Home / Livre / Pesquisa /  Félix Guattari (1930‑1992): O Militante da Esquizoanálise

 Félix Guattari (1930‑1992): O Militante da Esquizoanálise

Félix Guattari (1930‑1992)

Félix Guattari (1930‑1992): O Militante da Esquizoanálise

Félix Guattari (1930–1992) foi um filósofo, psicanalista, psiquiatra e militante político francês, reconhecido como um dos mais originais pensadores da segunda metade do século XX. Sua obra situa-se na interseção entre psicanálise, filosofia, política, psiquiatria, semiótica, estética e ecologia, tendo exercido profunda influência sobre as ciências humanas, os estudos políticos e a teoria social contemporânea.

Guattari nasceu em 30 de abril de 1930, em Villeneuve-les-Sablons, na França. Desde jovem envolveu-se com questões políticas e sociais, aproximando-se de movimentos de esquerda e de experiências de transformação institucional. Sua formação intelectual ocorreu em um período marcado pela Segunda Guerra Mundial, pela reconstrução europeia, pela emergência dos movimentos anticoloniais e pelas intensas disputas políticas e filosóficas que caracterizaram a França do pós-guerra.

Formação e aproximação com a psiquiatria

Guattari estudou farmácia e posteriormente medicina, direcionando sua trajetória para a psiquiatria e a psicanálise. Entretanto, desde cedo demonstrou insatisfação com os modelos tradicionais de tratamento da doença mental.

Sua experiência profissional seria particularmente marcada pelo trabalho na Clínica de La Borde, instituição psiquiátrica fundada por Jean Oury, em 1953. Guattari ingressou na instituição em 1955 e permaneceu profundamente ligado a ela durante décadas.

La Borde tornou-se um importante laboratório de experiências de psiquiatria institucional, buscando superar o modelo tradicional do hospital psiquiátrico baseado na hierarquia rígida entre médicos, funcionários e pacientes.

Nesse contexto, Guattari passou a defender a ideia de que o sofrimento psíquico não poderia ser compreendido exclusivamente como um fenômeno individual. As relações sociais, familiares, institucionais, econômicas e políticas também participariam da produção da subjetividade.

Essa concepção seria fundamental para o desenvolvimento posterior de sua filosofia.

A psiquiatria institucional

Guattari tornou-se um dos principais representantes da chamada psicoterapia institucional e, posteriormente, da psiquiatria institucional.

Seu pensamento procurava transformar não apenas o indivíduo considerado “doente”, mas também as próprias estruturas institucionais responsáveis pelo tratamento.

Para Guattari, uma instituição poderia produzir formas de alienação semelhantes às encontradas no interior da própria sociedade. Por isso, a transformação da saúde mental deveria envolver uma transformação das relações institucionais.

Essa perspectiva o levou a questionar a separação rígida entre:

A clínica, para Guattari, deveria tornar-se também um espaço de produção de autonomia e transformação coletiva.

Militância política

A trajetória intelectual de Guattari esteve profundamente vinculada à militância política.

Durante as décadas de 1950 e 1960, participou de organizações e movimentos da esquerda francesa, envolvendo-se em questões relacionadas ao anticolonialismo, à luta contra a Guerra da Argélia, aos movimentos estudantis e às transformações sociais.

Participou também de movimentos ligados à extrema esquerda francesa e manteve intensa atividade política durante os acontecimentos de Maio de 1968.

Para Guattari, política não deveria ser compreendida apenas como disputa pelo controle do Estado. Existiriam também relações de poder presentes na família, na escola, na fábrica, no hospital, na sexualidade, na linguagem e nas relações cotidianas.

Essa percepção conduziu-o à ideia de que a transformação política deveria ocorrer também no nível da subjetividade.

O encontro com Gilles Deleuze

O acontecimento intelectual mais importante da trajetória de Guattari foi seu encontro com o filósofo Gilles Deleuze.

A aproximação ocorreu na década de 1960 e resultou em uma das parcerias intelectuais mais influentes da filosofia contemporânea.

Guattari vinha da psiquiatria, da psicanálise e da militância política; Deleuze vinha principalmente da filosofia e da história da filosofia.

A combinação dessas experiências produziu uma crítica radical às concepções tradicionais de sujeito, desejo, poder e sociedade.

A parceria resultou em obras fundamentais como:

O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia (1972)
Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia (1980)

Esses livros são considerados marcos do pensamento contemporâneo.

O Anti-Édipo

Publicado em 1972, O Anti-Édipo representou uma ruptura importante com determinadas concepções tradicionais da psicanálise.

Guattari e Deleuze criticaram principalmente a tendência de reduzir o desejo a estruturas familiares e edípicas.

Para eles, o desejo não seria simplesmente uma falta ou uma carência psicológica.

O desejo seria uma força produtiva, capaz de produzir relações, instituições, comportamentos, formas de vida e organizações sociais.

Daí surge uma das ideias centrais da obra:

o desejo não é simplesmente algo que o indivíduo possui; ele participa da própria produção da realidade.

Guattari e Deleuze também desenvolveram uma crítica ao capitalismo. Segundo os autores, o capitalismo possui uma capacidade extraordinária de incorporar, reorganizar e direcionar os fluxos de desejo.

A análise da sociedade deveria, portanto, considerar simultaneamente economia, política, desejo e subjetividade.

Mil Platôs

Em 1980 foi publicado Mil Platôs, segundo volume do projeto Capitalismo e Esquizofrenia.

A obra abandonou ainda mais explicitamente os modelos tradicionais de pensamento hierárquico.

Entre os conceitos desenvolvidos ou aprofundados por Deleuze e Guattari encontram-se:

  • rizoma;
  • devir;
  • agenciamento;
  • desterritorialização;
  • reterritorialização;
  • máquinas desejantes;
  • corpo sem órgãos;
  • multiplicidade;
  • linhas de fuga.

O conceito de rizoma tornou-se particularmente conhecido.

Em oposição a uma estrutura hierárquica, centralizada e linear — semelhante à imagem de uma árvore com raiz, tronco e ramificações — o rizoma representa uma estrutura descentralizada, múltipla e conectiva, na qual diferentes pontos podem estabelecer relações entre si.

O conceito passou a influenciar áreas tão diversas quanto filosofia, sociologia, geografia, arquitetura, antropologia, teoria política, literatura e estudos culturais.

Guattari e a crítica ao sujeito individual

Uma das características fundamentais do pensamento de Guattari é a crítica à ideia de que o sujeito seria uma entidade isolada e autônoma.

Para ele, a subjetividade é produzida por múltiplos componentes:

sociais + políticos + econômicos + tecnológicos + familiares + culturais + psicológicos.

Assim, aquilo que chamamos de “eu” seria resultado de múltiplos processos de subjetivação.

Essa concepção permitiu a Guattari desenvolver uma teoria na qual a subjetividade não é simplesmente descoberta, mas produzida.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Quem sou eu?”

e passa a ser:

“Quais forças, relações e instituições estão produzindo aquilo que considero ser eu?”

As três ecologias

Uma das contribuições mais importantes da fase final de sua produção intelectual foi o desenvolvimento do conceito de ecosofia.

Em As Três Ecologias, publicado originalmente em 1989, Guattari sustenta que a crise contemporânea não pode ser reduzida à degradação ambiental.

Existiriam três dimensões ecológicas inseparáveis:

1. Ecologia ambiental

Relacionada à natureza, ao meio ambiente e à crise ecológica.

2. Ecologia social

Relacionada às relações entre os seres humanos, às instituições, à organização econômica e às formas de convivência social.

3. Ecologia mental

Relacionada à subjetividade, aos desejos, às formas de percepção e às condições psicológicas e culturais de existência.

Para Guattari, essas três dimensões deveriam ser pensadas conjuntamente.

A destruição ambiental, a fragmentação social e a deterioração da subjetividade seriam manifestações de uma crise mais ampla.

Sua proposta de ecosofia procurava construir novas formas de relação entre indivíduo, sociedade e natureza.

Caosmose e a produção da subjetividade

Outra obra importante de Guattari foi Caosmose: um novo paradigma estético, publicada em 1992.

Nesse trabalho, Guattari aprofunda sua investigação sobre a subjetividade e sobre os processos de criação.

Ele passa a atribuir grande importância à arte, à estética e à criatividade como instrumentos capazes de produzir novas formas de existência.

A criação artística não seria apenas uma atividade estética, mas poderia constituir uma forma de resistência à padronização da subjetividade produzida pelas instituições e pelo capitalismo.

A crítica ao capitalismo

Guattari desenvolveu uma concepção particularmente ampla do capitalismo.

Para ele, o capitalismo não controla somente o trabalho ou os meios de produção.

Ele também participa da produção de:

  • desejos;
  • necessidades;
  • identidades;
  • comportamentos;
  • padrões de consumo;
  • imagens;
  • valores;
  • formas de comunicação;
  • modos de relacionamento.

A mídia e, posteriormente, as tecnologias de comunicação teriam papel importante nesse processo.

Por isso, combater formas de dominação exigiria mais do que uma transformação econômica: seria necessário criar novas formas de subjetividade e novas maneiras de viver.

Últimos anos

Durante os anos 1980 e início dos anos 1990, Guattari continuou desenvolvendo sua produção filosófica, política e clínica.

Manteve relações com movimentos sociais, artistas, intelectuais e grupos políticos de diferentes países.

Também se interessou por questões relacionadas à comunicação, tecnologia, informática, arte, ecologia e novas formas de organização política.

Sua obra tornou-se progressivamente internacional, influenciando intelectuais da Europa, América Latina, Estados Unidos e outras regiões.

Morte

Félix Guattari morreu em 29 de agosto de 1992, aos 62 anos, em La Borde, na França, vítima de um ataque cardíaco.

Sua morte ocorreu pouco depois da publicação de Caosmose, uma das obras que sintetizam sua preocupação com a subjetividade, a criação e a transformação social.

Legado intelectual

O legado de Guattari é particularmente amplo porque sua obra não pertence exclusivamente a uma disciplina.

Ele é estudado simultaneamente em:

Sua contribuição mais profunda talvez esteja na tentativa de superar determinadas separações tradicionais entre indivíduo e sociedade, psíquico e político, natureza e cultura, clínica e política.

Guattari concebeu a subjetividade como um processo coletivo e histórico, permanentemente atravessado por instituições, relações sociais, tecnologias, economia, linguagem e desejo.

Sua obra permanece particularmente relevante para compreender fenômenos contemporâneos relacionados à produção de subjetividade, comunicação de massa, capitalismo, redes sociais, crise ambiental, movimentos sociais e novas formas de poder.

Principais obras

Entre seus principais trabalhos encontram-se:

Síntese do pensamento de Guattari

A filosofia de Guattari pode ser compreendida, em linhas gerais, como uma tentativa de responder a uma questão fundamental:

Como criar novas formas de existência em uma sociedade que produz continuamente determinadas formas de pensar, desejar e viver?

Sua resposta passa pela transformação simultânea da subjetividade, das relações sociais e do ambiente.

Por isso, seu pensamento permanece associado a três grandes eixos:

Desejo → Subjetividade → Transformação social.

Guattari não concebia o indivíduo como uma unidade isolada diante da sociedade. O sujeito seria produzido dentro de uma complexa rede de relações, forças, instituições e acontecimentos.

É nesse ponto que sua filosofia adquire caráter eminentemente político: transformar a sociedade significa também transformar os modos pelos quais os indivíduos produzem seus desejos, suas relações e suas próprias formas de existênci

Pesquisa e Texto Ivair Ximenes Lopes

Fontes

WIKIPÉDIA (espanhol). Félix Guattari.
PSICOLOGIA E MENTE. Félix Guattari: biografía de este filósofo y psicoanalista. 2019.
ERRATA NATURAE. Félix Guattari.

You might also like:

MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

Deixe uma resposta

A Maçonaria Regular

3
4
1
2

 

A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas uma Federação e duas Confederações representam potências reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

Maçonaria Regular MS

glems
goms
gob ms
glems

 

A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

MS Maçom

Nossas TAGs

Assine a Newsletter

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Junte-se a 9.562 outros assinantes

Desclpa! Você não pode copiar conteúdo desta página.

Descubra mais sobre MS MAÇOM

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo