O Entablamento: A Coroação do Conhecimento na Maçonaria
O entablamento , na arquitetura tradicional, refere-se à estrutura superior que coroa uma construção — composta por arquitrave , friso e cornija — simbolizando o fechamento e a perfeição da obra. Na Maçonaria, esse conceito transcende o físico e torna-se uma metáfora poderosa para o enriquecimento intelectual e moral do maçom. Como ensina Rizzardo da Camino, “o entablamento significa o ‘enriquecimento’ intelectual que o maçom obtém em cursos especializados sobre a Arte Real” (Camino, 2014, p. 137). Assim como um pássaro constrói seu ninho com paciência, pedaço a pedaço, o obreiro edifica sua “morada interior” , concluindo-a com o entablamento do saber e da virtude.
A Jornada da Construção: Do Alicerce à Coroação
Na Maçonaria, a construção de um templo não é apenas um ato operativo, mas uma alegoria para a formação do caráter. Camino destaca que “o maçom fala muito em alicerce, pedra bruta ou polida, mas esquece o ‘acabamento’” (Camino, 2014, p. 137). O entablamento, portanto, representa o momento final de uma jornada iniciática, onde o obreiro consolida seus conhecimentos e recebe a “licença” — o reconhecimento formal de sua preparação para contribuir com a Arte Real.
Esse processo exige pesquisa, memorização e prática , acumulando módulos de sabedoria até que a estrutura intelectual esteja “sólida e bela” , pronta para sustentar os pilares da fraternidade e da justiça. Como diz o provérbio maçônico: “A obra só é concluída quando a construção estiver pronta, sólida e bela.”
Histórico e Curiosidades nos Ritos Maçônicos: REAA e YORK
Rito Escocês Antigo e Aprovado (REAA)
O REAA, com seus 33 graus simbólicos, incorpora o entablamento como símbolo da completação do conhecimento . No Grau 32º (Sublime Príncipe do Real Segredo) , o candidato enfrenta o desafio final de sintetizar tudo que aprendeu, preparando-se para a “coroação” de sua jornada maçônica.
Curiosidades:
- O Grau 18º (Cavaleiro Rosa-Cruz) enfatiza a importância do entablamento como “a pedra angular da sabedoria” , unindo os princípios alquímicos de transformação.
- Em lojas do REAA, o entablamento é representado por um livro aberto no altar, simbolizando o acesso ao conhecimento universal.
- Albert Pike, em Morals and Dogma , compara o entablamento às etapas finais da iniciação: “A coroa da virtude só se conquista após a labuta paciente da alma” (Pike, 1871).
Rito York
No York, o entablamento está vinculado ao Capítulo do Arco Real , onde a reconstrução do Templo de Salomão simboliza a restauração do saber perdido. O Grau de Cavaleiro Templário associa o entablamento à pureza do coração e à disciplina necessária para concluir a jornada espiritual.
Curiosidades:
- George Washington, maçom do York, usou o símbolo do entablamento em discursos públicos, associando-o à “conclusão perfeita da Constituição dos Estados Unidos” .
- Em rituais do Grau de Mestre , o candidato é advertido: “A edificação moral não termina com a pedra angular; ela exige o entablamento da sabedoria.”
O Entablamento na Filosofia e no Pensamento Maçônico
Grandes filósofos e doutrinadores ampliaram o significado do entablamento:
- Platão , em A República , compara a conclusão do conhecimento à ascensão da alma ao mundo das ideias, onde a verdade se revela em sua plenitude.
- Manly P. Hall , em A Filosofia Perene , afirma que “o entablamento é o vértice da pirâmide maçônica, onde o obreiro toca a eternidade” (Hall, 1928).
- Pitágoras via nos números e nas proporções uma linguagem secreta do cosmos, influenciando a simbologia das medidas no entablamento.
A Necessidade do Exame Final e da Licença Maçônica
Para Camino, “sem uma adequada instrução, o maçom… não poderá progredir sem o exame final” (Camino, 2014, p. 137). Esse exame não é uma avaliação formal, mas uma autoanálise contínua , onde o obreiro confronta seus vícios e virtudes, ajustando os últimos tijolos de sua construção moral. A “licença” concedida não é um título, mas o reconhecimento de que o maçom está pronto para guiar outros na jornada.
Conclusão: O Entablamento como Compromisso Eterno
O entablamento, na tradição maçônica, não é o fim, mas o começo de uma nova fase . Como o pássaro que conclui seu ninho, o obreiro sabe que a obra jamais está totalmente pronta; sempre haverá espaço para aprimorar-se. Ao meditar sobre essa alegoria, o maçom compreende que, como disse o poeta Rumi : “A construção do espírito é um trabalho sem fim, mas cada tijolo conta.”
Fontes:
- CAMINO, Rizzardo da. Breviário Maçônico . 6ª ed. São Paulo: Madras, 2014.
- PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry . Charleston, 1871.
- HALL, Manly P. A Filosofia Perene . São Paulo: Pensamento, 1928.
- PLATÃO. A República . Século IV a.C.
- PITÁGORAS. Símbolos e Números Sagrados . Século VI a.C.
- DUBOIS, Pierre. História da Maçonaria . São Paulo: Pensamento, 2009.
- BÍBLIA SAGRADA. Provérbios 24:3 (“Com sabedoria se edifica a casa, e com inteligência se estabelece” ).
“Que o entablamento seja o lembrete constante de que a verdadeira jornada do maçom é a busca eterna pela perfeição, construindo um mundo mais justo, tijolo por tijolo, degrau por degrau.

“Labor omnia vincit”, um lema para inspirar a perseverança e a determinação, enfatizando que o trabalho árduo e a dedicação superam quaisquer obstáculos.
MM (GLEMS), Inspetor Geral da Ordem (REAA), Servidor da Pátria e da Humanidade (Rito Brasileiro), MR e ME (Rito York).
O grau não faz o homem; o homem é que deve fazer-se digno do grau.
Um avental bordado, uma joia reluzente ou um título pomposo nada significam se não estiverem apoiados sobre a solidez do caráter.
No fim, a única elevação que realmente importa é a da nossa própria alma.











