Ao longo dos meus anos de estudosobre os gigantes que moldaram a fé cristã nos primeiros séculos, poucos nomes me provocaram uma admiração tão profunda quanto o de Santo Atanásio de Alexandria.
Ele não foi um teólogo de gabinete, nem um administrador que se curvava às conveniências do poder; foi, antes de tudo, um homem que, como poucos, compreendeu que a verdade da fé não se negocia e que a salvação da alma está em jogo quando se compromete a divindade de Cristo.
A sua vida, marcada por cinco exílios, perseguições implacáveis e uma corageminabalável, é um testemunho de que a fidelidade à ortodoxia, mesmo quando se está sozinho contra o mundo, é o caminho que conduz à vitória eterna.
Neste artigo, convido o leitor a conhecer a trajetória, as obras e as curiosidades que cercam este que é, sem dúvida, o grande defensor da divindade de Cristo.
Origens e Formação
Atanásio (em grego: Ἀθανάσιος Ἀλεξανδρείας) nasceu por volta de 296 d.C. (algumas fontes indicam 295) em Alexandria, no Egito, ou possivelmente na cidade de Damanhur, próxima ao delta do Nilo. A Alexandria da época era o mais importante centro comercial e intelectual do Império Romano, um caldeirão de culturas, filosofias e tradições religiosas.
Foi nesse ambiente que Atanásio, filho de uma família cristã, recebeu uma boa educação cultural.
Desde a infância, Atanásio estava convencido de que um bom teólogo deve necessariamente ser também um bom cristão, um santo. A sua infância coincidiu com a grande perseguição de Diocleciano (303-313), e Atanásio pôde admirar, por um lado, a coragem dos mártires e, por outro, a fraqueza dos lapsi — os que, por medo, sacrificavam aos deuses e depois pediam para ser readmitidos na comunhão da Igreja.
Ainda adolescente, foi considerado um dos homens mais inteligentes de Alexandria. Ingressou na Igreja por meio do bispo Alexandre e tornou-se seu assessor especial. Conhecia profundamente a filosofia grega, as teorias das diversas escolas filosóficas e, em particular, o neoplatonismo.
Cita Homero mais de uma vez em suas obras e conhecia a retórica de Demóstenes. Era fluente em grego e utilizava também o copta em seus escritos, embora admitisse não saber nada de hebraico.
Em 325, ainda diácono, Atanásio participou do Concílio de Niceia como assistente do bispo Alexandre. Foi ali que a questão de Ário — que negava a divindade plena de Cristo — foi solenemente rechaçada, e os bispos proclamaram que o Filho é “da mesma substância que o Pai”.
O nome de Atanásio é o mais citado em todos os registros sobre esse concílio. Com seus discursos empolgantes, sua argumentação bíblica brilhante e a lucidez de sua doutrina, ele foi essencial na defesa e manutenção da ortodoxia cristã.
Em 328, com a morte do bispo Alexandre, Atanásio tornou-se seu sucessor, sendo aclamado tanto pelo povo quanto pelo clero. Tinha então apenas cerca de 31 anos, e sua eleição foi contestada pelos arianos sob a alegação de que ele ainda não havia atingido a idade canônica de 30 anos.
Os Cinco Exílios e a Luta Contra o Arianismo
A vida de Atanásio como bispo foi uma longa batalha contra o arianismo, que se tornou a heresia mais perigosa do século IV. Apoiados por imperadores, os arianos espalharam calúnias incríveis contra ele. Durante quase meio século, Atanásio foi o principal defensor da divindade de Cristo, enfrentando sozinho o que parecia ser o mundo inteiro.
Atanásio sofreu cinco exílios ao longo de sua vida, totalizando aproximadamente duas décadas de afastamento forçado de sua sé. Esses exílios levaram-no por todo o Império: desde Roma, no sudoeste, até Tréveris, na Germânia, no noroeste; e de Constantinopla e Niceia, no nordeste, até Tiro, Alexandria e os desertos do sudeste.
Seus exílios ocorreram nos seguintes períodos:
336-337: exilado em Tréveris (Gália) pelo imperador Constantino.
339-346: exilado em Roma, após ser deposto por um sínodo ariano.
356-362: o mais longo exílio, passado nos desertos do Egito, onde escreveu algumas de suas obras mais importantes.
362-363: breve exílio durante o reinado de Juliano, o Apóstata.
365-366: último exílio, sob o imperador Valente.
Apesar de todas as perseguições, Atanásio nunca abandonou a defesa da fé nicena. Sua famosa frase — “Atanásio contra o mundo” (Athanasius contra mundum) — tornou-se um símbolo da resistência da ortodoxia contra o arianismo.
Atanásio faleceu em 2 de maio de 373, em Alexandria, aos 77 anos. Logo após sua morte, foi inserido entre os celebres “Padres da Igreja”, sendo canonizado e declarado Doutor da Igreja. É venerado em praticamente todas as confissões cristãs. Sua festa litúrgica é celebrada em 2 de maio na Igreja Católica Romana, em 15 de maio na Igreja Ortodoxa Copta e em 18 de janeiro nas demais igrejas orientais.
Obras e Pensamento Teológico
Atanásio foi um escritor profícuo. Mesmo vivendo entre perseguições e exílios, não cessava de atacar as heresias com seus escritos. Sua produção literária é ampla, abrangendo gêneros apologéticos, históricos, exegéticos, homiléticos e epistolares. A maioria de suas obras está relacionada com a defesa do Credo de Niceia, ou seja, da consubstancialidade e da divindade do Verbo.
Principais Obras
Contra os Pagãos e Sobre a Encarnação do Verbo: Sua primeira grande obra, na qual se delineia as grandes linhas de sua cristologia: “O Verbo de Deus que Se fez homem para que nós fôssemos Deus”.
Tratado Contra os Arianos: Sua grande obra, em três livros, na qual discute longamente os textos bíblicos nos quais Ário pretendia fundamentar sua heresia. O primeiro livro defende a definição do Concílio de Niceia, a eternidade do Filho de Deus e a unidade da essência divina. O segundo e o terceiro fazem uma exegese dos textos bíblicos debatidos nas controvérsias.
Apologia Contra os Arianos: Redigida aproximadamente em 357, quando voltou de seu segundo exílio. Trata-se de cartas, atas e decisões de concílios regionais.
Vida de Santo Antão: A biografia de Santo Antão do Deserto, que se tornou um clássico da literatura espiritual e contribuiu decisivamente para a difusão do monasticismo.
Cartas Pascoais: Cartas anuais nas quais anunciava a data da Páscoa e mantinha contato com seu povo durante os exílios.
Símbolo Atanasiano
O chamado Símbolo Atanasiano (ou Quicumque) é um compêndio da fé católica redigido em quarenta sentenças rítmicas, que propõe os mistérios da Santíssima Trindade e da Encarnação do Verbo. Esta obra foi atribuída a Atanásio a partir do século VII, mas foi desconsiderada de sua autoria no século XVII, quando se averiguou que o texto original é latino e não grego.
Amigo de Santo Antão: Atanásio foi amigo do grande eremita Santo Antão, a ponto de receber uma das duas peles de ovelha deixadas por Antão como sua herança. Foi Atanásio quem escreveu a biografia de Antão, que se tornou um dos textos mais influentes do monasticismo.
“Atanásio contra o mundo”: A frase Athanasius contra mundum tornou-se célebre para descrever sua luta solitária contra o arianismo, quando parecia que o mundo inteiro havia abraçado a heresia.
Cinco exílios em quase meio século: Atanásio foi exilado cinco vezes, totalizando aproximadamente vinte anos longe de sua diocese.
Participação no Concílio de Niceia como diácono: Embora fosse apenas diácono, Atanásio teve um papel decisivo no Concílio de Niceia (325), que definiu o arianismo como heresia.
Bispado de 46 anos: Atanásio governou a Igreja de Alexandria por 46 anos (328-373), um período marcado por intensas perseguições e sofrimentos.
Conheceu cinco papas e cinco imperadores: Durante sua longa vida, Atanásio conviveu com cinco pontífices romanos e cinco imperadores, testemunhando as transformações do Império.
A acusação de assassinato: Seus inimigos arianos chegaram a acusá-lo de assassinato, alegando que ele teria matado um bispo chamado Arsênio. Atanásio provou sua inocência ao apresentar Arsênio vivo e bem na frente de seus acusadores.
A “mão de ferro” de Atanásio: Dizia-se que Atanásio tinha uma “mão de ferro” para governar a Igreja, mas um “coração de ouro” para com os pobres e necessitados.
Venerado por todas as confissões cristãs: Atanásio é um dos poucos santos venerados tanto pela Igreja Católica quanto pelas igrejas ortodoxas e coptas.
Legado
O legado de Santo Atanásio de Alexandria é imenso. Ele é, antes de tudo, o grande defensor da divindade de Cristo e o paladino da ortodoxia nicena.
Sem a sua corageminabalável, a Igreja poderia ter sucumbido ao arianismo, que teria reduzido Cristo a uma mera criatura e, com isso, esvaziado o mistério da Encarnação e da salvação.
Atanásio nos ensinou que a teologia não é um exercício intelectual vazio, mas uma questão de vida ou morte — pois, se Cristo não é Deus, então a nossa salvação não está assegurada. A sua máxima, “Deus Se fez homem para que nós fôssemos Deus” , resume a grandeza da sua visão teológica: a Encarnação é o ato supremo do amor divino, que eleva a humanidade à participação na vida divina.
Como um dos quatro grandes Doutores da Igreja Oriental, Atanásio continua a ser uma referência para todos os que buscam defender a integridade da fé.
Sua vida é um testemunho de que a verdade, mesmo quando parece derrotada, sempre triunfa — e que a coragem de um só homem, quando alimentada pela graça, pode mudar o curso da história.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). “Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.
A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.
No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.
A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.
Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.
Maçonaria Regular MS
A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).