”. In: O Ponto Dentro do Círculo, 17 mar. 2022.
Marcado:

MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas três "potências" são reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

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A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

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