A Fascinante Jornada dos Construtores: Das Corporações Romanas à época da Maçonaria
(I) Ximenes
Ao longo da minha pesquisa sobre a história da organização do trabalho, sempre me fascinou a notável continuidade de certas estruturas associativas através dos séculos. Percebi que o que hoje conhecemos como a fraternidade maçônica não surgiu em um vácuo histórico.
Pelo contrário, pude identificar uma fascinante jornada, que me permitiu compreender como as antigas corporações de ofício do Império Romano plantaram a semente de uma tradição que floresceria mais de mil anos depois, dando origem aos “maçons livres” — os antecessores diretos da moderna Maçonaria especulativa.
A ligação entre os collegia romanos e a maçonaria operativa medieval é reconhecida por muitos historiadores como uma corrente de influência que ajudou a moldar a história da construção e do pensamento ocidental. É sobre essa conexão fascinante que organizo este estudo.
1. A semente romana: os collegia fabrorum
Em minha investigação, descobri que os collegia romanos, especialmente os collegia fabrorum (colégios de construtores), estão entre as primeiras organizações conhecidas a sistematizar o ensino das artes construtivas. A tradição, preservada por autores como Plutarco e Plínio, atribui sua fundação ao lendário segundo rei de Roma, Numa Pompílio (que teria reinado de 715 a.C. a 673 a.C.), sendo frequentemente citados como a primeira organização de construtores da Roma Antiga. Essas associações, conhecidas como collegia opificum, incluíam guildas de várias profissões, como tecelões, tintureiros, sapateiros, médicos, professores e pintores, demonstrando a ampla organização do trabalho na época.
De acordo com o historiador britânico Russell Meiggs, um collegium era uma organização na qual membros que compartilhavam um interesse comum se uniam para benefício mútuo. As collegia possuíam uma estrutura hierárquica definida, com presidentes, tesoureiros e secretários, e eram responsáveis pela construção de edifícios oficiais, acompanhando as legiões romanas para erguer acampamentos, pontes e engenhos de guerra. Esta estrutura influenciou a forma como o conhecimento foi preservado e transmitido através das gerações seguintes.
2. A ponte na escuridão: os Mestres Comacinos
Com a queda do Império Romano e as invasões bárbaras no século V, muitos dos collegia foram perseguidos. A tradição, resgatada por estudiosos maçônicos, sugere que membros do disperso Colégio Romano de Arquitetos fugiram para a região do Lago Como, na Lombardia. Foi assim que surgiram os Mestres Comacinos (Magistri Comacini), considerados por muitos como os melhores construtores da Europa Ocidental durante a Alta Idade Média. O termo “Magistri Comacini” aparece pela primeira vez por volta de 643 d.C., no Édito do Rei Lombardo Rotari, onde eram reconhecidos como mestres construtores com amplos poderes para celebrar contratos.
Estes mestres, compostos por pedreiros, canteiros, estucadores e artistas, não eram meros trabalhadores, mas uma guilda de empresas construtoras com especialistas em diversas áreas, atuando ativamente a partir do século VII em toda a Lombardia. O historiador Paul Naudon, em sua renomada obra “The Secret History of Freemasonry”, demonstra que a evolução de organizações como os Mestres Comacinos serviu como o veículo para a transmissão de uma tradição sagrada, que remonta aos collegia romanos, até a era moderna, atuando como a “ponte” que conectou a cultura clássica à medieval.
3. A era das guildas: a maçonaria operativa
A partir dos Mestres Comacinos e de outras associações monásticas e leigas, desenvolveram-se na Idade Média as guildas de construtores, também conhecidas como Maçonaria Operativa. Estas organizações eram formadas por verdadeiros pedreiros que tinham como ofício a construção de castelos, muralhas e catedrais. Diferente de outras profissões, o ofício do pedreiro frequentemente exigia que eles se deslocassem de um local para outro, acompanhando as grandes obras, e foi essa necessidade que os levou a criar formas de organização mais flexíveis e reconhecidas, como a “Mason’s Guild” (Guilda dos Pedreiros).
A guilda controlava o treinamento por meio de aprendizes, as condições de trabalho e os salários. Os pedreiros se reuniam em “Lodges” (lojas), que serviam como locais de trabalho e centros de organização, onde os mestres supervisionavam as obras e novos membros eram examinados e admitidos. O próprio termo “Free Masons” (Maçons Livres) pode ter origem no tipo de pedra (“freestone”) que esses artesãos habilidosos esculpiam, ou na sua liberdade de locomoção, isentos das restrições das guildas locais.
4. A transição para a era especulativa
Com o declínio da construção das grandes catedrais na Europa, muitas das guildas operativas começaram a perder sua razão de ser. Para sobreviver, algumas lojas começaram a aceitar membros honorários que não eram construtores profissionais, mas sim nobres, intelectuais e clérigos atraídos pelos aspectos filosóficos e morais da instituição. Este período de transição, que se estende do final da Idade Média até o século XVIII, é crucial para entender a Maçonaria moderna.
O historiador David Stevenson, da Universidade de St. Andrews, ressalta que, embora a maioria dos artesãos levasse uma vida sedentária, o pedreiro frequentemente levava uma vida de movimento e imprevisibilidade, o que exigia formas de organização singulares. Foi a partir da necessidade de regulamentar essas guildas de trabalhadores nômades que as estruturas de lodge se consolidaram. Acredita-se que a primeira Grande Loja, que marca o início da Maçonaria Especulativa moderna, foi fundada em Londres em 1717, organizando o que antes eram apenas lojas operativas.
5. A continuidade estrutural e simbólica
Ao comparar os collegia romanos com as lojas maçônicas, notei impressionantes semelhanças que sustentam a tese da continuidade histórica. Joseph Fort Newton, em seu trabalho “Freemasonry and the Collegia”, argumenta que a Maçonaria pode ter evoluído dessas antigas corporações romanas, examinando profundamente as similaridades e diferenças entre elas. Entre essas semelhanças, destaco:
Estrutura hierárquica: Tanto os collegia quanto a Maçonaria possuem uma estrutura de graus ou níveis de aprendizado, mestre e oficial.
Reuniões em locais específicos: Os collegia tinham seus próprios locais de reunião, assim como as lojas maçônicas se reúnem em lojas ou oficinas (o termo “Lodge” tem origem na cabana de obras dos pedreiros medievais).
Personalidade jurídica: Os collegia eram tratados pela lei romana como entidades legais (com capacidade de possuir bens e serem responsabilizados), uma precursora da incorporação legal das lojas e Grandes Lojas.
Rituais e iniciação: Tanto os collegia quanto as guildas medievais desenvolviam rituais de iniciação e transmissão de ensinamentos, uma característica central da tradição maçônica.
Sigilo profissional: As guildas mantinham seus ensinamentos sob segredo, protegendo os conhecimentos da arte, uma prática ecoada nos “segredos” da Maçonaria.
6. Conclusão: A importância deste legado
Compreender esta cadeia histórica — dos collegia romanos aos Mestres Comacinos, destes às guildas medievais e finalmente à Maçonaria Especulativa — é fundamental para apreciar a profundidade e a continuidade da tradição associativa e construtiva ocidental.
Embora alguns historiadores apontem a falta de evidências documentais diretas e contínuas, o que não se pode negar é a notável similitude de objetivos, estruturas e uma identificação cultural entre estas instituições que se estendem por mais de dois milênios. Para mim, esta pesquisa iluminou como as estruturas associativas de ofício foram fundamentais para a preservação e transmissão do conhecimento humano através dos séculos, dos construtores da Roma Antiga aos construtores do pensamento moderno.
Ivair Ximenes Lopes
Fontes
Corporações Romanas (Collegia): hent Database of Roman Guilds: Collegia fabrorum.
Roman Ports: The collegium, the Roman guild.
Paul Naudon: The Secret History of Freemasonry (sinopse).
Maçonaria Operativa e Guildas: Britannica: Origins of Freemasonry.
Cambridge University Press: The Medieval contribution (David Stevenson).
History Learning Site: Medieval Masons.
Encyclopedia The Free Dictionary: History of Freemasonry.
Britannica: Origins of Freemasonry.
Joseph Fort Newton: Freemasonry and the Collegia.
Groups.io: Mithras and Masonic similarities.

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