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Caio Plínio Segundo (Plínio, o Velho)

Caio Plínio Segundo (Plínio o Velho) O Homem que Morreu Tentando Salvar os Outros

Caio Plínio Segundo (Plínio, o Velho): O Homem que Morreu Tentando Salvar os Outros

Introdução 

Quando comecei a pesquisar sobre a ciência na Roma Antiga, deparei com um nome que, confesso, inicialmente me pareceu apenas um intelectual de gabinete, mais preocupado com livros do que com o mundo real: Caio Plínio Segundo.

Mas ao mergulhar em sua história, descobri um dos personagens mais fascinantes e trágicos da Antiguidade. Plínio, o Velho — como ficou conhecido — foi ao mesmo tempo o maior compilador do conhecimento de seu tempo e um homem de ação, um oficial romano que, aos 56 anos, comandava a frota imperial na Baía de Nápoles. E foi precisamente em ato de serviço, tentando salvar amigos e fazer ciência, que ele encontrou sua morte durante a erupção do Vesúvio que soterrou Pompeia.

Sua obra-prima, a História Natural, é a única enciclopédia romana completa que sobreviveu até nossos dias, uma cápsula do tempo de 37 volumes que nos permite ouvir, ainda hoje, a voz de um homem movido por uma curiosidade insaciável sobre o mundo ao seu redor. Neste artigo, compartilho os resultados de uma pesquisa profunda sobre esse gigante romano.

1.  Das Províncias à Corte Imperial

Origens e Juventude

Caio Plínio Segundo (em latim: Gaius Plinius Secundus) nasceu no ano 23 d.C. (ou possivelmente 24 d.C.) na cidade de Novum Comum, a atual Como, no norte da Itália. Descendia de uma próspera família da ordem equestre, a segunda classe social mais elevada da Roma Antiga, atrás apenas dos senadores.

Era filho de Caio Plínio Celer e de Marcella, e neto do senador Caio Cecílio. Sua irmã, Plínia Marcella, foi mãe de seu famoso sobrinho, Plínio, o Jovem, que se tornaria um importante advogado e administrador, e cujas cartas são nossa principal fonte sobre os últimos dias do tio.

Ainda jovem, Plínio foi levado por seu pai a Roma, onde sua educação foi confiada a um amigo da família, o poeta e general Públio Pompônio Segundo, de quem Plínio adquiriu o amor pelo aprendizado e a quem mais tarde dedicaria uma biografia. Em Roma, teve contato com os grandes gramáticos e retóricos de seu tempo, como Quinto Remmio Palemão e Arellio Fusco.

Carreira Militar e Serviço Público

Plínio iniciou sua carreira militar por volta dos 23 anos, servindo na Germânia sob o comando de Cneu Domício Corbulo. Participou da subjugação da tribo dos Cáucis e da construção de um canal entre o Reno e o Mosa. Durante os anos turbulentos do reinado do imperador Nero (54-68 d.C.), Plínio preferiu viver em relativa reclusão, dedicando-se a estudar e escrever, evitando produzir qualquer texto que pudesse atrair a atenção indesejada do tirano.

Após o suicídio de Nero e o “ano dos quatro imperadores” (69 d.C.), subiu ao trono Vespasiano, antigo companheiro de Plínio na Germânia. Sob seu reinado, Plínio retornou ao serviço público, sendo nomeado procurador (uma espécie de governador fiscal) em diversas províncias: na Gália Narbonense (70 d.C.), na Espanha romana (73 d.C.) e também na Gália Bélgica (74 d.C.). Durante sua estada na Espanha, dedicou-se a examinar a agricultura, a mineração e os costumes locais, visitando também a África.

Caracterizado por uma curiosidade insaciável, Plínio jamais interrompia seus estudos, mesmo durante as viagens que o afastavam de Roma. Leitura e escrita eram seus companheiros constantes. Sua rotina de trabalho era tão intensa que seu sobrinho nos conta que ele dedicava pouco tempo ao sono e às distrações. Plínio foi um dos mais ferrenhos críticos da extravagância de sua época, opondo-se ao luxo excessivo que, em suas palavras, corrompiam o espírito romano.

A Amizade com os Imperadores Flaviano e a Última Missão

A amizade com Vespasiano lhe rendeu influência e prestígio. Plínio também gozava da estima do filho e sucessor de Vespasiano, Tito, a quem dedicou sua História Natural, publicada em 77 d.C.. Sua última nomeação foi a de comandante da frota imperial estacionada em Miseno, na Baía de Nápoles, incumbido de reprimir a pirataria e garantir a segurança da região.

Foi precisamente desse posto, em agosto de 79 d.C., que ele testemunhou, do outro lado da baía, o início da erupção do Monte Vesúvio que vitimaria as cidades de Pompeia e Herculano. Movido por seu espírito científico e por seu senso de dever, ordenou o preparo de uma galera e partiu em direção ao vulcão — primeiro para investigar o fenômeno, depois para tentar resgatar amigos que estavam em perigo.

2. O Homem que Escreveu o Mundo em 37 Livros

A Única Obra que Sobreviveu: História Natural (Naturalis Historia)

Apesar de ter escrito extensamente sobre os mais diversos assuntos (gramática, eloquência, história militar e biografias), a única obra de Plínio que chegou até nós é a História Natural ( Naturalis Historia ) — e isso já é um feito extraordinário, tratando-se de uma enciclopédia completa e monumental. Publicada em 77 d.C., a obra é dedicada ao imperador Tito.

Composta de 37 livros (ou volumes), a História Natural se propõe a ser uma compilação exaustiva de todo o conhecimento disponível sobre o mundo natural, fruto de uma seleção feita a partir de mais de 2.000 obras de 200 autores antigos diferentes. Plínio a definia como uma obra nova e sem precedentes na literatura romana. Longe de ser um relato de fatos passados, seu título pode ser melhor entendido como uma “Pesquisa Cultural” , pois “natural”, na época, referia-se a toda a cultura conhecida, tanto a construída pela natureza quanto pelo homem.

O plano da obra é meticuloso:

  • Livro I: Prefácio, dedicatória, índice e a lista das fontes consultadas (uma inovação, pois Plínio citava nominalmente os autores de onde extraía suas informações).

  • Livro II: Cosmologia, astronomia e meteorologia (incluindo a descrição do universo e dos corpos celestes).

  • Livros III a VI: Geografia e etnografia (descrição detalhada das terras e povos do mundo romano).

  • Livro VII: Antropologia e fisiologia humana (incluindo curiosidades sobre a longevidade e anomalias).

  • Livros VIII a XI: Zoologia (descrição de animais terrestres e aquáticos, insetos e aves).

  • Livros XII a XXVII: Botânica (árvores, plantas, flores e suas propriedades medicinais).

  • Livros XXVIII a XXXII: Zoologia aplicada à medicina (remédios extraídos de animais).

  • Livros XXXIII a XXXVII: Mineralogia e história da arte (descrição de metais, pedras preciosas, ourivesaria, escultura, pintura e arquitetura).

Para a posteridade, a obra é uma fonte inestimável de informações sobre a arte antiga. Sem Plínio, por exemplo, nosso conhecimento sobre a pintura e a escultura gregas seria fragmentário.

As Obras Perdidas

Sabemos, por citações em outros autores e por referências do próprio Plínio, que ele produziu uma vasta obra, hoje completamente perdida. Entre os títulos desaparecidos estão:

  • Sobre o Uso do Dardo na Cavalaria — um tratado técnico.

  • A Guerra Germânica (Bella Germaniae) — 20 livros sobre as guerras romano-germânicas.

