Home / Livre / Pesquisa / Cavaleiro de Bonneville, o Capítulo de Clermont e o Berço dos Altos Graus: Biografia, Legado e Curiosidades

Cavaleiro de Bonneville, o Capítulo de Clermont e o Berço dos Altos Graus: Biografia, Legado e Curiosidades

Cavaleiro de Bonneville

Cavaleiro de Bonneville, o Capítulo de Clermont e o Berço dos Altos Graus: Biografia, Legado e Curiosidades

1. Introdução

Na longa e complexa história da Maçonaria do século XVIII, poucos personagens são tão enigmáticos, influentes e, ao mesmo tempo, pouco conhecidos quanto o Cavaleiro de Bonneville. Sua figura, envolta em controvérsias e confusões historiográficas, foi responsável por um dos eventos mais importantes para o desenvolvimento dos altos graus e da Maçonaria continental: a criação do Capítulo de Clermont, em Paris, no ano de 1754.

Este artigo, fundamentado em fontes históricas e na análise de doutrinadores maçônicos como Albert Mackey e Pierre Chevallier, examina a biografia do Cavaleiro de Bonneville, sua decisiva atuação na estruturação dos ritos superiores, sua ligação com Louis de Bourbon-Condé, Conde de Clermont (o então Grão-Mestre da Grande Loja da França), e as curiosidades que envolvem uma das mais fascinantes — e confusas — figuras da história maçônica.

2. Quem foi o Cavaleiro de Bonneville? O Enigma de uma Identidade

2.1. A Confusão Historiográfica: Vários “Bonneville”

O primeiro obstáculo para qualquer pesquisador que se debruce sobre o Cavaleiro de Bonneville é a crise de identidade documental. O historiador maçônico Eugen Lennhoff, em seu Internationales Freimaurer-Lexikon (1932), já alertava para a necessidade de distinguir o fundador do Capítulo de Clermont do escritor e livreiro Nicolas de Bonneville (1760-1828).

Este Nicolas de Bonneville foi, de fato, um proeminente escritor e ativista revolucionário, amigo de Thomas Paine e autor da obra Les Jésuites chassés de la maçonnerie et leur poignard brisé par les maçons (1788), na qual acusava os jesuítas de terem infiltrado a Maçonaria com elementos templários. Porém, ele foi iniciado na Maçonaria apenas em 1786, muito depois dos eventos que nos interessam. Portanto, não se trata da mesma pessoa.

O Cavaleiro de Bonneville que nos ocupa — o fundador do Capítulo de Clermont — parece corresponder à figura de um militar jacobita e nobre escocês exilado, cujo nome completo e trajetória pessoal, infelizmente, foram em grande parte obscurecidos pela poeira dos arquivos e pelas confusões com seu homônimo literato.

2.2. Um Jacobita Ardoroso e o Contexto do Exílio Stuart

O que se pode afirmar com segurança é que o Cavaleiro de Bonneville era um ardente partidário da causa Stuart, ou seja, um jacobita. Essa informação, registrada por autores como Pierre Chevallier, é corroborada por múltiplas fontes. Após o fracasso da Revolta Jacobita de 1745, liderada pelo Bonnie Prince Charlie (Charles Edward Stuart), muitos de seus partidários se refugiaram na França, especialmente em Paris. Esses exilados, em sua maioria nobres escoceses e ingleses, mantinham viva a esperança de restaurar a dinastia Stuart ao trono britânico.

Foi neste ambiente de exílio, conspiração e nostalgia que a Maçonaria se tornou uma ferramenta crucial de coesão e articulação política. E é neste contexto que surge a figura do Cavaleiro de Bonneville.

3. O Capítulo de Clermont: A Fundação (1754)

3.1. A Fundação em 24 de Novembro de 1754

O ato central da vida maçônica do Cavaleiro de Bonneville ocorreu na 24 de novembro de 1754. Nessa data, ele estabeleceu em Paris um Capítulo dos Altos Graus, ao qual deu o nome de Capítulo de Clermont. O nome foi escolhido em homenagem ao Grão-Mestre então em exercício da Grande Loja da França, Louis de Bourbon-Condé, Conde de Clermont, e também derivou do local onde o Capítulo se instalava: o Colégio dos Jesuítas de Clermont (Collège de Clermont) em Paris.