  • Uma História de Roma em 31 Livros (A fine Aufidii Bassi), cobrindo o período do final do reinado de Tibério até a ascensão de Vespasiano.

  • Vida de Pompônio Segundo — uma biografia de seu mentor.

  • Estudos de Gramática (Dubius Sermo).

Há registro de que, para compilar a História Natural, Plínio havia acumulado cerca de 160 volumes de excertos de outras obras, coletados por um sistema engenhoso: um servo lia em voz alta enquanto outro escrevia os trechos sob seu ditado. Este acervo monumental foi legado ao seu sobrinho, mas não sobreviveu.

3. Curiosidades e Feitos Memoráveis

Ao longo da pesquisa, deparei com diversos fatos surpreendentes que humanizam essa figura tão prodigiosa.

  1. “A sorte favorece os audazes”: Esta é a frase latina (Fortes Fortuna Iuvat) que Plínio teria dito ao timoneiro de seu navio que o avisava do perigo iminente da erupção. A frase, registrada por seu sobrinho, tornou-se seu lema mais famoso e resume sua personalidade ousada.

  2. O “apóstolo da ciência romana”: Plínio foi chamado por esse epíteto em reconhecimento ao seu esforço monumental para compilar, organizar e transmitir o conhecimento de sua época. Foi o maior expoente da tradição enciclopédica latina.

  3. O sobrinho que preferiu a lição de casa: Durante a erupção, o sobrinho de Plínio, Plínio, o Jovem, que estava com sua mãe em Miseno, foi convidado pelo tio para se juntar à missão de resgate. O adolescente de 17 anos recusou — preferiu ficar em casa e terminar seus deveres de estudante, que consistiam em fazer excertos da obra do historiador Lívio. Foi uma decisão sábia, pois lhe salvou a vida, e foi ele quem registrou a morte heroica do tio para a posteridade.

  4. O crítico ferrenho do luxo: Plínio dedicou longas passagens de sua obra a atacar o luxo ostensivo de seus contemporâneos. Fustigava o uso de móveis de madeiras exóticas, a prática de usar vários anéis nos dedos e a extravagância das mesas de uma perna só, vendo nesses excessos a decadência dos costumes romanos.

  5. O trabalho como forma de culto: Plínio, o Jovem, conta que seu tio considerava todo o tempo não dedicado ao estudo como tempo perdido. O velho Plínio escrevia, lia e ditava constantemente, mesmo nas horas de refeição. Enquanto tomava banho, ditava anotações para um escriba. Em suas viagens, mantinha-se sempre com um livro à mão.

  6. Uma fortuna recusada: Enquanto Plínio estava na Espanha, o governador da província, Lárcio Licínio, ofereceu-lhe a fabulosa soma de 400.000 sestércios por sua coleção de 160 volumes de excertos. Plínio recusou a oferta, preferindo manter seu acervo pessoal e legá-lo ao sobrinho.

4. A Morte Heroica: O Fim do Gigante sob as Cinzas do Vesúvio

O dia 24 de agosto de 79 d.C. entrou para a história como o dia em que o Monte Vesúvio explodiu em uma das maiores catástrofes da Antiguidade, soterrando Pompeia e Herculano. Plínio, o Velho, estava em Miseno, do outro lado da baía, no comando da frota imperial.

As Cartas de Plínio, o Jovem: Nosso Único Testemunho

Tudo o que sabemos sobre a morte de Plínio, o Velho, vem de uma carta que seu sobrinho escreveu ao historiador Tácito, cerca de 25 anos depois. O jovem Plínio descreve em detalhes o que viu e o que soube dos sobreviventes.

Ao ver uma nuvem com a forma de um pinheiro mediterrâneo se erguendo do vulcão, Plínio ordenou que preparassem um navio. Seu plano inicial era científico: aproximar-se o máximo possível para estudar o fenômeno. Logo, porém, recebeu um pedido de socorro de sua amiga Retina, que estava em perigo na praia. Mudou então seus planos e partiu para o resgate.

A sorte favorece os audazes” , teria dito Plínio ao timoneiro que tentava demovê-lo. O mar, porém, estava revolto, e as cinzas começavam a cair intensamente. Incapaz de seguir para a posição de Retina, rumou para Estábia, a cerca de 5 km do vulcão, onde aportou e encontrou seu amigo Pomponiano.

Naquela noite, a situação piorou drasticamente. Sismos repetidos abalavam a região, e a praia tornou-se inacessível. Enquanto os outros fugiam, Plínio, que sofria de asma (ou algum problema respiratório), foi encontrado morto na manhã seguinte.

Seu corpo estava intacto, sem ferimentos, vestido como estava e com a aparência de um homem dormindo pacificamente. A causa provável foi a asfixia pelos gases sulfurosos e a densa nuvem de cinzas.

O Mistério do Crânio de Plínio

Dezoito séculos depois, por volta do ano 1900, um proprietário de terras chamado Gennaro Matrone desenterrou mais de 70 esqueletos nas proximidades da antiga Estábia. Entre eles, um chamou a atenção: um corpo deitado de costas, com um anel de ouro, colar e pulseiras, e a cabeça apoiada em um pilar, numa posição que sugeria o sono.

Um diplomata francês sugeriu que aquele poderia ser o próprio Plínio. A identificação, porém, foi ridicularizada. A relíquia acabou no Museo dell’Arte Sanitaria, em Roma, etiquetada apenas como “crânio atribuído a Plínio”. A autenticidade permanece em aberto.

5. Legado e Conclusão

O legado de Plínio, o Velho, é imenso e contraditório. Por um lado, foi um dos maiores compiladores científicos do Ocidente. Sua História Natural foi a “Wikipédia” do mundo romano, um depósito de todo o saber disponível que serviu de referência para europeus, bizantinos e árabes durante toda a Idade Média, e para os humanistas do Renascimento. Teólogos como Isidoro de Sevilha e Alberto Magno beberam diretamente dessa fonte. A obra foi um dos primeiros grandes textos a ser impresso na Europa, ao lado da Bíblia.

Por outro lado, Plínio foi frequentemente acusado de acriticidade. Sua enciclopédia está repleta de informações contraditórias, mitos e fantasias herdadas de suas fontes, sem qualquer tentativa de verificação empírica sistemática. Ele não era um “cientista” no sentido moderno — era um compilador, um organizador do saber alheio. Ainda assim, sua importância é inestimável.

Ao final desta pesquisa, entendo que Plínio, o Velho, foi o arquétipo do intelectual romano: prático, abrangente, enciclopédico.

Ele não se limitou ao gabinete — foi também um administrador eficiente, um militar corajoso e um homem de ação. Sua morte, em ato de serviço e coragem, imortalizou-o. Em seu rosto de ancião adormecido, encontrado intacto na manhã seguinte à catástrofe, reconhecemos o perfil daquele que dedicou a vida a compreender a natureza e a proteger seus semelhantes.

Pesquisa e Redação Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • WIKIPÉDIA. Plínio, o Velho.

  • WIKIPÉDIA. História Natural (Plínio).

  • BRITANNICA. Pliny the Elder: Roman scholar.

  • E BIOGRAFIA. Plínio, o Velho.

  • CLÁSSICOS LITERÁRIOS. Obras de Plínio, o Velho.

  • INFO ESCOLA. História Natural (Plínio).

  • HISTORY. Pliny the Elder Died Trying to Save Friends from Vesuvius.

  • OXFORD UNIVERSITY PRESS BLOG. The mystery of the Elder Pliny’s skull.

  • TRE CCANI. Plinio il Vecchio.

  • CETICISMO. NET. Plínio, o Velho: Heroísmo e Tragédia na Erupção do Vesúvio

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MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

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A Maçonaria Regular

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A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

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 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

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