A localização física no Colégio dos Jesuítas é emblemática. O edifício, que mais tarde seria conhecido como Liceu Louis-le-Grand, havia sido a residência de Jaime II da Inglaterra após sua fuga para a França em 1688. Para os jacobitas, tratava-se de um local carregado de simbolismo político.

3.2. O Sistema: Os Primeiros Altos Graus

Este Capítulo tinha como objetivo principal trabalhar e difundir os altos graus que começavam a surgir na Maçonaria continental, influenciados principalmente pelo famoso Discurso de Andrew Michael Ramsay (1736), que conectava a Ordem aos Cavaleiros Templários e às Cruzadas.

O sistema praticado no Capítulo de Clermont, inicialmente composto por sete graus, foi posteriormente expandido e ficou conhecido como Rito de Perfeição (ou Rite of Perfection). Este sistema incluía os três graus simbólicos tradicionais (Aprendiz, Companheiro e Mestre) mais uma série de graus superiores, que, segundo registros posteriores, chegaram a 25 graus.

A estrutura original compunha-se dos seguintes graus, conforme documentado por Albert Mackey:

  1. Aprendiz (Apprentice)

  2. Companheiro (Fellow Craft)

  3. Mestre (Master)

  4. Cavaleiro da Águia (Knight of the Eagle) — também mencionado como Mestre Secreto

  5. Cavaleiro Ilustre ou Templário (Illustrious Knight or Templar)

  6. Sublime Cavaleiro Ilustre (Sublime Illustrious Knight)

Posteriormente, este sistema se expandiu para os 25 graus que mais tarde seriam herdados pelo Rito Escocês Antigo e Aceito.

4. A Conexão com o Conde de Clermont

4.1. Uma Homenagem Política e Administrativa

A escolha do nome “Clermont” não foi meramente geográfica. O Conde de Clermont (1709-1771), Grão-Mestre da Grande Loja da França desde 1743, era um príncipe de sangue (neto de Luís XIV), e sua liderança nominal sobre a Maçonaria francesa buscava conferir prestígio e proteção real à Ordem. Embora o Conde de Clermont fosse notoriamente desinteressado pela administração da Maçonaria — preferindo seus prazeres mundanos, como a famosa dançarina Marie-Anne de Camargo — seu nome ainda tinha peso e influência.

Ao batizar seu Capítulo em homenagem ao Conde de Clermont, Bonneville estava claramente buscando legitimidade e tentando se colocar sob os auspícios da mais alta autoridade maçônica da França, mesmo que esta autoridade fosse, na prática, pouco efetiva. O Conde de Clermont permitiu-lhe usar seu nome, mas não há evidências de que tenha participado ativamente dos rituais ou da administração do Capítulo.

4.2. A Maçonaria Stuartista e o “Sistema de Ramsay”

O Capítulo de Clermont não foi apenas um centro de estudos dos altos graus. Ele se tornou um polo de irradiação do jacobitismo maçônico. Ali se desenvolvia o chamado “Sistema de Ramsay”, uma fusão da teologia templária com a política Stuart. A ideologia que fundamentava o Capítulo era a de que a verdadeira Maçonaria descendia dos Templários e que, portanto, restaurar a Maçonaria em sua “pureza” original era, de certa forma, restaurar as tradições cavaleirescas e, por extensão, a causa dos reis exilados.

5. O Legado e a Difusão para a Alemanha

O Capítulo de Clermont teve uma existência relativamente curta, mas seu impacto foi imenso e de longo alcance. Ele foi um elo crucial na cadeia de transmissão dos altos graus para o restante da Europa.

5.1. O Barão von Hund e a Estrita Observância

O episódio mais famoso de sua influência é a iniciação do alemão Barão Karl Gotthelf von Hund (1722-1776) nos altos graus do Capítulo. Von Hund, um nobre saxão entusiasta da Maçonaria, recebeu os graus superiores em Paris. Inspirado por esta experiência, ele retornou à Alemanha e fundou em 1756 o famoso Rito da Estrita Observância Templária (Rite of Strict Observance).

Este rito, que afirmava descendência direta dos Cavaleiros Templários medievais, dominou a Maçonaria de língua alemã durante décadas. A semente deste movimento foi plantada no Capítulo de Clermont.

5.2. O Conselho dos Imperadores e o Rito Escocês

Após seu breve período de atividade, o Capítulo de Clermont foi sucedido por outras estruturas. Em 1758, apenas quatro anos após sua fundação, o sistema deu lugar ao “Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente”, que absorveu seus rituais e graus.

Este Conselho, por sua vez, foi fundamental para a formatação do Rito de Heredom e, posteriormente, do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA). O REAA, com seus 33 graus, é hoje um dos sistemas maçônicos mais difundidos no mundo, e suas raízes documentadas remontam diretamente ao pequeno Capítulo fundado por Bonneville em 1754.

6. Curiosidades e Pontos Controversos

6.1. Fundador ou Propagador?

Apesar do consenso de que Bonneville foi o fundador do Capítulo de Clermont, não faltaram dissidências. O historiador maçônico Rebold, em sua obra Histoire des Trois Grandes Loges, afirmou que Bonneville não foi o fundador, mas apenas o propagador dos graus, sugerindo que o sistema já existia antes e ele apenas o difundiu.

6.2. A Conexão Jesuíta e o “Sistema Rosa”

O fato de o Capítulo ter se instalado no Colégio dos Jesuítas gerou inúmeras especulações sobre uma suposta infiltração jesuíta na Maçonaria. O escritor Nicolas de Bonneville (o literato, não o Cavaleiro) explorou essa tese em seus panfletos, sugerindo que os jesuítas manipulavam os altos graus para fins políticos. Posteriormente, na Alemanha, o sistema do Capítulo de Clermont se fundiu a outros ritos, dando origem ao chamado “Sistema Clermont-Rosa”, em referência ao legado enviado pelo Consistorial Court Philipp Samuel Rosa para estabelecer capítulos na Prússia, que enfatizavam temas apocalípticos e místicos.

6.3. A Difusão nas Colônias e o Legado Americano

Poucos sabem que as patentes concedidas pelo Conselho dos Imperadores (sucessor do Capítulo de Clermont) permitiram que o mercador Étienne Morin levasse os altos graus para o Caribe. De lá, o sistema chegou à Carolina do Sul, onde em 1801 foi fundado o Supremo Conselho Mãe do Mundo em Charleston, estabelecendo o REAA de 33 graus que conhecemos hoje. Assim, a sombra do Cavaleiro de Bonneville se projeta até os dias de hoje sobre milhares de maçons ao redor do globo.

6.4. A Curta Duração e o Manto do Silêncio

Apesar de sua imensa influência estrutural, o Capítulo de Clermont foi efêmero como instituição ativa, existindo por volta de apenas quatro anos (1754-1758). Apesar disso, conforme registra a Encyclopedia Masonica, o Capítulo adquiriu “grande poder e alta reputação”. As confusões sobre o nome e a linhagem do Cavaleiro de Bonneville, somadas à curta duração do Capítulo, fizeram com que este importante capítulo da história maçônica ficasse relegado a segundo plano, ofuscado pelas estruturas monumentais que dele se seguiram.

6.5. Confusão com o Duque de Montmorency

Há ainda uma confusão adicional na historiografia: alguns autores menos atentos, ou traduções imprecisas, associam erroneamente o Capítulo de Clermont ao Duque de Montmorency-Luxembourg, que foi o verdadeiro administrador da Grande Loja da França na década de 1770. Como vimos, o Capítulo foi fundado em 1754, duas décadas antes de Montmorency assumir o controle efetivo da Obediência, o que demonstra que estas são realidades históricas distintas.

7. Considerações Finais

O Cavaleiro de Bonneville é uma figura paradigmática do século XVIII maçônico: envolta em lendas, confusões de identidade, fervor político e inovação ritualística. Embora seu rosto e sua história pessoal estejam perdidos nas brumas do tempo, seu legado estrutural é palpável até hoje. Ao fundar o Capítulo de Clermont em 24 de novembro de 1754, sob a proteção nominal do Conde de Clermont, ele forneceu a chave de abóbada para o desenvolvimento dos altos graus que moldariam a Maçonatura continental.

O seu ato foi simultaneamente um refúgio para os exilados jacobitas, um laboratório para os místicos templários e uma oficina para os políticos que sonhavam com uma nova ordem mundial. Ele foi, nas palavras de Pierre Chevallier, um personagem que, apesar do “vasto silêncio” que cerca sua origem, teve um papel central na transmissão dos altos graus para a Alemanha, inspirando o Barão von Hund e a Estrita Observância. O Rito de Perfeição que ele ajudou a consolidar foi o avô direto do Rito Escocês de 33 graus.

Mais do que um nome em um verbete de enciclopédia, o Cavaleiro de Bonneville representa o espírito aventureiro e sincrético da Maçonaria do Iluminismo: uma fraternidade que, mesmo na clandestinidade do exílio e na breve duração de um Capítulo, soube lançar sementes que atravessariam continentes e séculos, florescendo na complexa tapeçaria ritualística que a Maçonaria mundial conhece hoje.

Pesquisa e redação: Ivair Ximenes Lopes

Fontes

  • CHASSAGNARD, Guy. “Le comte de Clermont, grand maître”. In: Miscellanées MaçonniquesGADLU.INFO, 3 nov. 2019.

  • CHEVALLIER, Pierre. *Histoire de la Franc-maçonnerie française. La Maçonnerie: École de l’égalité, 1725–1799*. Paris: Fayard, 1974. (Citado em GLFRITE, 2025). 

  • FILARDO, José (trad.). “As origens da ‘Maçonaria Revolucionária'” (tradução do artigo de Alexandros Tsatsarounos). Bibliot3ca, 2023. ]

  • GREER, John Michael. The Element Encyclopedia of Secret Societies: the ultimate a-z of ancient mysteries, lost civilizations and forgotten wisdom. (Citado em Occult World, 2025). 

  • LENNHOFF, Eugen; POSNER, Oskar. Internationales Freimaurer-Lexikon. 1932. (Citado em Freimaurer-Wiki, 2015). [24†L13-L22]

  • MACKEY, Albert G. Encyclopedia of Freemasonry. 1871/1874. (Citado em Universal Freemasonry, 2025, e Freimaurer-Wiki, 2015). 

  • REBOLD, Emmanuel. Histoire des Trois Grandes Loges. (Citado em Encyclopedia Masonica, 2025). 

  • “Autres Jacobites et partisans Stuart”. GLFRITE — Grande Loge Française du Rite Écossais Primitif, 2025. 

  • “Chapter of Clermont”. FactGrid — Database for Historical Research, 2024. 

  • “Clermont, Chapter Of”. In: Encyclopedia Masonica. Universal Freemasonry, 2025. 

  • “Histoire pittoresque de la Franc-Maçonnerie et des Sociétés Secrètes”. Arbre d’Or, 1843. 

  • “History of the Scottish Rite”. Guthrie Scottish Rite, 2025.]

  • “Kapitel von Clermont”. Freimaurer-Wiki, 2015. 

  • “Nicolas de Bonneville”. In: Wikipédia (francês), 2025. 

  • “PERFECTION, RITE OF”. Encyclopedia of Freemasonry (via Wayback Machine), 2012. 

  • “Ramsay’s Oration of 1737”. Freemasonry Research Forum (QSA), 2012. 

  • “Rich Historical Context — Scottish Rite”. Scottish Rite — Valley of St. Joseph, 2025. 

  • “RITE OF PERFECTION”. Occult World, 2025. 

  • “The Clermont Rite”. Yumpu / Davi, s.d. 

You might also like:

Marcado:

MM Ximenes

"Labor omnia vincit", um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos. MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York). O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau. Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter. No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.

Deixe uma resposta

A Maçonaria Regular

3
4
1
2

 

A Maçonaria Regular é uma fraternidade histórica, fundada entre os séculos XVII e XVIII, baseada em moralidade, filantropia e busca do conhecimento.

 No Brasil, no simbolismo, apenas três "potências" são reconhecidas internacionalmente: Grande Oriente do Brasil (GOB), as Grandes Lojas Estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes Estaduais (COMAB); todas as demais não têm reconhecimento oficial. O reconhecimento entre potências é um ato diplomático e soberano.

 A Confederação Maçônica Interamericana (CMI), criada em 1947, reúne 94 grandes potências de 26 países.

 Uma Loja regular deve estar vinculada a uma das três potências reconhecidas no Brasil e seguir normas específicas de regularidade.

Maçonaria Regular MS

glems
goms
gob ms
glems

 

A maçonaria regular no Mato Grosso do Sul é composta pelo Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul (GOB-MS) (GOB), Grande Loja Maçônica do Estado do Mato Grosso do Sul (GLEMS) (CMSB) e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso do Sul (GOMS) (COMAB).

MS Maçom


Nossas TAGs

Assine a Newsletter

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Junte-se a 9.585 outros assinantes

Desclpa! Você não pode copiar conteúdo desta página.

Descubra mais sobre MS MAÇOM

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo